Notas iniciais
Primeiramente tenho que agradecer a vocês por terem sido tão pacientes comigo. Só tive tempo para postar agora mas prometo que o próximo postarei mais rápido. Então é isso, boa leitura!

Passei grande parte de minha vida aprisionada pelas paredes que separam o castelo da vila. Às vezes eu ficava em meu quarto, olhando para aqueles muros enquanto desenhava tudo que eu imaginava ter adiante dali. Um dia, eu cheguei a ultrapassá-los. Aiden, o mais fiel dos guardas bateu em minha porta uma noite antes do meu baile de aniversário. Ele trajava um uniforme preto diferente do usual, e carregava em seu bolso algumas armas. Eu o avisei para me chamar quando o meu pai estivesse fora do castelo, e assim o fez.

Aiden guiou a carruagem para fora dos muros, me trazendo a conhecer a realidade. O que eu vi fora algo que nem chegara perto de meus pensamentos. Os meus desenhos pareceram bobos e ingênuos perto daquilo, totalmente o oposto da verdade. Isso me diminuiu. Acabou com os meus propósitos e sonhos, destruindo tudo que eu era naquele momento, mudando quem eu queria ser. Eu costumava pegar os lápis de cor de maneira infantil e os arrastava sobre as folhas de papel formando casas pequenas, com pessoas vivendo em harmonia e felicidade, uma vida verdadeira.

As ruas estavam destruídas. A vila despencava em todos os sentidos, restando algumas ruínas. Pessoas estavam jogadas pelas calçadas sangrando, sem terem para onde ir e procurar ajuda. Saltei da carruagem ainda em movimento e fraquejei ao bater com forças as costas no chão sentindo a dor pulsar por todos os cantos de meu corpo. Notei que a carruagem parou, e Aiden correu em minha direção , com o medo ressaltando em seu olhar.

–Eu sinto muitíssimo Alteza, eu não fazia idéia...- falou ele desapontado envolvendo seus braços ao meu redor, como apoio para me levantar. Não entendi muito bem, mas, será que ele também não sabia nada sobre isso?

–Aiden.- falei me levantando com cuidado.- O que é isso? Essas pessoas... o que aconteceu com elas?

Ele olhou a nossa volta, com os olhos em choque. Ao constar pela forma como ele agiu diante da situação tive certeza de uma coisa: Mas nenhum “morador” do palácio sabia disso. Provavelmente exceto por meu pai, que vive atravessando os muros. Ele não contou nada disso para mim.

– Eu lhe juro que não sabia. Digo como algo assim pode ter acontecido e ninguém ter notado? Parece que houve uma guerra. — ele disse por fim tirando todas as minhas suspeitas, eu estava certa, ele não sabia. –Majestade, nós não sabemos com o que estamos lidando, temos que retornar imediatamente para dentro antes que aconteça alguma coisa.

Não podia ir embora. Como deixar tantos feridos para trás? Se não temos uma vila para quem estamos governando? Como o dinheiro entra e sai dali? Nada estava fazendo sentido.

Aiden meio impaciente e preocupado abriu a porta da carruagem me suplicando para eu entrar. Respirei fundo, balancei a minha cabeça em sinal de reprovação e entrei. Passei até o fim do trajeto pensando em como as coisas seriam dali para frente e agora, perdida nesse buraco sei que estou longe o suficiente para não poder ajudar na situação. Pelo menos ainda posso contar com Aiden . Ele pode escolher fazer o certo e contar para todos a verdade.

–--------------------------------------------------------------------------------

Aprisionada atrás da verdade me tranquei na biblioteca um dia inteiro lendo alguns livros que me levassem para longe da realidade. Em tantos mundos diferentes que passei a conhecer nada era parecido com aquilo. De noite, nesse lugar estranho que eu ainda não descobri seu nome, não encontrei sinais das estrelas no céu, mas sim algo bem mais curioso: Três luas.

– Porque aqui precisam de três?- perguntei à Jasper assim que saímos de casa. Algo dentro de mim ainda alertava “perigo” mas os meus movimentos tendiam a ignorar.

O vestido verde me deixava com uma pequena dificuldade para respirar e mesmo habituada com o aperto andei mas devagar do que quando estou sem essas roupas pesadas. No caminho eu fazia pequenas pausas, tomando um ar e logo voltava a arrastar os saltos sobre o gramado.

