My Kind of Love
9 Viagem do "casal maravilha" - Parte I
Notas iniciais
– Dá pra princesa desocupar o banheiro? O pai já tá chamando! – bufou ao ouvir um “relaxa” da irmã. Perdera as contas de quantas vezes ela dissera aquilo. – Ô Bianca, a gente vai se atrasar, cara!
– Pra quem não queria a viagem cê tá bem animadinha... – debochou a morena, saindo do banheiro.
– HÁ-HÁ-HÁ. Continuo não querendo, mas o seu Gael já me gritou umas mil vezes e se gritar mais uma, você não ver o sol nascer amanhã.
Assim como o sugerido, eles viajariam no dia da cidade. Dandara desde o início já tinha em mente qual seria o destino: praia de Ponta Negra, em Maricá. Um lugar legal e movimentado naquela época, também onde viveu bons momentos da sua adolescência e não ficava muito longe do Rio. Era simplesmente perfeito.
Gael já havia ajeitado tudo na escola de Karina, assim como Dandara na escola do filho. Ficara decidido que os meninos perderiam a aula de sexta, mas certificaram-se de que não teria nada muito importante. Como Bianca, além de estudar na Ribalta, trabalhava na academia, estava tudo certo.
******
– Bom dia.
– Opa, acho que eu não ouvi direito. A esquentadinha sendo educada?
– Vocês tão vendo, né? Depois quando eu sentar a mão na cara desse moleque, vão dizer que eu sou a bruta!
– Gente, não começa. –suplicou Dandara. — Olha que dia lindo, que solzão! Vamos, entrem no carro.
Pedro soltou beijo para a esquentadinha, que lhe deu língua.
– A janela é minha! – noticiou ele.
– Vai, crianção...
– É, mas pra outras coisas cê não me acha “crianção”, né?
– Mas, que diabo de conversa é essa? – perguntou Gael. — Tá vendo aquela academia ali? – mostrou para Pedro. – Não esquece quem é o dono dela.
– É sério isso, Gael?
– Ok, Dandara, foi mal. Bora logo, galera. O ideal é a gente chegar antes do almoço! –acomodou-se no banco do motorista.
Bianca se arrependeu de sentar entre Karina e Pedro, no instante em que o fez. Agora teria que aguentar o “casal” e suas intermináveis brigas.
[...]
– Deixa aí, deixa aí!!! – Pediu Pedro afobado para Gael, que tentava achar no rádio uma música que agradasse a todos, ou pelo menos a maioria, já que possuíam gostos diferentes. – NO, I DOOOON’T HAVE A GUUUUUUUUUN...– tocava uma guitarra imaginária.
– Socorro! Eu mereço, meu Deus!!! – reclamou Karina.
– UHUUUUUUUUL!!!
–Ô garoto, cala essa boca!
– Mas, tu é chata, viu esquentadinha? Fica quietinha aí...
– Desculpa Pedro, mas eu vou ter que concordar com a K. Que merda é essa?!? – comentou Bianca.
– Espera! Essa parte é boa. MEMORY, MEMOOOORY... AI, SUA LOUCA!
– E tem isso na música? – brincou Dandara com o filho, que recebera um pescotapa de Karina.
– Agora cê fica quieto! – fingiu “lixar” as unhas.
– Isso é Nirvana, sua sem cultura!
– Meu querido, eu conheço muito bem “Come as you are”. – rebateu. – Kurt Cobain deve tá é se revirando no túmulo uma hora dessas...
– KA-KA-KA. Isso foi tão engraçado que eu vou registrar e emoldurar para por no meu quarto!
[...]
Em mais ou menos uma hora, o carro de Gael estacionava em frente à casa, num condomínio fechado. Já estavam boquiabertos ao vê-la por fora, quando adentraram as reações só se intensificaram:
– CARALH...Quer dizer, nossa!!! – corrigiu-se Pedro.
