My Kind of Love
10 Viagem do "casal maravilha" - Parte II
Notas iniciais
Karina estava em conflito consigo mesma. Não reconhecia a si própria quando estava perto do garoto. Vê-lo daquele jeito, sem camisa, com a franja caindo no rosto, tão perto...Aflorava nela sentimentos desprovidos de explicação. Antes que sua mente entrasse em curto, resolveu abandonar o cômodo, eliminando qualquer tentativa de beijo.
Chegou a seu quarto com o coração saltando freneticamente em sua caixa do peito. Antes, havia levantado por não conseguir dormir. Agora, estava mais difícil ainda pregar os olhos. Quando o fazia, repentinamente, surgia a imagem de Pedro.
No dia seguinte, Karina percebeu os raios de sol invadindo o espaço, então fechou fortemente os olhos, puxando o cobertor para si. Ouviu ao fundo alguém a chamando, deveria ser algum tipo de alucinação, pensou sonolenta.
– ACORDEM!!!! – deu um salto da cama, assustada.
Gael batucava em uma panela, de meias e short de dormir.
– Para, pai... – resmungou Bianca.
– Você tá lindo assim... – debochou Karina, indo para o banheiro. – Ah, não, não acredito! – voltou, indignada. – 5 horas da manhã? É sério isso?
– Deixa de ser resmungona, Karina! E você, Dona Bianca – puxou suas cobertas. –acorda! A gente vai à praia, todo mundo junto. – empolgou-se.
– Essa é a parte em que eu fico animada?
– Ah Karina, não amola...Anda, anda. – fez cócegas, arrastando-a para a cozinha.
Todos se reuniram para tomar café e quando o fizeram, prepararam—se para a praia, exceto Karina, que iria de roupa habitual. Bianca só faltava arrancar os cabelos de nervoso, por não gostar da forma como o biquíni ficara nela, além da indecisão absurda quanto aos outros. Cor, estampa, modelo...era informação demais para uma perfeccionista, que ainda estava morrendo de sono.
******
O sol estava bem forte, fazendo com que as pessoas saíssem de suas casas e tornassem a praia lotada. Dandara estendeu a canga sobre a areia, enquanto Gael ajeitava o sombreiro. Pedro sentou bem ao lado da esquentadinha, que fechou a cara ao vê-lo babando por uma moça em trajes de banho. Ela assistia as crianças brincando na água e recebeu um aceno de Gael, que após gabar-se pela armação impecável do sombreiro, juntou-se a elas no mar.
Permanecia distraída, quando algo acertou-lhe a barriga:
– Pô, foi mal... – um rapaz alto, de porte atlético, direcionou-se a ela.
– Não, tudo bem.
– Nossa...Se toda vez que eu perder uma bola de frescobol for encontrar uma gatinha como você, faço questão de acabar meu estoque.
– Hum...Interessante. – a loira sorriu encantadora.- Não vou ficar com você! – voltou a ficar séria.
Pedro explodiu em gargalhadas, enquanto o rapaz, sem graça, voltava para o seu jogo.
– Tá rindo de quê?
– Ué, do fora que você deu! Que cara idiota...Nunca que aquela cantada ridícula iria funcionar!
– Ah e as suas cantadas de boteco de beira de esquina é que funcionariam, né?
– Com certeza! O importante é a lábia, o charme...e isso o Pedrinho aqui tem de sobra! Pra dar, vender e emprestar... Nesse caso pro amigo ali – apontou para o rapaz. – Queria que o Gael tivesse aqui...Idiota!
– Nossa, mas que cheiro é esse? Parece com...Deixa eu ver...Inveja! – debochou a lutadora.
– Inveja do que?
– É, realmente, do que? Porque, claro, não deve ser dos olhos lindos, do corpo definido, o cabelo perfeito...
– Ah, se ele é isso tudo vai atrás dele então! – levantou estressado, indo para o mar.
Bianca e Dandara se entreolharam. A irmã da menina apenas confirmara suas suspeitas, já a última, encarava Bianca num misto de espanto e confusão.