–Não vamos seguir todo o caminho a pé princesa. — ele comentou deixando o alívio se apoderar de meu corpo. — Vamos nos encontrar com alguns amigos, eles serão a nossa carona.

Apenas assenti com a cabeça e fui de forma sofrida caminhando até o fim do trajeto. O que Jasper quis dizer hoje mais cedo com o “invadir”? Quem são seus amigos? De alguma forma eu o imaginava uma pessoa mais solitária.

– Está vendo aquela lua ali?- perguntou a mim apontando na direção da que ficava no meio entre as outras duas. Não lhe interrompi curiosa para ouvir mais sobre o relato. — Ela é o que chamamos de a “Lua Central”. Ela se posiciona bem aqui onde estamos iluminando onde se localiza a junção do bem e do mal, a parte por onde se é seguro caminhar. As duas outras são chamadas de “Periféricas”, iluminando as partes escuras e sombrias.

–Então elas funcionam como um mapa? Você caminha sobre a luz que emana da central para se manter seguro de noite. O que exatamente há na parte das outras duas?- perguntei curiosa.

–Bom, digamos que eu já estive em ambos os lados, você acreditaria?- ele me respondeu com outra pergunta, abrindo o seu sorriso maníaco. Mas é claro que eu não duvidava, ele não parecia sensato de qualquer forma. –A periférica oeste é onde as almas perdidas vagam, daqueles que não conseguiram achar um caminho de volta para casa e enlouqueceram. — Engoli em seco pensando se algum dia eu seria com eles, louca para voltar de volta para casa. Espero que não. –A periférica leste é para onde estamos indo. Digamos que a dona da propriedade convida o resto das pessoas para seu baile anual, onde muitos desaparecem e nunca mais são vistos. A nossa missão de invadir tem algo relacionado a isso, mas por hora é tudo que eu posso lhe contar.

Continuamos agora calados, deixando o silencio suspenso no ar ouvindo apenas o barulho do vento passando e de meus saltos se agarrando no chão. Ficamos de frente a uma ponte de pedra onde Jasper começou a parar de andar.

– Chegamos!- ele exclamou contente. Analisei o local e franzi a testa, não compreendi onde exatamente chegamos, estamos no meio do nada.

–Os seus amigos moram aqui?- perguntei incrédula.

–Aye!- ele respondeu como um pirata, prosseguindo para cima da ponte. – Já são 21:00, eles são pontuais, já devem estar chegando. Venha Clarabelle.- ele indicou para que eu esperasse ali também e assim o fiz. Encaramos por um tempo a água que circundava abaixo da ponte, enquanto duvidava mentalmente se aquilo fazia algum sentido. O que estamos esperando?

De repente, ouvi algo nela começar a se mexer como se fosse um maremoto. Algo se impulsionou com um solavanco para cima de uma vez só. Uma carruagem prateada surpreendentemente flutuou sobre ela.

– Mas como...?- perguntei atordoada, para ninguém em particular. Jasper riu um pouco da minha cara desconfiança mas continuou a se envolver com as suas loucuras. Ele se equilibrou no limite da ponte, se posicionando para cair em cima da atmosfera dura e prata.

Em um único pulo, ele se agarrou a superfície e esperou as portas abaixo serem abertas, deixando um pouco de água entrar por dentro.

–Clarabelle, lhe garanto que é totalmente seguro, venha logo. – ele pediu em quase uma súplica, e logo foi agarrado descendo e entrando na carruagem, deixando espaço para eu ter onde pular. Segurei o vestido comprido até os joelhos e repeti o processo que o vira fazendo há alguns segundos atrás. Bati com força, me recordando um pouco daquele momento que eu pulara da carruagem quando estava com Aiden. Jasper estendeu a sua mão, e com a ajuda de seus braços entrei.

Repousei-me de forma desajeitada no banco que ficava de frente para outro, onde duas mulheres praticamente idênticas (a não ser por suas vestimentas totalmente diferentes) e um homem que ficava entre as duas me olhavam curiosos.

