Mystery, Dear Mystery
22 Mystery 7 – O Vermelho No Branco 1/3
Notas iniciais

Narração por: Nick Trent
– Sério, eu não gosto disso. Simplesmente não gosto – falei, cruzando os braços.
– Você está falando do avião ou dos dois lá atrás? – perguntou Riley, com as sobrancelhas erguidas.
Quero fazer uma pergunta que cientista nenhum consegue responder: qual a teoria que explica o motivo pelo qual Riley ama cortar meu barato? Qual é o problema de não gostar de aviões suicidas?! Não vejo nenhum!
Desde que salvamos Lucy, James e Diamont começaram a fazer parte da nossa equipe. A partir de então, muitas coisas aconteceram. Sr Greeleaugh quase teve um treco. Frank nos deu um sermão enorme, e disse que terá que ficar mais no nosso pé. Se bem que ele não tem moral nenhuma para nos dar sermões. Ele devia nos instruir e não fez isso nenhuma vez até agora.
O mural do alto escalão estava estampado com a vencedora d’O Ciclo na DM – Megan, para variar – e uma missão linda em uma ilha no meio do pacífico. Pelo visto, identificaram uma base da máfia lá, e sobrou para nós darmos um jeito, o que simplesmente vai dar errado com Diamont e James perto de nós. E o nosso avião? Oscilava brutalmente de um lado para o outro.
– Nós vamos morrer – arfei.
– Não vamos cair, Nick – Riley revirou os olhos, com a voz carregada de um tédio extremo devido ao meu medo.
Riley e eu estávamos esparramados – eu estava esparramado, Riley estava quieto em seu canto na janela – em três poltronas. Megan e Lucy dividam as três atrás de nós. Diamont e James dividiam as poltronas perto da saída de emergência.
Queria saber como Riley tinha tanta certeza que não cairíamos, porque sinceramente, tinha certeza absoluta que nós íamos cair, e não estou falando do avião. Primeiro porque eu, Nick Trent, o cara mais gato dessa equipe toda, acabei ficando no vácuo porque Megan e Lucy decidiram competir pelo Riley, e agora as duas desejam a morte uma da outra enquanto a Hale nos vigia vinte e quatro horas diárias, pronta para arrancar nossas cabeças.
Já eram quedas suficientes – e eu digo isso no sentido de que, caso mais alguma coisa acontecesse conosco (como cair de um avião), aí é que morreríamos mesmo (na verdade, morreríamos de um jeito ou de outro, mas você entendeu o que eu quis dizer).
Um som de tiro soou. O avião foi atingido. Todos nos refugiamos em nossa poltrona enquanto muitos tiros atingiam o avião. E adivinhem só a maravilha (sintam a ironia) que aconteceu?
Estávamos caindo!
Não sei se os tiros danificaram algum tipo de turbina ou motor, ou foi o fato do piloto ter morrido que causou nossa queda, mas a coisa estava bem feia. Caíamos em sentido diagonal e a velocidade fazia o avião se despedaçar aos poucos. Todas as portas e saídas de emergência foram abertas e Diamont quase caiu (merda, bem que podia ter caído). O que não fazia muita diferença, pois morreríamos de qualquer jeito. Quando nos aproximamos do chão, todos nós comprimimos nossas costas nas poltronas e começamos a gritar, esperando a morte.
Porém não morremos. Pelo visto, aterrissamos (olha que palavra mais inapropriada... Isso soou muito Riley) em uma floresta formada por pinheiros, ou seja: árvores (Não, Nick imagina, as florestas são feitas de cascalho)! Tudo estava coberto de neve, o que era meio que impossível. No outono aqui nos USA, as pessoas já começam a morrer de frio, mas a neve só cai no final da estação. E nós ainda estamos no início. Só havia um lugar para estar nevando daquele jeito...
Não precisamos quebrar portas nem nada para descer do avião. Estávamos próximos do chão, pois o bico do avião deslizava pelo gelo que cobria uma clareira, e as alavancas do avião ainda funcionavam. Eu fui o primeiro a descer.
– Alasca? De novo? Seis vezes nessa merda de lugar?! – surtou Hale, gritando a plenos pulmões.
Todos, menos Lerman, a ignoramos. Alasca. Tipo, Alasca. Status do momento: Estamos bem longe de aonde iríamos, e não temos como avisar ninguém de nossa presença...
