Mundo dos Demônios
4 Gothic Dark
Notas iniciais
Se já estava confusa antes, com certeza piorou. Não conseguia raciocinar, meu cérebro cansou-se de tanto esforço. Pedi um copo d’agua para Thed. Quando voltou, ele disse que me explicaria tudo assim que eu me recuperasse.
A mulher de dos metros que entrou às pressas, foi logo na direção de Bxo e começou a dizer várias coisas enquanto mostrava uma prancheta a ele. Ele tirou os óculos e pude ver seus olhos pela segunda vez. Eles são como os de Thed, idênticos. Para evitar mais um choque ou ter falta de ar novamente, me virei de costas para ele, e Thed vira-se também, sem entender por que fiz isso. Suspirei diversas antes de pôr o copo na mesa e dizer:
– Ok, você pode começar a contar tudo.
– Acalme-se Sthef. Muitas coisas serão contadas, outras você não precisa saber, e outras você descobrirá sozinha. – Seus olhos eram tão perfurantes que me deu uma dor na costela só de observá-los por alguns segundos. Depois disso, virei o rosto. – Eu ficarei com você dia e noite. Serei seu guia por um bom tempo, até que não precise mais de mim, e se quer saber, talvez dure alguns anos.
– Não me importo com você agora. Quero saber dos meus pais, da minha casa, minha escola, da minha vida!
– Esqueça. Apenas esqueça. – Disse Bxo quando a gigante mulher dos cabelos azuis saiu da sala.
– Você criará uma nova vida aqui em Gothic Dark, Sthef. Não será difícil, estarei com você todo o tempo.
Bxo pôs seus óculos de novo e apontou com a cabeça para a porta, querendo dizer que ia dar uma saída. Nisso, Thed continuou:
– Eu te ajudarei com a escola, casa, a se acostumar com os... – Ele parou. Parecia procurar a palavra certa. – Com os...
Tic, tac, tic, tac. O relógio na parede fazia barulho enquanto ele pensava.
– Com os “sujeitos” – ele faz as aspas com os dedos pontiagudos com garras no lugar das unhas. – Daqui.
– Isso não está acontecendo! – Botei as mãos sobre a cabeça e me inclinei para baixo. – Não pode estar acontecendo!
Isso é loucura, é coisa de filme, livro, séries, desenhos... Vida real é outra história! Só posso tirar uma conclusão disso tudo:
– Estou sonhando! – Eu disse, e soltei uma risadinha abafada. – É isso! Eu estou em um sonho!
– Sinto lhe dizer colega, mas isso não é um sonho. – Disse Thed mordendo o lábio inferior.
– Como não? Estou em meu sonho e daqui a pouco vou acordar. Tudo bem, tudo vai voltar ao normal! – Sorri tranquilamente, confiante no que tinha acabado de dizer.
– Sthef, você não está...
– Cale-se! Você faz parte do meu sonho, posso tirá-lo daqui agora mesmo se continuar me enchendo.
Para falar a verdade, eu não estava tão confiante quanto a isso. Parecia tudo bem real. Principalmente as dores de quando acordei, a batida na parede, os estalos dos dedos... Foi tudo bem realista para ser um sonho, mas real não podia ser. Continuaria com essa ideia até acordar.
Bxo voltou à sala e chamou Thed na porta. Eles falavam baixinho, talvez para que eu não ouvisse, enquanto Thed olhava pra mim diversas vezes. Eles certamente estavam falando de mim. Como esse sonho era meu, não ia deixar de lado a oportunidade de me divertir da minha maneira.
Levantei da cadeira que ainda estava no centro da sala e caminhei até os dois.
– Sobre o quê falam? – Olhei para os dois com os olhos bem abertos.
– Sobre você mesma. Estávamos decidindo onde será sua casa, sua escola e quem ficará com você.
– Tudo bem, eu mesma me decido. – Limpei a garganta e continuei. – A casa, vocês podem escolher, uma que seja não muito grande, mas não tão pequena. Que tenha um porão que nem nos filmes de terror. – Pisco para Thed, pois ele parecia saber muito sobre terror. – Quero morar sozinha e estudar na escola com menor horário de aulas.
