Muito Bem Acompanhada
37 Os Mediadores
Notas iniciais
Resumo do Capítulo: Os mediadores entraram em ação para ajudar Severus e Marlene.
– CAPÍTULO TRINTA E SETE –
OS MEDIADORES
No meio da madrugada, passos incertos adentravam pela escuridão do quarto. O único som que se ouvia ali era o som dos beijos deles. As mãos ansiosas tocavam a pele um do outro, apertando, puxando, tentando se livrar das vestes incômodas que atrapalhavam o que viria a acontecer.
Dorcas não tinha certeza de como ela e Mulciber encontraram a cama, mas não importava: assim que encostou a cabeça no travesseiro, ele estava dentro dela. Eram apenas corpos satisfazendo um ao outro. Aquilo era bom, era gostoso, era apenas prazer físico. E foi assim a noite toda: sem amor, sem sentimento; só prazer.
Ela não sabia ao certo que horas eram, apenas que era muito cedo, o dia ainda não havia amanhecido. Depois de dormir um pouco, Dorcas tinha acordado ao sentir a movimentação na beirada da cama. Abriu os olhos e viu Mulciber sentado ali, se vestindo. Ela então engatinhou sobre o colchão até onde ele estava e o abraçou pelas costas, mordiscando seu ombro.
– Eu prometo fazer segredo sobre a forma como você me chamou a noite toda... – ela sussurrou no ouvido dele.
Mulciber teve uma imensa vontade de desferir uma Cruciatus em Dorcas. Só não fez isso porque ela completou a frase dizendo algo que o "acalmou".
– Na verdade, eu gostaria que você fosse o namorado da minha prima... – Dorcas disse em tom jocoso.
Ele até sorriu.
– Ah, é? – indagou ele, curioso. – Por quê?
– Eu iria me sentir vingada agora... – Dorcas respondeu, e Mulciber se virou para ela. – Desde criança, eu sempre quis ter todas as coisas da Marlene. Todas mesmo...
– Um dia você terá – Mulciber respondeu com firmeza, e aquilo era também uma promessa para si mesmo. – Eu prometo.
Sem nenhuma delicadeza, ele puxou o rosto dela para um beijo, o qual só foi interrompido quando ouviram o som dos passos no andar de baixo da casa.
– Está esperando alguém? – ele perguntou com irritação, apontando a varinha diretamente para o rosto dela. – Você mentiu pra mim, Dorcas? Mentiu?
– N-não não... – respondeu ela, um pouco amedrontada. – São só umas amigas do Brasil. Como dei o bolo nelas, elas devem ter vindo direto pra cá... Ninguém importante...
A expressão de ódio dele suavizou-se.
– Assim é melhor – disse Mulciber, puxando Dorcas para seu colo mais uma vez.
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Logo que o dia amanheceu, Eileen chegou à casa dos McKinnons em Londres. Era muito cedo ainda, mas agora que pensava ter descoberto o que de fato havia acontecido entre Marlene e Severus, ela decidiu ter uma conversa com Lorraine o mais cedo possível. E foi isso mesmo o que Lorraine e Eileen fizeram enquanto todos ainda dormiam: tiveram uma boa conversa, na qual Eileen dividiu com Lorraine todas as suas preocupações e angústias.
– ... e foi isso o que aconteceu, Lorraine – Eileen concluía com lágrimas nos olhos. – Ele vai mesmo se juntar ao Lorde das Trevas e não há mais nada que possamos fazer...
– Mas a Marlene talvez... – interpôs Lorraine. – Se o amor deles é tão grande assim, eu acredito que talvez ela ainda possa...
– Não – Eileen cortou a frase dela, acrescentado num soluço: – A sua filha tem princípios, muito bons princípios, Lorraine. É triste dizer isso, eu sei, mas a verdade é que a Marlene aguentou do meu filho muito mais do que merecia. Todos nós sabíamos que se isso viesse a acontecer, ela tomaria a decisão que tomou e, por mais que eu queira o contrário, não vou pedir pra que ela volte atrás. Nós não temos esse direito...
