Raphael não aguentava mais o colégio. Aulas entediantes, e pessoas tão mal educadas que ele lamentava muito por ter que fingir ser um simples humano. Se um dia se revelasse, caçadores que ele sabia que existiam viriam atrás. Todo mundo jura que não. Juram que estão salvos, e que provavelmente são as únicas criaturas sobrenaturais aos arredores, mas ele uma vez ouviu Amy e Camille conversando sobre o assunto, escondendo informações do resto do bando. Elas diriam que era para proteger, mas ele sabia que não. E ora, olha só quem havia escutado, aquele que era julgado como o mais fraco da casa.

Se Rapha se revelasse, eles provavelmente iriam dizer que estavam preparados, que esperavam que fosse ele ao expor a família para o mundo.

É claro que tinham coisas boas no colégio, e uma delas era Jennifer. Aquela amiga que deixava seu dia melhor, que já o fez considerar sua sexualidade, mas ela sabia que ele era gay antes dele mesmo saber. Jenny era tão louca que ele tinha medo de lhe contar sobre si. Talvez todos os fios louros caíssem de sua cabeça.

A primeira aula era Educação Física, jogariam queimado contra a outra turma. Raphael foi chamado para escolher o time junto com um rapaz musculoso. O cara olhou para o físico magro do menino e riu.

– Prepare-se para perder franguinho — disse o brutamontes e saiu cambaleando de tanto peso.

Rapha deu de ombros e se posicionou no meio da quadra ao lado de Jenny e o restante da equipe. Não precisava lhe responder, iria lhe mostrar que o franguinho poderia acabar com ele em um piscar.

– Eu vou te matar por ter me escolhido! — Jenny fingiu enforcar o amigo.

–Quem é aquele cara? -apontou para o mesmo que havia feito pouco caso dele.

–Leo Collins, um babaca qualquer. Por quê? Está afim dele? -ele cutucou a barriga dele o fazendo rir.

– Não! Só preciso saber o nome dos meus alvos! — ele sorriu e o treinador soprou o apito. Rapha colocou as mãos no ouvido. Aquele som ainda o incomodava.

– Coitado! -ela desviou da bola que passou raspando no seu lado esquerdo.

Jenny pegou a bola e correu para a linha que separava as equipes, a lançou e acertou em cheio uma menina ruiva e baixinha. Ela saiu praguejando e Jenny riu, fazendo a garota se irritar mais. O treinador jogou a bola para o time do pequeno lobisomem e o mesmo correu para pegar a bola. Ele a segurou no mesmo momento que Stacy, uma menina tão branca quanto a neve, e cabelos lisos até a cintura incrivelmente pretos. Ela era conhecida por seu jeito gótico, e quase ninguém falava com ela.

Na hora em que a menina o olhou, paralisou e ficou mais branca do que era, com os olhos surpreendentemente arregalados e a boca pintada de roxo entreaberta.

– Você quer jogar? Pode ir na minha frente! -ele sorriu e soltou a bola que caiu no chão.

–Você...-os olhos dela, lacrimejantes, o fizeram se assustar.

– Você está bem? -ele tocou em seu braço, mas ela se afastou e correu até o treinador, falou algo em seu ouvido e saiu às pressas do ginásio.

– Müller! Finn ou Conrad? -o treinador gritou despertando a atenção do menino que tentava entender o que havia acabado de acontecer.

–É....Conrad! -ele apontou e Conrad veio correndo em sua direção.

– Obrigado, cara! -o menino disse com um sorriso enorme no rosto e correu para o fundo.

Raphael voltou para o lado de Jenny com as mãos no ouvido enquanto o treinador soprava o apito.

– Porque escolheu a estranha?

– Ela é boa!

– Mas saiu...Você tentou pegar nos peitos dela? Cuidado Muller! — ele empurrou ela de leve e observou Conrad ser atingido por Leo.

Rapha bufou e olhou para Leo que passava o dedo no pescoço e apontava para ele.

A bola veio em uma velocidade incrível, e o teria atingido se não fosse por seus reflexos que o fizeram segurar a bola antes que ela o tocasse. Raphael correu até o limite que separava as equipes e lançou a bola, deformando o rosto do brutamontes.

Raphael estava sentado em uma das mesas que se localizavam na parte de fora do refeitório. Quem geralmente senta ali, procura uma hora mais tranquila para comer, conversar e as vezes estudar para a prova que vem no horário seguinte. Rapha e Jenny não eram diferentes, eles gostavam de sentar ali e não serem incomodados por ninguém. Vez ou outra Jenny leva algum colega deles, já que Raphael sempre chega primeiro e a espera. Mas na maioria das vezes eles ficam sozinhos.

Dessa vez, algo aconteceu. Ele a esperava quando uma menina sentou ao seu lado. De primeira achou que fosse Jenny, mas seus longos cabelos escuros o fizeram gelar.

– Stacy...Oi! — ele sorriu e se afastou

–Eu preciso falar com você! -falava baixo e olhava para os cantos, enquanto se aproximava dele.

–Pode falar, mas fala longe! -ele sorriu nervoso e se afastou de novo, mas dessa vez segurando nela para se certificar de que ela ficaria ali.

Ela deu um tapa na mão dele.

–Não toque em mim! -disse alto e então abaixou o tom – Eu ...eu sei o que você é! -sussurrou.

Raphael arquejou e parou, olhando dentro dos olhos de Stacy que transbordavam de medo. Ela cobriu sua mão com o casaco e ainda hesitante, o segurou e o puxou.

