Mystery, Dear Mystery
19 Special Mystery – Minhas Memórias Natalinas 1/3
Notas iniciais
Narração por: Nick Trent
— E esse é nosso apê natalino, pessoal! – abri a porta com alegria, assim meus lindos (as garotas, porque os meninos...) cinco amigos, que sorriam (a não ser por Diamont, mas a loira assassina não conta).
O sorriso de todos (inclusive o meu) murchou ao ver o interior do “apê”. Tá, tudo bem, eu não devia ter alugado esse tipo de coisa pela internet, pois era bem diferente do que eu vi na pagina. O chalé era mínimo. A sala tinha apenas um sofá e uma lareira. O resto era um espaço “enorme”. A cozinha tinha só um fogão, uma geladeira e um armário. Os quartos? Dava para ver o interior de cara porque um corredor igualmente mínimo o separava da sala. Era só um quarto com três camas beliche.
— Ok. – suspirou Megan, a versão feminina do Einstein da coisa toda. – Meninas com a do canto. Garotos com a do outro canto. O menino e a menina que sobrar dividem o beliche do meio. – íamos protestar, mas Megan cortou qualquer esperança. – Sem objeções. Agora vamos montar a arvore do Nick!
Ver a certinha Megan tão animada era digno de câmera. Quando nos conhecemos, Lucy e eu pensamos que Megan e Riley eram as duas pessoas mais caretas da face dessa Terra, o que não é de toda a verdade. Eles levam as coisas a sério e tem um ar profissional, mas até que sabem se divertir. Não que façam isso com frequência, claro. Megan é do tipo que passa noites em claro pesquisando e Riley é do tipo que lê jornal aos vinte e um anos, então acho que vocês sabem do que eu estou falando.
Megan colocou a caixa de papelão que carregava no centro da sala e a abriu.
— Nossa, Nick! O que você colocou aqui? Naftalina?
— Tipo isso.
Ela ignorou o cheiro forte de naftalina e começou a montar a árvore. E é aí que você se pergunta: “Árvore?”. Pois é, eu decidi trazer para o chalé a velha (nem tão velha assim, anos de naftalina, sabe...) árvore de Natal dos Trent. Um pinheiro de três metros com enfeites vermelhos, verdes, azuis, dourados, pisca-piscas e enfeites de Papai Noel, sem contar a lindíssima estrela de cristal que colocamos no topo depois de tudo pronto. Eu sei, fica lindo no fim. Séculos de tradição, só para constar. (Eu disse, anos de naftalina! Era tanta naftalina que acho que investimos mais em naftalina do que em comida durante todo esse tempo para conservá-la. Não estou brincando, se quiser ir ao mercado perto da minha casa, veja por si mesmo o estoque ilimitado de naftalina lá. Tudo comprado pelos Trent)
— Ok povo, ‘bora montar! – exclamou Lucy, saltando no chão ao lado de Megan.
— James e eu vamos pegar lenha para acender a lareira. – avisou Diamont com a maior cara de tédio.
— Hey, por que ficamos com o trabalho pesado? – perguntou James, mas recebeu um olhar de Diamont que dizia: “Cale a boca, seu Mané, ou vamos ter que ficar montando essa árvore idiota com esses outros manés”. Tão típico dela.
Os dois foram catar lenha/se livrar da gente enquanto Riley, Megan, Lucy e eu nos aproximávamos da caixa e começávamos a montar a base do pinheiro. Montar a base e posicionar o pinheiro é a parte fácil. Difícil é colocar enfeites, pisca-piscas e subir em uma escada para colocar a lindíssima, incrível, maravilhosa, brilhante, exuberante e perfeita estrela de cristal sem cair em cima do pinheiro que deu tanto trabalho para ser decorado. Mas a estrela é tão lindíssima, incrível, maravilhosa, brilhante, exuberante e perfeita que todo o risco e o trabalho (às vezes o trabalho repetido) valem à pena.
