My Dark Word
4 4 - Nightingale
Notas iniciais
Ela me leva para um restaurante pequeno e intimista.
– Isto vai ter de servi – resmunga. – Não temos muito tempo.
O lugar me parece ótimo. Cadeiras de madeira, toalhas de mesa de linho e paredes da mesma cor que o quarto de jogos de Quinn – vermelho – sangue -, com pequenos espelhos dourados pendurados aleatoriamente, velas brancas e vasinhos de rosas também brancas. Ao fundo, Ella Fitzgerald canta suavemente sobre essa coisa chamada amor. É muito romântico.
O garçom nos conduz até uma mesa para dois, em uma área reservada, e eu me sento, apreensiva, imaginando o que Quinn vai dizer.
– Não temos muito tempo – avisa ela ao garçom enquanto nos sentamos. – Então já vou fazer o pedido: dois bifes ao ponto, molho béarnaise, se você tiver, batatas fritas e legumes cozidos, qualquer um que tiver na cozinha. E traga a carta de vinhos.
– Claro, senhorita.
Surpreso pela eficiência calma e controlada de Quinn, o garçom se afasta. Quinn coloca o BlackBerry sobre a mesa. Legal, então eu não tenho direito de escolha?
– E se eu não gostar de bife?
– Não comece, Rachel – suspira ela.
– Não sou criança, Quinn.
– Então pare de agir como uma.
É como se ela estivesse me dado um tapa. Então é assim que vai ser, conversa agitada e carregada, ainda que em uma ambiente romântico, mas certamente sem flores nem corações.
– Então eu sou uma criança porque não gosto de bife? – murmuro, tentando esconder a mágoa.
– Você é uma criança por causar ciúmes em mim deliberadamente. É uma coisa infantil de se fazer. Você não tem consideração pelos sentimentos do seu amigo, usando-o daquele jeito? – Quinn aperta os lábios e fecha a cara quando o garçom retorna com a carta de vinhos.
Eu coro, não tinha pensado nisso. Pobre Finn. Certamente não quero encorajá-lo. De repente, fico mortificada. Quinn tem razão nesse ponto; foi uma coisa impensada. Ela dá uma olhada na carta de vinhos.
– Gostaria de escolher o vinho? – pergunta, levantando as sobrancelhas para mim, a arrogância em pessoa. Ela sabe que não entende nada de vinho.
– Escolha você – respondo, carrancuda, mas hulmide.
– Duas taças de Barossa Valley Shiraz, por favor.
– Hum... nós só vendemos esse vinho pela garrafa, senhora.
– Uma garrafa, então – recruta Quinn.
– Certo. – Ele se afasta, rebaixado, e eu não o culpo por se sentir assim.
Faço uma cara feia para Quinn. Qual o problema dela? Eu, provavelmente. E em algum lugar nas profundezas do meu ser, minha deusa interior desperta, sonolenta, ela se espriguiça e sorri. Esteve adormecida por um bom tempo.
– Você está muito mal-humorada.
– Eu me pergunto o motivo. – Ela me olha, impassível.
– Bem, é bom definir o tom adequado pra uma discussão intima e sincera a respeito do futuro, não acha? – Sorrio para ela docemente.
Sua boca se contrai, mas então, quase a contragosto, seus lábios se curvam, e sei que está tentando conter um sorriso.
– Desculpe – diz ela.
– Está desculpada. E fico muito feliz de informar que não resolvi virar vegetariana desde a nossa última refeição.
– Considerando que aquela foi a última refeição que você fez, acho que essa é uma questão a ser discutida.
– E temos mais uma ‘’ questão a ser discutida’’.
– Uma questão a ser discutida – ela repete, e seu olhar se suaviza, enchendo-se de humor. Ela passa a mão pelo cabelo, e fica séria de novo. – Rach, na última vez em que conversamos, você me deixou. Estou um pouco nervosa. Eu disse a você que a quero de volta, e você não disse... nada. – Seu olhar é intenso e ansioso, sua fraqueza me desarma. O que diabo eu respondo diante disso?