– Eu também tô maravilhada, Pedrinho! Não imaginei que fosse tão bonita assim...
– Bonita e grande, né? É bem maior que lá em casa! – Karina disse empolgada. Um caso de se estranhar, considerando o seu tão conhecido mau humor matinal.
– Já amei essa viagem! – Bianca bateu palmas, empolgada. – Vou tirar altas selfies!
– E o Ed reclamando porque não tem piscina...Até parece que isso é relevante, com uma casa tão linda dessa!
– Quem é esse Ed, mãe?
– É o Edgar, Pedrinho. Lá da Ribalta, eu falei pra você!
– Ah...Falou? – juntou as sobrancelhas, confuso.
– Mas, não presta atenção em nada do que eu digo! – fingiu estar chateada.
Edgar havia comentado sobre sua casa de veraneio diversas vezes. Dandara não pensou em outra pessoa, que não ele, para ajuda-la na “viagem em família”. E de certo, ele ajudou, mas não antes de dar boas gargalhadas com a iniciativa da amiga. Por Bianca e ela poderia até dar certo, mas os outros três não colaborariam muito para o sucesso daquele encontro. Sim, o próprio Gael estava incluso, por seu gênio forte.
– Olha, gente, pelo o que ele me disse tem quatro quartos. Mas, um tá ocupado agora com coisas velhas, por causa da reforma recente na casa. Então em um eu fico com o Gael, no outro o Pedrinho e vocês podem dividir o terceiro, tudo bem meninas? – Assentiram.
[...]
Logo todos começaram a retirar as coisas do carro e coloca-las em seus devidos lugares. Por último, ficaram as malas e outros utensílios pessoais, que por sugestão de Gael, os meninos levaram para a parte superior. Separaram o maior, dentre os três quartos, para Dandara e o dono da academia. E o que preenchia o lugar naquele exato momento eram as vozes alteradas do guitarrista e sua “medusa inspiradora”:
– Você vai deixar isso, Bianca? – perguntou indignada.
– Menos tá, ô maluca! Não tenho culpa se você perdeu!
– Não tenho culpa por você ser um trapaceiro e ficar com o maior quarto! – rebateu a filha mais nova de Gael.
– Quem disse que eu trapaceei? Você que pediu pra gente tirar no par ou ímpar. Eu pedi ímpar e cinco, pelo que eu me lembre é...? – colocou a mão no ouvido, como se esperasse por uma resposta dela.
– IMBECIL!
– Bom, não era exatamente essa a resposta, mas tá valendo... — sorriu, provocando-a.
– Pedro, você bem que podia ser um cavalheiro e ceder o maior quarto pra gente. Até porque vamos dividir, né?
– Cavalheiro? Esse aí, Bianca? – gargalhou.
– Por você eu até cederia, Bianquinha, mas não vou deixar esse projeto do demo ficar com o gosto da vitória não!
– Ok, então vamos resolver isso seriamente.
[...]
– Tá me zoando, né Bia?
– Não, K. Isso é sério...Tá, foi a melhor coisa que eu pensei no momento. – disse, após eles terminarem de tirar no palitinho. Para a raiva de Karina, Pedro venceu.
– Vai dizer que eu trapaceei de novo? – debochou.
– Vai à merda. – seguiu pelo corredor – ENCOSTO!
– TAMBÉM TE AMO! – gritou para a loira, fazendo com que os olhos de Bianca brilhassem.
– É sério isso, Pedro?
– Ih, as aulas do “Ed”- fez aspas com as mãos. – estão te afetando demais! Tô só zoando a sua irmã, Bia. Só isso... – entrou no quarto.
– Só isso... – sussurrou Bianca, com um sorriso sapeca no rosto.
[...]
Bianca desceu as escadas, indo avidamente para a cozinha, de onde emanava um cheiro maravilhoso. Lá encontrou Dandara provando o conteúdo de uma das panelas:
– Huuum, que cheiro é esse? E eu pensando que fosse sofrer sem o tempero da Bete... – sorriu.
