Mystery, Dear Mystery
5 Mystery 2 – O Mafioso 2/3
Notas iniciais
Narração por: Megan Hills
Com a arma mais que bem segura em minhas mãos, adentrei na escuridão da casa. Andei devagar, sem força, medindo cada passo. Na sorte que eu dou, é bem capaz de eu cair em cima do cara. Percebi que estava com a respiração acelerada, chamando muita atenção sob o silêncio.
Respire, Megan, respire.
Controlei minha respiração e continuei andando da mesma forma. Podia jurar ter ouvido o barulho de alguém se mexendo, mas, ao parar, não havia mais barulho nenhum. E aquele foi meu grande erro. Quando parei, perdi o ritmo e bati meu pé em alguma coisa pontuda. Não sabia o quê, mas sabia que meu dedo a essa altura devia estar sangrando. O engraçado sobre a minha vida é que, se eu errei uma vez, vou errar outras.
Eu decidi recuar e bati o calcanhar em algo que me pareceu ser uma mesinha de centro. Caí por cima dela, quebrando tudo o que havia ali usando as minhas costas. É claro que o mafioso ouviu. Senti uma bala passar raspando pela minha orelha, porém sem fazer barulho nenhum. Pensei em gritar, mas para quê? Para que ele matasse meus amigos também?
Ele usava um silenciador. Eu estou, como diria a Lucy, fodida.
Tateei ao redor procurando a arma, mas quem disse que eu encontrei? Provavelmente caiu enquanto eu acabava de vez com as minhas costas. Saí dali sem realmente levantar, e foi quando eu soube que iria morrer. Primeiro um tiro que me errou por um milímetro, depois alguém usando os joelhos para segurar meus pulsos com força, e foi sob a rala luz do luar eu pude ter um pequeno vislumbre de James Lerman.
Devia ter a mesma idade que eu, a comparar a altura com a de Riley e Nick. Os olhos dele eram azul piscina. E ele segurava uma calibre 50 na direção dos meus olhos. Só que ele errou horrivelmente nessa. Convenhamos que a pessoa tem que ser muito idiota para ficar em cima de uma garota com as pernas abertas, não é? Obviamente, fiz o gesto clichê de autodefesa feminina e James teve que se afastar.
Aproveitei para pegar a minha arma. Logo senti o silvo do ar com os tiros que ele errava por pouco. Foi quando o pente da arma dele se esvaziou que eu vi uma oportunidade única para matá-lo. Achei minha arma e peguei rapidamente, só que eu sou Megan Hills e, quando o assunto é físico, eu tenho tanta habilidade quanto uma minhoca. Prendi um pedaço da minha mão no vão entre o gatilho e a arma. Fechei os olhos esperando que James puxasse o gatilho, mas o tiro veio de trás e as luzes se acenderam.
James sumira. Havia uma garota morta na parede, mas aparentemente o rigor mortis já se instalara ali há muito tempo. Olhei para trás e senti vontade de matar alguém, mais especificamente Riley Stones.
– Qual o seu problema?! – eu quase gritei.
Ele pareceu meio que espantado, mas eu nem dei importância e levantei-me rapidamente, o que foi um péssimo negócio, porque minhas costas doíam MUITO. Tentei parecer não perceber, mesmo que eu tivesse acabado de levantar de um monte de vidro e madeira e estivesse com as costas da minha blusa (branca, só pra constar) de manga longa sujas de sangue e com o dedo do pé escondido pela sapatilha preta latejando, e fui em direção à saída da casa.
– Qual é o seu problema! – o jeito que Riley dissera parecia mais uma exclamação do que uma pergunta. – Desde que voltamos a fazer missões juntos, você só sabe reclamar do que eu faço!
– E é com motivo! Achou o que, Riley? Que eu iria me curvar diante dos seus pés e dizer “Vida Longa”?
– Sabe, você podia ser mais grata. – ele sorriu sarcástico.
– Você podia ser menos egocêntrico! – eu sabia que ele odiava com todas as forças ser chamado de egocêntrico.
– Ah, quer saber?! Eu não estou nem aí pra você! Eu já salvei a sua vida três vezes, Megan, três vezes! E eu nunca ouvi um “obrigada” da sua parte! Da próxima vou deixar você morrer!
E ele tinha razão. Era verdade, eu nunca agradeci. Mas não seria agora que eu iria fraquejar, não importa quão magoada eu esteja.