– Eu pensei bastante, e não queria vim aqui, mas o que tenho para dizer é importante. Ninguém pode ouvir, há inimigos por toda a parte — Ela limpou a mão na calça.

– Como assim? Que inimigos? Do que você está falando? E....-ele olhou para os lados e se aproximou sussurrando — como você sabe sobre...mim?

–Eu vi!

–Viu? Você é vidente? -ela levou um dedo até a boca

–Eu não sei, eu só vi e...Você precisa me escutar! -ela se irritou-A sua família corre perigo, muita coisa vai acontecer com vocês.

Raphael sentiu uma pontada no estômago, estava curioso e preocupado, mas resolveu não interromper.

– Uma batalha irá acontecer, alguém irá falecer e o mais fraco irá se tornar o mais forte-ele prendeu a respiração — O mal está presente na vida de cada um de vocês, e aqueles que sozinhos estão, algo ruim irá acontecer.

–Quem? Quem irá se ferir? -ele disse fraco.

–Eu não sei, eu não posso dizer! Eu preciso ir! -ela levantou rapidamente

–Espere! Venha cá! -ele pediu e tentou toca — lá, mas ela parou e virou.

– Cuidado com aqueles que você coloca em sua casa. Há inimigos por toda a parte — Stacy citou a última parte olhando para os lados, e depois correu deixando Rapha pensativo.

Raphael estava tão atordoado que não percebeu a presença de Jenny.

– O que a estranha estava fazendo aqui? Muller, eu entendo essa sua fase heterossexual, mas tem meninas mais...normais-ela sorriu e sentou.

– Jenny, você acredita em criaturas sobrenaturais? -lançou um olhar apreensivo para a amiga.

– Que? Você está bem?-ela colocou a mão na testa dele — Não leve como elogio, mas você está quente!

–Eu sou quente-ele permitiu sorrir com a ironia de suas palavras. Jenny não entenderia que ele falava sobre sua forma sobrenatural-Eu falo sério, eu...eu estou bem, só pensando.

– Pensando em criaturas sobrenaturais? Eu acredito que existem certas forças à nossa volta, mas eu não sei.

– Eu estava pensando, se uma pessoa que é considerada...fraca, poderia se tornar forte.

–Eu acredito que todo mundo tem sua força, só que alguns não sabem como usar, ou ainda não a encontraram. — ela pareceu um pouco distante, e Rapha considerou que ela escondesse seu lado menos fútil. Infelizmente ela deu de ombros e voltou a sorrir loucamente.

Raphael chegou em casa e correu para o quarto do irmão. Tyler era a única pessoa que poderia responder suas perguntas, por dois simples motivos.

Ele passava metade do seu tempo procurando sobre outras criaturas sobrenaturais, o passado da sua família e qualquer coisa que lhe interessasse.

Ele acumulava tantas “informações” que ficava desesperado para compartilhar com alguém. Raphael geralmente lhe emprestava seus ouvidos para que ele esvaziasse

Ele abriu a porta e sentou-se na cama bagunçada, sem se importar com o olhar assustado que Tyler, com o cabelo bagunçado, óculos de grau e uma roupa que parecia ser parte de sua pele há dias, lhe deu.

–Você não foi para a faculdade?

–Isso não é da sua conta! — respondeu sem mesmo olhar para ele.

–Tyler...você vai acabar se perdendo! — avisou com cautela, como se qualquer palavra despertasse a bomba.

–Rapha...me diz o que você veio fazer aqui, e depois me deixe curtir meu dia do melhor jeito possível.

–Você acha que existem videntes? Sabe, essas pessoas que preveem o futuro...- ele esfregava as mãos umas nas outras e olhava apreensivo para Tyler.

–Eu sei o que são videntes! -ele virou a cadeira para ficar de frente para o irmão-Eu acho que existem sim, e você sabe disso, então tem muito mais para falar. Você viu um vidente?

–Eu não sei, eu acho que ela nem sabe se é, ela só tocou em mim e saiu correndo. Depois ela me contou coisas sobre o futuro da nossa família, coisas que me deixaram realmente assustado, e é por isso que eu vim falar com você!

–Que tipo de coisas? -ele se aproximou

–Ela disse que alguém...que alguém irá morrer, que grandes mudanças irão acontecer em nossas vidas, e especificou que há inimigos em nossas vidas, na vida de cada um.

–Ela disse nomes?

–Não, ela estava com medo de mim, não queria nem me tocar, saiu correndo assim que despejou as informações. Ele estava muito assustado.

–Por que ela ficaria tão assustada assim? Ou ela participa das visões...

–Ou é realmente muito sério!

–Talvez nós não tenhamos muito tempo, vamos pesquisar...-ele parou de falar e farejou o ar –Sente esse cheio?

–Que cheio Tyler? -ele se levantou junto com o irmão.

–Cheiro de medo, sangue...-ele levantou correndo e foi até a porta, saindo sem dar explicações.

Raphael levantou e seguiu o irmão, se perguntando como ele conseguia sentir esse cheiro antes dele. Talvez fosse a diferença de idade, talvez Raphael precisasse amadurecer mais, talvez....Tyler fosse o fraco que se tornaria forte, e já estava acontecendo, seus sentidos estavam ficando mais aguçado que o dos outros.

O irmão havia corrido até o jardim da frente, e antes que Raphael conseguisse chegar, ele já estava gritando por ajuda. Rapha correu até o irmão e o encontrou segurando Holly nos braços, coberta de sangue.