As palavras de Tyler ecoam na mente de Camille. Ele havia a chamado de hipócrita com tanto gosto, e mesmo sabendo que todos estava com os níveis elevados, ela podia saber que aquilo estava entalado em sua garganta, e ele aproveitou o momento para falar. Raphael bêbado, repetindo a palavra várias vezes, não ajudava em nada.

Tinha passado a semana sozinha, muitas vezes por escolha própria, e outras porque todos estavam ocupados. Charlie e Lizzie haviam se aproximado bastante, e ela estava realmente feliz pela relação pai e filha que eles nunca tiveram, mas sentia falta de seu companheiro, tanto quanto sentia falta de sua fiel filha. Raphael estava estranho, calado e fazendo inúmeras visitas ao quarto de Tyler, que quase não saía do quarto. Erike vivia saindo com seu simpático novo namorado. Amy enfiou a cara no trabalho, as vezes aparecia mas não falava com Camille, e as vezes se prendia no quarto exatamente como Tyler. Cami perdeu a conta de quantas vezes se puniu por pensar em como eram iguais nesse ponto. Holly, sua última esperança, sumiu, mas isso era muito comum.

Camille então, chamou Nikki, sua melhor amiga que lhe acompanha desde a adolescência. Uma humana que sempre soube sobre o mundo sobrenatural, e se fascinava com toda essa magia, mas diferente de outros fanáticos, não pedia para ser transformada, sabia dos riscos. Nikki foi a primeira a saber da gravidez de Camille, e a apoiou quando todos que se diziam amigos viraram as costas.

–Como você está lidando com isso? — Nikki pergunta sentada de pernas cruzadas na cadeira branca que faz parte do conjunto de chá que fica no jardim, enquanto come um bolinho de chocolate.

–Eu não sei como deveria lidar com isso. Não veio no manual de mães – ela dá um sorriso torto por sua tentativa de falha de fazer uma piada, mas Nikki não ri, então ela respira fundo e assume uma postura mais séria, preocupada –Eu tento não julgar tanto, aliás eu fiz algo parecido.

–Você é a mais velha. Não é a mais responsável, mas ainda assim é a mais velha, a que serve de exemplo.

–O que eu faço?

–Pensa um pouco em si mesma antes de se preocupar com eles. Filhos são sempre filhos, quando tiverem um problema irão até você- a loira diz paciente e sorri.

–E como eu faço isso? — ela apoia seu rosto na sua mão, parecendo totalmente desanimada.

–Você vai sair para se divertir comigo!

–Tem certeza?

–Claro que sim! Quem vai para a boate com os filhos? -Nikki ri e Camille concorda, sorrindo novamente

Em um vestido preto não muito curto, Camille entra na boate com Nikki, que brilha em um vestido vermelho. Sexys aos 30, definição perfeita para a dupla.

–Vamos dançar, beber, paquerar, se divertir! — avisa Nikki no ouvido de Camille.

–Não sei se ainda sou boa nisso.

–Passaram-se apenas 20 anos, e você continua linda e gostosa! -ela segura o braço da amiga e a leva para a pista-Lembra do truque?

–Fecha os olhos, sinta a música e dance.

–E se isso não ajudar, tenha sempre bebida ao alcance-Nikki completa e elas riem, lembrando da adolescência que perderam.

Camille dança a noite toda, sem Nikki, sem ninguém, apenas ela e a música. Cansada, ela vai até o bar e consegue se sentar. Pede uma bebida, e assim que a tem em mãos, bebe tudo de uma vez só.

–Vai com calma! -adverte um rapaz sorridente que ela nem havia percebido ao seu lado.

–Sede-ela dá de ombros e coloca o copo no balcão-Deve ter umas 2 horas que eu não ponho nada na boca.

–Eu sei, você estava radiante na pista! -ele a analisa por inteiro.

–Mais uma por favor! -ela fala com o barman e se vira para o rapaz-Então você estava me observando?

–Eu acho que todos estavam! -ela fala com um sorriso brincalhão e sexy.

Ela sorri de volta, balançada com o cara. Flertar. Quanto tempo Camille não flertava com alguém? Tinha até perdido as contas. As palavras de sua amiga ecoam em sua mente, e ela resolve entrar no jogo.

–Então, qual o seu nome? -ela agora ativa seu modo sexy de ser, bebendo devagar, brincando com o copo e olhando sensualmente para ele.

–Daniel- ela pisca –e você é....

–Camille, mas eu prefiro Cami- ela se arrepende de dizer isso e bebe mais um pouco-Então Daniel, dança comigo? -ela levanta e o olha, esperando uma resposta enquanto o analisa por completo, exatamente como ele fez com ela desde o momento em que ela sentou ao seu lado.

