My Heart In Your Eyes
3 Sentimentos e Escuridão
Notas iniciais
Yunho acordou ao sentir a mão de alguém em sua testa. Não abriu os olhos, estava com medo de fazê-lo e estar tudo escuro. Ouviu os passos de alguém e lembrou-se que Jaejoong o tinha socorrido na hora da chuva , então provavelmente estaria na casa dele agora. Respirou fundo e tomou coragem abrindo os olhos lentamente. Para seu espanto ele viu a claridade do lugar onde estava. A escuridão havia sumido. Será que o ocorrido era apenas um sinal de que sua visão estava por um fio? Tentou se sentar e percebeu que vestia uma calça de moletom e uma camiseta. Onde estavam suas roupas?
– Você está se sentindo melhor? – Jaejoong perguntou ainda sentado na beirada da cama.
– Sim, obrigado. Eu nem sei o que dizer, estou um pouco confuso. Não me lembro como cheguei aqui. – Yunho disse sentindo o tal perfume invadir seu ser novamente.
– Claro. Acho que estava muito mal ontem. Encontrei você na praça na hora da chuva, te trouxe para cá e você simplesmente desmaiou quando entrou aqui. Durante a noite teve febre alta e delirou um pouco. Acho que foi por causa da chuva. Eu tirei suas roupas molhadas e o vesti com roupas secas. Consegui controlar sua febre com compressas frias. Espero que não se importe por eu ter tirado suas roupas, você não podia ficar molhado daquele jeito. – Jaejoong abaixou a cabeça envergonhado ao lembrar das curvas e músculos perfeitos do corpo de seu hóspede.
– Não, tudo bem. Eu é que tenho que agradecer a sua ajuda. – Yunho disse percebendo o tom de vergonha que Jaejoong usou.
– Eu preparei o café. Venha, você precisa se alimentar, mas... Eu ainda não sei seu nome. –Jaejoong se lembrou de repente.
– Ah, claro. Meu nome é Yunho. Jung Yunho. Obrigado mesmo, você nem me conhece direito e me socorreu. Nem sei como agradecer. Mas eu preciso ir embora, não quero incomodar mais.
–Nããããooo! Você vai tomar café antes de ir, já está pronto. Vamos lá! – Jaejoong se levantou e saiu rumo à cozinha. Yunho o seguiu, como ainda via alguns vultos, conseguiu seguir o outro sem maiores problemas. Difícil foi na hora de comer. Era complicado enxergar o que tinha na mesa. Mas Yunho se esforçou para não deixar o outro perceber seu estado. Não queria ver ninguém sentisse pena dele.
– Hum, que cheiro bom! – Yunho disfarçava e cheirava o que estava a sua frente, tentando identificar o que era.
– Coma, você precisa se alimentar. Não sei se te agrada, mas fiz panquecas, ovos, torradas, frutas e café. Tem leite e capuccino se quiser. Não sei do que gosta, então fiz um pouquinho de cada coisa. – Jaejoong explicou rapidamente, sem perceber que dera as respostas que Yunho precisava para poder identificar o café da manhã.
Depois de comerem, Jaejoong pegou as roupas de Yunho que estavam na secadora e colocou numa sacola.
– Tome suas roupas. Estão secas.
– Obrigado, vou me trocar para devolver as suas.
– Não, tudo bem, vá com elas. Depois eu pego.
–Mas e...
–Tudo bem, não se preocupe.
Despediram-se e Yunho foi para casa. Notou então que a casa de Jaejoong era próxima à sua, apenas um quarteirão de distância.
“ E ele sempre esteve tão perto e eu nunca percebi.”
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Mais tarde Jaejoong encontrou Junsu na livraria. Estranhou que o amigo estivesse lá tão cedo.
– O que aconteceu Su? Caiu da cama?
– Haha... Muito engraçado. Eu só fiquei entediado e resolvi vir trabalhar mais cedo. – Junsu disse disfarçando seu nervosismo.
–Hum... Sei. E eu nasci ontem. Pode ir falando, eu te conheço há mais de 10 anos. Se tem uma coisa que você não consegue fazer, é mentir para mim. – Jaejoong disse cruzando os braços.
