My world upside down
1 Prólogo: O baile
Notas iniciais
O salão está cheio como nunca estivera antes. É possível escutar ainda no meio da música alta conversas alheias vindas de todos os cantos, em uma variante dialetal. Com dificuldade eu me escondo por trás de uma grande pilastra de mármore, que se estende até o teto. O meu vestido amarelo é tão volumoso, que tenho de espremê-lo contra meu próprio corpo, na tentativa de passar despercebida. Estreito meus olhos, até o outro lado do recinto para ver o meu pai ainda dialogando com um homem robusto. Não consigo compreender sobre o que eles estão falando, mas, ao julgar as suas expressões faciais parecem estar entrando finalmente em um acordo. Observo os homens estenderem as suas mãos uns aos outros e as apertarem em concordância. A conversa parece ter acabado e vejo meu pai passar os olhos apressadas pelo salão lotado, provavelmente à minha procura. Espremo-me mais por trás da coluna fria. Essa não é uma boa hora para termos uma conversa, não agora ao meio de tantos convidados.
Tento controlar a minha respiração, e sinto o suor descendo pela minha testa. Se não fosse tão grosseiro para uma princesa ir embora ao meio de seu próprio baile de aniversário, eu provavelmente já estaria descansando em meus aposentos. Meu cabelo a essa altura está todo desarrumado, desfazendo o lindo coque que as minhas servas passaram horas arrumando. Sinto os meus pés inchados por ficarem espremidos em um sapato alto que me faz perder o equilíbrio a todo instante. Várias pessoas ali são apenas desconhecidas para mim, mas de grande importância para o reino. O meu pai só sabe falar de como eu devo sorrir, dançar, acenar e agir como uma verdadeira princesa (e futura herdeira do trono) tem de ser. Para a sua grande decepção eu estou longe de ser a filha perfeita. É desgastante fingir ser quem eu nunca serei e a cada dia mais tento me desvencilhar do meu destino.
–Vossa alteza?- escutei um dos guardas se pronunciar por trás de mim me fazendo levar um breve susto. — O Rei está te procurando. — Ele disse como explicação ao notar o meu espanto por ser pega escondida.
–Shhh.– sussurrei fazendo sinal de silêncios com o dedo contra os lábios. — Eu não estou aqui.
–Mas vossa altez...– ele foi interrompido com o meu toque, que o puxou também para trás pilastra.
–Escute bem Aiden. – falei encarando seus olhos cinzentos em sinal de confirmação de que aquele era mesmo seu nome, e recebi em troca um sinal de positivo com a cabeça. –Eu não quero conversar com ninguém agora, muito menos com o meu pai. Se este vir a perguntar por mim novamente diz que não me encontrara está bem? Vou estar na biblioteca. – falei já me distanciando, correndo em direção ao corredor sabendo de qualquer forma que ele não informaria o meu paradeiro.
Todos estavam tão envolvidos em suas próprias conversas que até agora pareci passar despercebida. Apressei meus passos e me direcionei para a escada a diante, que por causa dos saltos estava mais difícil de ser subida do que eu planejara. Impaciente me livrei dos saltos e segui deixando-os para trás. Sinto-me muito melhor ao sentir meus pés descalços se encontrarem com os degraus, e isso me da uma força para continuar subindo. Enquanto sigo o meu caminho fico feliz e grata ao ouvir o barulho insuportável do salão desaparecendo. O alívio me envolve de maneira reconfortante.
Encontro contra os meus dedos a grande porta de vidro da biblioteca, e agradeço mentalmente por ela ainda estar aberta. Todas as luzes estão apagadas e opto por deixá-las assim já que é o melhor para não chamar muita atenção. Dirijo-me até a sessão de romance que é a última do corredor e abro um sorriso verdadeiro, feliz por estar ali no meio de tantos livros velhos e empoeirados do que com as pessoas. Agacho-me devagar no chão e apoio as minhas costas cansadas contra a estante. Eu temo que alguém me encontre e me leve até um rei bem furioso comigo, mas logo descarto essa possibilidade, pois além de estarem distraídos com o baile, o castelo é tão grande que poderia demorar horas para me encontrar em um cantinho da biblioteca, até mesmo com um grande esquadrão de guardas. Estico os meus braços para a estante da frente e pego o primeiro livro que tem ali. Não consigo enxergar nada que está escrito ali devido à falta de iluminação, mas uso a sua capa dura como travesseiro e o apoio de baixo de minha cabeça. Deixo qualquer tipo de pensamento e preocupação para trás me afundando em um profundo sono, sem imaginar o que dentro de algum tempo estava prestes a acontecer.
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