– Tô fazendo um estrogonofe de camarão, com um segredinho especial de família. Espero que não seja tão inferior ao da Bete. – tampou a panela, recostando-se ao balcão. Bia sentou-se de frente para ela. – Vê se tá bom... – entregou a colher para ela provar – O Pedrinho adora esse prato, sempre repete.
– Tá uma delícia! O Pedro é um sortudo. – riram. – Eu queria que a minha mãe estivesse viva. Penso em como seria tudo...Ela me incentivando a ser atriz, ou então me pedindo para experimentar suas receitas, exatamente como você tá fazendo agora. – sorriu triste e Dandara acariciou seu rosto.
– Fica assim não, princesa. Eu também perdi a minha mãe bem cedo, deveria ter mais ou menos a sua idade. Olha, eu não convivi com a Ana, mas pelo que ouço, sei que ela era uma pessoa maravilhosa e sei também que ela não ia querer te ver tristinha. – riu fraco.
– Você tá certa, eu preciso ser forte pela K. Por mais que ela finja que tá tudo bem, sei que ela sofre muito com isso.
– Com certeza! Ela puxou ao Gael nesse jeitão sério, fechado...
– Aí quem sofre é o Pedro, né? – gargalharam. – Ô Danda, cê não acha que a K e o Pedro... – gesticulou com as mãos, dando a entender que eles poderiam ter algo.
– Aqueles dois? Não mesmo, Bia. Quer dizer...Acho quase impossível!
******
Jogada sobre a cama, Karina ouviu o soar do seu aparelho telefônico. Imediatamente sorriu, ao ver que Mari e Jeff a chamavam num grupo que eles criaram no Whatsapp:
“NÃO É A MAMÃE ”
(n/a: esse é um bordão do personagem "Baby" da Família Dinossauro.)
Jeff: Ainda viva?
Karina: Eu sim, mas vou acabar matando alguém até o fim dessa viagem!!! ¬¬
Mari: Alguém = Pedro
Hihi >.
Karina: :@
Jeff: Ah, mas aí se for o Pedro ela realmente mata...DE AMOR, né? Uaahsaushsahas
Karina: FILHO DE UMA #*@ _l_
Mari: Pxii...É melhor a gente ficar quieto, senão ela aplica uns golpes de muay thai na gente, Jeff! #dangerous :S
Karina: É sério que vocês vão ficar me zoando com esse garoto?
Jeff: Ok. Falo mais nada...(por enquanto ;p ) Só acho que vocês estão perdendo tempo, sendo que todo mundo, TO-DO mundo mesmo, sabe que se gostam... -.-
Karina: Engraçado cê falar isso, né Bibou?
Karina dera esse apelido ao bailarino, por considera-lo fofo como o “mascote” da Barbie. Não que ela perdesse tempo assistindo... Esse era só mais um dos efeitos de dividir quarto com Bianca.
Jeff: :X
Mari: Acho que tô bugada aqui...Alguém me explica, please! (????)
Jeff: Nada não, Mari, esquece.
Karina: É, projeto de Paula Fernandes, esquece...
Jeff: Vou ter que sair, meu pai tá chamando.
Mari: Beijos, Jeff >.< ♥
Jeff: Beijos, Mari s2 *-*
Karina revirou os olhos. Até quando eles continuariam com aquilo? Jeff era um hipócrita, isso sim! Falava dela, mas não tomava iniciativa com Mari. Não que ela quisesse tomar iniciativa com Pedro, de jeito nenhum, longe disso! Repreendeu os próprios pensamentos, refletindo novamente sobre a situação dos melhores amigos:
– Depois reclamam de mim...
– Falando sozinha, K?
– Pensando alto, Bia. – A mais velha sorriu pra ela, apanhando o carregador de seu notebook e saindo em sequência.
Minutos depois, Karina secava o cabelo recém-lavado, assustando-se com a figura do roqueiro, que a encarava da porta.