– Credo Jae, eu não estou mentindo, é que... – Junsu foi interrompido pela entrada de alguns clientes. E entre eles estava Yoochun, o que deixou Junsu totalmente desnorteado e claro, Jaejoong percebeu imediatamente, não entendendo a reação do amigo ao ver o homem que entrou.
– Jae, atende ele para mim, por favor? – Junsu juntou as mãos e sussurrou para o amigo, praticamente implorando.
– Está bem, vai lá para dentro. Depois eu te chamo. – Jae empurrou Junsu para corredor que dava acesso ao depósito.
– Olá, posso ajudar? – Jae se dirigiu a Yoochun com um belo sorriso.
– Na verdade, eu queria falar com aquele rapaz que saiu daqui, o Junsu. – Yoochun disse um pouco sem graça.
– Ah, é que meu amigo está meio ocupado lá dentro e não vai poder vir agora. Que tal você voltar depois?
– Claro, acho melhor. Obrigado. – Yoochun se retirou e Jae foi imediatamente atrás de Junsu, enquanto Yoochun saía desanimado a passos lentos.
– Ele já foi. – disse Jae ao encontrar o amigo agachado e encolhido no canto do depósito. – Agora conta vai, o que houve? Por que está fugindo daquele homem? Ele me disse que queria falar com você.
– Ele disse? – Junsu perguntou com os olhos cheios de lágrimas.
– Su, o que aconteceu? – Jae correu até o amigo e o abraçou ao ver as lágrimas em seus olhos. – Que foi? Me conta vai! Não fica assim, você sabe que só temos um ao outro aqui nessa cidade. Se não me contar, como vou te ajudar? – Junsu abraçou Jaejoong e deixou as lágrimas escaparem, chorou por algum tempo até não ter forças mais.
– Jae, eu não sei o que dizer. – Junsu deixou seu corpo cair e sentou-se no chão. Jae sentou ao seu lado, deixando o amigo apoiar a cabeça em seu ombro.
– Só diga Su, estou aqui para ouvir, seja o que for.
– Aquele cara que estava aqui agora, ele... – os soluços vinham involuntariamente — Ele se chama Yoochun. – Jae não disse nada, apenas ficou esperando as próximas palavras de Junsu. — Ele veio aqui há mais ou menos uns vinte dias atrás para comprar alguns livros e me pediu ajuda para escolher. Não sei como, mas na hora em que o vi meu coração disparou , senti minhas pernas tremerem e sei lá... É estranho. Sei que escolhi os livros e ele comprou todos. Perguntou o meu nome e me disse o nome dele. Depois disso não o vi mais, apesar de não parar de pensar nele desde então. – Jae ficou espantado com a declaração do amigo, mas continuou em silêncio para saber onde tudo aquilo iria dar. – Ontem ele veio aqui na hora que eu estava fechando e ofereceu uma carona, insistiu muito e eu aceitei. Ele me levou em casa e eu não sei porque, mas o chamei para entrar e tomar um capuccino comigo. – Jae chegou a abrir a boca para falar, mas se segurou. Junsu nunca aceitou ninguém na casa dele e só Jae entrava lá assim. – Depois de tomar o capuccino, tocamos piano e aí... – as palavras de Junsu sumiram e lágrimas começaram a cair novamente molhando a camisa de Jaejoong.
– Calma Su, é só falar, coloca para fora que melhora. – Jae incentivou.
– Ele se declarou para mim. – Junsu disse de uma vez, deixando Jae sem reação. – Ele disse que gosta muito de mim, que me conhece a mais tempo do que eu imagino e que não queria ficar longe de mim. Eu não podia acreditar naquilo, achei que era impossível um homem gostar de outro homem assim, mas ele disse e eu tentei colocá-lo para fora, mas ... Mas ele acabou me beijando. E eu deixei Jae, eu deixei ele me beijar. – Junsu não conseguia mais falar, só chorava,chorava e chorava nos braços de seu amigo.
–Su, é isso? – Jae tentou parecer tranqüilo, mas estava um pouco chocado com o amigo. Mas no fundo o entendia, pois teve reações emocionais estranhas perto de Yunho, então estava cogitando a possibilidade de realmente esse tipo de sentimento entre dois homens ser puro e sincero . – Não fica assim Su, você quase me matou de susto, achei que aquele cara tinha feito alguma coisa ruim com você, mas tudo o que ele fez foi declarar que gosta de você e te beijar?