– Senti sua falta... de verdade, Quinn. Os últimos dias têm sido... difíceis – engulo em seco, e um nó se incha em minha garganta à medida que me lembro da minha angústia desesperada desde que a deixei.
A última semana foi a pior fase da minha vida, a dor é quase indescritível. Nada nunca chegou perto. Mas a realidade bate à porta, e me traz de volta.
– Nada mudou. Eu não posso ser o que você quer que eu seja – espremo as palavras através do nó na garganta.
– Você é o que eu quero que você seja – diz ela, a voz enfática.
– Não, Quinn, eu não sou.
– Você está chateada por causa do que aconteceu da última vez. Eu fui estúpida, e você... você também. Por que você não usou a palavra de segurança, Rachel? – seu tom de voz muda, tornando-se acusadora.
O quê? Opa, mudança de abordagem.
– Responda.
– Eu não sei. Foi demais para mim. Eu estava tentando ser o que você queria que eu fosse, tentando lidar com a dor, e a palavra sumiu da minha cabeça. Sabe... eu esqueci – sussurro, envergonhada, encolhendo os ombros como num pedido de desculpas.
Talvez pudéssemos ter evitado toda essa mágoa.
– Você esqueceu! – exclama ela, horrorizada, agarrando as laterais da mesa e me olhando de um jeito que me faz machucar.
Merda! Ela está furiosa de novo. Minha deusa interior também me encara.
Está vendo, você mesma se colocou nessa situação!
– Como posso confiar em você? – diz ela, baixando a voz. – Em qualquer situação?
O garçom volta com o nosso vinho e permanecemos olhando uma para a outra. Ambas tomadas de recriminações não ditas enquanto o garçom retira a rolha com um floreio desnecessário e serve um pouco de vinho na taça de Quinn. Automaticamente, ela estande a mão e dá um pequeno gole.
– Pode servir – seu tom é seco.
Com cuidado, o garçom enche as nossas taças e deixa a garrafa sobre a mesa, antes de se retirar. Quinn não desviou os olhos de mim o tempo inteiro. Sou eu a primeira a fraquejar, rompendo o contato visual. Pega a minha taça e dou um gole generoso. Mal sinto o gosto do vinho.
– Desculpe – sussurro, de repente, sentindo-me uma idiota. Eu a deixei porque achei que fôssemos incompatíveis, mas ela está me dizendo que eu poderia tê-la detido?
– Por que está se desculpando? – diz ela, assustada.
– Por não ter usado a palavra de segurança.
Ela fecha os olhos, parecendo aliviada.
– Talvez pudéssemos ter evitado todo esse sofrimento – resmunga.
– Você parece bem. – Mais do que bem. Parece você.
– As aparências enganam – diz ela, baixinho. – Não estou nem um pouco bem. Eu sinto como se o Sol tivesse se posto e não tivesse nascido por cinco dias, Rach. Estou vivendo uma noite infinita.
Essa confissão me deixa sem fôlego. Ah, meu Deus, exatamente como eu.
– Você disse que nunca iria me deixar, mas foi só as coisas ficarem difíceis para que saísse porta afora.
– Quando foi que eu disse que nunca iria deixar você?
– Dormindo. Foi a coisa mais reconfortante que ouvi em muito tempo, Rachel. Isso me fez relaxar.
Meu coração se comprime, e eu pego minha taça de vinho.
– Você disse que me amava – sussurra ela. – Isso ficou no passado? – Sua voz é baixa, repleta de ansiedade.
– Não, Quinn, não ficou.
Ela me encara, e parece muito vulnerável ao soltar o ar.
– Que bom – murmura.
Fico chocada com a declaração dela. Ela mudou de ideia. Antes, quando eu disse que a amava, parecera horrorizada. O garçom está de volta. Rapidamente, coloca os pratos diante de nós e se afasta.
Ah, não. Quinn
– Coma – ordena ela.