Riley e eu posicionamos o pinheiro sobre a base enquanto as garotas começavam a colocar os enfeites nos galhos. Elas quiseram começar pelas bolas natalinas, e como nesse mundo se você não obedece às mulheres, você é espancado, perde a cara, os cabelos e às vezes até as bolas, tivemos que obedecer. Primeiro penduramos as vermelhas. Depois as azuis, que foram seguidas das amarelas. As verdes foram colocadas por último. Depois elas colocaram umas coisas brilhantes que elas mesmas trouxeram que só faziam com que a árvore parecesse que acabara de sair do Carnaval.
— A árvore parece que saiu do Carnaval. – comentei como não quer nada (o que era uma baita mentira, porque eu estava desesperado para tirar todo aquele brilho dali.)
— Parece nada. – negou Lucy. – Olhe, está até mais bonita! Brilhante, alegre, exala espírito natalino!
— Não exala não. – discordei. – O único espírito que ela está exalando agora é carnavalesco.
— Carnavalesco? Estaria exalando espírito carnavalesco se colocássemos os pirulitos e os mini Papais Noel.
— Qual o problema com meus pirulitos e mini Papais Noel?
— Querem parar de discutir? – pediu Riley, como sempre usando sua calma suprema que faz jus ao apelido de Mr. Calm. – Não importa quanto brilho, enfeites e lantejoulas coloquemos, o Natal nunca terá o espírito verdadeiro que tinha antigamente.
Ficamos em silêncio por mais de cinco minutos sem colocar mais nenhum enfeite na árvore, apenas pensando sobre o que Riley dissera.
— Bela filosofia. – elogiou Lucy. – Mas o brilho fica.
— Carnaval no Natal. – provoquei.
— Que parte de “Querem parar de brigar” vocês não entenderam? – perguntou Riley novamente. – Pelo amor de Deus, essa coisa de brilho, enfeite, guirlandas... São superficiais. Esqueçam essa coisa de espírito proporcionado pela decoração, pelo amor de Deus, e aproveitem o Natal pelo que ele é.
Ficamos em silêncio por mais alguns momentos.
— Mais uma bela filosofia, Riley. – foi a minha vez de elogiar. – Mas os pirulitos e os Papais Noel ficam.
— Vão estragar a minha decoração!
— Ao contrário, esse brilho todo é que vai estragar a minha decoração. E querendo ou não, eles vão sair daí, Lucy. A lindíssima, incrível, maravilhosa, brilhante, exuberante e perfeita estrela de cristal deve brilhar mais que qualquer coisa e ganhar um destaque natalino incrível, trazendo assim ainda mais espírito...
Lucy bufou, cruzando os braços abaixo dos seios.
— Quer saber de uma coisa, Riley tem razão! Decoração não define o espírito do Natal. É besteira ficar se masturbando com isso!
— MASTURBANDO?! – Megan e Riley gritaram/perguntaram em uníssono. É, acho que masturbar não era o que eu pensava que fosse.
— É. Masturbar não é se iludir?
— Não, Lucy. – respondeu Megan, cautelosamente. – Masturbar, é... É o ato de... Eu não sei lhe explicar de uma forma culta, mas o que ocorre com os garotos pela manhã é um tipo de masturbação.
Lucy e eu ficamos de queixo caído.
— Wow. – falei. – Então... Lucy, nunca mais relacione uma coisa dessas ao Natal!
— Não vejo problema. – contrariou Megan. – A masturbação é algo natural!
— Vamos parar de falar disso, por favor? – pediu Lucy, e todos concordamos silenciosamente, ou parando de falar disso, interprete como quiser.
— Min? – chamei após alguns minutos em silêncio.
— Sim?
— Você é a única pessoa que eu conheço que coloca palavras como “ato”, “lhe”, “culta”, “ocorre”, “tipo” e “masturbação” em uma mesma frase sem tropeçar no meio.
Nós rimos.
