My Heart Will Go On
2 The Only Hope For Me Is You
Notas iniciais
Mamãe usava um grande chapéu espalhafatoso enquanto esperávamos para embarcar no navio Titanic. Nunca pude entender como as mulheres inglesas adoravam usar chapéu, principalmente mamãe, que usava aqueles que chamavam atenção a quilômetros.
Enquanto minha genitora estava sentada elegantemente num dos bancos distribuídos pelo porto, resolvi sair para explorar o lugar. A rebentação do mar me causou grande impacto, achei simplesmente maravilhoso. Fiquei parado, observando por uma boa meia hora, até que dois jovens vestidos em roupas sujas e gastas, tiraram-me de meus pensamentos além-mar, com seus gritos e brincadeiras. Um deles, mais alto, era levemente aloirado, e ou outro, com lindíssimos cabelos negros. Eles estavam brincando no cais, jogando pedras no mar e dando gritos que não pude compreender.
Tive inveja deles. Se mamãe me visse fazendo aquilo, iria me dar bordoadas na orelha, gritaria comigo e diria que essa brincadeira era coisa de moleques, e eu já era um grande rapaz. Soaria muito irônico da parte dela, pois tenho a estatura muito baixa.
Apertei meus lábios, apenas admirando aqueles dois rapazes se divertindo como eu nunca me diverti. Um começou a atirar conchinhas no outro; este pegava um punhado de areia que havia sido trazida pelo vento e jogava no primeiro. Pus minhas mãos nos bolsos de minhas calças, enviando olhares de súplica para aqueles dois, para me chamarem para me divertir com eles. Entendam isso como um pedido desesperado para sair um pouco daquele sufocante mundo do dinheiro e do poder. Eu queria me sujar de areia, sentir a brisa bagunçar meus cabelos tão belamente penteado pelas empregadas de mamãe. Eu queria sair correndo e gritar. Eu queria isso. Eu queria ter a Vida que aqueles dois levavam. Não ligo para os contras. Os prós são o que me importam e não tenho medo de morar com ratos.
– Frank Anthony! Vamos meu bebê! O navio já vai partir!
Era mamãe.
– Tudo bem, mamãe! Estou indo!
Voltei andando para o lado de minha mãe, com os olhos baixos, e as mãos em meus bolsos. Fiquei olhando o desenho do chão do porto, coberto por pequenas quantidades de areia.
– Gerard! – o grito me chamou a atenção; o rapaz de cabelos aloirados chamava pelo outro. Procurei o rapaz de cabeleira comprida e negra, que estava em cima de uma pilastra baixa, onde se amarrava barcos. O vento transformara seu cabelo numa espécie de fogo negro. Pude notar, da distância que eu estava, seus olhos verdes e gatunos. E eles me fitavam, como numa interrogação. Mas seus belos lábios formaram um sorriso infantil e brincalhão. Dei um pequeno sorriso de volta.
– Vamos Gerard! O navio já vai zarpar!
– Acalme-se meu pequeno irmão! O Titan não pode ir sem nós! – ele dirigiu-se ao louro, que agora notei que usava óculos. E pulou como um marujo pularia em um navio pirata.
Fiquei petrificado. Como se naqueles olhos existisse algum tipo de magia. Só saí do transe quando mamãe apareceu em minha frente, balançando o chapéu e me puxando pelo braço. Dois camareiros pegaram nossas malas (que eram muitas por causa das roupas de mamãe), e se dirigiam a grandiosa embarcação. Curiosamente, levantei meus olhos, a fim de poder ver um pouco mais do grande navio. E lá estava, segurando uma corda, olhando e sorrindo para mim, Gerard. Agora como um verdadeiro pirata, aventureiro, gatuno e feliz. E principalmente livre.
Acho que a viagem será muito interessante.
Fale com o autor