– Quer me matar, é??? – questionou com a mão no peito, controlando sua respiração.
– Jamais! – sorriu torto, erguendo os braços. – Eu só vim avisar que o almoço tá na mesa.
– Ah...Tá, valeu.- sorriu desconcertada, pela forma na qual ele a olhava, antes de se retirar.
A verdade era que Pedro estava encantado. Era engraçado ver os esforços que as outras garotas faziam em prol da aparência, enquanto Karina, mesmo em total desleixo, as superava facilmente por tamanha beleza.
[...]
Todos enchiam o prato com o estrogonofe de Dandara. Ela, com certeza, tinha a aprovação geral, principalmente de Pedro, que estava partindo para o “segundo tempo”:
– Eu não disse, Bia? Lá em casa nunca sobra comida para o dia seguinte! – riram com a citação de Dandara.
– Cuidado, viu moleque? Cuidado pra não explodir... – brincou Karina.
– Que nada...Tô no ponto! – piscou para a garota, passando a mão pelo peitoral. Ela sorriu discretamente.
O guitarrista preparava-se para mais uma garfada, quando seu celular tocou:
– Fala, Jhonny.
A professora da Ribalta repreendeu-o. Achava falta de etiqueta atender o celular estando à mesa. Pedro levantou, recostando-se na pia, que dava de frente para onde almoçavam.
– Você tá é com um caso sério de carência, isso sim! O quê? A Pri? – imediatamente Karina voltou-se para a conversa. – Ah, não vai dar não, cara. Sei lá, eu acho melhor a gente ficar só na amizade mesmo.
A lutadora sorriu, recriminou-se por isso, mas não deixou de fazê-lo. Nem precisava ser um gênio para entender do que se tratava a conversa. Não seria daquela vez que a atirada da Priscila conquistaria seu alvo, pensava ela.
Mesmo após o término da refeição, eles ainda batiam papo na mesa. Dandara, com a ajuda do pessoal, ajeitou a louça, comunicando em seguida que tiraria um cochilo, junto com Gael e aproveitou para aconselhar os meninos a darem uma volta pra conhecer o condomínio.
******
A sensação de leveza, do vento desarrumando o seu cabelo, era esplendorosa para Karina. Passara tanto tempo sem ir à praia, que acabara esquecendo do quanto aquilo era bom. Pedro conversava com Bianca sobre a Ribalta, quando reparou no silêncio da loira. Até pensou em provoca-la, mas mudou de ideia.
Procurando o caminho do quiosque, depararam-se com uma garota de cabelos cacheados, passando a mão no joelho machucado:
– Oi, tá tudo bem? O que foi que houve? – perguntou Bia.
– Não, tá tudo bem sim. – sorriu. – Eu tropecei e acabei ralando o joelho, mas não foi nada demais. Vocês são novos, né? Nunca vi por aqui... – assentiram.
– Aham. Chegamos hoje, mas só vamos passar uns três dias. – disse Pedro.
– Vem cá, cê tá sozinha? – questionou Karina.
– Não, quer dizer, mais ou menos. Meu pai trabalha aqui no condomínio, ele é domador de cavalos, aí foi ali na casa da síndica. Ah...- deu um tapa na própria testa. – Meu nome é Antônia, mas podem me chamar de Tomtom.
– E eu sou Pedro, ela é a Bianca e a daqui...- apontou pra Karina com um sorriso torto. – É a esquen...
– KARINA – interrompeu, olhando feio para o menino.
– É, mas não mexe muito com ela não, que é capaz dela virar um bicho pra cima de você. Uma “fera braba”! – cutucou as costelas da menina, que acabou sorrindo. Cócegas eram o seu ponto fraco, especialmente ali.
– É muito amor, meu Deus... – sussurrou Bianca.
– Ah, vocês namoram? Legal...- deduziu Tomtom.
