My Heart In Your Eyes
17 O tempo não espera
Notas iniciais
Pouco mais de uma semana se passara e Changmin ainda não havia conseguido descobrir o que estava acontecendo com Kyuhyun. Observava o rapaz o dia todo enquanto trabalhavam, mas não conseguiu captar nada de importante, a não ser que o mais novo estava mais abatido, mais magro e não sorria com tanta frequência. Definitivamente havia algo errado.
Naquele fim de tarde Changmin resolveu ficar até a livraria fechar, precisava organizar algumas coisas para passar à Jaejoong depois, já que este se encontrava ocupado demais com a família e com Junsu. Changmin se ofereceu para ajudá-lo, administrando a livraria enquanto estivessem ocupados, já que quando foi demitido, os próprios donos voltaram a gerenciá-la, sem colocar qualquer outra pessoa no lugar dele. Jaejoong aceitou a ajuda sem pestanejar, já que não tinha cabeça para pensar em trabalho.
Sentou-se atrás do balcão e começou a organizar a ordem das notas das despesas daquele mês. Estava tudo muito silencioso e nem notou quando a noite chegou, já não havia mais clientes para atender e a maioria dos funcionários já havia ido embora, ficando apenas o novato, além de Kyuhyun e ele.
Terminou de trancar as gavetas do balcão e já se preparava para dispensar os outros funcionários quando Kyuhyun passou correndo e saiu da livraria. Parecia muito apressado e não disse uma única palavra. Changmin estranhou, mas como há dias o rapaz se comportava de forma incomum, resolveu dispensar o outro funcionário e fechar. E mais uma surpresa veio quando viu o outro passando por ele com um sorriso estranho nos lábios e se despedindo, sem nem mesmo esperar ele liberá-lo.
“Aiish, eles estão cada dia mais abusados. Não gosto desse cara.”
Por um instante Chang se lembrou do dia que viu aquele cara ameaçando Kyuhyun. Um arrepio percorreu seu corpo, o deixando mais preocupado. Aquele sorriso estranho estampado no rosto daquele homem não significava boa coisa. Pegou suas coisas e fechou a loja rapidamente, mas decidiu não ir para casa, foi atrás de Kyuhyun. Pegou o caminho mais rápido que conhecia até a casa do menor, verificaria se ele havia chegado bem, pensaria em uma desculpa qualquer para sua aparição por lá durante o caminho.
As ruas apesar de bem iluminadas, eram um pouco assustadoras naquele horário. A maioria das pessoas já estava recolhida no conforto de suas casas, restando poucos pedestres e carros nas ruas. Changmin chegou a uma rua mais escura, já próxima à casa de Kyuhyun, onde haviam duas opções. Passar pelo beco escuro e deserto, cheio de caixas e latões de coleta de lixo que eram utilizadas por uma empresa ali ao lado, chegando mais rápido, ou passar por uma avenida mais movimentada e iluminada, só que mais demorada.
Conhecendo Kyuhyun, ele passaria pela avenida, mas algo dizia a Chang que ele deveria se apressar, então tomou o caminho do beco sem pensar muito. Apenas alguns passos dentro daquele corredor mal iluminado e foi surpreendido por um gemido fraco vindo de algum lugar ali. Parou imediatamente, tapando a boca com a mão, como se aquilo contivesse o som da sua respiração e ele pudesse se aproximar sem ser notado.
Mais três passos lentos e viu a cena mais lamentável de toda a sua vida. Aquele funcionário novato estava sobre Kyuhyun, tapando a boca dele e o segurando de forma bruta, enquanto este tentava se soltar, debatendo-se com todas as suas forças, que eram mínimas perto do agressor. O pânico estampado em seus olhos por saber o que viria se não conseguisse sair dali. Estava no chão imundo, suas roupas estavam sujas, rasgadas e manchadas de sangue. Aquele monstro tentava a todo custo arrancar suas roupas e imobilizá-lo, obviamente para abusar do menor e machucá-lo mais ainda.
Changmin não tentou impedir a fúria tomar conta de si e avançou para aquele homem assim que seus olhos captaram aquela cena.
– Ya! O que você está fazendo?
O homem se assustou e saiu de cima da vítima imediatamente, se guardando nas próprias roupas, assustando Changmin com aquele ato, que era a prova de que o cara estava prestes a abusar de Kyuhyun. O sorriso cínico estampou aquele rosto assombroso logo depois, como se não tivesse fazendo nada demais.
– Seu bastardo, eu vou te matar! – Chang avançou acertando um soco no queixo do homem, que foi pego desprevenido, caindo no chão com a força do impacto.