– Lucy?! – uma voz chamou e todos nós nos viramos em um ritmo perfeito. A voz pertencia a um garoto que devia ter nossa idade e era bem parecido com Lucy. Cabelos negros, pele pálida. A única diferença era os olhos: azul piscina, e não azul celeste.
– Ted...?
O cara, Ted, deu um sorriso alegre e veio em direção a Lucy. Essa mesma fez uma cara de ódio e assim que Ted ficou próximo o suficiente, o empurrou no chão.
– Ted Winners! O que você faz aqui no meio do Alasca?! O que você faz neste mundo?! Você... Você está morto! – berrou Lucy, mas reparei que a voz dela tinha uma pontada de choro, também.
– Espera... Winners? – perguntou Riley – Mas Ted Winners não morreu naquela missão da bomba atômica? Ah não, espera... Não me diga que vocês dois são...
– Sim, Riley. Esse é meu irmão gêmeo falecido até dez segundos atrás, Ted Winners.
O ambiente caiu em completo silêncio, e até os animais que faziam não sei o quê (coisa de animal) nos ajudaram no efeito final da coisa.
– Lu... – Ted começou, mas não pôde continuar.
– Há dez anos, Ted, eu sofri como nunca achando que você tinha morrido – Lucy cuspiu as palavras.
– Se eu tivesse como, teria voltado – defendeu-se ele, com firmeza. – Se não tivesse vindo para o Alasca, teria morrido. Por favor, Lucy. Acredite em mim. Não estou aqui porque quero...
– Larga de ser chata, Lucinda! – Diamont se intrometeu. – Você está feliz por vê-lo. E tem mais aí.
– Você é doida – disse Lucy.
Ela riu, sarcástica.
– O único doido aqui sou eu. – disse Lerman. – Vamos, Lucy. Podemos transar naquele avião mesmo...
– É uma pena, pois você não terá um pinto para usar nisso. – falou Ted, trincando os dentes.
Gostei desse cara.
– Muito. – disse Riley, do nada, e presumi que ele estivesse falando com Donna. Todos nós prestamos atenção nele. Ele sorriu. – Espero que seja uma pergunta retórica. – logo após dizer isso, estava arregalando os olhos. – Você tá zoando com a minha cara. – pausa. – É a arte de brincar com a cara de alguém. – pausa. – Você salvou nossa vida bilhões de vezes, claro que te ensino. Mas para que você... – pausa. – Odeio esse seu mistério. Hahahaha, muito engraçado, Donna. Não é topii, é top.
Ted olhou confuso para Lucy.
– Ele é doido?
Lucy fechou a cara.
– Ele não é doido...
– Duvido muito que você conseguiria falar com uma garota que morreu há duzentos anos atrás e não enlouquecer. – ele olhou para a esquerda. – Desculpe, não era a minha intenção te chamar de velha. Sério que você está fazendo biquinho, Donna?! – ele fez uma pausa. – É, é zoando que se diz. Só diminua a quantidade de As em “ando”. – Riley olhou para Ted, examinando-o da cabeça aos pés. – Riley Stones. A morta... Desculpe! A morta que... Tá, tá legal, Donna. A garota que você não pode ver se chama Donna Mystery. Tenha respeito. Ela criou a DM.
– Isso está ficando ridículo! – disse Lucy, cruzando os braços. – Já que estamos aqui, podíamos examinar um corpo, mas há corpo?! Não!
– Lucy, Nick – chamou Riley –, Donna está nos chamando para pescar no gelo.
– Pescar no gelo?!
– Não sei você, Lucy – falei –, mas eu iria logo pescar no gelo. Nunca mais vou duvidar da Donna.
– Ela está sorrindo. – disse Riley. – Não vem, Lucy?
Ela olhou para Ted e depois para Riley, e cruzou os braços.
– Qualquer coisa para me afastar dele.
Riley foi em direção às árvores e nós dois o seguimos.
– Donna disse que quando tinha quinze anos, ficou com muita raiva. Tanta ao ponto de matar alguém. Entretanto, o irmão dela, Bradley, disse que pescar é relaxante porque podemos descontar a raiva nos peixes. Ela acha muito divertido. – ele riu ao terminar.
– Então vamos descontar o ódio em peixes? – os olhos de Lucy começaram a brilhar. – Podemos arrancar a cabeça deles?
Riley e eu rimos.
– Donna está rindo também e disse que você podia fazer o que quiser com os peixes, desde que não seja na frente dela. Ela era vegetariana. – explicou ele.
