My world upside down
5 A invasão
Notas iniciais
–Escute bem o que eu vou lhe dizer: Não coma, não beba e não converse com ninguém lá dentro. Algumas coisas não são reais, e sim apenas ilusões para testar a mente dos fracos. Não seja tola Clarabelle, eu confio em você. — sussurrou Jasper em meu ouvido assim que adentramos o salão. Ele seguiu para lado esquerdo e foi se misturando no meio das pessoas, me deixando sozinha. Avistei do outro lado Saphira e Sephora dispensando uns rapazes que estavam convidando-as para dançar. Blaide(que já estava fora do meu campo de vista fazia tempo) nos orientou a seguirmos a festa separados pois um grupo chamaria muita atenção. Eu sabia o que tinha de fazer.
A música estava incrivelmente alta, e as luzes coloridas que piscavam na sala escura me deixavam atordoada. Com dificuldade tentei me afastar ao máximo da pista de dança, onde corpos suados balançavam para os lados, muito próximos um dos outros como se fossem um só. Algo do tipo, nunca seria permitido nos bailes que eu frequentei. Nunca. Passei pelas pessoas e fiquei aliviada ao observar eles agora em uma distancia considerável, e tomando um pouco de ar. Olhei para os lados e tentei achar uma porta como a que Jasper havia descrito: Prata e grande, com detalhes em preto. Todas as que haviam no fim do salão eram simples, de madeira.
Mulheres e homens bonitos, vestidos de roxo serviam comida por todos os cantos. Uma mulher alta, de cabelos castanhos encaracolados se aproximou de mim com uma bandeja de canapés, mas os dispensei em um gesto com a cabeça.
–Tem certeza de que não quer? Eles estão gostosos e você parece faminta, deve ter feito uma longa viajem até aqui. — ela falou aproximando-os para eu poder ver melhor o que ela estava oferecendo. Tentador. Se não fossem pelos avisos de Jass eu provavelmente já teria comido uma bandeja inteira, mas, ao contrário, os dispenso novamente, fazendo a mulher não gostar muito. Ao cruzar o meu olhar com o seu, algo me fez querer correr para longe dali, seus olhos eram negros. Não era apenas a cor, mas eles pareciam vazios, como se não tivesse ninguém de fato ali. Virei-me com pressa dando as costas e tudo que eu mais queria era ficar sozinha, mesmo em um lugar assustador como esse. Avistei ainda não muito longe uma escada e decidi seguir por ela na tentativa de continuar com o trabalho que fora a mim designado, encontrar a porta.
Quando eu posicionei o meu pé de encontro com o primeiro degrau algo estranho aconteceu. Alguém me pegou pelos braços me fazendo virar e colar o meu rosto próximo ao seu. Estremeci ao encarar seu rosto angelical, mas com uma expressão determinada. Aiden.
–AIDEN?- gritei sem me conter, felizmente não chamando a atenção das pessoas. Joguei-me em seus braços e deitei a minha cabeça em seus ombros. Ele não se moveu, nem sequer me envolveu no abraço, apenas ficou parado ali. Distanciei-me e olhei em seus olhos. Não era como antes, algo estava vazio dentro dele. Não olhava para mim, como se eu fosse invisível estava concentrado demais olhando para algo adiante. Tornei-me a virar tendo a exata visão do ângulo dele. Ali, onde deveria estar posicionada a escada e o resto do salão, ficava agora uma rua vazia. Não se via casas, pessoas, nada e ninguém, apenas algo perdido no além.
–Onde estamos?- sussurrei em seu ouvido com medo. Ele me deu um pequeno empurrão, me distanciando de seu corpo e abrindo um pequeno sorriso lateral em seus lábios.
–Com o desaparecimento da nossa querida princesa, tudo virou um caos. – ele disse diretamente à mim com uma voz afetada, ele nunca falaria assim comigo. – O Rei do reino mais rico e poderoso iria fazer uma trégua na guerra, em troca do seu casamento com o filho dele. Mas, como você fora tão irresponsável, ao partir quebrou com a promessa. Seu precioso castelo não existe mais. Tudo fora destruído e todos foram mortos.
–Não!- gritei me jogando de encontro ao chão sentido tudo que fazia sentido se desmoronar. Como ela fora tão burra? Eu não podia simplesmente me livrar de meus deveres. Agora tudo que um dia eu tivera está arruinado, por minha culpa. Meu pai... Senti na minha garganta se formando um nó. Aiden ainda me encarava de cima, com seus olhos vibrando de prazer ao me verem assim.