– Nossa, ele é forte. – o homem disse irônico ainda sorrindo. – Acha que pode comigo? Eu sou muito mais forte que você, posso dar a você o que dei à florzinha ali se me contrariar.
– Seu idiota, maldito! – Chang chutando o estômago do outro e correu até o canto do muro, pegando uma barra de ferro que estava jogada ali. Se precisasse se defender, aquilo ajudaria. – Você está demitido! Nunca mais apareça, seu imundo! Cai fora daqui, senão eu te mato seu nojento! Eu juro que te mato! – gritava a plenos plumões enquanto empunhava a barra ameaçando o outro.
O homem se levantou e saiu andando, não estava com pressa e ainda ria da situação. Mas não deixou de dar seu recado também.
– Vai se arrepender se estragar minha diversão Chagmin! – E desapareceu na escuridão.
– Kyu! – Chang suspirou enquanto caía de joelhos ao lado do corpo fraco e ferido que estava ali. – Meu Deus, o que ele fez com você? – não conteve as lágrimas de tristeza que romperam por seus olhos ao ver aqueles olhos tão apagados e tristes o observarem. O rosto outrora tão perfeito, de pele clara e macia, estava muito ferido, com cortes na boca e perto dos olhos. O nariz também sangrava, sujando o pescoço e o que restou da camiseta. Era uma cena horrível, estava tão sujo por ter sido jogado naquele chão fétido e nem se movia, apenas choramingava com o restinho de força que ainda possuía.
– Chang... – foi a única coisa que o menor conseguia falar. Um sussurro chamando pelo outro, um pedido de socorro.
– Shiii, calma! Não diga nada, eu vou te tirar daqui. Vou te levar pra casa e cuidar de você.
– Não... Minha... Mã...Mãe... – Kyu soltava cada palavra como um gemido dolorido rasgando sua garganta.
– Sim, eu sei, não quer que sua mãe o veja assim, não é? Vou te levar pra minha casa, mas antes vamos a um hospital e vai ficar tudo bem. Aquele maldito nunca mais vai encostar em você. – sussurrou acariciando as mãos trêmulas.
Chang tirou seu casaco cumprido e com muito cuidado o vestiu em Kyuhyun, fechando bem os botões, para aquecer o corpo trêmulo, enquanto sacava o celular desajeitadamente para chamar um táxi. Ficou ali vendo o menor aconchegado em seus braços, esperando o carro que viria buscá-los. Seu coração doía tanto ao ver o outro daquele jeito, sentia-se culpado por aquilo ter acontecido. Pensou que se estivesse por perto, evitaria aquele mal. Por que não se deixou levar por aqueles sentimentos confusos que tinha pelo menor? Por que não ficou perto? Por que não o protegeu?
O táxi chegou alguns minutos depois e Changmin conseguiu levá-lo em seus braços até o carro.
– Para o hospital mais próximo por favor. Rápido! – Chang disse enquanto ajeitava o menor no banco de trás.
– Meu Deus, o que é isso? – o motorista arregalou os olhos vendo o estado de Kyuhyun.
– Rápido senhor! Por favor, ele precisa de um médico. – Chang disse sentando-se ao lado de Kyuhyun e o puxando para si.
– Claro, claro. Vamos. – O homem disse acelerando e os levando dali.
Um caminho torturante para ambos. Kyuhyun não suportava a dor e Changmin se desesperava vendo o menor beirar a inconsciência. Os minutos viraram uma eternidade até chegarem ao destino final. Mas ao parar na porta da emergência e adentrar com aquele rapaz ferido em seus braços, tudo passou tão rápido com um relâmpago partindo o céu durante a chuva que começava a cair lá fora. Enfermeiras apareceram de repente e levaram Kyuhyun dos braços cansados de Changmin, fazendo um monte de perguntas, que ao ver do maior não tinham sentido naquele momento. E enfim o deixaram sozinho ali naquela saleta de espera, perdido em tantos pensamentos e sentimentos em relação ao outro.
Menos de uma hora e um médico veio até Changmin dar-lhe as notícias tão esperadas.
– Ele vai ficar bem. Seus ferimentos foram realmente graves, tivemos que dar alguns pontos no supercílio esquerdo e limpamos os outros ferimentos. Já o medicamos e ele está dormindo. Ficará com vários hematomas bem feios, mas com bastante cuidado ele ficará bom logo. Quando acordar pode levá-lo para casa.