– Jae, não fala assim como se fosse normal! Você sabe o que eu sempre achei desse tipo de relacionamento, nunca achei que outro homem se declararia para mim. E o pior é que eu deixei ele me beijar, mesmo colocando ele para fora depois, eu deixei. Não podia ter acontecido isso. – Junsu parecia uma criança no colo de Jae.
– Por que não? O que tem de errado nisso? E o que você sentiu? Quando ele te beijou, o que sentiu? – A pergunta pegou Junsu de surpresa
– Eu... Eu não sei direito. Meu corpo reagiu sem minha permissão, eu acabei dando passagem para ele me beijar e eu , eu...
– E o que?
–Eu gostei.- Junsu sentiu-se derrotado ao dizer essas palavras.
– Então pronto, não há nada de errado nisso. Você está apenas descobrindo sentimentos e sensações novas. Ele está apaixonado por você e você não está aceitando isso. Tenho certeza que quando ele chega perto você fica corado e com as mãos suando, certo? – Jae tentou ser natural ao dizer essas palavras, precisava confortar Junsu. Para ele também era estranho, mas se fosse preciso, descobririam esse novo mundo juntos, nunca abandonaria seu melhor amigo.
– Jae, o que eu faço? – Junsu disse depois de um longo silêncio.
– Que tal você tentar? Deixa ele se aproximar e veja o que irá acontecer. Se você gostar, tudo bem, se não, você fala para ele e pronto. Não fique sofrendo por algo que você nem conhece. E pense que eu estarei ao seu lado, sempre.
Permaneceram ali naquele depósito por um bom tempo. Totalmente em silêncio. O único som era o choro baixo de Junsu, que depois de algum tempo adormeceu no ombro do amigo. Estava esgotado, não dormia direito por ficar pensando nos últimos acontecimentos. Jae ficou ao lado do amigo até que este acordasse. Não o chamou e nem falou mais nada. Só ficou ali para demonstrar ao outro que sempre estaria por perto.
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Yunho não foi trabalhar durante aquela semana. Marcou uma consulta com seu médico e contou a ele tudo sobre o momento de total cegueira que aconteceu. O médico confirmou que eram os primeiros sinais da perda total de visão e que ele devia se preparar, pois a qualquer momento poderia não ver mais nada e ficar na total escuridão. Depois dessa confirmação Yunho permaneceu em casa por uma semana. Precisava se preparar para o pior. Conferiu se a casa estava em ordem para recebê-lo se a cegueira total chegasse. Ligou no trabalho e pediu uma semana explicando a situação. O diretor o tranqüilizou, dizendo para cuidar de sua saúde primeiro e que iria visitá-lo depois. Vendo que tudo estava em ordem, Yunho deixou-se ficar na cama o dia todo, não tinha vontade de comer, nem sair e não se levantou nem para beber água. Queria ficar ali e esperar o pior acontecer. Pensou muito em Jaejoong, estava tão feliz em conhecer aquela pessoa, mas não poderia se aproximar, pois não queria ser um fardo para ninguém, continuaria independente como sempre. Depois de dois dias de cama, resolveu dar uma volta na praça, precisava de ar, estava começando a sentir-se sufocado.
Jaejoong por sua vez saiu mais cedo da livraria. Estava aproveitando a repentina onda de dedicação extrema ao trabalho que Junsu mostrava nos últimos dias. Nova pintura na fachada da livraria, trocar algumas estantes antigas, reformar um cômodo que estava sobrando e fazer dele um charmoso e tranqüilo café, onde seus clientes pudessem ler e apreciar uma boa bebida. Jae sabia que era apenas uma desculpa de seu amigo para esquecer o acontecido com Yoochun, mas não quis comentar, visto que Junsu precisava enxergar sozinho os seus verdadeiros sentimentos. Assim Jaejoong resolveu ir embora mais cedo, queria ficar um tempo na praça para ver se encontrava Yunho. Depois do incidente da chuva não o viu mais, e já havia se passado quase uma semana.