– Ótimo! – percebi que eu queria chorar, mas não me permiti. – Eu não preciso mesmo de você seu... – um barulho de tiro me interrompeu. Algo entrando com toda a força em minhas costelas.
– MEGAN! – Riley gritou, apavorado, e foi a última coisa que eu vi e ouvi antes de tudo escurecer.
Narração por: Lucy Winners
– Chega. Eu estou cansada. Não há nada aqui. – falei para Nick enquanto andava pela casa, com uma lanterna sem pilhas na mão.
– Nada? O que são os móveis para você?
– Não me faça te dar um tiro. Ah, vamos embora, Nick! Esse tal Lerman com toda a certeza não está aqui.
– É o que ele quer, Lucy. – ele falou, apontando a luz de sua lanterna, que estava “nas últimas”, para mim. – Ele quer que nós pensemos que ele não está aqui.
Abri a boca para rebater, mas fui interrompida.
– Qual o seu problema?! – era a voz da Megan.
– Qual é o seu problema! – era a voz do Riley. – Desde que voltamos a fazer missões juntos, você só sabe reclamar do que eu faço!
– E é com motivo! Achou o que, Riley? Que eu fosse me curvar diante dos seus pés e dizer “Vida longa”?
Nick e eu olhamos um para o outro.
– É, nós temos que vazar. – dito isso, corremos em direção à saída enquanto os dois continuavam naquela conversinha amigável.
Corremos, nos perdemos, corremos mais e enfim achamos a saída. Eles estavam em uma conversa “amigável”, como eu disse. Ainda assim estavam meio que longe – lê-se quatrocentos metros (!) –, então tivemos que correr mais um tiquinho – um ticão – para alcançá-los. Foi então que o som inconfundível soou, e a imagem à minha frente confirmara.
Megan levou um tiro.
– MEGAN! – gritou Riley, desesperado.
Nick e eu corremos. Megan estava inconsciente, no chão, com uma poça de sangue ao redor dela só crescendo. Instantaneamente tive uma espécie de Déjà-vu. Coloquei os dedos em seu pescoço.
– Ela está viva. – suspirei, um pouquinho mais aliviada.
Senti um “bip” em meu celular. Adivinha quem decidiu dar um oi? Se você pensou “The Killer”, congratulações, merece uma sacola de doces.
Fiquei pasma com o que li:
Como o prometido, uma bala em um de vocês. Se for para eu chutar, eu diria que a bala pegou bem nas costelas dela.
Uma calibre 50, se eu fosse vocês, a levaria logo para o hospital, não se sabe quanto tempo uma pessoa aguenta uma dessas.
Como esse gostinho de missão cumprida é bom, espero que a bala pelo menos a deixe fora de umas missões.
Quero ver o que a DM vai pensar quando descobrir que vocês fracassaram três vezes consecutivas, a primeira no caso de Freya Wilson, a segunda no caso do mafioso desaparecido e a terceira ao deixarem um membro do grupo se machucar gravemente.
Ainda pensam que podem lidar comigo? Eu estou, e sempre vou estar, um passo à frente da DM, sempre.
Eu acho que vocês precisam de uma boa cacetada na cabeça para perceberem que vocês são só cobaias da DM.
Se ela se importasse com vocês, daria, no mínimo, mais informações ao meu respeito ou a respeito de certa organização.
Não sou a única que guarda segredos por aqui, perguntem à Lucy, não, chérrie? Foi na França, não foi? Damon Spcullat, uma pessoa bem ambiciosa... Se entregar para ele não foi uma boa escolha, querida. Como foi sentir seu coração sendo despedaçado por um francês? Sabemos que existem muito mais coisas por trás disso, mas, como hoje estou boazinha, vou guardar o seu segredo, afinal não queremos que a sua própria equipe passe a te odiar, por enquanto.
TK
Enrijeci. Como essa “The Killer” sabe sobre Damon? Senti vontade de matá-la, literalmente, mas antes precisávamos levar Megan para um hospital, e rápido.
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O buraco deixado em um corpo por uma bala de uma pistola calibre 50 é do tamanho de um buraco de uma rosquinha ou, em outras palavras, do tamanho do círculo que se formará na sua mão se você unir o polegar e o indicador usando a ponta da unha. Resumindo: enorme. E ser perfurado por uma dessas em uma região próxima a órgãos vitais ou artérias e veias é como uma sentença de morte.