Palavras que trouxeram alívio para Chagmin, mas que não surtiram mais efeito quando entrou na enfermaria e viu aquele rosto que tanto adorava tão machucado. Estava tão pálido, seus lábios sem cor contrastavam com o vermelho vivo de suas feridas recém cuidadas. O maior sentou-se em uma cadeira ao lado da cama e tomou uma das mãos de Kyuhyun entre as suas. Acariciou-as por um tempo enquanto observa-o dormir tranquilamente, pedindo perdão em silêncio por não tê-lo protegido daquilo.
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– Chang? — o maior levantou a cabeça que estava apoiada na beira da cama enquanto cochilava depois de ouvir um gemido baixinho.
– Kyuhyun? Oh... Você acordou. Como se sente?- Changmin disse encarando o menor e esfregando o rosto com as mãos tentando afugentar o cansaço.
Kyuhyun apenas forçou um pequeno sorriso, não tinha muita força ainda e descobriu que até falar lhe causava dor.
– Eu vou te levar para a minha casa, ok? Está tudo bem, o médico disse que você vai ficar bem. – Chang disse se levantando apressadamente e pegando uma troca de roupa que comprou numa lojinha em frente ao hospital enquanto o menor dormia.
– Aqui. Comprei uma troca de roupa pra você poder sair daqui. Venha, vamos te vestir para irmos.
Chagmin vestiu-o usando toda a sua paciência, já que qualquer movimento brusco fazia-o sentir dor. Não falaram nada durante a arrumação, o constrangimento estava alto ali, enquanto o menor sentia as mãos quentes do outro o tocarem para vesti-lo. Depois de tudo o que havia acontecido entre eles no passado, era muita ironia estarem lado a lado novamente, ainda mais numa situação como aquela.
– Pronto, vamos pra casa. – Chang disse calçando um chinelo nos pés de Kyuhyun.
O menor permaneceu imóvel, sentado na cama encarando o chão.
– Kyu?
Os olhos do outro encararam o maior, deixando toda a sua tristeza e seu medo evidentes. Changmin entendeu, mesmo sem que uma palavra sequer fosse dita.
– Kyuhyun... Eu sei que eu não sou exatamente a melhor pessoa do mundo para estar ao seu lado nesse momento. E eu mereço todo o seu receio e desconfiança, mas sobre nós... Sobre nós dois... Eu... Eu queria te dizer... Aish! – bagunçou os cabelos em sinal de constrangimento. – Podemos falar de nós dois depois? Eu só quero te tirar daqui agora e prometo que não vou te encher de perguntas sobre o que houve. Você precisa descansar. Por favor...
Kyu balançou a cabeça positivamente e deixou o maior lhe ajudar a levantar para sair dali. Ainda teria que achar uma desculpa para dizer à sua mãe por não voltar para casa naquela noite. Tudo o que queria naquela hora era uma cama macia que pudesse receber seu corpo dolorido e cansado.
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Já era quase manhã quando Chang abriu a porta de seu apartamento carregando Kyuhyun. O menor estava muito sonolento devido aos remédios que lhe deram, então bastou sentir a cama macia de Changmin sob seu corpo para afundar imediatamente no inconsciente.
Coube a Changmin ligar para a mãe do menor, que a esta altura estava quase maluca de preocupação. Mesmo que Kyu já fosse um homem feito, não tinha costume de dormir fora sem avisar. Chang mentiu descaradamente, dizendo que o menor havia ficado até mais tarde para ajudá-lo no trabalho e depois saíram para beber e Kyuhyun acabou posando na casa dele, se esquecendo de ligar para avisar. Disse também que o menor iria com ele direto para o trabalho. A senhora acreditou na história e ficou tranquila, mesmo estranhando o fato de o filho ter bebido tanto, já que não era disso.
Chang aproveitou para ligar para um dos funcionários mais antigos da livraria e pedir que tomasse conta da loja naquele dia, não queria deixar o menor um só minuto. O moreno suspirou e fez uma última ligação.
– Jae? É o Changmin, como vão as coisas por aí?
– Tudo mais ou menos, Junsu já saiu do hospital, está aqui em casa, pelo menos está comendo e conversando novamente.
– Que bom Jae, espero que ele fique bem logo. Preciso te avisar uma coisa, eu deixei o senhor Jin cuidando da livraria por hoje, depois eu te explico melhor, mas aconteceu uma coisa horrível ontem com o Kyuhyun e eu preciso cuidar dele. Amanhã eu passo aí e te conto tudo. Tem algum problema?
–Nossa, ele está bem? Não tem problema, cuide dele. Depois nos falamos então.