Chegando na praça Jae sentou no mesmo banco onde Yunho costumava ficar todas as tardes. Ficou ali por pelo menos duas horas. Estava pensando no que podia ter acontecido para Yunho estar daquela forma quando o encontrou. Ajoelhado e com uma expressão de derrota no rosto. Jae não podia ter certeza por causa da chuva, mas Yunho parecia estar chorando. Estava quase desistindo, pois parecia que Yunho não iria aparecer. Quando se levantou do banco, avistou a pessoa tão esperada do outro lado da praça, caminhando lentamente com os mesmos olhos perdidos. Jae não entendia aquilo, Yunho parecia sempre estar procurando por alguém ou alguma coisa.
Jae se aproximou e Yunho sentiu seu perfume. Parou de andar imediatamente. Tinha certeza que o outro estava ali, ficou parado por instantes até que viu um vulto se aproximar e colocar a mão em seu ombro.
– Olá Yunho, como vai? – Yunho sentiu seu coração disparar ao ouvir a voz doce de Jaejoong.
– Oi Jaejoong, estou bem. E você? Passeando?
– Na verdade, eu estava te esperando.
Yunho não esperava por essa.
– Esperava por mim? Como assim?
– Eu notei que há uma semana você não passa por aqui, fiquei preocupado, achei que sua febre pudesse ter voltado e sei lá... Só achei estranho você não aparecer. — Jaejoong admitiu meio sem graça.
– Nossa, agora fiquei sem graça. – Yunho falou corando – Causei preocupação a você né... Desculpe-me por isso.
–Não, imagine! Só fiquei preocupado porque você sumiu. Mas... Está tudo bem?
– Sim, tirei a semana para resolver alguns problema pessoais.
–Hum, sei. Que bom então. Bem, acho que vou indo... – Jaejoong deu um passo para trás na intenção de retomar seu caminho.
– Você quer jantar comigo? – Yunho perguntou sem pensar, temendo não ver Jaejoong novamente. Falou a primeira coisa que veio em sua mente para impedir o outro de partir. – Eu estava indo comer, não costumo ter companhia mas seria legam se você me acompanhasse.
– Claro, seria legal.- Jaejoong sentiu a euforia percorrer seu corpo. Aquele dia terminaria muito melhor de que imaginava. Esperar mais de duas horas para ver o outro valera a pena.
– Conheço um restaurante aqui perto, que tal?
– Claro, vamos lá.
Eles começaram a caminhar rumo ao restaurante. Yunho começou a sentir-se nervoso. Não queria deixar Jaejoong perceber o seu estado, mas não queria perder a oportunidade de estar com ele mais uma vez, depois dessa noite, não iria mais até a praça e não manteria contato com Jaejoong. Não queria ter laços com alguém para depois fazer essa pessoa sofrer pela sua deficiência.
Chegando ao restaurante, Yunho logo escolheu uma mesa e se acomodou. Tinha o costume de jantar ali, então conhecia o cardápio e a localização das mesas, seria mais fácil disfarçar para que Jaejoong não percebesse.
– Você já veio aqui Jaejoong?- Yunho perguntou puxando assunto.
– Me chame de Jae, por favor. E não, nunca vim aqui, gosto muito de cozinhar, por isso como muito poucas vezes fora de casa, só quando Junsu me pede com carinha de chorão. – Jae explicou sorrindo ao lembrar da carinha de Junsu quando queria pedir alguma coisa.
– Quem é Junsu? – Yunho se fez curioso.
–Ah sim! Me desculpe por isso. Ele é meu melhor amigo e meu sócio. O conheço desde os tempos da escola, cursamos a faculdade juntos e hoje temos uma livraria. — Jae resumiu sorrindo para Yunho, que mesmo não vendo o rosto do outro nitidamente, sentiu a alegria no tom das palavras.
– Que legal, você tem uma livraria? Adoro livros. Você parece ser muito apegado ao seu amigo. — Yunho comentou.
– É verdade. Não temos família aqui em Seul, viemos sozinhos para cursar a faculdade e acabamos ficando por aqui mesmo. Só temos um ao outro, já que estamos longe de casa. Dividimos tudo, menos o apartamento. Eu não agüentaria morar com ele, é muito desorganizado e fica andando pela casa só de cueca, é um piada, você precisa ver Yun.... – Jaejoong disse entre gargalhadas e só parou quando percebeu ter chamado seu acompanhante pelo apelido. –Ah, me desculpe por te chamar assim.
