My world upside down
3 Um lugar diferente dos outros
Notas iniciais
Meus pés estão suspensos no ar. Meu corpo vai caindo e caindo, como se eu fosse ficar assim para sempre, nunca encontrando um chão. Vejo o começo do buraco onde entrei ficando cada vez menor e distante. Colido algumas vezes contra alguns objetos estranhos que não consigo identificar e não sei ao certo se estou gritando, sinto algo rasgando a minha garganta, uma dor que nunca senti antes. Tento me agarrar inutilmente a algo, qualquer coisa, mas, nada me impede de cair em queda livre. Giro de cabeça para baixo e vou invertendo as posições não tendo nenhum controle sobre a movimentação de meu corpo. Não temo a morte. Não tenho medo de saber que vou morrer por ser estúpida, realmente pulei em um buraco? Estou insana? Talvez não, ninguém sabe. Talvez eu ainda esteja dormindo na biblioteca, e esse é um sonho como qualquer outro. Minto para mim mesma. Sei que todas as sensações são reais de mais para ser um sonho. Consigo sentir a sensação da queda, dos meus cabelos voando sobre meu rosto. Consigo sentir um cheiro de rosas, balas, e um perfume adocicado muito forte no ar. A visão não é o meu melhor potencial agora, tendo batalhar contra essa escuridão. Consigo ouvir barulhos aleatórios e simultâneos como os de pássaros cantando, água descendo de um riacho, uma musica sendo tocada no piano… É uma imensidão de tantas coisas que não consigo compreender. Na verdade, nunca compreendi nada mesmo.
Sinto um enjoo forte. Acho que virar e virar tantas vezes de cabeça para baixo não está me fazendo bem, desejo logo o forte impacto contra o chão. Desejo ver o meu corpo se quebrando e dilacerando em milhões de pedacinhos, e lá se foi Clarabelle. Estico minhas mãos para baixo e tento decifrar se o chão está próximo, mas qualquer tentativa parece inútil. Com dificuldade, agarro o meu corpo com os meus braços e fecho meus olhos. Tudo está escuro então não faz, mas sentido se está de olhos abertos ou não, se estou acordada ou não, se estou sonhando ou não… Vou criando uma lista de bilhões de prós e contras, vendo o tempo passar diante de mim.
Algo me acorda de meus devaneios. Sinto finalmente um chão frio e úmido, bem abaixo de meu corpo encolhido. Por mais surreal que pareça não senti dor alguma, muito menos meu corpo despedaçado. Ao invés disso me concentro no lugar estranho onde estou. Olho para todos os lados. Sinto-me confusa, pois algo assim não pode existir abaixo de meu jardim. A sala na qual me encontro agora está vazia, a não ser por uma baixa cadeira de madeira e as suas paredes de vidro. Ao me sentar nela, consigo ter a visão panorâmica de toda cidade (ou seja, lá o que isso for). Primeiramente, parece ser um lugar como qualquer outro. Pequenas casas se estendem por toda a rua com as suas chaminés ligadas. Carroças passam guiadas por cavalos, e já que está amanhecendo tudo começa a ficar tumultuado. Espera. Amanhecendo? No baile ainda estava de noite a alguns instantes atrás. Quanto tempo eu passei nesse buraco? Isso não faz sentido algum.
–É um lugar muito bonito. – comentou alguém com uma voz familiar ao meu lado. Virei o meu rosto a tempo de encontrar o maluco de olhos vermelhos, aquele que havia pulado antes de mim. Ele trajava uma cartola preta na cabeça, que antes eu não havia notado. Seu terno estava coberto de terra, mas seu relógio de bolso parecia intacto.
–Onde estou?- perguntei recuando para trás do estranho. Por mais que fosse um alivio vê-lo ali, eu não o conhecia, podia ser um maníaco.
–Então quer dizer que a princesa sai pulando em buracos que não sabe aonde vão dar? Muito interessante. – ele abriu um sorriso cínico no rosto e tornou a se dirigir na minha direção. Levantei meus braços em sinal para ele recuar, o que só o fez sorrir ainda mais.
– Está com medo? Eu sou o menor dos seus problemas por aqui.
–Você ainda não respondeu a minha pergunta!- exclamei enfurecida pela falta de respostas. Passei os meus olhos pelos cantos da sala à procura de alguma coisa. Vi que ao lado de uma portinha tinha uma mesa. Corri até lá deixando o homem com um olhar curioso no rosto, mas decidi ignorá-lo Em cima da mesa encontrei um guarda chuva vermelho, e pela falta de “armas” decidi usá-lo.
