My Little Dreams
9 Cap. IX – Alguém dentro de mim – Parte II
Sophie aos poucos se afastou da porta, retirando calmamente suas roupas, logo andando novamente até o chuveiro, girando a pequena válvula, deixando que as gotículas de água quente invadissem cada parte de seu corpo. Abaixou a cabeça, apoiando os cotovelos na parede e fitando o chão, mais precisamente seus pés. Não havia nada de interessante neles, mas por detrás de seu olhar não havia nada, era como enxergar o nada. Aos poucos imagens foram surgindo em sua mente, estas as quais passavam como um pequeno trailer de filme, pronto para ser divulgado a qualquer pessoa.
Primeiro estava ela, caminhando sobre cadáveres e mais cadáveres, banhada em sangue e uma pequena arma na mão. As passadas calmas, o olhar vago, um cemitério ao vivo, mais precisamente de alunos de sua escola. No rosto um sorriso sádico que mesclava-se a uma expressão de raiva, de dor; um céu coberto por nuvens negras, e em sua frente Layla, correndo dela.
- Tsc...
Voltou a si, resmungando e esmurrando os azulejos da parede. Desligou o chuveiro e saindo do banheiro irritada. Não se importou com o fato de estar nua e possivelmente Layla aparecer e vê-la assim; Aos poucos caminhou sob mais um corredor, que provavelmente estava acima do outro, e no fim deste estava seu quarto com a porta apenas fechada. Não fora delicada dessa vez em simplesmente abrir calmamente a porta, mas sim dando um chute crucial na mesma. Quem a visse teria a leve idéia de uma revoltada.
Foi até uma escrivaninha onde abriu uma gaveta e pegou um estilete. Rapidamente começou a fazer cortes em seu braço todo, deixando o sangue jorrar e jorrar. Em sua face um ódio mortal pulsava, assim como as veias que jorravam sangue e mais sangue. Tremia, mas não de medo, e sim de fúria, consumia-se por dentro em plena raiva. Os braços agora estavam tremendo de uma maneira compulsiva a qual ela mesma não controlava. Fitou uma garrafa de álcool que estava logo do lado de um porta retratos, mesmo tremendo daquela maneira conseguiu pegá-lo. As feridas ardiam, mas começaram a arder ainda mais quando tentara abrir a tampa do frasco e conseguira, espalhando o líquido pelos mesmos. Como estava tremendo o líquido gélido acabava por respingar em seu corpo, no chão, na pequena escrivaninha, e sob alguns objetos acima dela.
- Hugh... Ah...
Não gritava, se recusava a fazê-lo, porém, não conseguia evitar que seus olhos ficassem completamente marejados. As lágrimas logo começaram a cair, assim como ela se lançava ao chão aos poucos, agora sim, gritando, se sacudindo de um lado a outro. Chutava o que conseguia, batia no que podia com a pouca força que ainda tinha nos braços completamente machucados e com as feridas expostas. Algumas paravam de sangrar por causa do álcool, outras ainda sangravam muito.
Layla estava na cozinha, terminando de preparar um simples miojo, afinal não teve idéia melhor do que fazer, simplesmente por que realmente não conseguia pensar na idéia da suposta empregada Beatrize chegando e lhe indagando o porquê de estar preparando a comida. E, mesmo sendo convidada da dona, era um tanto quanto estranha a idéia em sua mente. Ouvira os gritos e o som das coisas que estavam sendo chutadas por Sophie. Largou o que estava fazendo, correndo imediatamente para o andar de cima.
Sophie estava com as mãos na cabeça, chorava, gritava, se contorcia no chão como um louco tendo uma crise ou uma pessoa sendo atacada. Ouvia uma voz em sua cabeça da qual por este motivo estava comportando-se daquela maneira.
- Vamos, Sophie... Para quê negar o que você é?
- CHEGA... PARE COM ISSO, ME DEIXE EM PAZ!!!
- Hahahaha, Sophie, Sophie... Cedo ou tarde você sabe o que vai acontecer aquela garota, não sabe?
- CHEGA!
- Não adianta negar, assim como o que aconteceu no passado. Você ainda se lembra, não é?!
- VÁ EMBORA!
Layla chegou neste instante, abismada com o que estava vendo. Focou primeiramente os braços machucados, e depois o modo como Sophie estava agindo. Agachou-se perto dela, segurando-a. Sophie ainda gritava, estava em outro lugar, fora de seu quarto, e a sua frente outra Sophie, com um olhar maléfico, uma expressão diabólica no rosto.
- Não posso ir embora, Sophie, afinal quem me chamou aqui foi você.
- ME DEIXE EM PAZ, POR FAVOR!
- Deixar, não, é você que não consegue mais me deixar ir. Você se acostumou, acabou se apegando a mim, seu lado verdadeiro. Esta Layla, me indago de que maneira será que ela irá terminar... ?
- NÃO SE APROXIME DELA, SEU MONSTRO!
- HUAAHAHAHAA, monstro? Assim magoa meus sentimentos, Sophie, afinal eu sou você, e você sou eu. Não adianta negar o que nós duas fizemos juntas, não é?
- SAIA DAQUI!
- Sophie... Sophie!
Layla tentava de todas as maneiras sacudi-la, tentar fazer com que prestasse atenção em si, mas de nada adiantava. Até que decidiu finalmente, dera um murro no rosto da menina. Sophie caiu no chão, finalmente parecia ter voltado a si.
- V-você está bem?
Não respondeu, ficou mudar fitando a garota. O olhar profundo, analítico, brutal. Porém, logo este passou, transformando-se mais uma vez em um olhar perdido, de uma criança perdida. Jogara-se no colo de Layla, chorando de uma maneira desesperadora. A mesma não sabia como agir, como deveria agir. Apenas a abraçou, era a única coisa que pensara em fazer naquele momento. Não sabia como, não queria interpretar aquilo da maneira errada.
“ Todos dizem que a dor é algo completo, fortalecedor... Isso porquê não sabem o quanto se afugentam com ela presente dentro de cada ação. A dor de fora se cura, torna-se uma simples cicatriz, mas a de dentro fere mortalmente e mata, deixando um vazio insuperável. ”
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