– Mas se ela era vegetariana...
– Ela disse que estava tão irritada que estava soltando fumaça pelas orelhas, e Adam garantiu que era literalmente.
Encontramos um lago de gelo próximo. Um buraco enorme foi aberto bem no meio e avistamos no canto algumas varas de bambu com uma linha e um anzol na ponta. Lucy foi marchando em direção a elas (achei que os saltos da bota de cano alto que ela usava fossem quebrar o gelo, porém isso não aconteceu, o que é um grande alívio. Disseram-me que se ela caísse, a água congelaria de novo e aí: adeus Lucy) e pegou uma. Tacou o anzol como um profissional e dois segundos depois tinha tirado um peixe e o matado usando o salto da bota.
– Calma Lucy. – pedi cautelosamente e com medo de morrer.
– Cala a merda da boca ou você será o próximo. Ah meu Deus, aquilo é o que eu estou pensando?!
Ela olhou para dentro das árvores e entrou. Riley e eu chegamos mais perto do buraco e começamos a pescar também. Como toda pescaria, era silenciosa.
– Donna, pode me ajudar com uma coisa?
– Ela disse que sim.
– E essa coisa envolve o Riley. Pode ajudá-lo também?
– Ela disse que sim, e o que eu tenho a ver com isso?
Ignorei a pergunta dele.
– Parece que desde que Diamont decidiu se juntar a nós, uma praga foi rogada ou algo parecido. Megan e Lucy estão a fim de se matar. Diamont conta os minutos para enfiar uma faca em nossos pescoços. Nada é mais como antes. O que fazemos?
Passados alguns segundos de silêncio, Riley suspirou.
– A resposta não é a mais animadora do mundo. De acordo com ela, devemos confiar no tempo... – a voz de Riley não se perdeu, e sim foi interrompida por uma risada psicopata de Lucy.
– Vejam só isso!
Ela estava com um machado na mão. Do tipo super afiado, velho, enferrujado e sujo de sangue.
Lucy jogou a vara de volta no lago e tirou de lá um peixinho de uns dez centímetros. Tacou-o na neve e começou a matá-lo com o machado. Riley e eu ficamos em silêncio... Observando.
– Está bem, eu estou louco ou ela está esquartejando um peixe de dez centímetros?
Dito aquilo, Lucy terminou de desmembrar o peixe (até os olhos ela arrancou!) e olhou para ele triunfante. Ouvi um bip em meu celular e o costume era tanto que eu esperava uma mensagem de The Killer, mas na verdade era da Megan.
Encontramos um corpo no topo dessa colina de uns cinquenta metros de altura que está à esquerda de vocês. Vocês precisam ver isso. E por que diabos a Lucinda estava esquartejando um peixinho de dez centímetros?! Venham logo.
– Megan encontrou um corpo no pico daquela colina. – apontei para uma colina a nossa esquerda. Podíamos ver quatro figuras indistintas e mais uma deitada.
Subimos a colina e reparei que Lucy segurava a mão de Riley. Megan quando viu isso, fez uma cara linda, só que não.
– Certo, primeiro você quase transa com o Riley em um corredor. Depois esquarteja um peixe de dez centímetros e sobe uma colina de mãos dadas com ele?! – Megan bufou. – Quer saber, por que eu me importo com você?!
– Boa pergunta. – Lucy sorriu com escárnio.
– Morra, Lucinda – mandou.
Finalmente vimos o corpo. Era de uma mulher loira que teve a cabeça cortada fora. A neve estava escarlate. Seria um lindo espetáculo... Se não marcasse a morte de alguém.
– Certo, então. – disse Lucy. – Nick, você descobre quem ela é no banco de dados. Riley, você procura algum indício de um assassino no corpo dela. Ted, aposto que você se lembra como identificar o sangue de alguém.
– Com certeza, mana! – exclamou, pegando o machado que antes estava nas mãos de Lucy.
– Certo. E eu...
Lucy parou de falar por ter tropeçado em uma pedra, ato que lhe fez cair para trás.
– Bem a cara dela, vir de salto para um lugar como esse.
– Min, ouça – disse Riley, com certo desespero na voz. – Acho que Lucy se feriu de verdade. Olhem.
De onde Riley e eu estávamos, tínhamos vista de parte da colina e Lucy não estava lá. Mas quando nos aproximamos mais, a encontramos.
Lucy estava respirando, na beira da colina. Pálida. Ensanguentada. Inconsciente.
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