– É bom você começar a me explicar algumas coisas.
O homem olhou indignado em direção ao objeto e revirou um pouco os olhos. Ele tornou a agir naturalmente como se a minha ameaça não o intimidasse e ficou olhando para lá fora. Percebi que o guarda chuva não fora uma das minhas melhores idéias e deixei-o sobre a mesa novamente. Fui ao seu lado e bufei um pouco, aquilo não parecia me levar a nada.
–Clarabelle, este é o seu nome?- ele perguntou de forma casual, não olhando diretamente para mim. Pensei em mentir mas se de alguma forma ele já sabia meu nome podia obter algumas informações valiosas.
–Sim. — afirmei em um quase sussurro.
–Você já se sentiu diferente de todos e de todo mundo como se não pertencesse a nenhum lugar?
–Sim. — respondi novamente, era estranho ele conseguir definir em poucas palavras exatamente como eu me senti a minha vida toda.
–Pois bem, fico feliz em saber que o meu trabalho teve êxito novamente. O adventus foramen nunca erra. — ele se levantou subitamente e começou a correr como fizera no jardim.
–Espere! Quem é esse tal de Adentis Foram?- indaguei fazendo-o parar.
–O nome é ADVENTUS FORAMEN!- ele exclamou um pouco chateado, mas tornando a me olhar com cautela.– Não é “quem” E SIM “O que”. Bom chega de perguntas por agora, temos muitas coisas para fazer estamos atrasados.- ele falou por fim. Dessa vez, sem olhar para trás para confirmar se eu o seguia, o homem foi ganhando velocidade até ir contra a parede de vidro que surpreendentemente não se partiu com o impacto, apenas desapareceu como nunca tivesse estado ali. O homem mais uma vez estava caindo no ar, e eu sabia o que deveria fazer. Respirei fundo e anotei mentalmente para nunca mais pular de lugares estranhos com maníacos de olhos vermelhos. Repeti o mesmo movimento, e em questão de segundos também fui caindo para baixo.
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Diferente de como havia sido antes demorei apenas alguns segundos para encontrar algo abaixo de meus pés. A grama era tão verde que, passei uns minutos duvidando se ela era real, até que finalmente me agachei cuidadosamente no chão tocando a sua espessura. Fechei meus olhos para me deliciar com aquela situação. Eu finalmente estou livre? Preciso que algo me faça acordar! Belisco-me no braço, mas não sinto nada de diferente, a não ser a dor que esse gesto me ocasionou. O homem-coelho (assim como eu o apelidara secretamente) Estava desconcertado por estarmos perdendo tanto tempo. Ele não precisou me dizer nada, apenas seu olhar rígido me passou o recado.
–Você não se cansa de correr contra o tempo sempre apressado?- perguntei já o alcançando, enquanto passávamos pelo gramado na frente de uma casa.
–E você não cansa de fazer perguntas que não serão respondidas?- ele retrucou. Bom ponto. Acho que devo calar logo a minha boca. Por hora.
Sem trocar mais alguma palavra, o homem caminhou para frente da casa que agora sendo observada mais de perto é bem pequena e destrancou a porta com uma chave prateada. Ele fez um gesto com a mão indicando que eu estava convidada a entrar e o segui. Para caber na portinha me inclinei um pouco e assim que entrei fiquei admirada com o local. De fora era apenas uma casinha, mas vista de dentro é enorme. Suas paredes pretas estão cobertas por ilustrações de rosas vermelhas e a mobília é dividida entre variações de prata, branco, dourado e cobre. No centro da sala, um majestoso lustre com lamparinas banha o lugar com uma luz esbranquiçada. Tudo é simplesmente lindo.
–Tudo é tão lindinho!- exclamei ainda passando meus olhos curiosos por todos os lados. – Eu nunca adivinharia que um lugar como esse s pudesse pertencer a alguém como você.
– Com todo respeito vossa Majestade, mas, a minha casa não é lindinha. E me sinto ofendido por pensar que algo bonito não possa pertencer a mim. – ele disse em um tom um pouco ofendido. Fiquei preocupada por um momento, mas ao constar que ele estava apenas brincando dei de ombros. O homem seguiu para outro cômodo e eu acompanhei mais tranquila. Chegamos juntos em algo que parecia ser a cozinha, coberta com o mesmo papel de parede da sala.