– Por que vocês tão me olhando desse jeito? Eu ,hein? – colocara-se de pé, com expressão irritada. – Dá aí o dinheiro que o pai deixou, pra eu comprar uma água de coco.
– Toma, gatinha do cara da praia.
– Tenha dó, Bianca! Tenha dó! – saiu.
– Quê que foi isso, Bia?
– Olha só o que eu tô falando, Danda, esses dois se gostam! Você mesma viu, o Pedro acabou de demonstrar ciúmes. É só uma questão de tempo, você vai ver...
******
Dandara puxava assuntos aleatórios no caminho de volta. Pedro mantivera-se quieto desde que saíra da praia. Karina, ingênua, achava que ele estava assim por conta de sua provocação. “É, definitivamente, atingir/comparar/questionar um homem acerca de sua masculinidade, está num alto patamar junto com a regrinha do “não chamar uma mulher de gorda, mesmo ela não cabendo mais no sofá de dois lugares”: fora de cogitação! “Pensava.
Já Gael estava mais atordoado do que nunca. Mas, quem se arriscaria a contar que um cara numa micro sunga, dera em cima de sua filha caçula? E o pior: Que Pedro incomodara-se tanto com aquilo ao ponto de conseguir ficar calado por mais de 10 minutos (algo incomum, vale ressaltar.) ?
– Ei!
Viraram-se com o chamado: Tomtom.
– E aí, pequena?
– Oi, Bia.
– Não vai à praia? Tá cheia, inclusive de meninas da sua idade e fora o solzão bom que está fazendo!
– Eu só vou poder ir mais tarde, K. Tá tão boa assim a praia? – sorriu.
– Ô, se tá, hein?!!?! – Bianca cutucou a irmã, dando uma piscadela.
Pedro bufou, chutando um graveto.
– Oi, Pê. Nem falou comigo...#chateada – formou uma hastag (#) com os dedos, chamando a atenção do garoto.
– Pô, foi mal aí, Tomtom... – bagunçou o cabelo dela, que sorriu.
Após apresentarem o “casal maravilha” (como Karina, ironicamente, apelidara) à menina, foram para casa. Dandara já havia feito o almoço com antecedência, agora punha a mesa, enquanto a comida era reaquecida.
[...]
– Depois passa um pano no banheiro que você encharcou tudo, D. Karina! – desembaraçava o cabelo, ao passo que a irmã mais nova procurava um short para vestir.
– Ok, Hitler! – estranhou o silêncio da morena. – Ih, não vai revidar não? – novamente, nenhuma resposta. – Ah, Bianca, quê que foi? Eu vou limpar o banheiro, pô! Só que eu...
– Não, K. Nada a ver...Eu não tô assim por causa de um banheiro. – entregou o celular para Karina, que olhou-a compreensiva.
Duca puxava conversa com a garota insistentemente. O aparelho telefônico estava cheio de mensagens.
– Tá aí pensando se responde ou não, né? – Bianca estava com uma expressão indefinida no rosto. – Ó, acabou de chegar mais uma! Dessa vez ele colocou “I miss you” (n/a: “sinto sua falta” ~pegada google tradutor. Like a boss~ u.u – mentira, gente, não peguei do GT não, plmdds. haha) e uma carinha fofa também.
– SÉRIO??? – sorriu encantada. – Ah, quer saber? Apaga tudo! Ele que se...que se...Exploda! É, ele que se exploda, pra eu não falar outra coisa!
– Isso mesmo. É feio uma mocinha com a boca suja! Campanha “Sem xingamentos”.
– Há, mas olha quem fala, né?
– Chata! – deu língua. – Mas, voltando ao assunto, Bia...Olha, se você quiser seu posso dar um jeito nisso.
– NÃO!!! – Karina arregalou os olhos com o susto.
– Agradeço a iniciativa, mas deixa que eu resolvo! Você com essa delicadeza toda vai traumatizar o menino.
– Essa é a intenção... – fez cara de mulher misteriosa feat. serial killer, esgueirando-se para fora do quarto.
– Vai...MALUCA! – riu, resolvendo, por fim, ignorar as mensagens do neto de D. Dalva.