–É claro! -ele levanta e a acompanha até a pista.

Daniel coloca a mão na cintura de Camille, e os dois dançam no ritmo da música. Ela joga o cabelo e fecha os olhos, as vezes abrindo para ver Daniel quase babando, totalmente na dela.

Como se não pudesse esperar mais, ele a puxa e a beija. Ela sorri, feliz por ele não demora tanto. Naquele momento, toda sua preocupação deixou sua mente, e ela apenas sabia, que estava no jogo.

Camille acordou com a pele quente, a claridade a fez a fechar os olhos novamente até se acostumar. Por alguns segundos, não lembrou aonde estava, mas antes que entrasse em pânico, lembrou-se por completo da noite que teve com Daniel. Olhou para o lado e o encontrou de costas para ela, dormindo. Ao perceber que estava nua, correu e fechou a cortina da janela, depois vestiu sua lingerie que se encontrava espalhada pelo chão. Depois de mais alguns passos, apanhou seu vestido no canto ao lado da janela e o colocou. Foi até o banheiro, usou o papel higiênico para limpar a maquiagem borrada que se encontrava embaixo de seus olhos, deu uma balançada no cabelo e sorriu, feliz por estar apresentável. Ela pegou sua bolsa, seus sapatos e saiu lentamente sem fazer barulho.

Assim que saiu do hotel, onde Daniel estava hospedado, ela foi para a calçada e fez sinal para o táxi. Em poucos minutos ela estava em casa, se preparando para sair e tomar café na rua depois de ter tomado um banho. Era quinta feira e todos tinham algo para fazer essa hora. Todos menos ela.

–A noite foi maravilhosa! -dizia no telefone com Nikki, sentada no balcão da cafeteira, esperando seu pedido

–Eu te falei que ainda era boa! -diz Nikki claramente fazendo outras coisas além de falar com a amiga.

–Seu cappuccino é com chantilly, senhora? -o rapaz que trabalha na cafeteria, pergunta fixando seus olhos em Camille.

–Sim! -ela responde afastando o celular da orelha, mas depois o recoloca na orelha novamente-Tenho que admitir, ele é espetacular! — ela sorri e morde os lábios.

–Que bom...-um barulho agudo invade os ouvidos de Camille, impedindo-a de ouvir com clareza o que acontece em à sua volta. Ela coloca as mãos no ouvido, mas o barulho para do nada –Camille, você está bem?

–Sim, sim...eu só...estava prestando atenção no garoto que está preparando meu pedido –ela finge um sorriso, como se a amiga pudesse estar ali para conferir.

–Bom, eu tenho que ir, ok? Eu te ligo mais tarde, beijos! -ela desliga o telefone sem esperar a resposta de Camille.

–Aqui está o seu cappuccino com chantilly e seu bolo de limão! — ele coloca a bandeja na frente dela e sorri quando ela lhe entrega o dinheiro.

–Obrigada! — ela pega a bandeja e se vira, parando por alguns segundos para achar uma mesa livre. Ela anda calmamente até a mesa a sua direita, quando um homem invade seu caminho e a faz derrubar o cappuccino. Por sorte ela consegue salvar seu bolinho, mas a raiva invade seu corpo e ela sente suas presas crescendo em sua boca, que ela força para manter fechada. Antes que seus olhos comecem a brilhar, ela os fecha e respira fundo.

–Me desculpe! -o rapaz toca o braço dela, fazendo-a olhar para ele e forçar um sorriso, reparando em seus incríveis olhos azuis e um cabelo liso cor caramelo. Estava um pouco irritada, mas era apenas um cappuccino, não faria tanta falta.

–Não, está tudo bem. Eu estava distraída! — ela desvia dele

–Não! — ele segura o braço dela. Camille começa a ficar mais atenta nas ações do rapaz- Eu vou lhe comprar outro! -ele avisa e sai.

–Não precisa...-ele não a ouve. Ela bufa e senta na mesa, refazendo em sua mente a cena que acabou de acontecer. Não entende porque ele estava tão disposto a ajuda-la, e porque não conseguia se controlar. Havia algo estranho naquele lugar, e seja lá o que fosse, a fazia perder o controle de sua transformação, a deixando com mais raiva. Ela precisava sair dali.

–Aqui está, seu cappuccino com chantilly –ela se assusta com o rapaz colocando o copo na mesa, mas não deixa transparecer.

–Obrigada! -ela dá um sorriso amarelo.