Bxo confirmou com a cabeça, mas depois disse:
– Tudo bem. Pode ser. No entanto você terá que morar com Thed.
Thed abriu um sorrisinho, não entendo o porquê.
– Hm, ok. Não durará muito tempo... Pode ser então.
– Está tudo combinado. Já podem ir lá fora, e em seguida... Para esta casa. – Ele me entregou a foto de uma casa que é de tamanho médio, poucas janelas, dois andares e escura. Perfeita!
Thed pegou a foto da minha mão. Ele virou a cabeça um pouco e analisou a casa. Depois de algumas olhadas mais, me devolveu a fotografia e disse:
– Está bem, podemos ir.
Dei de ombros e acenei com a cabeça concordando.
– Só uma coisa, Thed... Tenha cuidado lá fora, segure a mão dela e não a deixe assustada. Caso algo aconteça, traga-a de volta.
– Pode deixar Doutor Bxo. – Thed responde e pisca pra mim.
Não entendi a parte do “não a deixe assustada”. Realmente esse era o sonho mais estranho que já tive.
Thed tirou o jaleco e pendurou na cadeira em que eu estava sentada. Ele vestia uma blusa preta com alguns rasgos que pareciam mordidas de um lobo muito feroz. Sua calça jeans escura era justa e mesmo assim ele usava um sinto para segurá-la. Tênis preto, sem marca. Apenas um tênis. Em seu pescoço, vi uma corrente. Devia ser um colar com algum pingente, mas estava dentro da blusa. Suas mãos tinham pequenos buracos nos dedos, como se eles respirassem por ali. Ao longo dos dedos, tinham as garras, de ferro, pontudas, porém pequenas.
Bxo só observava enquanto Thed se arrumava para sairmos daquela sala. Enquanto isso, eu saio de lá e vou até o banheiro.
Me olhando no espelho vi a mesma menina de roupa extravagante. Seu vestido era tão fino lhe causa frio nas pernas, apenar se estar de meia-calça. Um decote nos ombros e uma caveira nada afeminada estampada no centro do vestido, deixavam a roupa ainda mais estranha. Seus cabelos estavam normais, penteados corretamente, de forma simples, mas em perfeito estado.
Saí do banheiro e Thed já está pronto.
– Vamos? – Ele perguntou.
– Claro.
– Tenha cuidado, Sthefania. – Disse Bxo.
Fiz uma careta tentando entender por que ele disse aquilo pela segunda vez de forma diferente.
– Cuidarei dela, Doutor. Fique tranquilo. – Thed sorriu.
– Ligue-me mais tarde, por favor.
– Pode deixar.
Thed pôs uma mão na maçaneta e com a outra segurava a minha. Eu tirei a minha mão da dele, e ele me olhou de forma estranha, talvez triste ou surpreso por ter tê-lo recusado. Ele girou a maçaneta e saímos da sala, sem mãos dadas. O corredor ainda é o mesmo. Vazio, escuro e frio por causa dos ventiladores de teto.
Caminhamos lado a lado, olhando para frente, sem ver ninguém. Até aquele momento, as únicas pessoas estranhas que tinha visto, foram Thed, Bxo e a mulher gigante de três olhos e cabelos azuis. O corredor era bem comprido e achei que andaríamos um pouco até a porta que ficava no final dele.

Um minuto se passou e ainda estávamos andando. A porta no fim do corredor não parece nem um pouco mais próxima. Para quebrar o silêncio, Thed me disse:
– Você deve gostar daqui... Se for gótica mesmo, irá gostar.
– O que o fato de eu ser gótica tem a ver com esse lugar?
– Você verá. Se assustará no começo, tenho certeza, mas se seu coração for gótico, irá se acostumar facilmente.
– Hm... – Olhei para trás e percebi que já tínhamos andado bastante. – Quantos anos você tem, Thed?
– Tenho uns... 17 anos no seu ponto de vista.
Ele não se virou para mim nem uma vez.
– No meu ponto de vista?
– Sim. Aqui em Gothic, nossa idade é diferente do modo que vocês veem na Terra.
Bati a mão na testa e pensei “mas é claro!”.
O silêncio era absoluto novamente, apenas ouvia o som dos ventiladores de teto rodando logo acima de nós.