No fundo, sei que estou com fome, mas nesse exato instante meu estômago está dando um nó. Estar sentada diante da única mulher que amei em toda a minha vida, debatendo nosso futuro incerto, realmente não é algo que abra meu apetite. Olho em dúvida para meu prato.
– Eu juro, Rachel, se você não comer, vou colocá-la de bruços no meu colo e dar umas palmadas em você aqui neste restaurante, e não vai ter nada a ver com a minha satisfação sexual. Coma!
Relaxa, Fabray. Meu inconsciente me encara por sobre os óculos de leitura. E está em total acordo com minha Cinquenta Tons.
– Tudo bem, vou comer. Controle sua mão nervosa, por favor.
Ela não sorri, mas continua a me encarar. Relutante, ergo meus talheres e corto a carne. Ah, está uma delicia, de dar água na boca. Estou com fome, morta de fome. Mastigo, e ela relaxa visivelmente.
Jantamos em silêncio. A música mudou. Uma mulher de voz suave canta ao fundo, as palavras ecoando meus pensamentos. Nunca mais vou ser a mesma desde que ela apareceu em minha vida.
Olho para Quinn. Ela está comendo e me observando. Fome, desejo e ansiedade combinamos em um único e cálido olhar.
– Você sabe quem está cantando? – Faço uma tentativa de conversa normal.
Quinn faz uma pausa e escuta.
– Não... mas a cantora é boa, quem quer que seja.
– Também gosto.
Por fim, ela abre seu sorriso enigmático. O que está planejando?
– O que foi? – pergunto.
Ela balança a cabeça.
– Coma – diz, suavemente.
Já comi metade do prato. Não posso engolir mais nada. Como vou negociar isso?
– Não consigo. Já comi o bastante para a senhorita?
Ela me encara impassível, sem responder, e em seguida olha para o relógio.
– Estou satisfeita – acrescento, tomando um gole do delicioso vinho.
– Temos que ir daqui a pouco. Puck chegou, e amanhã você tem que acordar cedo para trabalhar.
– Você também.
– Eu preciso de muito menos horas de sono do que você, Rachel. Pelo menos você comeu alguma coisa.
– Não vamos voltar no Charlie Tango?
– Não, achei que talvez fosse beber. Puck vai nos levar de volta. Além do mais, desse jeito, pelo menos tenho você no carro só para mim por algumas horas. O que podemos fazer, fora conversar?
Ah, então é esse o plano.
Quinn chama o garçom e pede a conta, em seguida, pega o BlackBerry e faz uma ligação.
– Estamos no Le Picotion, Terceira Avenida, South West. – E desliga.
Continua seco ao telefone.
– Você é muito grossa com o Puck. Aliás, com a maioria das pessoas.
– Só vou direto ao ponto, Rachel.
– Você não foi direto ao ponto esta noite. Nada mudou, Quinn.
– Tenho uma proposta para você.
– Tudo isso começou com uma proposta.
– Uma proposta diferente.
O garçom volta, e Quinn lhe entrega o cartão sem sequer chegar a conta. Ela me encara, contemplativa, enquanto o garçom passa o cartão. O telefone vibra, e ela dá uma olhada.
Então ela tem uma proposta? O que é agora? Visualizo duas situações: sequestro ou trabalhar para ela. Não, nada faz sentido. Quinn termina de pagar.
– Vamos, Puck está lá fora.
Nos levantamos, e ela pega minha mão.
– Não quero perder você, Rachel. – Ela beija os nós de meus dedos com ternura, e o toque de seus lábios em minha pele ressoa por todo o meu corpo.
Lá fora, o Audi nos espera. Quinn abre a porta. Entro no carro e afundo no estofamento de couro. Ela se aproxima da janela do motorista; Puck salta do carro, e eles conversam brevemente. Isso não faz parte do protocolo habitual. Fico curiosa. Do que será que estão falando? Instantes depois, os dois entram no carro, e eu lanço um olhar para Quinn que, com sua expressão impassível de sempre, permanece olhando para a frente.