“Não seja tola Clarabelle, eu confio em você”
A voz de Jasper ecoara em minha mente como um lembrete. Mas é claro, esse não era Aiden. Podia aparentar ser igual a ele, mas de fato não era. Tenho certeza que tudo não se passa de uma ilusão, não sou fraca.
Ao proferir essas palavras em minha mente, como em um passo de mágica o “cenário” muda novamente para o salão onde agora estou de volta ao mesmo lugar menos por Aiden, que não estava mais ali. Corri escada acima, sem pensar direito com medo que outra coisa viesse a acontecer. Em um ato quase involuntário, me pego sorrindo um pouco desconcertada, pois estou fugindo de um baile novamente.
Esse andar é bem mais amplo e escuro, e vejo portas em todos os lados, mas que me parecessem trancadas. As paredes estão cobertas com palavras estranhas que parecem estar em outra língua totalmente desconhecida por mim. Com o silencio repentino que fazia agora com o distanciamento da festa barulhenta, o barulho da minha respiração pesada ocupa o lugar. Passei por mais uma série de portas, todas iguais e nada como aquela que Jasper havia descrito. Talvez tudo isso fosse uma perda de tempo. Dobrei para esquerda indo para mais um corredor, no qual estava ainda mais escuro que o outro e senti um frio passar pela minha espinha. Uma mulher magra e de estatura baixa, com os cabelos num tom de roxo bem escuro estava de costas para mim bem naquele momento. Seus cabelos ondulados seguiam mais ou menos até a cintura, e seu vestido justo nas cores preto e prata marcava as suas curvas. A mulher abriu uma porta e entrou lá dentro, mas não antes de me dirigir um olhar. Ela sabia que eu estava li.
Hipnotizada pelos seus olhos heterocromáticos e despertada pela curiosidade a segui, o que pode ser altamente estúpido. Adentrei a porta relutante, fechando-a atrás de mim. A mulher que como eu presumi me aguardava com uma expressão serena no rosto agora se aproximando cautelosa, mas sem deixar a sua pose de superioridade e magnitude se apagar.
–Onde você conseguiu esse vestido?- ela me perguntou algo que eu não esperava e fiquei sem palavras para responder. Eu no máximo imaginei ser questionada por bisbilhotar o andar.
–Hum... Com um amigo?- perguntei indecisa sem saber se era esse o tipo de resposta que ela esperava ouvir. Ela franziu a testa e começou a me analisar de cima para baixo com uma expressão estranha.
–Eu te observei por um tempo lá embaixo. — ela comentou de forma casual, como se fosse algo normal de se dizer. – Agora olhando de perto tenho certeza, e prefiro que responda a minha pergunta senhorita. Poderia me dizer o nome desse tal amigo com quem conseguiu o traje?-sua voz rouca se pronunciava em um tom frio que me causava arrepios, quem essa mulher pensa que é para falar comigo de tal forma?
–Jasper. Não sei muito sobre ele. — falei fazendo-a parar no lugar, enquanto prendia a respiração. A citação do nome dele fez uma nova expressão surgir em sua face, mais indecifrável aos meus olhos. Ela tornou a virar de costas a mim caminhando em seus saltos pretos longos, indo em direção a janela que se encontrava no fundo da sala vazia, que eu nem parara para analisar até então. Aproximei-me, me posicionando em seu lado, aproveitando o silencio que se instalou para observar melhor seus olhos enigmáticos, agora acessos pela luz da lua. O direito consiste em um tom de azul e com uma fina camada de roxo nas margens, quase como a cor de seus cabelos. Já o direito é divido por uma quase linha lateral, onde em cima é de um verde acesso e em baixo dourado. Nunca vi nada assim antes.
–Ele voltou, finalmente. – ela falou aos suspiros. Foi aí que compreendi a situação.
–Você o conhece?- perguntei com certa cautela, fazendo-a me fitar instantaneamente.
–Sim.- ela disse sem dar muitas explicações. -Não o vejo há muito tempo.
Essa seria uma amiga de longa data? Talvez uma ex namorada? Não. Ela pareceia jovem, e Jasper já mencionara ter tido uma filhamas nada quanto a mãe dessa mesma.
–Hum.- resmunguei cansada, apoiando meu corpo na parede cinzenta. -Acho que eu não deveria perguntar mas mesmo assim, de onde vocês se conhecem?- perguntei tentada demais para me conter.