– Aham, claro. — Brincou Pedro, abraçando Karina por trás, que desvencilhou-se de imediato.
– Não, de jeito nenhum! – respondeu completamente sem graça. – Éé...A gente não ia pro quiosque? Vamos, né? Pra não ficar tarde.
– Vamos! Vem com a gente Tomtom, é bom que nos conhecemos melhor e você ainda ajuda a gente a achar o lugar. – sugeriu Bianca.
– Claro, vou aqui falar com meu pai.
Eles, assim como a maioria dos adolescentes, não tinham o hábito de conversar com crianças, mas além de não terem ideia de como chegar aos lugares ali, a menina era encantadora e parecia até “avançada” com relação às outras, por sua aparente esperteza. Logo, Tomtom estava de volta e eles prosseguiram.
– Mas, e a sua mãe? – perguntou Pedro para a garota.
– Ah, ela não tá mais com a gente...
– Ai meu Deus... e-eu.. eu sinto muito, Tomtom.
Ela gargalhou.
– Não, ela não morreu. Só que meus pais se separaram, aí minha mãe trabalha aqui perto e alugou uma casa fora do condomínio. Então eu fico divida, às vezes passo a semana com um, depois com o outro...
– Entendi.
– Ali que fica o quiosque, gente. Tão vendo? É bem pertinho... – apontou para o lugar, que dava para a praia.
– Uhuuul, que irado!!! Já imagino a minha banda fazendo um show aqui!
– Que banda? Pedro e os fantasmas? – ironizou Karina.
– Não tem uma série com um nome parecido? – piscou Bia, confusa. – Acho que é com uma garota, sei lá, Juno, Juci...- deu de ombros.
– Quando eu for famoso e vocês tiverem implorando pra entrar no camarim, vou pedir para os seguranças barrarem. – fez biquinho e as meninas riram. Karina, além disso, revirou os olhos, era sua mania. Uma mania irreparável. – Olha o tio do sorvete ali. Meu dinheiro só dá pra dois! Bom, como vocês duas só zoam com a minha cara, eu vou comprar um pra mim e outro pra Tomtom!
– Não precisa...
– Precisa sim, vamos.– saiu em disparada com ela.
– Quando digo que parece uma criança... –sorriu Karina, comentando com a irmã, enquanto se direcionavam para a areia da praia. Tiraram as sandálias, sentando em cima das mesmas.
A filha caçula de Gael observava admirada o comportamento de Pedro. Sua simplicidade e até mesmo o jeito brincalhão. Naquele momento, por exemplo, fazia Tomtom quase se contorcer de dar risada com suas maluquices, enquanto mantinha uma conversa animada com o vendedor de sorvete.
– O Pedro é maluco...- sorriu Bia. – Ainda não entendo como vocês se afastaram tanto.
Karina desviou o olhar, mexendo na areia com um pequeno graveto.
Pouco tempo depois da morte do marido, Dandara resolveu vender sua casa e ir com Pedro para outro bairro, onde vive até hoje. Não havia sentido morar num lugar, feito sob os planos e sonhos dela com o pai do menino. Planos que lhe foram arrancados, sem mais nem menos. Foi lá no Catete que desenvolveu a amizade com Nando e pode contar não só com o apoio dele, mas como o de Renê, que também morava ali perto. A vida deles aos poucos foi se ajeitando. Dandara arranjou emprego na Ribalta e fazia de tudo para que o filho vivesse sua infância, tentando amenizar um pouco o trauma da perda. De fato, Pedro tivera os melhores momentos da sua vida ali. Criara um forte vínculo com Karina, que assim como ele, saia para brincar todos os dias, junto com outras crianças. João morava em outra rua, por isso não era tão próximo à esquentadinha, que era apenas um ano mais nova que os dois. Bianca não era tão ligada a eles, por possuir grupos de amigos diferentes. A fama de “destruírem” a rua nunca era desassociada de Pedro e Karina, que só davam dor de cabeça a Gael, Dandara e os vizinhos. Com os anos, Pedro foi ficando cada vez mais bonito e chamava atenção, inclusive da esquentadinha, que desenvolvera uma “paixonite” temporária pelo garoto, mas ele mudara muito. Sua preocupação passava a ser as saídas com os meninos e as tentativas de pegar várias garotas. Karina, cada vez mais fechada pelo que houve com a mãe e falta de atenção do pai, nunca fizera com que ele a olhasse de outra forma, senão como uma grande amiga. Após Pedro,na época com seus 15 anos, mudar de escola, as coisas só pioraram, já que ele possuía novos interesses. Como eles, por fim, se afastaram? Karina não saberia responder definitivamente. Foi algo gradativo...Quando viu eles já nem se falavam direito.