Por um breve momento, permito-me analisar seu perfil; nariz reto, lábios perfeitos e esculpidos, o cabelo caindo deliciosamente sobre a testa. certamente esta mulher divina não foi feita para mim.
Uma música inunda a parte de trás do carro, uma peça orquestral que não conheço, e Puck começa a dirigir em meio ao tráfego leve, em direção à Interestadual 5 e a Seattle.
Quinn vira-se para mim.
– Como eu estava dizendo, Rachel, tenho uma proposta para você.
Olho, nervosa, para Puck.
– Ele não pode nos ouvir – Quinn me tranquiliza.
– Como não?
– Puck – chama Quinn. Puck não responde. Ela o chama de novo e, de novo, fica sem resposta. Quinn se inclina e toca seu ombro. Puck remove um fone de ouvido que eu não tinha notado.
– Sim, senhora?
– Obrigada, Puck. Pode voltar para sua música.
– Certo, senhora.
– Feliz, agora? Ele está ouvindo seu iPod. Puccini. Esqueça que ele está aqui.
É o que eu faço.
– Você pediu a ele para fazer isso?
– Pedi.
Ah.
– Certo, e a sua proposta?
De repente, Quinn parece determinada e metódica. Puta Merda. Estamos negociando um acordo. Escuto com atenção.
– Primeiro preciso perguntar uma coisa. Você quer um relacionamento baunilha, sem nenhuma trepada sacana?
Fico boquiaberta.
– Trepada sacana? – sussurro.
– Trepada sacana.
– Não acredito que você falou isso.
– Bem, falei. Responda – diz ela calmamente.
Fico vermelha. Minha deusa interior está de joelhos, suplicando com as mãos unidas.
– Eu gosto de uma trepada sacana – murmuro.
– É o que eu achava. Então, do que você não gosta?
De não poder tocá-la. Do fato de você gostar de me ver sentindo dor, do calor do cinto...
– Da ameaça de punição cruel e incomum.
– Como assim?
– Bem, você tem todas aquelas varas, chicotes e outras coisas no seu quarto de jogos, e isso me assusta para cacete. Eu não quero que você use aquilo comigo.
– Certo, então nada de chicotes ou varas... nem de cintos – diz ela sarcasticamente.
Eu a encaro, perplexa.
– Você está tentando redefinir os limites rígidos?
– Não exatamente, só estou tentando entender você, formar uma imagem mais clara do que você gosta e do que não gosta.
– Basicamente, Quinn, é difícil lidar com seu prazer em me infligir dor. E com a ideia de que você vai fazer isso porque eu cruzei alguma espécie de linha arbitrária.
– Mas não é arbitrária, as regras estão criticas.
– Não quero um conjunto de regras.
– Nenhuma regra?
– Nenhuma regra. – Balanço a cabeça, mas meu coração está saindo pela boca. Onde ela quer chegar com isso?
– Mas você não se importa se eu bater em você?
– Com o quê?
– Com isso. – Ela levanta a mão.
Eu me contorço, desconfortável, no assento do carro.
– Não, não me importo. Principalmente com aquelas bolas prateadas... – graças a Deus está escuro, meu rosto está ardendo e minha voz diminui à medida que eu me lembro daquela noite. Sim... Eu faria aquilo de novo.
– Sim, aquilo foi divertido. – Ela sorri para mim.
– Mais do que divertido. – murmuro.
– Então, você pode lidar com alguma dor.
– Acho que sim. – Dou de ombros.
Onde ela está querendo chegar com isso? Minha ansiedade subiu vários níveis na escala Richter.
Ela acaricia o queixo, perdida em pensamentos.
– Rachel, eu quero começar de novo. Começar pela parte baunilha e, de pois, quem sabe, quando você confiar mais em mim e eu achar que você está sendo sincera e é capaz de se comunicar comigo, a gente não possa seguir em frente e fazer algumas coisas que eu gosto de fazer?
Fico olhando para ela, chocada, sem conseguir pensar em nada – como um computador travado. Ela me olha ansiosa, mas na escuridão de Oregon, não consigo vê-la direito. E então, finalmente, eu me dou conta.