“Preciso de quatro bolsas de O negativo”, era o que a enfermeira dizia. Quatro bolsas. Quatro litros de sangue. E, como eu estou acostumada a fazer autópsias, sei que precisariam remover a bala, juntar os ossos quebrados, repor o sangue, costurar músculos e pele, dar pontos e, mínimo, mas importante, colocar gaze e algo que impeça Megan de fazer movimentos bruscos. Tudo isso antes que o último um litro de sangue de Megan perca mais um único mililitro e ela morra.
Eu gostava de ser otimista em relação a essas coisas, mas a física e a ciência não deixava muitas opções. A não ser que Deus fosse muito bom... – Ah, nem gosto de pensar! – Megan faria uma visita ao necrotério.
Na sala de espera do hospital não havia nada além de silêncio entre nós três. Só o silêncio. Ninguém sabia ao certo o que dizer. Nick disse que ia comprar um refrigerante e até agora não voltou. Eu até ficaria preocupada se eu não soubesse que ali era um hospital, e a única parte do hospital que pode fazer mal para alguém é o necrotério à meia-noite.
– A culpa é minha. – disse Riley, do nada.
– Como assim? – perguntei.
– Você sabe. Eu disse que na próxima a deixaria morrer. E aqui estamos. A culpa é minha. – o rosto dele não tinha expressão.
– Riley... – comecei, depois de um suspiro.
– Não tem “Riley”, Lucy. Você ouviu. Eu disse a ela que, quando ela precisasse de mim, eu a deixaria morrer e cinco segundos depois ela levou um tiro. Se eu não estivesse naquela conversa “amigável” com ela...
Eu olhei para ele como quem olha no fundo dos olhos de uma pessoa, mesmo que ele estivesse encarando a porta, não os meus olhos.
– Você não tem mais esperanças, não é?
– E você tem?
Balancei a cabeça em negação.
– Só que isso não significa que a culpa foi sua. Pelo que você me contou há um tempo, era levar um tiro ou levar um tiro. Riley, pelo que você disse, você já salvou a vida dela três vezes. A segunda, lá na colina há pouquíssimo tempo. A terceira hoje mesmo de James Lerman. Como foi a primeira?
Ele não respondeu, e eu já ia insistir, até que ele decidiu falar:
– Tínhamos sete anos. Era a nossa primeira missão juntos. Tínhamos que espionar um inimigo... Deu tudo errado e a culpa foi minha. Pronto. De mim você não tira mais nada.
– Riley, olha para mim. – ele obedeceu relutante. – Há exatos sete anos eu estava sentada nesta mesma sala de espera, nesta mesma cadeira. Nesta mesma cadeira. – enfatizei. – Dois meses antes uma parceira minha se salvara de uma bala de fuzil. Eu fui otimista no caso dela. Mas, naquela vez, eu não tinha esperança. 50g de chumbo em uma bala de caça disparada por uma espingarda. A enfermeira dizia a mesma coisa “Preciso de quatro bolsas de O negativo”. Naquela mesma noite, eu fiz a autópsia do meu próprio pai. Não vou revelar muitos detalhes, porque, acredite, há muitos outros, mas vou apenas dizer que o otimismo move montanhas.
– Ainda assim sinto como se a culpa fosse minha. Como você se sentiria se dissesse para uma pessoa que já foi sua melhor amiga que a deixaria morrer?
Aí eu tinha que concordar com ele. Eu ficaria com o peso na consciência toda vez que visse a marca da bala. Fiquei em silêncio.
– Olha, eu confesso que te julguei mal. Você não é uma má pessoa. Sempre soube que eu nunca te dei muito crédito por causa dos números do mural de status da DM, e está aqui me dando conselhos. Mas, apesar disso... Eu não consigo perder a culpa.
Dei um sorrisinho de agradecimento. Vi que no meu celular havia outra mensagem, mas dessa vez eu já sabia de quem era sem nem ao menos olhar o remetente.
Dando conselhos para o Stones, Má Cherrie? Hmm... Vejo “coisas” no ar...
Só para constar: Estou aqui para dizer para você tomar cuidado. Principalmente quando você for visitar o necrotério. Afinal, tanto eu quanto você sabemos que o necrotério de noite não é um lugar tão inocente, não é?
Aproveite, Lucinda. Dentro de pouco tempo, você vai estar dentro dos freezers de lá e fará uma visitinha ao seu querido papai.
TK
Por muito pouco não taquei o celular na parede. Essa “pessoa” não tem o direito de falar sobre o meu pai!
Uma fração de segundo após um médico saiu da sala de cirurgias.
– Tivemos sucesso. Ela está viva.

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