Três minutos andando e a porta ainda estava longe. Tudo bem que parecia distante de onde estávamos, mas não tanto assim.
– Andamos um pouco, não é? — Thed perguntou.
– Pouco? Estamos andando há minutos.
Assim que terminei de falar, escutei um barulho bem alto atrás de nós. Dei um pulo pra frente pelo susto que levei. Olhei pra trás ainda assustada e vi que tinha acabado de cair um dos ventiladores. Olhei em volta para ver se tinha alguém com a gente no corredor, talvez tentando nos matar, assim como em filmes.
– Não se preocupe, esse já estava meio solto. – Thed disse e estalou os dedos.
– Poderia ter caído em alguém! Iria machucar gravemente!
– Não, não iria. – Ele me deu língua como se eu estivesse falando bobagem. Thed se virou e continuou caminhando atrás de mim.
Escutei o barulho bem próximo de uma porta abrindo. Me virei e lá estava ela. A porta que estava tão longe, tão distante, que nos fez andar por minutos, e mesmo assim não pareceu mais perto, estava ali, a dois metros de distância de mim.
– O quê?! – Recuei. Olhei para trás e vi o ventilador despedaçado no chão. Olhei para frente e vi Thed segurando a porta.
– O quê foi? – Ele mordeu o lábio inferior novamente.
– Essa porta! Ela estava a muitos metros de distância de nós! Como veio parar aqui?!
– Não diga bobagens, Sthef.
Fiquei de boca aberta por um tempo, mas depois bati na testa de novo. “Você está sonhando, sua besta!”. O sonho era tão real que até me esquecia disso.
– Bom, tem algumas coisas que preciso te dizer antes de passarmos por essa porta. – Ouvi o barulho de gente caminhando e pessoas falando, todas ao mesmo tempo, atrás da porta. – Atrás dessa porta você verá os seres que vivem em Gothic. Estou preocupado com isso, pois se você desmaiou ao ver o Doutor Bxo, e não gostou de meus olhos, isso será um problema. – Ele mordeu o lábio inferior todo agora, deixando a mostra dois caninos enormes e pontiagudos.
– Ah, não se preocupe comigo, sou forte. Eu só estava meio fraca e acabei não aguentando o susto. Já estou melhor agora, aguento qualquer coisa! – Dei uma piscadela pra ele e ele sorri.
– Posso abri-la então?
– Vá em frente.
Ele segurou a maçaneta com força e empurra o que falta para a porta se abrir. Ela se abriu lentamente, revelando o que havia do outro lado.
Meu queixo foi ao chão pela segunda vez.
– Oh-meu-Deus!
Fiquei paralisada.
– Sthef, tudo bem? – Thed me segurou pela cintura, mas tirei a mão dele, dizendo que estava bem.
– O que... é isso?
– São os seres de Gothic.
Seres de Gothic... O que vi eram monstros. Verdadeiros monstros. Vi, por exemplo, um homem baixinho, com duas cabeças, cabelos vermelhos e magrelo. Uma senhora de cabelos brancos, pele vermelha, quatro braços, musculosa, olhos iguais aos de Thed e Bxo, e dentes afiados também. Também encontrei uma criancinha sentada no chão. Observei bem a criança. Ela parecia normal, pois estava de costa. No momento em que dei um passo para vê-la de perto, ela se virou.... Está comendo olhos humanos. Sua boca estava cheia deles, seus dedos cheios de sangue. Pareciam olhos frescos.
– Sthef, você está bem?
– Es... – Botei a mão na boca com rapidez. Estava com muita ânsia. – Estou bem.
– Tem certeza? – Ele levantou a sobrancelha esquerda.
– Tenho! Estou legal! – Sorri e tentei levar tudo isso na brincadeira, lembrando-me de que era um sonho.
Thed segurou minha mão de novo, e, dessa vez, eu não a soltei. Ele olhou pra mim com cara de surpreso por não tê-la soltado, mas contrai os lábios, com medo de fazer. Ele parecia gostar de mim... Pena que nada era real.
Caminhamos no meio de todos aqueles monstros, seres, pessoas... Sejam o que for. Puxei Thed para mais perto de mim e perguntei em seu ouvido:
– O quê eles são? Sei que são a espécie daqui, mas o quê são?