******
– Pedrinho, guarda a sobremesa no congelador, enquanto eu termino?
– Ai, essa mãe vive me explorando, meu Deus!
– Ah, é? Então vem cá lavar essa louça toda, se tá achando ruim!
O garoto riu, dando um beijo na testa da mãe.
– Eu disse que ajudava, mas você recusou, Dandara. – pronunciou Karina, entrando na cozinha.
– É que, na verdade, eu vou precisar de um favor de vocês. Gael tá ajeitando um vazamento no banheiro dos fundos e eu tenho que arrumar a casa, então preciso que vocês vão àquele mercado perto da entrada do condomínio. Sabe? – Pedro assentiu. – Ótimo. Vou fazer aqui a listinha do que vocês têm que pegar.
– Pera aí, mãe. – o guitarrista barrou-a. – Isso não é nenhuma desculpa pra senhora ficar sozinha com o lutador não, né?
– Ah, me poupe, Pedrinho!
Karina balançou a cabeça.
– “O lutador” não vai fazer nada que a sua mãe não queira!
– Ei, gente. Eu tô aqui, tá? E chega dessa conversa! Vocês vão ou não?
– Opa, vão pra onde?
– Para uma fantástica aventura, recheada com altas confusões, num mercadinho do barulho! – respondeu Pedro à Bianca, numa imitação fajuta.
– Ô, narrador da sessão da tarde, bora logo antes que o sol fique mais forte! Vamos, Bia.
– Ah, é...É que...É...O meu estômago! O meu estômago não tá muito legal, K.
– O que não tá legal aqui é a sua cara de pau, Bianca! Assume logo que você não quer ir só pra não carregar peso.
“Na verdade, eu não quero ir por que vocês são uns cabeças-duras, que se gostam e ficam procurando chiada! “
É claro que ela não falou isso.
Mas, foi o que imediatamente passou pela sua cabeça.
– Sério, eu não tô bem.
– Ah, então tá, né? Vamos, Pedro. Melhoras aê, Bia.
Esta, sorriu admirada com seu potencial de atuação. Pelo visto, escolhera a profissão certa.
Dandara, sem assimilar as coisas, voltou aos seus afazeres.
******
– Tem certeza que é por aqui?
– Quieta, esquentadinha. Eu sei o que eu tô fazendo...O céu é o limite!!! – correu, alcançando o galho de uma árvore com um salto.
– Olha o que você tá me arrumando, moleque! Não esquece que eu sei lutar, ok?
– Ok, Hazel Grace. Aliás, como eu poderia esquecer, né? – passou a mão no rosto. Karina gargalhou lembrando-se do episódio.
Uma vez, durante mais uma centena de provocações, a garota havia desafiado o roqueiro, que acabou indo parar no ringue.
(Flashback)
– Vem, Pedro. Você não se garante? – corria atrás dele.
– Sai! Sai daqui!
– Ô garoto, como a gente vai lutar com você fugindo de mim?
– Você não quer lutar, você quer é me matar!
Nesse instante a lutadora não conteve a gargalhada e acabou contagiando-o.
– É isso mesmo? Karina Duarte tá rindo? — a loira resmungou algo ininteligível. — Nem lembro qual foi a última vez que te vi gargalhar assim. – ela ficou sem graça, voltando a rodar em círculos, atrás dele.
– Para com isso, Karina. Eu já estou ficando cansado sem nem lutar...OPA!
Tropeçou fazendo com que ela, sem querer, caísse por cima.
– Por que tá me olhando desse jeito?
– É que...O lugar onde você tá sentada...Ah, esquentadinha... – sorriu safado para a menina, que então notou estar visitando os “países baixos” de Pedro.
– Idiota!
– Pode continuar aí se quiser...
O único som emitido foi o do tapa, que dera nele.
– Ai, meu pai!
(Flashback off)
– IÔU...Espera aí!!! Você tinha citado “A culpa é das estrelas”?
– Ih, é só por causa do Edgar, tá? Aquele que emprestou a casa de praia, o da Ribalta, sabe?