Uma das mulheres trajava uma mascara branca, que deixava a amostra a sua pele pálida marcada com um batom rosa. Seus olhos verdes claros brilhavam e seus cabelos loiros quase brancos estavam presos em uma trança lateral. A outra usava o mesmo vestido só que este bem mais curto e em preto. Seus olhos e cabelos tinham a mesma cor, mas o desta estava preso em um coque alto, também sendo diferenciada pela boca marcada de vermelho. O homem que separava as duas estava vestido com um terno parecido com o de Jasper a não ser por sua coloração acinzentada. Seus cabelos castanhos eram compridos até mais ou menos na altura de seus ombros e seus olhos amendoados eram pacíficos. Bom, ele aparentemente parece ser menos maluco.

–Jass, ela não se parece com uma princesa. — comentou a mulher de preto, com expressão facial um tanto chateada. Não me abalei com as suas palavras, na verdade para mim isso é bom. Eu nunca quis de fato me parecer com uma.

–Não diga bobagens Sephora. — repreendeu a mulher de branco fazendo a outra apenas dar de ombros.

Senti a carruagem flutuante começar a se locomover como um barco em uma velocidade incrível. Jasper dava altas gargalhadas a medida que íamos mais rápido preenchendo o silêncio.

–Ignore as minhas irmãs, elas tendem a ser bastante desagradáveis. – comentou o homem de olhos amendoados me despertando de meus devaneios.

–Está tudo bem. — falei com sinceridade. Ele abriu um pequeno sorriso pelo cantos dos lábios e estendeu as suas mão em forma de comprimento a mim.

–Eu me chamo Blaide, e essas são as minhas irmãs menores incrivelmente insuportáveis: Sephora e Saphira. – ele falou se apresentando e as suas irmãs.

–Clarabelle.- falei por fim separando meus dedos dos seus e voltando a olhar para Jasper que sentado do meu lado parecia entediado com a conversa. Ele se remexeu um pouco no banco desconfortável e encarou Sephora que estava prestes a dizer alguma coisa.

–Princesa. — a mulher de preto praticamente cuspiu essas palavras e cruzou as suas pernas com um ar superior. Elas fechou seus olhos e começou a tremer um pouco. Ouvi Blaide começar a respirar de maneia descompensada e seus olhos mostravam que seja lá o que ela estava fazendo ele não aprovava nem um pouco. -Clarabelle, eu consigo ver que as coisas daqui para frente não serão fáceis pra você. Seu encontro irá de frente com pessoas difíceis de se lidar. Esteja pronta. — ela falou voltando a abrir seus olhos e a apoiar as costas no banco como se nada tivesse acontecido.

–Sephora, o que nós combinamos? Nada de ler por dentro da nossa nova amiga. — Saphira, a mulher de branco parecia desapontada com a irmã.

–Alteza, aprecie bem a companhia, pois não é sempre que se pode estar com os irmãos do Oráculo. — comentou Jasper entretido.

–Os irmãos do que?- perguntei um pouco cansada dessa loucura.

–Sephora enxerga o futuro e Saphira o passado. Eu consigo com uma força maior fazer a pessoa viajar pelo tempo, dimensão e espaço que quiser. Mas é claro, esse tipo de mágica sempre vem com um preço. — falou Blaide de forma orgulhosa sobre o legado da família. – Não deixe as aparências lhe enganarem pequena Clarabelle. Eu venho manipulando isso há 2000 anos, e as gêmeas há 17000. Somos mais velhos do que parecemos ser.

Não posso negar que isso não mexeu com o meu emocional. Seria mesmo possível? Depois de ter visto tanta coisa aqui não duvido de mais nada.

Senti subitamente a carruagem parar e todos se levantara apressados dali.

–Vamos, esse baile nos espera.- disse Jasper abrindo a passagem para mim e para as gêmeas, logo em seguida vindo atrás com Blaide.

Um castelo preto gigante ocupava todo o meu campo de visão banhado pela luz da lua periférica oeste. Homens e mulheres vestidos perfeitamente bem para a ocasião, entravam pelas portas do castelo, passando pelos guardas com seus convites em mãos. Blaide distribui um para cada um de nós e garantiu que com eles entraríamos. Ninguém me esclareceu o que estávamos fazendo ali exatamente mas mesmo assim não hesitei em passar pelos portões.

Notas finais
Estou aberta a sugestões e a receber comentários. Até o próximo cap. xx