Mundo dos Demônios
2 Onde estou?
Notas iniciais
Estranho. Me lembrava muito bem do que tinha acontecido... Só consegui me lembrar do estrondo e da escuridão depois disso. Minha cabeça doía. Meu corpo estava dolorido. Minhas mãos estavam queimando como se as tivesse posto no fogo. Ainda não via nada, meus olhos estavam fechados.
Enfim, abri os olhos. Pela falta de claridade, enxergava pouco, mas pudia perceber que estava em uma sala relativamente pequena, com muitas janelas, duas portas, um ventilador de teto e carpete no piso. Tentei me levantar para examinar melhor o lugar. Não consegui de primeira. Meus ossos estavam fracos como se estivesse sem comer há dias. Tentei uma segunda vez, e falhei novamente. Na terceira consegui me sentar.
Como observei, a sala era pequena. Estava sozinha nela. Bom, sozinha não seria o termo certo se eu pudesse contar as inúmeras mosquinhas que rodavam na lâmpada bem fraca acesa logo acima da minha cabeça. Minha garganta estava tão seca que não conseguia dizer uma só palavra. Tossi uma, duas, três vezes. Na quarta tossida alguém bateu na porta.
– Com licença. – Uma voz masculina desconhecida abriu a porta lentamente.
Ainda não conseguia dizer nada, minha voz falhava na tentativa de dizer “olá”.
– Como está Sthef? Tome aqui um copo de água para molhar a garganta.
O sujeito se escondia atrás da porta, não mostrava seu rosto, nem seu corpo. Apenas sua sombra aparecia no chão da sala mal iluminada. Ele empurrou um carrinho todo preto pra dentro do quarto com uma bandeja e um copo de água em cima. O carrinho parou na minha frente e bebi a água.
– Argh! Que gosto horrível! – Reclamei ao sentir um péssimo gosto de água com bala Mentos.
– Que ótimo, já está falando! – Ainda não via quem conversa comigo.
Botei o copo no lugar em que veio e apoiei as mãos na cama em que estava sentada. Olhei pro chão por um tempo e virei o pescoço, fazendo um pequeno alongamento. Estiquei os braços para frente com dificuldade. Ouvi estalos vindo dos meus cotovelos. Os levantei para cima e sacudi os ombros. Após vários estalos, me levantei da cama e fiquei de pé. Minhas pernas doíam, não tanto quanto meus braços. Dobrei o joelho esquerdo, o direito e estiquei a perna novamente. E então já podia andar.
Nesse breve tempo de alongamento, me esqueci do cara misterioso que me ajudou a molhar a garganta e que, provavelmente, estaria tomando conta de mim. Dei uma espiada na porta e vi que ainda está lá. Apenas sua sombra confirmava isso. Olhei para a esquerda da sala e vi uma porta com a palavra “banheiro” escrita. Sonolenta e calmamente me rastejei até lá e entrei. Tudo o que vi foram: Um espelho, um vaso sanitário, uma pia e uma janela.
– Nossa, que interessante... – Falei algo sem sentido, por causa do sono.
– O quê, querida?
– Pô, que susto! Você ainda tá aqui...
– Mas é claro! Sou responsável por cuidar de você e sua saúde. – Como pensei. – Se quiser, posso esperá-la lá fora.
Ignorei o cara. Entrei no banheiro, fechei a porta e sentei no vaso para descansar novamente. Vi a ponta de um tecido muito fino e percebi que fazia parte de minha roupa. Estava usando um vestido preto, transparente e decotado. Me levantei e vi uma menina no espelho. Seu rosto era igual o meu. Seu corpo era igual o meu Já sua roupa... Era extravagante demais para ser minha.
– Fique aí fora então, senhor misterioso. – Respondi para garantir que ele não entrasse no quarto.
Lavei o rosto na pia e fiz uma careta pra menina do espelho. Dei meia volta e sai do banheiro. Comecei a procurar minhas roupas, pretas, escuras, pesadas. Com o corpo ainda dolorido, dei uma olhada rápida sobre a cama, no banheiro e pelas janelas, não estava lá.
– Droga!
Revirei os olhos e resmunguei. Arrastei as sapatilhas pretas de caveiras que estava usando até a porta em que o cara estava minutos atrás. Abri a porta e vi um corredor enorme, com muitas portas dos dois lados, paredes cinzas, carpete por todo o piso, ventiladores de teto e poucas luzes. Vi tudo isso, menos o cara.
– Sthef!
Dei um pulo e caí de bunda no chão. Pela voz, percebi que o responsável pelo meu “mini infarto” era o senhor misterioso. Finalmente olhei para trás e vi seu rosto.
– Perdão... Dai-me as mãos para que se levante.
Ele era assustador.
– O quê foi? Não tenha medo de mim.
Ele tinha garras.
– Não se afaste, não farei mal a você...
O quê ele é?
– Sthef, cuidado com a pared...
De repente apaguei. Tudo ficou escuro e senti forte dor de cabeça. Tinha acabado de bater a cabeça na parede com força e desmaiei.
Acordei com sacudidas e leves tapinhas no rosto. Escutei alguém dizer “Sthef, acorde” repetidas vezes. Que voz irritante aquela. Abri os olhos e dei de cara com o “senhor misterioso” que pela segunda vez me deu um “mini infarto”. Várias perguntas vieram em minha mente ao mesmo tempo, mas a que mais me incomodava no momento era: O quê ele é?