– São demônios. – Ele sorri.
Abri a boca pela milésima vez. Já havia lido muito sobre demônios, já estudei sobre tais, já fiz redações, histórias, poesias, já havia visto filmes e lido livros. Mas tudo o que sabia sobre eles não se encaixava nos demônios de lá.
– Que tipo de demônios eles são? Não deveriam ser assustadores? – Me lembrei de Bxo e me corriji. – Quer dizer, MAIS assustadores?
– Moramos em Gothic. Todos aqui são do bem. Não fazemos mal a ninguém.
– “Não fazemos”? Você é um deles?! – Arregalei os olhos por um momento.
– Claro que sim. De onde acha que tirei esses olhos? – E então riu.
Sinti minha bochecha ficando vermelha de vergonha. Até então, ainda estava com a ideia de que aquilo eram lentes e as garras eram de brinquedo ou sei lá.
Tudo começou a fazer mais sentido. Os olhos, as garras, a mulher gigante, a sala e Bxo. As roupas, a falta de luz, o clima estranho. Aliás, eu não deveria me sentir tão estranha assim. Se era gótica, devia me acostumar rapidamente com isso. Olhe o nome desse lugar: Gothic Dark. É meu mundo! Imaginei se fosse real. Seria uma loucura.
Faz uma cara meio triste enquanto nos desviávamos daqueles “demônios bonzinhos” dessa espécie de hospital. Estava assustada a pouco tempo, mas no momento entristeci.
– O quê houve? – Thed perguntou quando percebe que mudei de humor.
– Nada, só acho que se isso fosse real seria mais interessante. – Cocei a cabeça. Como pensei nisso? Nunca mais veria meus pais, nunca mais veria minha casa, iria pra escola, viveria na Terra. Nunca mais! Eu suportaria isso? – Bom, talvez. – Acho que suportaria sim. Eu era infeliz e, até o momento, me diverti bastante conhecendo coisas surreais por lá.
Thed parou de andar e largou minha mão. Ele respirou fundo e andou até minha frente. Pôs as mãos nos meus ombros, olhou no fundo dos meus olhos e soltou:
– Sthef, isso é real! Acredite em mim, você não está sonhando. Sua vida na Terra... Não existe mais.
Pisquei várias vezes tentando captar o que ele tinha acabado de dizer. Demorei algum tempo para entender. Fiquei confusa novamente. Cai de joelhos no chão.
– Ai! – Abaixei a cabeça quando senti a dor dos joelhos batendo contra o chão na queda.
Não era para eu ter sentido aquela dor. Em sonhos não sentimos dor...
– Me belisque, por favor. – Disse a Thed, ainda com a cabeça abaixada, deixando uma lágrima cair.
– O quê? – Ele inclinou a cabeça, parecia que não entendia o porquê do pedido.
– Quando não acreditamos em algo, pedimos para que alguém nos belisque, pois em sonho não sentimos dor.
– Ah! Entendi... Mas não posso te beliscar.
– Por que não?
Ele levantou meu rosto cuidadosamente com uma mão, e com a outra mostrou as garras. Fazia sentido. Eu iria me corroer de dor se ele me beliscasse, e talvez pudesse até arrancar um pedaço da minha pele... Mas era um sonho, não sentiria dor!
– Pode beliscar, não vou sentir nada. – Abaixei a cabeça novamente.
– Vai sim, você não está sonhando!
– Belisque logo!
Ele ficou parado por um tempo, sem dizer nada. Levantei a cabeça para ver o motivo da demora. Parece estar pensando se fazia ou não. Finalmente ele levantou a garra do dedo indicador direto. Segurou meu rosto com a mão esquerda, fechou os olhos e...
– Aaah! – Botei a mão sobre minha bochecha e percebi que está sangrando. Além de sangrar, doia.
– Desculpe Sthef, essa era a única coisa que doeria menos e seria o suficiente para você acreditar...
Comecei a chorar. Não de dor. Chorei porque minha vida havia acabado. Nunca mais veria meus pais... Mesmo que me batessem, eu os amava. Mesmo que não se importassem comigo, eu os amava.