Agora, com as aulas na Ribalta, se viam quase todos os dias e o menino nunca perdia a oportunidade de irritá-la. Para ele já era como um hobby e também uma tentativa de reaproximação. Sentia muito a falta da sua “menina maluquinha”.
– K? Tá me ouvindo? Responde.
– Ah, foi mal, Bia... Sei lá, a gente só se afastou. Não tem uma explicação exata.
O menino voltou correndo, junto com Tomtom. Haviam apostado corrida.
– HÁ, ganhei!!!
– Ah, não vale, Pedro. Você saiu antes do tempo!
– Ih...Mais uma que não aceita perder. – olhou para Karina.
– Calado, bebezão! – debochou Karina, mostrando para Pedro que ele estava todo sujo de sorvete.
– Até parece que isso nunca aconteceu com você... – disse emburrado.
– Já aconteceu...Uns 4 anos atrás! – todos riram. – Vamos pra casa? Tô com fome!
– Pra variar, né? – zoou Bianca.
– E eu é que vou explodir...
– Ah, cala a boca, Pedro! – deu um leve tapa no garoto, sorrindo.
Depois que deixaram Tomtom com o pai, foram para casa. Karina e Bianca subiram as escadas correndo, literalmente, na disputa pelo banheiro. Dandara, não pode deixar de perguntar o porquê de o filho estar com a camisa toda lambuzada e ele explicou com detalhes, inclusive do quanto Karina debochou dele o caminho todo.
– Foi mesmo? Hum...A “esquentadinha”... Não é assim que cê chama? – arqueou as sobrancelhas, sorrindo maliciosa.
– Ih...Até você, Dona Dandara? – ela lhe fez cócegas.
– Vai tomar um banho que você tá podre! Bebezão...
– A Karina tava me chamando as...Ah, mãe, fala sério! – reclamou com Dandara, que fez a mesma expressão maliciosa de antes. Mas pudera... De 10 coisas que falava, 9 tinham a ver com a lutadora. Desistiu da conversa, indo para o banho.
[...]
À noite, Bianca deu a ideia de jogarem baralho. Após um tempo discutindo qual jogo seria, decidiram jogar Kemps, no qual, eram formadas duplas e cada uma delas precisaria ter um sinal para quando um formasse quatro cartas iguais, usá-lo e gritar “Kemps”. Se a dupla adversária percebesse gritava “corta”. Como o jogo era formado por pares, Dandara decidiu que jogaria na próxima rodada, entrando no lugar do perdedor.
Na divisão das duplas, Bianca não pode deixar de gargalhar com o destino, cada vez mais dando uma de cupido:
– Eitaa, nós dois, esquentadinha! – sorriu Pedro. – Desmancha essa cara aí e vamos criar nosso sinal.
– SOCORRO, JESUS!!! – gritou, enquanto era puxada pelo garoto.
[...]
– CORTA!!! – gritou Bianca, ao suspeitar que Karina havia juntado as quatro cartas iguais.
– QUE DROGA, PEDRO! – Karina jogou as cartas em cima do garoto. – Eu me matei de fazer o sinal e você aí com essa lerdeza!
– Fez? Mas, o sinal não era aquele de coçar o nariz?