–Posso me sentar? -ele ainda está em pé, segurando sua caneca e parecendo totalmente psicopático. Seu eu interior lhe dá uma bronca, dizendo para ela parar de agir como um lobisomem. Não há nada de estranho em um cara tentando dar em cima dela.

–Claro- ela sorri –Como sabia exatamente como era o meu pedido? -ela resolve ser simpática e iniciar um assunto

–Eu dei uma palavra com aquele garoto-ela aponta para o menino com a roupa da cafeteria.

–E você está me dizendo que ele lembrou como era o meu? Depois de atender várias e várias pessoas? -ela franziu os olhos de um jeito divertido e deu uma garfada em seu bolo.

–Você não é o tipo de mulher que passa despercebida por aí com esses olhos hipnotizantes-Camille sente suas bochechas queimarem. Tem algo diferente em você, não sei o que é- ele sorri, mas ela mantém a cara fechada, incomodada com o assunto. Ela ouvia isso desde que começaram suas transformações, como ela não conseguia se controlar, como era estranha, e nada disso acabava bem. O garoto pareceu ter percebido o desconforto dela e continuou a conversa –Meu nome é Toby.

–Eu sou Camille-ela diz um pouco hesitante.

–Então, você vem sempre aqui? — ela segura uma risada.

–Sério? É assim que você puxa conversa? -respondeu abismada com o quão careta era aquilo.

–Eu não sei como puxar conversa com uma mulher tão bonita. — ele passa a mão no cabelo e sorri.

–Primeiro: Não fique repetindo que ela é bonita. Você parece desesperado. E segundo: Não fique tentando ser gentil, você até me assustou um pouco. — ela descarrega todo seu incomodo no rapaz e dá uma última garfada em seu bolo-Agora se me dá licença, eu preciso ir. — ela levanta rápido e sente uma leve tontura. Toby corre e segura o pulso dela, mas a lobisomem puxa rapidamente.

–Você está bem? -sua voz mostra que ele está preocupado, mas seu rosto demonstra outra coisa, como se ele estivesse apenas interessado.

–Eu estou bem! -ela força um sorriso e volta a andar glamourosamente. Deixando o garoto e sua bebida intocáveis

Algo estava terrivelmente errado. Se ela fosse normal, iria para casa dormir e esquecer de tudo aquilo, mas infelizmente em nenhuma hipótese ela poderia ser considerada normal. A cafeteria parecia ter algo contra ela, a fazendo perder as forças e o controle. Se fosse há 20 anos atrás, ele teria se revelado bem ali no meio e causado um tumulto, mostrando para o mundo que criaturas sobrenaturais realmente existem. O jeito como ela tratou Toby também não tinha sido nada legal. Tudo bem que o achou estranho desde o momento em que ele apareceu na sua frente, mas não deveria ter sido tão dura com o rapaz. De qualquer jeito, se convenceu de que não adiantava esquentar a cabeça com aquilo, aliás, nunca mais o veria novamente e seu jeito arrogante devia ter sido apenas um efeito de seja lá o que a pegou.

Resolveu ir andando, afim de esfriar a cabeça. Quando chegou em casa, se sentia melhor, quase como se nada tivesse acontecido. Abriu a porta para encontrar Raphael sentado no sofá jogando videogame com um colega.

–Rapha, o que faz em casa tão cedo? -ela perguntou enquanto fechava a porta atrás de si. O garoto não era de lhe dar problemas, mas precisava que ele fosse para a escola enfrentar as pessoas, ainda mais depois de sua revelação. Sem contar, que era seu último ano no colégio.

–O último professor teve uma emergência e nós tivemos que sair cedo! -ele disse sem tirar os olhos do jogo. Porém, o tal amigo que ela então jurava conhecer, olhou sobre o ombro para ela, a fazendo paralisar.

–Daniel...-ela disse baixo em transe.

–Que foi...-Rapha virou para trás encontrando a mãe paralisada, olhando diretamente para seu amigo- Mãe, esse é o Kol!

–Que? Ah, oi Kol! -ela tenta disfarça e sorri.

–Oi Senhora Muller! -o menino sorri e volta a jogar.

–Raphael, pode vim aqui rapidinho? -ele levanta e assim que chega perto, ela o puxa para a cozinha- De onde você conhece esse...Kol?

–Eu conheci pela Jennifer em uma festa e....Porque a pergunta? -ele franze o cenho.

–Quantos anos ele tem?

–23!

–E ele...é gay? Tem pai, mãe ou irmãos? -ela tenta controlar sua curiosidade.

–Mãe! -ela dá de ombros –Não, ele não é gay! Não é só porque sou gay que só vou andar com gay –ele bufa –E sei lá, só sei que ele tem um irmão chamado Daniel!