Voltei pra mesma cama em que estava quando acordei da última vez, agora com um saco de gelo na parte de trás da cabeça. Olhos me observam, nada discretamente. Estava suando. Me sentia nua com aquela roupa tão fina. Congelei e não conseguia mais falar.
– Desculpe-me, Sthef! Não tinha a intenção de assustá-la. Por favor, perdoe-me...
Seus olhos... Seus olhos me assustavam profundamente. Seu rosto era até normal. Aparentemente ele era um adolescente de 17 anos, já com barba feita, jaleco, alto, físico esportivo, garras nas mãos... Muito bonito, por sinal... Mas seus olhos eram medonhos! Olhos? Posso chamar isso de olhos? Para mim são apenas dois buracos em sua linda face. Onde está a cor dos olhos que todos nós temos? Ele não tinha. Eram apenas dois olhos pretos.

Observei atentamente aqueles olhos tão assustadores. Acho que o medo se amenizou e deu lugar a admiração. Fiquei encabulada com essa coisa tão surreal. Imaginei que fossem lentes e relaxei um pouco.
– Desculpe-me Sthef. Não quis assustá-la. – Ele se desculpou pela milésima vez. Estava com a cabeça baixa e um capuz branco sobre o rosto, provavelmente com a intensão de cobrir os olhos.
– Isso são lente, não são? – Fui bem direta. Achei até uma pergunta ridícula. Olhos assim não existem na terra.
– Ah, isso? É, são. São lente especiais.
– Por que gaguejou? – Para mim, gaguejar significa mentira.
– Ah, nada. Perdão, eu gaguejo mesmo as vezes...
– Sei... – Não fingi acreditar, ironizando minha decepção discretamente.
Ele tirou o capuz da cabeça e seus olhos rodearam o lugar em busca de algo. Inclinei minha cabeça pro lado pra pensar um pouco. Novamente fui rodeada de perguntas: Onde estava? Como fui parar lá? Como voltaria pra casa? Meus pais se preocupariam comigo? Por que esse cara estava cuidando de mim? Por que ele estava usando lentes no trabalho? Por que estava vestindo essa roupa?
De todas as perguntas, a primeira que soltei foi:
– Qual seu nome?
– Ah, desculpe a falta de educação. Me chamo Thed. Prazer em conhecê-la, jovem dama. – Ele pegou minha mão, acho que na tentativa de beijá-la, mas recuei e ele entendeu.
– Por que tá cuidado de mim? Você é médico? Já ligaram para meus pais? E minhas roupas, onde estão? Será que pode me dizer por que você usa lent...
Thed cortou minha fala com um assovio bem alto, de doer os ouvidos. E eu que o achei educado, veio me interromper no meio de várias perguntas. Fiquei olhando pra ele com uma cara de quem diz “vou cortar sua boca caso me interrompa novamente.”. Ele me ignorou, mas estava acostumada com isso. Segundos depois, apareceu um homem mais velho que ele, aparentemente com uns 21 anos. Ele usava óculos escuros, máscara, jaleco e botas brancas. Veio até mim e me pegou pelo braço, não com tanta força, mas de maneira nada delicada.
– O que você tá fazendo? – Comecei a me remexer, tentando fazê-lo me largar. – Para onde tá me levando?!
– Acalme-se Sthef. Apenas siga-o. Ele fará alguns exames com você e eu irei acompanhá-la a cada passo, jovem. Não tenha medo.
– Até parece que vou confiar em um cara que usa lentes de filme de terror no trabalho. Aliás, você não é tão mais velho que eu, pare de me chamar de jovem! – Comecei a me irritar e me sacudir mais. – Eu nem te conheço, não me chame de Sthef!
Quando me dei conta já estava em outra sala. Agora uma totalmente sombria, escura, com fumaça pelo chão que não me permitia ver o piso, cheiro de mofo no ar, sem luz, sem janela, ar frio, barulho de floresta, totalmente assustador. Como estava sem luz, eu tropecei em um cabo no chão logo depois de botar o pé na sala. Dei uma olhada rápida e não enxerguei muito bem. Conseguia apenas ver o homem que estava lá comigo. Sua silhueta sentou-se em uma cadeira em algum lugar e mexeu em um computador. Escutei o “tec tec” enquanto digitava algo. Até aquele momento ele não tinha dito uma só palavra.
– Aí, desculpe a indelicadeza e tal, mas por que eu tô aqui? Por que me trouxe aqui?
O tec tec do teclado não parava e ele me deixou no vácuo. Revirei os olhos novamente e procurei uma cadeira pelo local. Encontrei um banquinho e sentei. Resmunguei pois aquele banco era muito desconfortável e pontudo. Duro demais para sentar, e ainda por cima tinha um cheiro horrível. Não aguentava mais ficar naquele lugar. Aquelas roupas finas, aquele cheiro horroroso, aqueles dois estranhos...
– O QUE ESTÁ ACONTECENDO? ONDE É QUE EU TÔ?
Explodi de raiva e gritei para o homem que estava na sala comigo. No minuto em que fechei a boca, algumas luzes se acendem. No momento pensei “pelo menos tem luz nessa porcaria”. Logo depois me arrependi. O cara estava sem os óculos escuros, sem o jaleco e sem a máscara... Foi aí que vi que banco em que estava sentada não era um banco.
– O QUE É ISSO?!
Fiquei tão apavorada que me faltou ar e desmaiei de novo.
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