Murderer
2 Amizade.
Notas iniciais
Manhã de sábado, oito horas. Charles acorda três horas mais cedo do que de costume. Senta na beira da cama, boceja, se espreguiça e fica lá sentado por alguns minutos encarando o chão. O dia seria cheio e corrido. Ele tinha que se livrar daquele corpo e estar no trabalho ao meio dia em ponto.
“Onde diabos eu vou encontrar o tal “ácido fluorídrico”?” — Pensou.
Charles lembrou de seu melhor amigo, ele sabia que podia contar com Cauê até mesmo para algo desse tipo. Pegou seu celular, discou alguns números e esperou.
— “Alô?” — Disse Cauê da outra linha, com uma voz sonolenta.
— “Cauê, aqui é o Charles, preciso de você, cara, eu fiz merda, você pode dar um pulinho aqui em casa?” — Disse Charles.
— “Charles? Meu Deus, Charles, são oito da manhã, eu só ia acordar ás onze! O que você fez?” — Respondeu Cauê.
—“Cara, não dá pra falar isso pelo telefone, vem aqui logo, nem come nada, vem rápido, eu passo um café aqui pra gente.” — Disse Charles enquanto andava até a cozinha
—“Espero que tenha um ótimo motivo para me acordar à essa hora” — Disse Cauê, terminando a ligação vestindo a primeira calça vista pela frente.
Eles se conheceram no trabalho, Cauê limpava as pistas junto com Charles. Eles conversavam muito quando tinham tempo e desenvolveram uma ótima amizade com confiança mútua e um sempre ajudava ao outro quando necessário.
Charles deixou o celular em cima da geladeira e começou a preparar um café da manhã para ele e seu amigo. Fez dois sanduíches de presunto e queijo e colocou o pó de café e a água na cafeteira. Foi até o quarto e vestiu uma roupa qualquer e quando voltou à cozinha, ouviu o som de um carro se aproximando de sua porta. O beco em que ficava sua moradia era largo o suficiente para que um automóvel entrasse com espaço para abrir até as portas de um dos lados do veículo.
Ele se dirigiu até a porta e a abriu antes de seu amigo bater. Um homem branco, de cabelo curto e barba mal feita desceu do carro. Ele o fechou e apertou um botão em sua chave emitindo um barulho típico e trancando as portas do automóvel enquanto ele andava até Charles.
— Fala aí,irmão! — Disse o homem sorridente apertando a mão dele.
— Bom dia, Cauê, entra aí e come rápido que temos que resolver isso rapidamente. — Disse Charles em um tom sério.
Cauê fez uma expressão de preocupação, mas mesmo assim entrou e sentou-se à mesa. Charles colocou o café, agora pronto, em dois copos e serviu junto aos sanduíches.
— E então, mano, o que foi que você fez? — Disse Cauê, dando uma mordida em seu sanduíche logo em seguida.
— Isso você só vai descobrir vendo. Mas termina de comer primeiro. — Respondeu Charles dando uma golada em seu café.
Os dois terminaram de comer em alguns minutos. Charles levantou da mesa e falou enquanto andava até o banheiro:
— Vem cá.
— Eu não sou viado não, Charles, sai pra lá! — Disse Cauê, rindo.
— Mano, eu to falando sério, o que você vai ver aqui não é algo para se brincar! — Disse Charles encarando Cauê de forma a deixar o homem assustado.
Cauê se levantou da mesa e seguiu Charles. Os dois chegaram no banheiro e Cauê ficou em pânico ao se deparar com o corpo na banheira.
— Meu deus, cara! Caralho! O que você fez? — Falou Cauê, desesperado.
— Calma! Calma! Eu vi esse cara matando uma mulher à alguns metros daqui, daí ele correu em minha direção, e eu, por reflexo, apunhalei ele com uma garrafa quebrada que achei no chão! Foi muito rápido, eu não me controlei, eu só o fiz! — Respondeu Charles tentando acalmar seu amigo.
— Isso não justifica matar um cara! Meu deus! Tem um cara morto na sua banheira! — Disse Cauê, ainda em desespero.
— Olha, senta ali na cozinha, se acalma e a gente conversa, ok? — Disse Charles dirigindo seu amigo até a mesa de jantar.
Ele se sentou e Charles lhe deu um copo d’água. Eles ficaram alguns minutos sentados à mesa em silêncio, quando Cauê, agora mais calmo, falou:
— Tá, o que você quer que eu faça?
— Preciso de sua ajuda para me livrar do corpo. — Respondeu Charles.
— Olha,Charles,o carro é da minha mãe, ta bom? Eu não vou carregar um defunto no carro da minha mãe! — Disse Cauê um pouco nervoso.
— Quem falou em carregar o defunto? Eu só preciso que me leve até uma farmácia e depois, alguma loja de produtos químicos, depois disso, deixa comigo que eu resolvo, ok? — Disse Charles
— E se a polícia descobrir? Eu vou ser considerado cúmplice! — Disse Cauê, frustrado.