Ela quer a luz, mas será que eu posso pedir isso a ela? E será que eu não gosto do escuro? Só um pouco, às vezes. As lembranças da noite Thomas Tallis voltam à minha mente, sedutoras.
– Mas e os castigos?
– Nada de castigos. – Ela balança a cabeça. – Zero.
– E as regras?
– Nada de regras.
– Nenhuma regra? Mas você tem suas necessidades.
– Preciso mais de você do que elas, Rach. Estes últimos dias têm sido um inferno. Todos os meus instintos me dizem para deixar você ir, que eu não mereço você. As fotos que aquele cara tirou... Eu vejo como ele a enxerga. Você parece tão despreocupada e bonita, não que não esteja bonita agora, mas aqui está você. Eu vejo sua dor. E é difícil saber que fui eu fiz você se sentir assim. Mas eu sou uma pessoa egoísta. Eu quis você desde que caiu em meu escritório. Você é delicada, honesta, afetuosa, forte, inteligente, inocente de um modo sedutor; a lista é interminável. Você me deixa boba. Eu quero você, e a ideia de que outra pessoa possa possuir você é como uma faca perfurando minha alma negra.
Minha boca fica seca. Puta merda. Se isso não é uma declaração de amor, não sei o que é. E as palavras simplesmente saem de mim como se uma barragem tivesse rompido.
– Quinn, por que você acha que tem uma alma negra? Eu jamais diria isso. Triste, talvez, mas você é uma mulher boa. Eu sei que é... Você é generosa, é gentil e nunca mentiu para mim. E eu não me esforcei muito. Sábado passado foi um choque. Foi o meu grito de alerta. Eu percebi que até então você tinha pegado leve comigo, e eu não poderia ser a pessoa que você queria que eu fosse. Então, depois que saí, eu me dei conta de que a dor física a que você me submeteu não era tão ruim quanto a dor de perdê-la. Eu quero agradá-la, mas é muito difícil.
– Você me agrada o tempo todo – sussurra ela. – Quantas vezes eu tenho de dizer isso?
– Eu nunca sei o que está pensando. Às vezes você é tão distante... como uma ilha. Você me intimida. É por isso que eu fico quieta. Eu não sei para que lado o seu humor vai se dirigir. Ele se altera de um extremo a outro milésimo de segundo. Isso me confunde, e você não me deixa tocar seu corpo, e eu quero tanto demonstrar o quanto amo você.
Ela pisca para mim na escuridão, cautelosamente, acho, e eu não consigo mais resistir. Solto o cinto de segurança, pulo em seu colo, pegando-a de surpresa, e seguro seu rosto em minhas mãos.
– Eu amo você, Quinn Fabray. E você está disposta a fazer tudo isso por mim. Sou eu quem não merece isso, e eu lamento não poder fazer todas aquelas coisas por você. Talvez com o tempo... eu não sei.. mas assim, aceito a sua proposta. Onde eu assino?
Ela passa os braços em volta de mim e me aperta junto a seu corpo.
– Ah, Rach. – Ela expira ao enterrar o rosto em meu cabelo.
Nós ficamos ali, sentadas, abraçadas, ouvindo a música – uma peça lenta para piano – refletir as emoções dentro do carro, a doce calmaria que sucede a tempestade. Eu me aninho em seus braços, descansando a cabeça na curva de seu pescoço. Ela acaricia minhas costas delicadamente.
– Toque é um de meus limites rígidos, Rachel – sussurra ela.
– Eu sei. Gostaria de entender por quê.
Depois de um tempo, ela suspira e, em voz baixa, diz:
– Eu tive uma infância terrível. Um dos cafetões da prostituta drogada... – Sua voz diminui, e seu corpo se enrijece à medida que ela revive alguma espécie de horror inimaginável. – Eu lembro que... – sussurra ela, estremecendo.
De repente, meu coração aperta ao me lembrar das cicatrizes de queimadura marcando sua pele. Ah, Quinn. Aperto meus braços em volta de seu pescoço.