Ela assentiu.
– Ele é meu professor de teatro, aí passou esse filme pra gente assistir e até minha mãe ficou obcecada! Olha...Até que a atriz principal é bem gostosinha...- Karina revirou os olhos, emburrada. – Ela me lembra você.
Saiu, deixando-o para trás:
– Pedro, eu não tô vendo droga de mercado nenhum!
– É porque a gente não vai ao mercado... – vendo a expressão furiosa da menina, tratou de justificar-se. – Não agora. Relaxa, é só uma voltinha.
[...]
– Ih, ó lá que tamanho de árvore! – comentou Karina, maravilhada.
– Caraca, a última vez que vi tanta manga assim foi lá no quintal da D. Amélia: o fatídico dia!
A lutadora deu-lhe um tapa.
– Ai, maluca! Que foi?
– Tô só descontando por isso! – apontou para a cicatriz no dedo. Prometera jogar na cara dele a vida toda, o motivo real daquilo. Assim fazia.
– Se me permite dizer, você não foi a única azarenta não. Fiquei com uma dor de barriga tão forte naquele dia, que eu amanheci no...
– Pedro! – gargalhou.
– Mas, e aí? Vai amarelar ou seguir comigo?
– O único “arregão” aqui é você, garoto! – sorriu.
Pedro pôs-se ao seu lado, rindo.
– Olha aquela ali, Pedro! É minha! – o guitarrista gargalhou com a empolgação dela, que disparara na frente.
– Espera! Eu acho que tem gente em casa. E agora?
– E agora, menina esquentadinha, — foi se aproximando dela, que cambaleou. – a gente vai invadir tudo! – brincou. – Eu quero ver quem vai se meter com a fúria do Pedroso!
Ela revirou os olhos.
– Brincadeira, Karina. Se aparecer alguém a gente diz que foi parar lá por engano. – sorriram.
[...]
– Nossa, mas que muro do capeta! Tô me arranhando toda!
– Deixa eu dar beijinho que passa. Não é isso que indicam?
– Recuso as indicações. – riu.
Após escalarem o pequeno, mas, dificultoso muro, se impulsionaram nos galhos mais baixos para alcançarem as frutas, quando Karina parou de súbito:
– Pedro, acho que ouvi alguma coisa.
– Deve ser coisa da sua cabe...Ai meu senhor! Tem cachorro aqui.
A filha de Gael mantinha-se estática, mas as pernas tremiam incessantemente. Tratava-se de um Pastor Alemão de grande porte.
– Tá tudo bem, K?
– Tudo ótimo. Eu vou virar petisco de cachorro!
– Calma, mantenha a calma...Feche os olhos, conte de um até dez e...FUI! – jogou-se do muro em tempo recorde.
– Meu herói... – debochou a loira.
Pedro estranhou a calmaria, passando a espiar por cima do muro.
– Ai, minha mão!
– MEU DEUS, K!!! O QUE ESTÁ ACONTECENDO?!?
Calou-se, incrédulo, ao ver a menina passando as mãos nos pelos do animal.
– Que bruxaria é essa?
– Nenhuma, tá? Frangão! Ele é um amor. – voltou a alisar o cão, que farejava Pedro. – Isso que dá os donos deixarem um animal manso como “guardião” da casa.
– Que nocaute! Mais uma vez...Karina 1000000 x 0 Pedro.
– Palhaço. – riu.
******
– Nossa, mas se a Bianca tivesse aqui daria um discurso sobre higiene e no quão errado é comer uma fruta sem lavar!- um pedaço que restava da manga, caiu no chão.
Eles se entreolharam:
– REGRA DOS CINCO SEGUNDOS! – gritaram ao mesmo tempo, gargalhando. (n/a: pra quem não sabe... é uma regrinha, na qual, se você pega uma comida do chão em menos de 5 segundos, ela está “segura”. Sem bactérias ainda.)
– Ai! – bateram a cabeça, enquanto se abaixavam.
– Sai da minha frente, Pedro!
– Por quê?
– Pra não passarem os 5 segundos! Pera...Já passaram!