— Se você me ajudar, ninguém vai descobrir. E digo mais! Se descobrirem eu assumo a responsabilidade e me entrego! — Respondeu Charles
— Mas eu não quero que você seja preso, mano! Você é meu melhor amigo! — Disse Cauê
— Você é meu único amigo! E eu só posso confiar em você pra isso! — Respondeu Charles colocando a mão sobre o ombro de Cauê.
— Você sempre consegue me convencer, né? — Disse Cauê, dando uma risadinha e levantando da mesa.
Os amigos, sorrindo, apertaram um a mão do outro firmemente e saíram de casa. Cauê apertou o botão na chave do carro novamente, o destrancando e convidando Charles à entrar no veículo. Os dois entraram e Cauê deu a partida, saindo do beco e dirigindo até a farmácia mais próxima. Cauê parou seu carro em frente á farmácia e Charles desceu.
— Espera aqui, volto em poucos minutos. — Disse ele.
Cauê acenou afirmativamente a cabeça. Charles entrou na farmácia e se dirigiu à uma atendente. Uma mulher branca de cabelos negros, olhos azuis e corpo escultural.
— Bom dia, onde eu acho luvas cirúrgicas por aqui? — Disse Charles, olhando a moça de cima a baixo.
— Naquela prateleira ali — Disse a moça, sorridente, apontando para uma das prateleiras.
Charles olhou para o crachá da moça e disse, sorrindo:
— Obrigado, Juliana! —
Ele foi até a prateleira, procurou um pouco até encontrar a caixa de luvas cirúrgicas e depois foi até o caixa e pagou pelo o que comprou. Após isso ele foi até a saída, passando por Juliana novamente e falando:
— Até mais, Juliana, espero encontrá-la novamente!
Juliana olhou para baixo, vermelha de timidez. Charles saiu da farmácia e entrou no carro.
— Meu Deus, moleque, que mulher maravilhosa! — Disse Charles, sorridente, com as mãos no rosto e olhando para o teto do carro.
— Hein? — Disse Cauê acendendo um cigarro.
— Deixa pra lá, vamos, temos um corpo pra nos livrar — Disse Charles, ainda sorridente.
Cauê deu uma risadinha e ligou o carro novamente, dirigindo rua abaixo até o próximo destino.
— Quando você vai parar de fumar? Você vai virar um câncer ambulante fumando desse jeito! — Disse Charles.
Cauê soltou a fumaça de sua boca pela janela e disse rindo:
— Quando você vai parar de cuidar da minha vida?
— Quando você morrer, talvez. — Riu Charles.
Chegando ao destino, Charles desceu do carro e entrou na loja de produtos químicos. Ele procurou e achou um tanque plástico de mais ou menos um metro de largura e uns 60 centímetros de profundidade. Ele sabia do material do recipiente que precisava colocar o corpo junto ao ácido,então ele pegou o tanque, que apesar de grande era bem leve, por sinal. Foi até uma prateleira, arrastando o tanque pelo chão da loja, já que era leve, mas era grande demais para ser carregado em seus braços. Na prateleira ele encontrou uma garrafa de um litro com o ácido que ele procurava, então pegou três delas e colocou no tanque, depois foi até o caixa, pagou pelo o que pegou e foi até o carro novamente, abrindo a porta traseira e colocando o tanque sobre os assentos traseiros.
— que trambolho é esse, Charles? — Perguntou Cauê olhando para o tanque de plástico no banco de trás.
— Polietileno, esse material não é corroído pelo ácido fluorídrico então eu comprei. — Respondeu Charles.
Cauê, agora sem o cigarro em sua boca, revirou os olhos, já que não entendia nada daquilo, e se virou para frente novamente. Charles sentou-se no banco do carona e seu amigo dirigiu de volta até sua casa.
Chegando em casa, Charles desceu do carro e tirou as coisas que comprou de dentro do veículo, as levando para sua casa.
— Obrigado, cara, obrigado mesmo. E não se esqueça! O que você viu aqui, você não pode contar para ninguém! — Disse Charles.
— Pode deixar mano, pode contar comigo pro que der e vier! — Disse Cauê, acenando de dentro do carro e indo embora.
Charles entrou em sua casa e trancou a porta. Ele tinha um corpo para se livrar. Ele sentou-se à mesa pensativo, ele matou um cara, ele tem um defunto em seu banheiro e agora envolveu seu melhor amigo nisso. Ele se sentia bem por seu amigo ter lhe ajudado, ele se sentia bem por poder confiar em alguém, já que sempre foi um homem solitário. Depois de muito tempo, Charles podia dizer que tinha não um amigo, mas um irmão. Depois de muito tempo, Charles podia dizer que estava feliz.
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