– Ela maltratava você? Sua mãe? – minha voz é baixa, com a suavidade das lágrimas não derramadas.
– Não que eu me lembre. Ela era negligente. Não me protegia do cafetão. – Ela bufa. – Acho que era eu que cuidava dela. Quando ela finalmente se suicidou, levou quatro dias para alguém se dar conta e nos encontrar... Disso eu me lembro.
Não consigo conter uma exclamação de horror. PUTA QUE PARIU. A bile sobe até minha garganta.
– Isso é horrível de muitas maneiras – sussurro.
– Cinquenta – murmura ela.
Inclino a cabeça e pressiono os lábios no pescoço dela, buscando e oferecendo consolo enquanto imagino uma menina pequena, suja e de olhos claros, perdida e solitária ao lado do corpo da mãe.
Ah, Quinn. Inalo o cheiro dela. É um cheiro divino, meu perfume favorito em todo mundo. Ela aperta os braços em volta de mim é beija meu cabelo, e eu permaneço ali, envolta em seu abraço, enquanto Puck acelera pela noite.
QUANDO ACORDO, estamos em Seattle.
– Oi – diz Quinn em voz baixa.
– Desculpe – murmuro e me sento, piscando e me espreguiçando. Ainda estou em seus braços, em seu colo.
– Eu poderia ver você dormir para sempre, Rach.
– Falei alguma coisa?
– Não. Estamos quase chegando à sua casa.
AH?
– Não estamos indo para sua?
– Não.
Sento-me e olho para ela.
– Por que não?
– Por que você tem que trabalhar amanhã.
– Ah – resmungo.
– Por quê? Tinha algo em mente?
– Bem, talvez. – Ajeito-me no banco do carro.
– Rachel, não vou tocar em você de novo até que me implore. – Ela ri.
– O quê?!
– Até que você comece a se comunicar comigo. Da próxima vez em que fizermos amor, você vai ter que me dizer exatamente o que quer, nos mínimos detalhes.
– Ah.
Ela me tira de seu colo quando Puck encosta o carro diante do meu prédio. Quinn salta e abre a porta para mim.
– Tenho uma coisa para você. – Ela se move até a parte de trás do carro, abre a mala e tira um grande embrulho de presente. Que diabo é isso? – Só abra quando estiver dentro de casa.
– Você não vai subir?
– Não, Rachel.
– Então, quando vamos nos ver de novo?
– Amanhã.
– Meu chefe me chamou para tomar um drinque com ele amanhã.
A expressão de Quinn enrijece.
– Ah, é mesmo? – sua voz está repleta de ameaça latente .
– Para comemorar minha primeira semana – acrescento depressa.
– Onde?
– Não sei.
– Eu poderia buscar você depois disso.
– Certo... Mando um e-mail ou uma mensagem.
– Ótimo.
Ela me leva até a porta do prédio e espera até que eu ache as chaves dentro da bolsa. Abro a porta, ela se inclina para frente e segura meu queixo, empurrando de leve minha cabeça para trás. Sua boca paira sobre a minha, e, de olhos fechados, ela deixa um rastro de beijos do canto do meu olho até o canto da minha boca.
Deixo escapar um pequeno gemido enquanto minhas entranhas se derretem.
– Até amanhã – murmura.
– Boa noite, Quinn. – sussurro, e posso ouvir o desejo em minha voz. Ela sorri.
– Já para dentro – ordena, e eu atravesso a portaria carregando meu presente misterioso. – Até mais, baby – diz ela e, com a sua elegância natural, retorna ao carro.
Uma vez no apartamento, abro o pacote e encontro o meu MacBook Pro, o BlackBerry e outra caixa retangular. O que é isso? Desembrulho o papel prateado. Dentro dele, um estojo de couro preto e fino.
Abro o estojo e vejo um iPad. Minha nossa... um iPad. Sobre a tela, um cartão branco com a letra de Quinn:
Rachel, isto é para você.