– Claro que não! A gente ia fazer esse, mas mudou de ideia e o sinal ficou sendo aquele de mexer nas cartas, seu idiota!
– Pô, não precisa xingar também, né? Magoou. – fechou a cara, enquanto Gael e Bianca comemoravam a vitória.
– Uma rodada de água gelada por minha conta. – brincou Gael. — E aí, quem sai para a Dandara jogar?
– Eu saio! – disse Karina. – Boa sorte, Dandara...Você vai precisar! – debochou, olhando para Pedro, que lhe deu língua. – Jumento! – disse fazendo o mesmo.
******
Desistiu de dormir, após revirar-se diversas vezes na cama. Olhou para Bianca, que mantinha um sono pesado. Olhando para o celular, viu que daria uma hora da manhã. Decidiu levantar, saindo cuidadosamente do quarto. Passando pelo corredor, ouviu barulhos e pode perceber uma fresta de luz, vinda do quarto onde Pedro se instalara.
Pensava e repensava se deveria entrar ali, mas antes de chegar a uma conclusão, foi tomada pelo susto, com a abertura repentina da porta.
– Tá fazendo o que aqui? – perguntou para a menina, que havia prendido um grito.
– Eu tava sem sono, aí quando passei por aqui vi a luz acesa...E você? – tentava não olhar para frente, já que o roqueiro encontrava-se sem camisa, desconcentrando-a.
– Tô sem sono também... Entra aí, eu vou beber água e já volto. – Ele pareceu adivinhar o que se passava pela cabeça dela, revirando os olhos. – Relaxa, não tô fazendo nenhum convite indecente não. Sério, entra aí, procura alguma coisa na TV e a gente assiste. Pelo menos até o sono chegar. –sorriu.
– Tá... – cruzou a porta, após assisti-lo ir à cozinha.
Na volta, Pedro encontrou a esquentadinha sentada na cama, rindo copiosamente de algo que passava.
– Filme?
– Não, é uma série, mas não sei se é seu estilo não. Se não for... – deu de ombros. — de qualquer forma você vai assistir, porque sou eu que decido! – brincou.
– HAHA, esquentadinha E engraçadinha você, né? Posso saber pelo menos qual é o nome da série que foi escolhida de forma bastante democrática? – ironizou.
– Awkward. Agora fica quietinho aí que tá passando maratona de episódios.
Uns dois episódios depois daquele e Pedro já havia simpatizado pela série. A esquentadinha até que tinha bom gosto, pensava. Porém, o que mais lhe roubava a atenção era vê-la sorrindo, gargalhando. Ela quase não fazia aquilo, mas quando fazia... ele rezava para que não cessasse nunca. Ela havia conseguido a proeza de ficar mais bonita do que já era.
– E aí, gostou? – perguntou ao fim da exibição.
–É razoável.
– Ai, deixa de ser mala, moleque! – fechou a cara.
– Brincadeira, eu gostei sim.
Ela sentiu seu braço entrar em contato com um objeto. Era um caderno:
– Desde quando você virou nerd?
– Esse aí não é meu caderno da escola, é um caderno de composições.
Ela estreitou os olhos.
– Pode abrir, eu sei que você tá curiosa, esquentadinha...
– Eu não! – cruzou os braços, fazendo-o rir.
– Só tem pouca coisa escrita. Escrevo apenas quando tenho inspiração.
– Já imagino a inspiração... O bumbum das meninas da Ribalta, o estranho fato do sol desaparecer a noite e do gelo ser frio... – debochou.
– Não. Eu só escrevo sobre aquilo que realmente me chama atenção. – encarou-a. – Sobre quem – frisou – me chama atenção. – aproximou-se, olhando para os lábios da garota, que pela primeira vez não pensava em criar mais uma briguinha para descontrair, ou na sua falta de sono.
Não pensava em nada. A não ser nas vezes em que seus lábios se tocaram.
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