Thed se abaixou e sentou na minha frente. Estávamos no meio do hospital sentados no chão. Eu de joelhos e ele de pernas cruzadas. Ele tirou um lenço preto do bolso esquerdo da calça, e cuidadosamente secou meu rosto e limpou minha ferida. Quando passou o lenço pelo machucado, solucei ainda mais, pela ardência do corte e pelo fato de ter sentido essa dor. Thed não ligava para meu choro, pelo contrário, ele passa a mãos sobre meus cabelos com cuidado para não me machucar com as garras. Acariciando meus cabelos, ele disse:
– Sinto muito...
Fiquei em silêncio ainda tentando captar tudo o que não me entrava à mente. Todas aquelas coisas de casa, escola, criar uma nova vida aqui, isso sim era real. Ficarei 24 horas por dia com esse demônio que se julga bonzinho, mas que na verdade era um desconhecido para mim.
– Vamos para casa, Sthef. Lá eu te conto o que quiser saber...
Ele me ajudou a levantar, passou a mão pela minha cintura, e foi me carregando, pois perdi todas as forças. Enquanto andávamos, todos aqueles outros demônios do bem olhavam pra mim como uma completa estranha. Alguns corriam, ficavam com medo. Não consigia ter medo deles no momento, estava muito abalada emocionalmente para caber medo em mim.
Após várias soluçadas, estávamos do lado de fora do hospital. Era inacreditável como lá era diferente da Terra. Ao dar meu primeiro passo fora daquele lugar, sinti que estava pisando em areia de baixo de toda a fumaça que havia no chão. Olhei para cima e vi nuvens cinzas, mas que não pareciam de chuva. Perto de uma das maiores nuvens, tinha uma lua vermelha chamada Lua de Sangue, pelo o que Thed me disse. Olhando em volta, percebi que o lugar era sombrio e escuro. Tinha ruas, casas, bares, escolas, farmácias, mas tudo apropriado para demônios. Não sei se conseguiria me adaptar.
– Fique tranquila, serei seu guia no que precisar. – Thed me disse e piscou pra mim.
Ainda estávamos andando. Nosso destino era minha (e a de Thed) nova casa. Fiquei imaginando eu e ele na mesma casa, tendo uma vida juntos como irmã mais nova e o irmão mais velho responsável pela irmã. Provavelmente não daria certo, porque eu não o conheço, e nem ele me conhece. Só me restava esperar para ver no que daria.
– Chegamos.
Eu levantei a cabeça e me pus corretamente em pé. Estaria tudo bem se logo após disso nós entrássemos na casa, mas tinha um problema.
– Cadê a casa?
– Como cadê? – Thed pôs a língua pra fora como fez da última vez.
Eu fiz um bico e amarrei a cara. Queria chegar na tal casa e começar a arrumar logo as coisas, descansar a cabeça e desejar voltar ao meu mundo, minha Terra, minha cidade, sei lá.
– Nossa! – Thed virou o rosto para trás. – Olhe só, um demônio roqueiro!
– Hã?! Onde? – Me virei com pressa para procurar o tal cara. Não vi ninguém na rua, estávamos sozinhos nela.
Quando me virei novamente para dar uma bronca ao Thed, vi a casa lá. “Poderes de demônios”, eu pensei. Achei irritante aquelas brincadeiras, assim como ele fez com a porta quando estávamos no hospital... Começou a fazer sentido.
– Consegue esconder uma casa inteira, ou fazer aparecer uma?
– As duas coisas. – Ele piscou pra mim e pegou minha mão.
– Não sou criança, já consigo andar, me deixe ir sozinha.
– Está bem, desculpe-me!
Caminhei até a casa. Andei, andei, andei e parece que nem saí do lugar. Olhei para trás e não vi Thed. Se no caso eu estivesse andando, ele estaria bem longe, pois havia andado bastante. Percebi que ele estava do meu lado rindo. Olhei com raiva pra ele, que parou de rir e mordeu os lábios. Olhei para frente de novo e estava em cima do tapete de minha nova casa. No tapete diz: BEM VINDO AO MEU INFERNO. Logo abaixo em letras menores está escrito: TRAGA CHOCOLATE!
Balancei a cabeça em negação e disse:
– Primeira tarefa na minha nova casa: Mudar o tapete!
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