Eu sei o que você quer ouvir.
A música gravada aqui fala por mim.
Quinn.
Quinn Fabray gravou uma música para mim em um iPad de última geração. Balanço a cabeça em desaprovação pelo custo dessa brincadeira, mas, no fundo, adorei o presente. Biff tem um desses no seu escritório, então sei como funciona.
Ligo o aparelho e fico besta ao ver a imagem na tela: o modelo de em pequeno planador. Meu Deus. É o Blanik L-23 que eu dei a ela, montado num suporte de vidro, sobre o que acho que é a mesa de Quinn, em seu escritório. Fico pasma.
Ela montou o avião! Ela realmente montou o avião. E então me lembro de que ela chegou a falar isso no bilhete que veio com as flores. Mal posso acreditar. No mesmo instante, percebo o quanto ela se dedicou na elaboração desse presente.
Deslizo a seta na parte inferior da tela para destravar o iPad e me surpreendo de novo. O papel de parede é a nossa foto na comemoração da minha formatura, a que foi publicada no Seattle Times. Quinn está tão bonita que não consigo evitar abrir um largo sorriso – Sim, e ela é minha!
Com um toque da ponta do dedo, os ícones passam, e outros aparecem na tela seguinte. Um aplicativo para Kindle, iBooks, Words – o que quer que isso seja.
Biblioteca Britânica? Toco no ícone e um menu aparece: ACERVO HISTÓRICO. Corro a lista para baixo e seleciono ROMANCES DO SÉCULO XVIII E XIX. Outro menu. Clico no título: THE AMERICAN, DE HENRY JAMES. Uma nova janela se abre, trazendo uma cópia digitalizada do livro. Meu Deus – é uma edição antiga, publicada em 1879, e está disponível no meu iPad! Ela me deu acesso irrestrito à biblioteca Britânica ao toque de um botão.
Fecho as janelas depressa, consciente de que poderia me perder nesse aplicativo por uma eternidade. Vejo um app chamado ‘’boa comida’’, que me faz revirar os olhos e me arrancar um sorriso ao mesmo tempo, outro de notícias, um com a previsão do tempo. O bilhete dela, no entanto, falava de música. Volto para a tela principal toco no ícone do iPod e uma lista de reprodução aparece. Dou uma olhada nas músicas, e seleção me faz sorrir. Thomas Tallis – não vou me esquecer disso tão cedo. Afinal de contas, ouvi duas vezes enquanto ela me açoitava e trepava comigo.
‘’Witchcraft’’. Meu sorriso se alarga – a dança na enorme sala. A transcrição de Bach para a obra de Marcello – ah não, isso é triste demais para meu estado de espírito atual. Hum. Jeff Bukley — sim, já ouvi falar dele. Snow Patrol – minha banda preferida – e uma música chamada ‘’ Princeples of Lust’’, do Enigma. É muito Quinn. Sorrio. Outra chamada ‘’ Possession’’ ... ah, sim, muito Cinquenta Tons. E mais algumas que nunca ouvi.
Escolho uma música cujo título me chama atenção e aperto o play. ‘’ Try’’, de Nelly Furtado. Ela começa a cantar, e sua voz é como um tecido de seda ao meu redor, envolvendo-me. Deito-me na cama.
Isso significa que Quinn vai tentar? Tentar este novo tipo de relação? Eu me deleito nos versos, encarnado o teto, procurando entender essa reviravolta. Ela sentiu minha falta. Eu senti a falta dela. Ela deve sentir algo por mim. Tem que sentir. Este iPad, as músicas, os aplicativos... ela se importa. Ela realmente se importa. Meu coração se delicia com a esperança.
A música acaba e lágrimas brotam em meus olhos. Rapidamente pulo para outra: ‘’ The Scientist’’, do Coldplay, uma das bandas preferidas da Santana. Conheço a música, mas nunca tinha prestado atenção na letra antes. Fecho os olhos e deixo as palavras tomarem conta de mim.
As lágrimas começam a escorrer. Não posso contê-las. Se isso não é um pedido de desculpas, o que é? Ah, Quinn.
