Must Be The One
6 If you have to ask
Notas iniciais
Nunca imaginei ver aquilo. Era decadente. Minha irmã cheirava a drogas e tinha umas olheiras enormes. Seus cabelos pretos estavam bagunçados e ela andava mancando.
– MEU DEUS SOPHIE, O QUE ACONTECEU? ONDE VOCÊ ESTAVA ESSE TEMPO TODO?
– Não grita porra! Tô com dor de cabeça! — respondeu Sophie. Sua voz estava alterada, mais grossa, mais rouca. Apesar dela sempre mandar em mim, Sophie nunca foi de me responder grosseiramente.
– Sophie, eu tô começando a ficar preocupada com você. Não me incomodava tanto você ficar com qualquer um mas DROGAS? TU ACHA QUE ISSO VAI MELHORAR TUA VIDA MESMO?
– Cala boca! Você só tem 13 anos, não sabe o que eu tô passando.
Não aguentava ver minha irmã daquele jeito, já sentia lágrimas vindo. Josh pegou dois copos de água. Me deu e ofereceu o outro para Sophie. Ela o encarou por um tempo mas acabou bebendo a água. Me acalmei e disse:
– Você precisa comer alguma coisa, tá pálida.. Eu fiz umas panquecas e...
– Não quero. Eu quero é dormir.
Foi cambaleando para o seu quarto e bateu a porta. Sentei no sofá e comecei a chorar. Sophie era mais do que minha irmã, ela era minha mãe praticamente e vê-la naquele estado só me lembrava meu pai: um viciado em drogas e bebidas. Ele se drogava toda noite antes do acidente de carro tirar a vida dele. Mas de qualquer jeito ele iria morrer. E era disso de que estava com medo. Não queria ver Sophie morrer. Não queria vê-la desperdiçando cada momento da vida dela em cigarro e maconha. Não queria vê-la afogando suas mágoas em bebibas e heroína. Josh sentou ao meu lado e me abraçou. Ficamos ali algum tempo abraçados. Como era bom tê-lo ali perto.
–
Faltava 10 min para meia noite e Sophie já estava se preparando para sair. Estava determinada. Josh e eu íamos seguí-la e descobri onde ela se drogava e com quem. Depois decidiríamos o que fazer.
– Eu não acho isso uma boa ideia — cochichou Josh.
– Claro que é, ou você tem uma ideia melhor para tirar Sophie dessa?
Ouvi passos e percebi Sophie se aproximando da sala. Ela estava com um casaco preto e blusa branca, uma calça jeans desgastada rasgada, botas e óculos escuros. Parecia uma garota normal. Mas eu a conhecia. Quem sai com óculos escuros a noite? Eu sabia que ela iria se drogar. Fingi não dar muita atenção para ela. Quando ela saiu, corri para pegar minha bolsa que já tinha tudo preparado: meu celular, binóculos, barrinhas de cereais, uma máquina fotográfica, uma corda, um canivete suíço e uma faca — nunca se sabe quando aparece um ladrão ou alguma coisa assim na rua. Josh ainda estava meio inseguro quanto a ideia mas me seguiu. Sabia que ele não iria me deixar sozinho nessa.
Estávamos completamente disfarçados. Eu usava uma peruca loira que disfarçava meus cabelos castanhos. Um óculos sem lentes e um cigarro que não estava aceso na minha boca. Josh estava com seu mesmo cabelo mas de um jeito diferente: Ele colocou uma faixa na cabeça o que fez as mechas que estavam na frente se levantarem um pouco. Ele estava engraçado e legal ao mesmo tempo. Ele também gostou da aparência. Ele ainda estava sem camisa e com uma calça hippie. Descalço. Não pude deixar de admirar Josh. Ele só tinha 13 anos mas tinha um tanquinho considerável. Ele reparou que eu estava notando e corou um pouco.
Seguimos Sophie de uma distância boa. Dava para vê-la e ela possivelmente não desconfiaria que havia alguém a seguindo. Acredito que ela nem perceberia pelo estado que estava.
Ela chegou na frente de um hotel e parou. Olhou para um papel que estava em sua mão e entrou. O lugar estava caíndo aos pedaços e acho que tinha anos que não pintavam aquele lugar. Na verdade, acho que tinha séculos que não limpavam aquele lugar. Senti o mesmo cheiro da van dos peppers quando entrei. No hall, havia um cara gordo mastigando um palito de madeira e assistindo tv — tentando, já que a imagem era preto e branco e o sinal não estava pegando. Ele se levantou para ajeitar a antena e nos olhou. Gelei. Jurava que ele começaria a perguntar coisas do tipo: "Quantos quartos vocês precisam?" E como é que ele não iria notar nossos disfarces? Poderia até estar com um cigarro não-aceso na boca, mas aquela peruca não enganava ninguém. Tava na cara que era peruca. Mas ele simplesmente acenou e voltou pra cadeira. Josh acenou de volta mas acho que ele não percebeu.