Lucy e eu não discutimos mais sobre meus enfeites de pirulitos natalinos e Papais Noel, porque ela aceitou que ficassem no fim depois das filosofias de Riley. Ficamos por horas montando aquilo ali. Falamos algumas vezes de Diamont e James, tanto que Lucy até perguntou se eles não foram plantar a árvore. O Sol estava quase se pondo e eles não haviam voltado. Para você ter uma ideia da demora, já tínhamos até terminado de montar a árvore!
— Ok, agora é oficial. – disse Lucy. – Eles não foram plantar a árvore. Eles foram fazer a semente. – Riley, Megan e eu demos risadinhas. – Estou falando sério! Não tem condições de demorar tanto assim para cortar lenha!
— Opa, para aí! – exclamei, percebendo uma oportunidade para encrencar com Lucy. – É impressão minha ou a Lucy está preocupada... Com o James?!
Min e Ry riram enquanto Lucy negava tudo.
— O quê?! Eca, que nojo! Eu?! Me preocupando com aquele galinha do caramba?! Ah, por favor, Nick. Tenho mais com que me preocupar, como por exemplo: quem vai subir para colocar a estrela? – antes que pudéssemos responder qualquer coisa, ela continuou. – Tem que ser alguém habilidoso para não cair em cima da árvore enquanto se inclina para colocar a estrela. Nick, só sua família mesmo para comprar a árvore mais... Gordinha!
— Você quis dizer “Menos anatômica”? – corrigiu Min, mas soou como uma pergunta.
— É, pode ser essa palavra aí também. – Lucy rapidamente cortou “Megan Jean Hills, o dicionário humano”. – Francamente, como alguém consegue colocar uma estrela no topo sem cair sobre tudo?!
— Colocando! Vi pessoas colocando essa estrela no topo desse mesmo pinheiro sem nenhuma dificuldade.
— Sua família é composta de robôs. – zoou. – Mas e então, hora do... Do juízo final!
— Veredicto. – corrigiu Min, erguendo o indicador.
— Veredicto final! Quem vai subir.
— Eu subo! – exclamou Min, se levantando.
— Ahn... Megan... Tem certeza? – tentei perguntar da forma mais educada que pude. Juro que tentei. – É que... Ahn... Essa estrela tem uma história incrível e é muito valiosa...
— Relaxa, Nick. Não vou deixar cair nem nada. – garantiu ela.
Megan ajustou a escada, pegou a lindíssima, incrível, maravilhosa, exuberante, brilhante e perfeita estrela e começou a subir. Subiu até o fim da escada, esticou o braço e se inclinou. Quem olhasse a cena pela janela naquele exato segundo, pensaria que éramos quatro amigos normais e felizes, do tipo que não trabalham para organizações secretas, e que estávamos colocando uma estrela lindíssima, incrível, maravilhosa, exuberante, brilhante e perfeita no topo de um pinheiro de Natal, que de certa forma tinha meio que um espírito carnavalesco. Mas quem olhasse a cena no segundo seguinte, teria opiniões contrárias.
Megan acabou se inclinando demais.
Sabe nos filmes, em que aquelas cenas acontecem em câmera lenta e as pessoas ficam gritando com vozes estranhas – e em câmera lenta? Pois é, era exatamente assim que estávamos, pois tudo acontecia em câmera lenta sobre o meu ponto de vista. Megan caindo para frente sobre a árvore. A estrela lindíssima, incrível, maravilhosa, exuberante, brilhante e perfeita voando das mãos dela. Ela caindo sobre a árvore. Tudo caindo junto. Nós quatro gritando “NÃÃÃÃÃÃÃO” com vozes estranhas – e em câmera lenta.- Sabe naquela parte que o mocinho loiro e lindo salta para tentar impedir que o objeto lindíssimo, incrível, maravilhoso, exuberante, brilhante e perfeito caia no chão e se espatife completamente, destruindo as esperanças de todos? Era assim que eu estava. Mas a estrela lindíssima, incrível, maravilhosa, exuberante, brilhante e perfeita caiu no chão antes que eu pudesse pegá-la. E agora ela é uma ex-estrela lindíssima, incrível, maravilhosa, exuberante, brilhante e perfeita que mais parece um monte de cacos de cristal no chão.