Pronto. Agora Changmin podia descansar um pouco, Kyuhyun não acordaria tão cedo. Arrastou-se até seu quarto e sentou em sua cama, olhando o menor dormir profundamente. Não tinha um quarto de hóspedes e não se deitaria no sofá, sabendo como estava cansado e talvez não ouvisse o menor lhe chamar se precisasse de alguma coisa. Então ficaria por ali mesmo, já que sua cama era de casal. Mas antes, precisava de uma banho, ainda vestia as roupas de trabalho do dia anterior. Pegou um troca de roupa e enfiou-se no banheiro, relaxando quase imediatamente ao toque da água morna em seu corpo. Naquele instante todas as suas angústias em seu peito o atingiram violentamente, o fazendo enxergar com clareza a confusão de sentimentos que tinha dentro si. Não havia mais como negar que ainda guardava aqueles sentimentos estranhos que tinha por Kyuhyun. E vê-lo ali tão perto, tão frágil e precisando de ajuda, o fez ter a certeza que jamais se livrara daquelas palpitações que enchiam seu peito quando estava perto do menor. Mas aquilo não importava mais, agora que tinha o menor ao seu alcance novamente. Não cometeria os mesmos erros e tentaria consertar o sofrimento que fez ao menor no passado.
De banho tomado e com a mente um pouco mais tranquila, o mais velho arrastou-se até sua cama e enfiou-se debaixo do edredom que já cobria Kyuhyun. Ficou observando o menor dormir e sem perceber se perdeu olhando os detalhes do rosto de seu hóspede. Apesar de estar mais pálido e machucado, ainda eram perceptíveis seus traços tão bonitos. Seus lábios, mesmo que sem a cor natural avermelhada, ainda eram tão atraentes como naquele dia em que o beijou pela primeira vez. Sua pele ainda aparentava ser macia e quente, mesmo que estivesse tão pálida e machucada. Sua franja caída sobre seus olhos realçava seu ar inocente de menino, mesmo sendo o homem que lhe roubara o coração.
Changmin entrelaçou seus dedos aos do menor, que repousavam sobre o edredom branco e macio. Não o soltaria mais, nunca mais. Cuidaria e protegeria aquele ao seu lado, mesmo que de longe.
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– Yun, você acha que ele vai ficar bem? – Jae conversava com o marido enquanto dirigia de volta para casa depois de deixar seu melhor amigo de volta em seu apartamento. Junho dormia tranquilamente no banco de trás do carro, alheio às preocupações dos adultos de sua vida.
– Acalma-se meu amor, ele vai ficar bem. O tempo vai curá-lo aos poucos. Pelo menos ele está comendo direitinho e amanhã ele vai trabalhar. Com a mente ocupada ele esquecerá esta dor aos poucos.
– Eu sei, mas eu nunca o vi daquele jeito Yun. Tenho medo que quando ele se ver sozinho naquele lugar cheio de lembranças do Yoochun ele não suporte e caia na depressão de novo. Ele tem que voltar para seu antigo apartamento logo.
– Não vamos pensar assim, ele vai conseguir e ele é forte. – Yun disse pousando a mão esquerda sobre a coxa do marido. Mas sabe... Eu juro que ainda não entendo. O Yoochun é uma boa pessoa, é muito estranho ele sair de casa como se fosse trabalhar e nunca mais voltar porque se casou. Tem alguma coisa errada nessa história.
– Não me interessa. Aquele idiota nunca mais vai chegar perto do Su. Eu juro que se eu encontrar com ele eu o mato. Não existe justificativa para o que ele fez. – Jae apertava as mãos no volante demonstrando a raiva que sentia. Yunho resolveu mudar de assunto, percebeu pelo tom de voz do marido que ele teria um colapso nervoso a qualquer momento.
Chegando em casa, Jae colocou o pequeno na cama e foi tomar um banho. Estava exausto, se desdobrou em três nos últimos dias. Precisava dar atenção ao marido, ao filho e vigiar Junsu, para que ele comesse e não fizesse nenhuma besteira. Não reclamava disso, Junsu era como um irmão. Mas não podia negar que seu corpo e sua mente não suportariam aquela pressão toda por muito tempo.
Depois de limpo e vestido, deitou-se na cama e dormiu imediatamente, sem dar tempo à sua mente voltar a pensar em seus problemas ou afazeres. Yunho nem ao menos o procurou, sabia que o marido não aguentaria assim que deitasse na cama. Então ocupou-se de ficar assistindo televisão enquanto o vigiava o sono do filho, dando oportunidade à sua mente de afligi-lo mais uma vez. Sentiu-se um tanto inútil nos últimos dias, via que Jae estava sobrecarregado tendo que cuidar da família e de Junsu. Mas com sua deficiência não pôde ajudar muito, apenas cuidava do filho quando Jae se ausentava para cuidar de Junsu. E claro não ousou tocar no marido uma única vez sequer, apesar de não estar aguentando de saudade de tê-lo em seus braços. Mas Jae não estava com cabeça para aquilo, além de estar exausto.