– Ah, então a gente inventa a nossa dos 20 segundos.
– 60. – corrigiu a menina.
– Por um mundo onde exista a regra dos 60 segundos! – posicionou-se como se estivesse fazendo um comunicado nacional.
– Cara, você é doente. – riu.
– DOENTE DE AMOR, PROCUREI REMÉDIO NA VIDA NOTURNA...♫
– Acho que a desafinação quis se materializar e aí surgiu você. – zoou.
– HÁ-HÁ-HÁ.
[...]
– Quer ajuda pra subir? – debochou a loira, escorando-se numa árvore.
– Nenhuma, minha cara esquentadinha. Aliás, fica debochando de mim, mas dó faltou chorar quando viu o cachorro lá... – fez bico.
– Acho que não fui eu quem saiu correndo feito uma biba louca. – fechou a cara.
– Opa, biba não. Sou muito homem! Agora sobe logo aí, vai...Medrosinha.
Fez como o combinado.
– O tempo tá legal, né? – ele tentou puxar assunto, acomodando-se de frente para Karina.
– Pedro, é sério que você tá me perguntando sobre o clima? – franziu o cenho, sorrindo leve e imperceptivelmente.
– É, né? Sei lá, é que eu fico nervoso perto de você. – a menina virou o rosto, sentindo o rubor tomar conta dele. – Mas, então...Eu soube que vai ter um campeonato de muay thai próximo mês...
– É. – baixou a cabeça.
– O que foi? Eu falei algo que não devia?
– Não, relaxa. É que eu tô um pouco brava com meu pai esses tempos.
– Nem o seu Gael escapa, meu Deus?!? – recebeu um olhar cáustico. – Foi mal, Karina. Mas, enfim...Por que, então? Por causa da minha mãe?
– Ah, não. – riu. – A questão é que eu amo lutar, me esforço mais do que qualquer um ali, em 90% das vezes e sempre me excluem dessas competições. Tudo porque eu sou mulher! É como se eu não tivesse utilidade nenhuma além de orientar outros lutadores e limpar a academia. Mas, o pior mesmo é saber que o meu pai faz de propósito! Só pra eu desistir do muay thai.
– Mas, você não vai, não é?
– Sinceramente...É o que mais tem me dado vontade de fazer ultimamente.
– Quê isso? Tá se ouvindo? Desistir não combina contigo não. Você é Karina Duarte: a garota mais esquentada do bairro e que já me bateu mais que a minha mãe. – falava como se fosse uma honra ter manchas roxas pelo corpo.
Após segundos de silêncio, começaram a rir copiosamente.
– Ai, para. Desse jeito fica parecendo até que eu só te bato. – riram de novo.
– O que é um absurdo, claro. – ironizou. – Mas, pensando bem...Hoje, por exemplo, estamos conversando civilizadamente e eu mereço um presente por ter feito você sorrir várias vezes.
– Tá bom, ô provocador de sorrisos, mas vamos logo. O pessoal, ou melhor, meu pai já deve estar careca de preocupação, do tempo que saímos!
– É mesmo. Tem razão!
Com precaução, desceu da árvore. No tempo em que se ajeitava, ouvira apenas um grito:
– SAI DA FRENTE!!! – Karina saltara da árvore, desajeitadamente, caindo com tudo em cima do garoto.
– Ai, meus filhinhos... – agonizou.
******
– Se dermos sorte, conseguiremos subir sem que o meu pai perce...
– Foram comprar no mercado do Rio? – interceptou Gael, encostado no sofá da sala.
– É...é...é que...
– Oi, meninos. Demoraram, hein? – pronunciou Dandara, parando ao lado do dono da academia.
– É que a gente ficou meio perdido. Mas sério, seu Gael, eu não fiz nada com a sua filha. – fez uma espécie de juramento com os dedos.
– É, pai, fica tranquilo. A gente até encontrou um pé de manga no meio do caminho, foi bem legal. – sorriu, surpreendendo-os.
– Então...Sem tapas? Socos? Voadoras? – eles afirmaram. – É, a viagem tá fazendo efeito. – comentou Gael, fazendo com que Dandara consentisse.