Subimos alguns degraus. Não sabia para que andar Sophie tinha ido, então fomos subindo. A cada andar que a gente passava eu ficava pasma: Era gente se drogando abertamente. E ainda tinha alguns que transavam sem fechar a porta. Naquele hotel se ouvia todos os tipos de gemidos.
Finalmente encontrei Sophie, ela estava entrando em um quarto onde tinha muito barulho.
– Faz assim: a gente senta na escada na frente da porta e começamos a conversar para disfarçar — sugeriu Josh.
– Ótima ideia.
Sentamos e na nossa visão só dava para ver um sofá, então ficamos ali ouvindo a conversa. Dava para perceber que tinha mais de um homem lá e que eles estavam super bêbados já que não pronunciavam uma palavra inteligível. Consegui ouvir a voz da minha irmã convidando um dos caras para entrar em um outro quarto e ficar a sós. Merda.
– É melhor a gente sair daqui — disse Josh — Não tem mais nada para fazer. Ela vai transar com o cara e a gente vai ficar esperando ela terminar?
Infelizmente tive que concordar com Josh. Pelo menos havíamos descoberto o lugar em que ela estava frequentando nesses dias. Levantei para ir embora até que um cara se jogou no sofá do quarto. Ele me parecia familiar mas não lembrava de onde tinha o visto. Ele pegou uma seringa e injetou com tudo em sua veia. Sua expressão foi de estresse para alívio. Reconheci imediatamente aquela tatuagem de polvo.
– JOHN, NÃO FAZ ISSO! — cheguei na sala gritando.
Ele me olhou com uma cara confusa. Olhei para os lados e vi que não tinha mais ninguém lá. Onde estava Anthony, Flea e Chad? E onde minha irmã tinha se metido? E com quem? Eu tinha certeza que ela tinha entrado naquele quarto.
– Por acaso eu te conheço? — perguntou John com uma voz irreconhecível.
Lembrei do meu disfarce. Josh estava atrás de mim e também não sabia o que fazer. Ele me olhava com uma cara de "Você tá doida?". Não me importei. Não me importava se era o cara que sempre me encarava e que tinha me dado o seu número sem saber meu nome de verdade. Não importava. Eu tinha arrepios de quando via alguém se drogando. E era tão errado vê-lo daquele jeito e eu não fazer nada.
– Eu sei que você não me conhece mas..
– Então saia daqui! — gritou John
– Você está sozinho aqui? Onde está Anthony, Flea e Chad?
– Aaaah, entendi — ele deu um risinho sarcástico — Você é uma daquelas fãs paranóicas. Olha aqui, eu não preciso de gente cuidando de mim. Vaza.
Me senti ofendida com aquilo. Não era nenhuma fã paranóica e falei aquilo só para o bem dele. Ele provavelmente não iria lembrar daquela conversa e nem estava raciocinando naquele momento mas falei:
– PORRA JOHN! TU QUER ACABAR COM TUA VIDA? — joguei o cigarro no chão — ME DIZ? É ISSO? É ASSIM QUE TU QUER VIVER? — peguei a seringa que ele tinha usado e esfreguei na cara dele.
Ele agora fitava o chão. Josh pegou nos meus ombros por trás numa tentativa de me acalmar. Respirei fundo. Não funcionou.
– SE É ASSIM QUE TU QUER VIVER, ENTÃO ÓTIMO. VAI PERDER TODOS OS SEUS AMIGOS E TODAS AS PESSOAS QUE SE IMPORTAM CONTIGO.
– QUE AMIGOS? TÁ FALANDO DAQUELES FILHAS DA PUTA DO ANTHONY E O RESTINHO DA BANDA? — agora John gritava que nem eu — SAÍ DAQUELA MERDA, NÃO PRECISAVA DE "AMIGOS" COMO AQUELES.
Não acreditei no que eu ouvi. Isso só me dava mais raiva dele. Respirei mais uma vez e falei tudo que eu não falei para minha irmã quando soube que ela se drogara. Fechei a porta com tudo e saí bufando. Voltamos para casa. Já iria correndo para o meu quarto quando Josh puxou o meu braço. Olhei para ele e ele me fitava com uma cara delicadamente triste. Ele envolveu seus braços no meu corpo e me abraçou.
– Não gosto de te ver assim, Mandy — agora ele acariciava meu cabelo.
– E eu não gosto de ver gente desperdiçando a vida assim.
Ele me olhava de um jeito encantador.
– Você tá sempre querendo proteger as pessoas. Acho isso incrível.
Corei.
– E é por isso que eu gosto de ti — Josh completeu com um selinho roubado.
Nunca senti aquilo quando beijei alguém. Era algo forte. E aquilo era só um selinho! Ok, um selinho demorado mas mesmo assim...
Me afastei um pouco e ele me olhava confuso e decepcionado.
– Não posso, é que.. er... — não consegui completar.
Fui para o meu quarto com a cabeça explodindo de tanta coisa que pensava. Havia algo mais forte dentro de mim que me impedia de beijá-lo.
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