My Little Dreams
5 Cap. V – Lembranças.
“ Nós somos estranhos, acho que por isso somos tão belos e não nos damos conta. É com estender um tapete de qualidade e diversificações que pode aos poucos mudar, prosseguir. Somos seres vivos, belos, mas acima de tudo, nós somos humanos. “
Sophie chegara à frente dos portões de sua casa, porém, enquanto observava a mesma distante e ao mesmo tempo perto, lembrava-se de como sua mãe a recebia. Sempre estendia os braços, chamando por seu nome, aconchegando-a em seus braços. Não entrou. Não vira motivos para fazê-lo, e não se dando conta continuou seu rumar pelas ruas, independente de onde essas pudessem lhe levar. Aquela noite não saia de sua cabeça, aquela noite em que tudo o que mais amava havia lhe sido tirado.
Aquela noite.
A casa estava agitada. Haviam muitos convidados para o jantar, afinal era uma data especial, era o aniversário de Sophie. A garotinha sorria vívida, serena, inocente. Sua mãe estava do seu lado no quarto da filha, arrumando a mesma para a festa. Haveria de ser uma linda noite e deveria ser tratada com cuidado em seus detalhes mais preciosos. As roupas da menininha concentravam-se em um vestido azul de renda, com pequenos detalhes brancos de borboletas. Não era nada exagerado, mas gracioso o bastante da maneira como gostava.
A mãe sorridente como sempre, terminou de amarrar os cabelos da filha, enquanto falava calmamente com ela.
- Assim, está bom. Você vai ter uma linda festa, minha pequena borboleta.
- Sim! – A garotinha sorria, era comum fazê-lo na presença da mãe que a apoiava sempre com dedicação e carinho.
As duas se olharam, mantendo no rosto o sorriso suave e gentil que parecia uni-las de alguma forma. Porém, Sophie logo se atirou nos braços da mãe, havia alguma necessidade em seu interior de fazê-lo. Surpresa, Madellaine fitou a filha por alguns instantes sem nada dizer, e logo ponderou nos lábios uma resposta que sempre acalmava a filha. Uma cantiga, a qual entoava sempre na hora de dormir.
- Oh pequena estrelinha, brilhe sempre até o fim... Não perca sua alegria, brilhe como um sol para mim...
Sophie escutando a cantiga começou a entoá-la com a mãe. Ambas pareciam estar dentro de um pequeno conto de fadas, o qual não teria um fim e talvez não precisasse de um “Felizes para sempre”.
- ... Seja apenas o meu adornar, que nunca há de se perder... Seja sempre a estrelinha, que me liga até você.
Enquanto cantavam, pensavam que estavam sempre seguras, conseguiam sentir isso. Era comum que mãe e filha estivessem unidas e mesmo aquelas que não estivessem sempre sentiam no fundo a necessidade de ter alguma afinidade com os filhos, mesmo que isso custasse algum preço.
Enquanto a garotinha fechava os olhos, pousou sua cabeça no colo da mãe. Estava bem daquela maneira, sempre esteve. Ali encontrava o porto seguro que qualquer criança pudesse almejar ter. Mesmo com os olhos fechados, aos poucos indagou a mãe.
- Você vai estar comigo sempre, mamãe?
- Sim, minha querida... Sempre! – Exclamou Madellaine, enquanto abraçava a filha carinhosamente.
Sophie, porém, pareceu um pouco triste. A expressão no rosto mudara de repente. Era como se tivesse sentido insegurança nas palavras de sua querida mãe, e com as mesmas novamente voltou a indagá-la, era preciso esclarecer suas dúvidas, afinal, criança são sempre assim, nunca desistem de algo que já tenham questionado.
- Mamãe... – A garota abriu os olhos, levantou aos poucos a cabeça, e fitou a mãe, enquanto continuava. – Papai se foi, não é? Mesmo que me prometa que vai ficar, um dia irá também, não é?
A mãe estacou por um momento. A pergunta lhe atordoara por alguns instantes, ainda mais vinda de sua filha. Era incomum uma criança perguntar algo do gênero, porém logo pôde encontrar palavras as quais aliviariam sua criança e poderia deixá-la confortada de uma maneira que não precisasse se preocupar com sigo.
- Papai teve de ir a um lugar, e por isso hoje não pode estar conosco. Mas, um dia poderemos encontrar com ele novamente, e ser uma família mais uma vez.
Adultos às vezes mentem. Acham que dessa forma podem proteger as pessoas as quais amam, e nunca precisaram arcar com as conseqüências de suas próprias palavras. Não fazem isso por maldade, mas sim por serem ingênuos, achando que no fundo, sempre poderão ter as pessoas que querem debaixo de suas asas. Assim são pais, involuntários e sempre indecifráveis. Era nisso o que Sophie pensava na frente do túmulo da mãe. O caminhar lhe levara justamente aquele local que tentava tanto esquecer. Não a visitava a pouco mais de dois anos. A mãe morrera quanto tinha seis anos, ficando aos cuidados de uma empregada a qual servira de ama quando criança. Esta há algum tempo estava viajando, resolvendo os negócios de sua família no exterior. Uma mulher bondosa, e sábia que sempre esteve presente como um membro na família da garota. Sentia sua falta nesses dias, mas não podia monopolizá-la enquanto tivesse assuntos a resolver.
Aos poucos, se agachou à frente do túmulo da mãe, recolhendo uma pequenina flor de pétalas amareladas, lutando para crescer ao lado do mesmo. Fora despetalando a mesma aos poucos, jogando-as sobre a lápide, com os seguintes dizeres:
Aqui Jaz Madellaine Lourence, 1980-2006
Encarou as palavras, fitando-as como um olhar triste. Não chorou, não queria mais fazê-lo. O vento fazia com que seus cabelos dançassem sobre o ar, enquanto as pétalas voavam para longe, sem rumo.
- Nada do que se vá, pode um dia voltar... Nada do que peças, pode se realizar. Tudo um dia tem de ir, e isso é algo que não se pode controlar.
Dizia, com a voz trêmula e tristonha. Ali perto, atrás de outra lápide, estava uma menina de cabelos loiros, longos e roupa colegial. Era a mesma que ajudara Sophie, porém desta vez cabisbaixa, apenas ouvia ao longe as palavras que a garota que ajudara lançava, como se as mesmas atingissem a si profundamente.
- De fato, nada retorna, nada pode voltar... Apenas, se pode caminhar pra frente, com os olhos vendados... Esperando que o mundo não lhe estremeça sob os pés. – Cessando as palavras, olhou para o céu, encoberto de nuvens. Ameaçava chover, e provavelmente seria uma chuva forte. Talvez esta, pudesse abençoar a terra de alguma maneira, levando a dor dos seres que a esperavam.
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