– A conversa tá ótima, mas dá pra alguém ajudar a gente com essas sacolas? – disse Pedro.
– É um fracote mesmo, hein?
– Ô Karina, vocês não estavam se dando bem? Agora já tá debochando do Pedro? – repreendeu Bia, juntando-se a eles.
– Claro. Se não eu não seria “Karina Duarte.”
– É, Bianquinha... ”The zoeira never ends.”- completou o amigo de João e Jeff.
– Epa, espera aí! Agora que vocês não estão mais brigando, não significa que vão... – Gael estreitou os olhos, gesticulando como se eles estivessem juntos.
– Pai, ajuda nas compras, tá? – interrompeu Bianca.
– Que tal se a gente comesse pizza hoje? – perguntou Dandara, tentando desviar o foco da conversa.
– Ah, tem que ter de atum! É a minha preferida!
– A minha também, esquentadinha. – sorriram.
– Então, ótimo! Guardem logo essas compras que eu preparo a pizza. – propôs Dandara. – E podem chamar aquela menininha, de hoje mais cedo. – assentiram.
[...]
Com o cair da tarde, a água que emanava dos chuveiros tornava-se o som mais notório. Aos poucos, iam descendo as escadas, um por um, na ansiedade pelo “festival de pizza”. Os adultos, como o esperado, se organizaram primeiro, recebendo a pequena Tomtom. Logo, as irmãs Duarte desceram, conversando empolgadamente com a jovem. Após levarem ela para conhecer o quarto, retornaram para sala, onde os mais velhos chamavam para jantar.
– Cadê o Pedrinho? – questionou Dandara.
– Estou aqui, galera. – aparecera sorridente, com os fios de cabelo molhados.
O cheiro forte de sabonete, junto ao hálito de menta, impregnava a sala de jantar, provocando em Karina a mais forte sensação de frenesi.
A atração, que surgira só com a troca de olhares entre eles naquele instante, era quase palpável.
[...]
Com o término do jantar, decidiram ver um filme.
– Já prevendo a guerra que vai dar na escolha do filme, sugiro logo uma votação. – propôs Bianca. – Eu fico com comédia romântica.
– Ai, eu também! – disse Tomtom.
– Ih, e eu lá achando que a Tomtom ia querer uma animação da Disney. – comentou Karina, fazendo eles rirem.
– Também gosto, mas eu prefiro romances... – disse, sonhadora.
– EU TAMBÉM QUERO COMÉDIA ROMÂNTICA. – gritou Dandara, da cozinha.
– Ninguém merece...Pelo menos está meio a meio. Ainda faltam eu, meu pai e o Ped...
– Comédia romântica!!! – Este, respondeu.
– O QUE?!?! – exclamou Karina, ignorando o ataque de riso de Gael e suas provocações quanto à sexualidade do guitarrista.
– Ah, eu sou músico, pô. Meu coração é sensível. – brincou.
– Nem adianta a gente votar, né pai? Não tem jeito! – bufou.
Se para a maioria ali o filme estava sendo agradável, para Pedro e Karina, estava mais do que constrangedor. Tratava-se de um casal jovem, que se implicava mais do que tudo e por tudo. Mas, seguindo o princípio da linearidade entre o amor e o ódio, por fim, se declaravam e se entendiam.
Bianca soltara piadinhas o tempo todo, claro, fora das vistas de Gael e para Tomtom e Dandara só restavam os risos:
– Essa cena da amiga abrindo os olhos dela sobre o implicante ser seu verdadeiro amor é tão familiar...Não é mesmo, Karin...
– PIPOCA!!! – levantou-se avidamente. – Quem quer pipoca? – todos negaram. – Ninguém? Bom, eu vou fazer pipoca... Pipoca é sempre bem vinda. — sorriu, sem graça, disparando para a cozinha.
Lá, encostou-se na pia, respirando fortemente. O que estava acontecendo com ela? Era o que mais perguntava a si mesma. Aquela viagem só servira para desestabilizá-la, pensou.
