My Little Dreams
3 Cap. III – Uma ilusão do acaso. Parte I
Eu acreditava em minhas lembranças, pensava que elas de fato eram reais em todos os momentos. Se pudesse entender o que significava viver de fato, aprenderia a lidar melhor com isso... O estranho momento de sua aparição mudou o que pensava e me fez saltar dentro de uma ilusão óptica da qual eu queria fugir. Se fosse fácil, eu entenderia que isso seria...
As aulas correram de maneira normal aquele dia. Alunos com suas brincadeiras e professores que dados momentos repreendiam-nos por suas travessuras ou mesmo pelos excessos que alguns cometiam. Para Sophie isso era o mesmo marasmo de sempre, a mesma coisa que ela queria poder não viver mais. Quantas vezes tentara suicidar-se sem conseguir, quantas vezes amarrou cordas no pescoço procurando enforcar-se ou mesmo apenas discutir com si própria que a vida de nada valia. Era complicada, triste, amargurada. Nunca teve amigos, ou mesmo conhecidos que pudesse conversar, simplesmente dizer o que estava sentindo, pensando, tentando fazer. Quando o sinal tocou, voltou o olhar para a saída, levantou-se e simplesmente continuou caminhando até chegar ao corredor, d’onde logo que os alunos a avistaram começaram a cochichar pelos cantos, esboçando risos e gargalhadas cruéis e sádicas referentes à sua pessoa.
- Lá vai a menininha de sangue... Coitadinha!
- Sim, sim! Olha, será que ela vai resolver menstruar pelo nariz dessa vez?
- HAHAHAHA! Vai lá, Pitel de sangue!
Todos continuavam com as piadas, todos o faziam sem se preocupar com o que estava sentindo. Apenas continuou caminhando, sem olhar para trás, de cabeça baixa segurando a pasta com seus cadernos. Procurava fechar os olhos, pelo menos boa parte do caminho que fazia pelo corredor. Quando se aproximou das escadas, sentiu que alguém mais uma vez naquele dia a empurrara, porém, desta vez não havia feito apenas um simples machucado em sua testa, mas sim havia quebrado seu braço e esfolado boa parte da coxa esquerda. As pessoas riam, alguns apenas se calavam e observavam Sophie contorcer-se de dor no chão. As lágrimas saíam sem prévia de cessar. Completamente desesperada, pediu ajuda, arfando em meios as palavras.
- Por... Favor... Por favor, me ajude... Por favor.
Ninguém parecia dar ouvido a ela, ninguém queria descer e simplesmente fazer algo por ela. Nunca soube exatamente porque todos a tratavam desta maneira, nunca tentou descobrir, afinal cálida e reservada procurava estar isolada das pessoas, do mundo que a cercava. Fora quando, porém uma menina de cabelos loiros, presos em um fino rabo que caía ao lado direito do ombro, olhos de um azul anil profundo e expressão delicada surgiu proferindo suas palavras.
- Engraçado como todos vocês são capazes de abandonar o que acham engraçado, dando valor apenas a imundice que chama de pessoas. Se fossem com vocês, estariam da mesma maneira, pedindo por socorro, clamando como insetos por misericórdia. Insetos deveriam pôr-se em seu lugar e continuar calados servindo a quem de direito lhes deve.
Aproximou-se rapidamente, saltando todos os degraus da escada e tocando o chão calmamente. Estremeceu um pouco com a queda, afinal saltara por pouco mais de nove degraus, mas conseguira ter uma queda sem problemas. Não se importou em ouvir nada mais daqueles que estavam ali, afinal todos se calaram se dispersando, simplesmente passando por ela e por Sophie como se preferissem ignorá-la.
- Deve estar doendo bastante, mas procure ficar calma, felizmente temos um corpo que é capaz de se curar.
Indignada, era apenas isso o que podia estar. Alguém finalmente se dirigira a ela sem fazer piadas, sem rotular seus passos ou condenar as suas atitudes. Não era possível, mas era real. A pergunta moldou-se instantaneamente nos lábios vermelhos, aos quais trêmulos indagavam a garota à frente.
- P-por quê?... Que motivos teria pra isso?
- Não se precisa de motivos, quando se quer ajudar alguém – Respondeu-a tranquilamente, com um sorriso calmo e pacífico moldado nos lábios rosados. – Agora, consegue se levantar? Precisamos cuidar desse seu braço.
- E-eu...
Calou-se, preferiu não responder quando a jovem agachou-se próxima a ela e simplesmente volvendo os braços sobre seus ombros, ajudou-a a ficar de pé. Aos poucos começaram a caminhar, sem pressa descendo com cuidado para que não piorassem o estado do braço machucado. Seria estranho não pensar, por quê aquilo estava acontecendo, mas sinceramente preferiu seguir sem perguntar, afinal tudo o que poderia estará fazendo não passaria de um mero favor.
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