– Não, tudo bem, gosto que me chamem assim. Vejo que realmente não sei nada sobre você. Você gosta de fazer mais alguma coisa além de cozinhar e cuidar do seu amigo?
– Hum, não muito. Sou muito caseiro, gosto de ficar em casa e ouvir música, assistir filmes e preparar algum prato diferente. E claro, gosto de ler.
– Claro. Você parece ser uma pessoa de gostos simples, né? Isso é legal. Eu também não sou muito acostumado a sair. Prefiro ficar em casa mesmo.
– E você faz o que?
– Eu sou fotógra... – Yunho parou por um instante, percebeu que nunca mais poderia falar aquilo. — Bem, eu fui fotógrafo por muito tempo, hoje trabalho em um editora.
– Ué, por que abandonou a fotografia? – Jae ficou curioso
– Bem, digamos que eu tive que abandonar a profissão. Mas ainda amo a fotografia. Só não atuo mais.
– Hum, sei... – Jae ficou sem graça por ter feito um a pergunta tão pessoal e tentou mudar de assunto. – Bem, depois do jantar eu gostaria de assistir um filme lá em casa. Você quer ir? O Junsu deve ir também.
– Claro, vai ser legal.
Yunho não sabia exatamente o que estava fazendo, só queria aproveitar ao máximo os momentos ao lado do rapaz que o acompanhava naquele momento. Não sabia o que esperar, pois com certeza não conseguiria ver o filme, só o escutaria. A preocupação tomou conta, seria capaz de esconder de Jae que estava quase cego? Que nunca viu o rosto dele como realmente é?
Após saírem do restaurante, Yunho seguiu Jae até seu apartamento. Já estava com dificuldades até para ver os vultos, pois já estava de noite. Caminhava devagar atrás de Jaejoong no mais absoluto silencio, ouvindo apenas os passos do que seguia à sua frente. Chegando no apartamento de Jae, Yunho se acomodou no sofá e ficou aguardando o anfitrião pegar os filmes e algumas bebidas na geladeira. Ouviu o celular do menor tocar e escutou parte da conversa ao telefone. Pelo jeito Junsu não iria aparecer.
– Ah que pena! Junsu não vem. Ele está morto de cansaço. Estamos reformando a livraria e ele está trabalhando duro na organização de tudo. Esse Su não tem jeito viu... – Jae sorriu ao lembrar dos reais motivos do apego ao trabalho do amigo.
– Hum... Que pena, queria conhecê-lo. Pelo que você contou, ele deve ser uma pessoa muito agradável.
– Sim, ele é, até demais sabe. Mas deixa pra lá. Vou colocar o filme então.
Jae sentou do lado aposto do sofá onde Yunho estava. Este por sua vez prestou atenção em cada frase do filme, já que não conseguia ver a imagem. Tudo transcorreu tranquilamente. Yunho estava mais calmo com a situação. Se Jae não havia ainda percebido seu estado, não perceberia mais. Mas a calmaria durou pouco. Quase no fim do filme, quando se levantou para ir ao banheiro, sua visão falhou, outro apagão.. Ele parou no meio da sala, não sabia para onde ir, tudo estava escuro e não via o que o guiava antes até o banheiro, a luz a do corredor. Sem saber o que fazer ficou ali parado. Sua respiração começou a ficar descompassada, até que sentiu uma mão lhe tocar o ombro.
– Yun, você está bem?
– Sim, quer dizer, não. Não sei... – Yunho não sabia o que dizer. Piscou algumas vezes, respirou fundo e então viu a luz do corredor de novo e o vulto de Jae ao seu lado. Estavam bem mais fracos do que antes, mais difíceis de ver, mas já era suficiente para sair dali.
– Eu estou bem Jae. Eu acho melhor e ir embora e ...
– Nem pensar! Sabe que horas são? Eu sei que você mora aqui perto, mas além de ser tarde, está chovendo. Não vou deixar você ir assim. Eu tenho um quarto de hóspedes, você dorme aqui e amanhã pela manhã volta para casa, ok?
– Jae, eu acho melhor não. Não quero incomodar ...