– Tá tudo bem? – levantou a cabeça, custando a olhar para trás. Sabia muito bem a quem pertencia aquela voz.
– É...t-tá, — gaguejou. – tá sim.
– Por que você tá aí, então? É o filme, né? – riu, chegando perto dela.
– Não faz isso... – pensou alto. Alto demais.
– Isso o que?
– Esquece... – Pedro percebeu as mãos dela levemente trêmulas.
– Karina, olha para mim. – ela negou o pedido.
Então ele virou-a para si.
De todas as opções existentes, ela optara por ficar. Talvez, por que suas pernas a traíram, pesando como chumbo. Talvez, porque só por um momento queria deixar as coisas acontecerem e ver se finalmente aquela confusão passaria. Ou até mesmo porque os lábios rosados e tudo nele, aquele momento, pareciam convidativos.
Talvez. Talvez. Talvez [...]
A confusão de Karina era visível. E tentando entende-la que Pedro foi surpreendido pela atitude, que ele considerava a mais imprevisível. Ela puxara-o pelo pescoço, encostando-se mais uma vez na pia. Sua boca, sedenta por uma resposta do roqueiro, até então imóvel, finalmente recebera os devidos estímulos. Pedro sugava seu lábio inferior, voltando a tomá-los por inteiro. Sua mão, de início na cintura da loira, percorria agora um caminho por entre suas costas, debaixo de sua camisa. Mas, não num gesto vulgar, desrespeitoso. Apenas atiçava-a cada vez mais, induzindo-a a distribuir-lhe fervorosos carinhos. Quando o ar tornou-se escasso para ambos, eles deram uma pausa, mas ainda com as testas coladas. Karina tinha os olhos fechados, enquanto Pedro não queria deixar de capturar um detalhe sequer da menina à sua frente. Tudo nela parecia meticulosamente arquitetado para reproduzir um efeito de perfeição. Jamais encontrara uma garota como ela.
Com respirações estagnadas, iniciaram mais um beijo. Este, dado por Pedro, já que previra uma “fuga” da lutadora.
– Gente, a Tomtom já tá indo embora.
A voz de Bianca ecoara, indicando sua proximidade. Eles se separaram rapidamente.
– Ué, não ia fazer pipoca?
– Desisti. – passou como um vulto para a sala.
Bianca encarou os lábios vermelhos e inchados de Pedro, sorrindo internamente. Chegando na sala, despediram-se de Tomtom, enquanto Karina seguia para o quarto.
Lá trancou a porta pretendendo barrar, nem que por uns segundos, o interrogatório da irmã.
– Que loucura, meu Deus... – sussurrou, sentando na cama, um pouco aturdida.
Olhando de relance para o criado mudo, rente às suas coisas, notou um pedaço de papel. Nele, letras levemente borradas pela tinta da caneta, antes, fresca.
“ O amor vence nesse mundo
indiferente e louco.
Acalme-se.
Ame.
Sente um pouco."
– Só mais uma de um compositor malucão.
(n/a: gente, esse poema é do Rafa. Eu peguei porque achei meio a ver com a cena. Mas, fiz um pra fic que pretendo mostrar a vocês depois :X haha )
Ela riu, encantada. Era sobre a conversa de mais cedo. Não se tratava do amor propriamente dito, em sua essência. Ele se referia ao amor de Karina pela luta. Encorajando-a a não desistir. No canto da folha, havia o desenho de uma pequena luva, que por coincidência, parecia muito com uma que usava.
– Pedro, Pedro... – suspirou.
Reconhecera aquelas sensações. Aliás, só cego não reconheceria reações tão clichês. Tivera aula o suficiente com os melodramas de Bianca, com os filmes da TV, os seriados que assistia. Se ela odiava ter que sentir aquilo, bom, não era algo que cabia a ela escolher, sentiria e ponto. Era algo para além da metafísica. Destino, Deus...sabe-se lá em que poderia justificar. Só sabia de uma coisa: estava, mais uma vez, apaixonada por Pedro.
Perdida e ferradamente apaixonada por Pedro.
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