A mulher de cabelos roxos se juntou a mim, se sentou ao meu lado e começou a distraidamente mexer num colar prata em forma de lua, me ignorando. Cansada de tentar arrancar respostas, pensei em apenas descansar um pouco. Esfreguei as minhas mãos doloridas e tirei os meus sapatos jogando-os em qualquer canto do cômodo. Ela parou de fazer o que fazia antes e agora olhou indignada para os sapatos, largados no chão.
–Você é uma princesa certo?- ela me perguntou zombando um pouco de mim. Assenti com a cabeça.- Uma princesa não joga seus sapatos no chão. É falta de modos!
Revirei os olhos e arqueei as sobrancelhas. Está certo, ela parece muito mais experiente e digna do que eu mas não preciso que ninguém me relembre o fracasso que eu fui nesse cargo que me deram.
–A é? O que a senhorita sabe sobre modos reais?- a desafiei com um olhar brincalhão, fazendo um sorriso abrir em seu rosto.
–Mas que péssima anfitriã eu sou!- Ela exclamou botando a mão na testa, como se estivesse decepcionada com si mesma. -Essa festa, esse castelo e o governo sobre essa parte do reino é meu. Digamos que ao crescer aqui eu sei tudo sobre modos reais. Eu sou a Rainha.- ela confessou um pouco envergonhada e eu corei. Quer dizer que ela me pegou bisbilhotando suas coisas. ÓTIMO!
– Você é a Rainha?- eu não consegui acreditar mesmo isso explicando sua pose e a forma como ela agia.
–Sim. E eu sei mais sobre você do que possa imaginar, Clarabelle.- falou me fazendo estremecer. Como todos aqui sabem meu nome eu não conheço ninguém?
–Se já sabe meu nome estou em desvantagem não é mesmo?- falei com sinceridade esperando que ao menos eu pudesse descobrir seu nome.
Ela se levantou. Esfregou um pouco o vestido com as mãos e caminhou até a porta. Eu fui atrás dela mas algo me fez parar. A porta. Como eu não percebi antes? Essa pela qual eu entrei para segui-la é exatamente como a que Jasper me descrevera. Bom, eu já estive ali dentro e não vi nada demais. Não sei por qual objetivo eles queriam que eu a encontrasse. Sem ter mais nada o que fazer, fechei a porta atrás de mim e a segui, silenciosamente pelos corredores.
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–Tenho que te pedir uma coisa.- ela falou enquanto caminhava em pequenos paços, balançando seus ombros a medida que seguia até a escada. Seus cabelos desciam em uma cascata perfeita pelas suas costas e o tom roxo forte era tão bem pintado que parecia que aquela cor fosse a sua verdadeira. Bom, levando em conta a loucura desse lugar talvez seja possível.
–Tudo bem. O que posso fazer por você?- perguntei e ao mesmo tempo me lembrei dos meus sapatos, que agora terão que ficar para trás.
–Não o faça vir aqui de novo. Diga que não me encontrou, é o melhor a se fazer. Porfavor.- Ela me pediu com certa súplica no olhar, e sem entender bem o porque acabei concordando.
–Com uma condição.- falei rápido a impedindo que me encaminhasse pelo fim da escada e sumisse na escuridão.
–Certo. E qual seria?
–Bom, eu quero saber primeiramente o seu nome. E dois, eu quero voltar.- joguei meus cabelos para atrás de meus ombros e aguardei alguma resposta.
Ela franziu a testa por um momento, parecendo estar pensando sobre a proposta. Provavelmente não compreendia o item dois, a parte de eu querer voltar. Bem, talvez eu mesma não soubesse.
–Não era apenas uma condição?- ela perguntou me enrolando um pouco mas ao constar que essa era o acordo final decidiu colaborar. A Rainha tirou aquele colar que antes ela mexera de forma distraída e entregou-o a mim. -Use-o para caminhar. Acredite, usando ele é a única maneira de caminhar pela luz da lua periférica leste. Não traga companhia.
Deixei um largo sorriso surgir em eu meu rosto, aceitando o colar e colocando-o em seguido ao redor de meu pescoço. Sussurrei um "obrigado" e fui descendo a escada.
–Clarabelle!- ela gritou lá de cima, antes que eu sumisse ao meio da pista de dança.- Fawcett, o meu nome é Fawcett.- falou antes de também sumir, me deixando confusa.
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