–Pode parar Yun. Não vai incomodar, só não quero você nessa chuva, você teve um febrão aquele dia que se molhou na chuva. Você vai ficar aqui e ponto final. Vem, vamos terminar de ver o filme e te mostrarei seu quarto.
Jae puxou Yun pela mão e se sentaram novamente no sofá. Durante aqueles poucos minutos restantes de filme Jae ficou observando o outro. Havia algo acontecendo e ele não conseguia saber o que era. Yunho parecia tão nervoso e olhava fixamente para a tela da televisão, como se não houvesse nada em volta.
Após o término do filme, Jae levou Yun até o quaro de hóspedes, o deixando bem acomodado e depois seguiu para seu quarto. Yun não conseguiu dormir naquele momento. Os trovões ecoavam no céu, fazendo as janelas tremerem e estava preocupado em acordar e não ver mais nada, e o pior era ter Jae por perto quando isso acontecesse. Começou a se arrepender de ter desejado passar esse tempo com Jae. De repente ouviu passos e viu a luz do corredor entrar pela porta do quarto pouco a pouco. O vulto de uma pessoa se aproximou e Yun se sentou imediatamente.
– Yun?
– Oi Jae, o que houve?
– Posso ficar aqui?
– Claro, mas aconteceu alguma coisa?
– É que... Eu ... – Jae não sabia o como dizer. — Não ria de mim, mas eu tenho muito medo de trovões. Não consigo dormir. Eu sempre corro para o apartamento do Junsu ou ele vem fiar comigo quando chove. Mas já que você está aqui hoje, posso ficar aqui com você? – Jae disse baixinho, morrendo de vergonha por confessar.
– Pode Jae, vem, deita aqui.
Jae se deitou na cama com Yun. Era uma cama de casal, suficiente para que ambos dormissem bem.
– Obrigado. – Jae sussurrou.
– De nada. – Yun respondeu com um belo sorriso.
Depois de alguns minutos de silêncio um trovão muito forte assustou Jae, o fazendo encolher-se perto do outro.
– Acalma-se, assim você não vai dormir. Vem cá. – Yun puxou Jae para perto e o abraçou. – Não tenha medo, estou aqui com você.
Jae não disse nada, somente aproveitou o momento. Estava envergonhado pela situação, mas era bom estar nos braços de Yun. Sentiu seu coração palpitar mais forte e o calor dos braços do outro estavam fazendo o corpo de Jae reagir de forma involuntária. Jae levantou a cabeça e se viu em frente ao rosto de Yun, que se mantinha de olhos fechados. Não podia fazer aquilo, mas os lábios de Yun estavam atraindo os seus. Não podia, mas não conseguiu evitar.
– Yun...
Yunho ouviu Jae chamar seu nome bem baixinho e depois sentiu lábios quentes encostarem em sua boca. No primeiro momento se assustou, mas depois percebeu que Jae o beijava, e que os lábios dele eram macios e doces. Não ofereceu resistência e deixou-se beijar. A língua de Jae procurou espaço e o outro cedeu, tornando o contato mais profundo. Instintivamente Yun apertou seus braços em volta do menor que também se entregou, passando os braços pelo pescoço do outro. Depois de longos minutos a falta do ar os separou. Jae estava morrendo de vergonha, não sabia o que dizer.
–Yun, eu... Me desculpe. Não era para...
–Sshhii... Não fala nada. – Yun sussurrou, queria viver aquele momento, mesmo sabendo que na manhã seguinte iria embora e não voltaria mais. — Fique aqui comigo. Me deixa sentir você aqui nos meus braços.
Jae não respondeu, apenas se acomodou nos braços do outro e adormeceu. Yun não dormiu, e no meio da noite, percebeu que não enxergava nada, nem a luz que vinha do corredor e nem o clarão dos relâmpagos que preenchiam o quarto. Sentiu uma enorme angustia o sufocar, sabia que acordaria pela manhã e não veria nada. Não podia sair dali naquele momento. Tentou acalmar sua respiração e apertou Jae contra seu peito, passando a mão por seus cabelos. Uma lágrima riscou sua face ao pensar que não seria capaz de ver o rosto da pessoa que dormia ao seu lado. Não seria capaz de ver a cor dos olhos daquele a quem estava entregando seus sentimentos. Seria sempre essa escuridão, fria e vazia.
Continua...
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