–Hoje nós temos muito o que fazer, você se sente preparada para começar?- perguntou ele enquanto abria um armário grande de vidro, me servindo uma xícara de chá. Não entendi muito o que ele queria dizer com “começar” mas de alguma maneira estranha não estou me preocupando muito com os detalhes.
–Acho que já estou pronta para qualquer tipo de coisa.- comentei logo após de dirigir o chá quente na minha boca. Camomila.
– Ótimo!- ele exclamou animado, e com um olhar transbordando de loucura. — Me siga princesa, hoje temos um evento muito importante para comparecer!
Evento? Mais um baile? Espero que não. Não pulei em um buraco para enfrentar essa realidade de novo. O homem que parecia feliz compreendeu um pouco o meu desapontamento ao cruzar seu olhar com o meu.
– Não é o que você está pensando. Sim, nós vamos há um baile, mas não é um qualquer.
–Então o que seria?- perguntei despertada pela curiosidade. Ele não respondeu. Pegou a minha mão de forma cuidadosa e foi me guiando até a escada.
–Primeiro: Eu posso não estar em meu melhor momento de sanidade mas não vou subir com você até lá em cima, até porque mal sei o seu nome. — falei me afastando um pouco dele que parecia estar se divertindo com a situação. — E segundo, quero saber para onde vamos.- terminei a minha argumentação cruzando meus braços e lhe desafiando com o olhar.
– Meu nome é Jasper, princesa . — ele respondeu provavelmente se lembrando que ocultara este fato até o momento. Assenti com a cabeça e permiti que ele prosseguisse com a explicação. — Estou te levando para um quarto, onde você pode provar algo que convenha com o lugar para onde iremos está noite, o resto você terá que descobrir ao longo do tempo.
–Certo. Acho que posso me contentar com isso.- falei vindo a subir a escada para o próximo andar.
Essa escada era estranha, assim como tudo naquela casa. Os seus degraus se dividiam entre preto e branco, pintados de forma que parecessem teclas de piano. Subi por elas apressadamente e ao chegar no próximo piso me deparei com algo que eu não esperava: Um quarto digno de uma princesa. A mobília toda pintada de roxa (agradeci mentalmente por não ser rosa, já que eu odeio essa cor) e uma cama espaçosa ocupava 1/4 do quarto. Mesmo sem pedir alguma autorização para Jasper, não resisti e adentrei o quarto maravilhada.
–Porque tem algo assim no seu quarto?- perguntei um pouco desconfiada pois ele aparentemente morava sozinho. Acho que ele não esperava muito por essa pergunta pois vi uma dor passando por seus olhos. Algo o machucava só de olhar para aquele quarto.
–Era da minha filha, Fawcett.- ele falou sem esclarecer muita coisa, como o fato de ela não estar ali. Por um momento, quase deixei a pergunta escapar da ponta de minha língua, mas ao me xingar mentalmente tomei a iniciativa de esperar ele dizer algo caso quisesse. -Vamos Majestade, eu sei o que quer me perguntar!- Jasper riu um pouco do meu constrangimento mas me olhou meio triste. — Vou simplificar esse trabalho para você: Ela não mora mais aqui. Há um bom tempo aliás…
– Está tudo bem, você não me conhece direito, tem todo o direito de não querer me contar.- Falei me virando de costas para ele afim de explorar melhor o lugar, com certa sutileza.
– Será que eu posso ver agora o que tem dentro daquele armário?
Ele me fez um sinal de “sim” para eu prosseguir , e assim o fiz. Ao ao abrir as portas deste, vi algo que me lembrava muito a minha casa: vestidos de baile. Não que eu gostasse de vestidos, pois na verdade eu os odeio! Mas algo ali me fez ter um reconforto com a familiaridade.
–Pegue o que mais gostar e experimente. Temos uma hora para invadirmos aquele baile.- Jasper falou deixando o quarto.
–Invadir?!- gritei para que ele pudesse me ouvir a certa distância.
– É aí que a nossa diversão começa. Eu disse que não seria um baile como os outros.
Bem, pelo visto não, pensei um pouco feliz com a ideia de fazer algo mais radical. Me apossei de um lindo vestido verde esmeralda e tranquei a porta para experimentá-lo.
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