Nós congelamos onde estávamos e ficamos em silêncio. Lucy e Riley sentados no chão. Megan sob os destroços da ex-árvore de Natal. Eu olhando feito um bobo para os cacos da ex-estrela lindíssima, incrível, maravilhosa, exuberante, brilhante e perfeita.
— Megan. Jean. Hills.
Minha respiração estava muito pesada e acelerada. Se eu tivesse sessenta anos, teria um enfarte em poucos minutos.
— Nick... Nick, me desculpe...
— O QUE VOCÊ FEZ?!
Certo, eu acabei gritando no fim. Digam o que quiser. Era a minha estrela lindíssima, incrível, maravilhosa, exuberante, brilhante e perfeita. Eu não estava psicologicamente preparado para vê-la assim. Na verdade, nenhum Trent estava. Nem mesmo os meus filhos, netos, bisnetos, tataranetos, tetranetos, pentanetos e hexanetos – se é que essas palavras existem! – estariam preparados.
— Calma, não tenha um enfarte docoração, dá para concertar... – ela tentava se explicar, falando sobre a árvore sob cujo qual ela estava.
— NÃO ESTOU FALANDO DA ÁRVORE! ESTOU FALANDO DA ESTRELA! A ESTRELA, MEGAN, VOCÊ PODE ENTENDER ISSO?!
Ela olhou da estrela para mim.
— Não foi porque eu quis! Juro que não foi...
— NÃO MEGAN, IMAGINE, NÃO FOI PORQUE VOCÊ QUIS! FOMOS NÓS QUEM JOGAMOS VOCÊ AÍ EM CIMA!
Quando eu vi, estava com tanta raiva que queria quebrar qualquer coisa que eu visse pela minha frente. Aquela estrela tinha valor simbólico! Era uma lembrança na minha família, estava com ela há anos, e eu vi muita gente dar as tripas corações para cuidar dela e conservá-la como se mal estivesse saído da loja! Aquilo não era justo! Por que cargas d’água a desastrada da Megan tinha que inventar de colocá-la?
— Nick... – ela voltou a se defender, mas eu a cortei. Percebi que Riley e Lucy olhavam tudo paralisados de choque, e viravam a cabeça como se estivessem em um jogo de ping-pong.
— CLARO, VOCÊ TINHA QUE SUBIR E ESTRAGAR TUDO! VOCÊ PODE TER MAIS CÉREBRO QUE TODOS AQUI JUNTOS, MAS VOCÊ NÃO É ÁGIL! É UMA COMPLETA DESASTRADA!
Chutei com força os cacos da estrela, que voaram para perto de Megan. Ela se levantou com dificuldade e se aproximou de mim.
— Nick, eu... Eu sinto muito, mesmo!
— Se isso concertasse a estrela... – sussurrei, encarando o chão atrás de mim.
Megan abaixou a cabeça.
— Eu... Eu só queria ver se eu conseguia fazer ao menos isso.
— Mas não conseguiu. – eu havia subido a minha voz em duas oitavas e agora eu já a encarava. – Você destruiu uma relíquia de família, Megan. Eu confiei em você.
Ela encarou novamente o chão.
— Me desculpe.
Fiquei em silêncio e depois disparei em direção à saída.
— Eu tenho que pegar um ar.
Bati com força a porta do chalé e fui direção às árvores ao redor. Onde estávamos? Olympia, Washington, em um chalé que aluguei pela internet, como expliquei. Tudo estava coberto de neve, e seria lindo se não fosse pela estrela. Coloquei aquela estrela no topo daquela mesma árvore que fedia a naftalina durante minha vida inteira. Todo Natal, eu subia nas escadas e colocava sem dificuldade nenhuma a estrela na ponta da árvore. Nunca pensei no quanto um Natal podia mudar a vida de alguém, mas agora eu já sabia o quanto.
A estrela já era.
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