Suspirou profundamente antes de levantar-se e ir até o quarto de Junho para deitar-se perto dele e cochilar um pouco, deixando aqueles pensamentos ruins de lado. Adormeceu desejando que aquela fase ruim passasse e a vida de todos ali voltasse ao normal.
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Junsu’s POV
Eu prometi ao Jae que seria forte e não cairia naquela depressão novamente. Eu precisava ser forte. Mas quando me vi sozinho ali naquele apartamento novamente, não consegui controlar a dor que agora era parte de mim. Tudo ali o lembrava. O cheiro, a decoração tão cuidadosamente planejada, as revistas de economia jogadas na mesinha de canto da sala, os chinelos sempre colocados ao lado dos meus perto da porta e até mesmo aquele maldito cinzeiro que eu detestava, mas ele insistia em mantê-lo sobre a mesinha da sala, pois era uma lembrança de uma viagem à Índia quando ele era muito jovem.
Como seria dali para frente? Pela primeira vez parei para pensar nisso. Ele já era parte de mim, como seria minha vida sem aquela presença? Como seria chegar em casa todos os dias e não ter a preocupação de preparar o jantar para nós dois? Como seria acordar sozinho naquela cama imensa? E mais uma vez o sentimento de aflição me dominava. Aflição de não haver mais sentido para a minha vida.
Caminhei até o quarto tateando as parede,s pois as lágrimas me impediam de ver com clareza o caminho que eu tanto conhecia. Caminho que testemunhou tantas vezes ele me carregar em seus braços para aquele quarto e me amar tão intensamente, como se aquilo nos mantivesse vivos.
Achei que eu conseguiria entrar, me jogar naquela cama e dormir o resto do dia. Mas foi impossível. A visão daquela cama imensa e vazia me fez chorar ainda mais. Eu não podia ficar ali, não podia viver mais nenhum momento naquele lugar e saber que nunca mais eu o teria ali abraçado a mim quando eu adormecesse.
Não sei quanto tempo eu fiquei parado encarando aquela cama. Só me movi quando meu celular vibrou em meu bolso. O peguei sem pressa e olhei o visor, meu melhor amigo me socorria mais vez. Sem ao menos saber, ele me tirava mais uma vez do fundo do posso que eu estava caindo enquanto olhava aquele quarto.
Ele me ligou apenas para saber se eu estava bem e senti-me culpado naquele momento. Eu estava fazendo Jae sofrer, mesmo que esta não fosse minha intenção. Trocamos apenas algumas palavras e para minha surpresa, consegui falar com ele sem que minha voz soasse chorosa ou embargada. E assim eu consegui desviar meu olhar daquele lugar.
Desliguei o telefone, saindo dali a passos rápidos e movimentos afoitos. Procurei minhas malas e algumas caixas para tirar tudo que era meu dali. Voltaria para meu antigo lar naquele dia mesmo, pois eu tinha plena certeza que uma única noite ali me enlouqueceria. Eu deixaria para trás tudo o que me lembrava ele. Até mesmo os presentes. Roupas, CDs, perfumes, sapatos, jóias e até... Não.
Não podia. Minha aliança eu sabia que não conseguiria deixar. Ela era a única prova de que ele fora meu e eu dele. Mas o resto sim, não levaria nada. Deixaria tudo ali no apartamento dele. Eu não pertencia mais àquele lugar, assim como ele não me pertencia mais.
Ao jogar todos os meus pertences dentro daquelas malas e caixas, eu estava tentando desesperadamente sair daquela vida. Eu precisava sair, senão eu definharia até a morte, como quase aconteceu naqueles últimos dias. E eu não faria isso de novo. Ele não merecia minha dor.
Se eu dissesse que estava com ódio dele e que não queria vê-lo nunca mais, eu seria hipócrita e mentiroso. Por mais idiota que pareça, eu não sentia ódio dele e sim, eu sentia muito sua falta. E se ele entrasse por aquela porta ali naquele instante, eu correria para seus braços sem pensar duas vezes. Eu não desejava que ele se arrependesse amargamente por ter me deixado. Naquele momento, eu desejava apenas que ele não tivesse entrado na livraria naquela noite e roubado meu coração. Se eu não o conhecesse, poderia ter continuado minha vida solitária e sem graça. E nunca sentiria a dor que me roubava a vida agora.
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