Ou é um convite? Será que ela vai responder às minhas perguntas? Estou procurando significados demais em tudo isso? Provavelmente sim.
Enxugo as lágrimas. Preciso mandar um e-mail de agradecimento. Levanto da cama e pego a máquina do mal.
Coldplay continua tocando enquanto eu me sento de pernas cruzadas sobre a cama. O Mac liga e eu digito minha senha.
De: Rachel Berry
Assunto: iPad
9 de junho de 2011 23:56
Para: Quinn Fabray
Você me fez chorar de novo.
Amei o iPad.
Amei as músicas.
Amei o app da Biblioteca Britânica.
Amo você.
Obrigada.
Boa noite.
Bj, Rach.
De: Quinn Fabray
Assunto: iPad
10 de junho de 2011 00:03
Para: Rachel Berry
Fico feliz que tenha gostado. Comprei um para mim também.
Se eu estivesse aí, secaria suas lagrimas com beijos.
Mas não estou, então, vá dormir.
Quinn Fabray
CEO, Fabray Enterprises Holdings, Inc.
A resposta dela me faz sorrir. Tão mandona, tão Quinn. Será que isso também vai mudar? E percebo naquele momento que eu espero que não. Gosto dela assim – autoritária -, desde que eu possa enfrenta-la sem medo de ser punida.
De: Rachel Berry
Assunto: Srta. Rabugenta
De: 10 de junho de 2011 00:07
Para: Quinn Fabray
Você parece a mandona de sempre, e talvez ainda mais tensa e rabugenta, Srta. Fabray.
Eu sei de algo que poderia acalmá-la. Só que você não está aqui, não me deixou ficar com você, e ainda espera que eu implore...
Vá sonhando, senhorita.
Bj, Rachel.
PS: Reparei que você incluiu o Hino do Perseguidor, ‘’ Every Breath You Take’’. Aprecio seu senso de humor, mas será que o Dr. Evans sabe disso?
De: Quinn Fabray
Assunto: Calmaria zen-budista
10 de junho de 2011 00:10
Para: Rachel Berry
Minha querida Srta. Berry
Relacionamentos baunilha também têm palmadas, sabia? Em geral são consequências e acontecem num contexto sexual... mas estou mais do que feliz em abrir uma exceção.
Você vai ficar aliviada de saber que o Dr. Evans também aprecia meu senso de humor.
Agora, por favor, vá dormir, já que amanhã não vou deixar você dormir muito.
Aliás, você vai implorar, confie em mim. E eu mal posso esperar por isso.
Quinn Fabray
Uma CEO tensa, Fabray Enterprises Holdings, Inc.
De: Rachel Berry
Assunto: Boa noite, bons sonhos.
10 de junho de 2011 00:12
Para: Quinn Fabray
Bem, já que você está me pedindo de forma tão educada, e eu gosto da sua deliciosa ameaça, vou me recolher como iPad que você tão gentilmente me deu e adormecer enquanto navego pela Biblioteca Britânica, ouvindo a música que diz tudo por você.
Bj,
R.
De: Quinn Fabray
Assunto: Mais um pedido
10 de junho de 2011 00:15
Para: Rachel Berry
Sonhe comigo
Bj.
Quinn Fabray
CEO, Fabray Enterprises Holdings, Inc.
Sonhar com você, Quinn Fabray? Sempre.
Visto depressa o pijama, escovo os dentes e caio na cama. Coloco os fones de ouvido, pego o balão vazio Charlie Tango de baixo do meu travesseiro e o abraço.
Estou transbordando de alegria, um sorriso bobo de orelha a orelha. Que diferença um dia pode fazer. Como vou conseguir dormir?
José Gonzalez começa a cantar uma melodia suave, um riff hipnótico de guitarra, me deixo levar lentamente pelo sono, admirada de como o mundo se ajeitou em apenas uma noite e imaginando preguiçosamente se eu deveria fazer uma seleção de músicas para Quinn.
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