Em silêncio, Lorraine se aproximou de Eileen, oferecendo um abraço como apoio. Juntas, elas choraram por longos minutos no silêncio que pairava naquela sala, pois felizmente todos ainda dormiam, era o que Lorraine e Eileen pensavam. Mas talvez elas tivessem esquecido que uma pessoa em especial não dormia nunca.
Atrás de uma pilastra que ficava no segundo andar da casa, Tanya ouvira toda a conversa. Não intencionalmente, é claro, mas no fundo tinha sido bom. E, se ela já desconfiava que havia algo errado sobre o que tinha acontecido com Marlene e Severus em Hogwarts, agora desconfiava muito mais.
"A Lene me disse uma coisa, agora a mãe do Severus vem aqui e diz outra pra Lorraine?" – a loira pensava.
Estava na hora de agir e Tanya voltou para o quarto de Mike pensando em como iria fazer alguma coisa. Porque um amor tão grande como aquele não podia ter acabado daquela forma, e ela havia prometido a si mesma que não ia acabar, não enquanto a verdade não fosse esclarecida.
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Com a presença de Eileen em sua casa, o dia foi cansativo e ao mesmo tempo animado. Marlene chegou a essa conclusão no final da tarde, quando percebeu que estava exausta de tanto decidir com Tanya, Eileen e sua mãe, todos os detalhes do noivado. E pensava que, se o noivado exigia tantos pormenores, o casamento iria ser mil vezes mais trabalhoso.
Mas independentemente do cansaço, tinha sido um dia bem agradável para Marlene, já que em nenhum momento Eileen havia tocado no nome de Severus. E ainda assim, apesar de toda a animação delas por causa do noivado, Marlene sabia que aquele brilho triste no fundo dos olhos de Eileen deveria ser pelo mesmo motivo da sua própria tristeza.
O clima bom perdurou até o final da tarde. Na sala, as quatro ainda viam alguns modelos de convites, e haviam até mesmo algumas revistas trouxas de decoração sobre a mesinha de centro. Em meio à discussão sobre os convites, Lorraine pegou uma das revistas e decidiu continuar com os preparativos do noivado, porém agora fora da casa.
– Bem, como o sol já se foi – ela anunciou sorridente para Tanya –, o que você acha de analisarmos o jardim, Tanya? Assim podemos bolar alguma coisa sobre como vamos organizar aquele espaço, o que acha?
Entendendo que Lorraine queria deixar Marlene e Eileen a sós, Tanya concordou de imediato.
– Claro, Lorraine – disse a loira, se voltando para Eileen e Marlene sem jeito: – E bem, eu agradeceria se pudéssemos chegar a um consenso sobre os convites! – e riu, gesto que foi acompanhado por três outras vozes.
– Pode ir ver o jardim com a mamãe, Tanya – Marlene disse rindo. – Hoje de manhã, tínhamos trezentas opções de convites, já reduzimos pra cinquenta, quando vocês voltarem, vai ter menos da metade – e olhou para Eileen, pedindo respaldo: – Não é mesmo, Dona Eileen?
– É sim, Marlene – Eileen respondeu, trocando um olhar de cumplicidade com Lorraine.
Assim que Lorraine levou Tanya para os jardins, Marlene voltou a atenção novamente aos convites que estavam em seu colo.
– Então, agora nós podemos descartar aqueles que a Tanya não gostou muito, o que a senhora acha? – ela perguntou animada, porém Eileen lhe dirigiu um olhar triste e segurou uma das mãos dela antes de responder.
– Sabe, Marlene – começou Eileen, ainda com um pouco de receio de falar –, independente do que houve, eu continuo gostando muito de você. Não tenha nenhuma dúvida disso, sim?
Marlene sabia que Eileen estava falando de Severus, mas não deixou que isso transparecesse num primeiro momento e continuou sorrindo.
– Me desculpe, Dona Eileen – ela se fez de desentendida. – Mas eu não imagino o porquê da senhora estar falando isso agora...
Eileen assumiu uma expressão mais séria.
– O Severus me contou tudo ontem – disse ela e Marlene empalideceu. Ele havia contado? Contado o quê? Eileen explicou: – Na verdade, eu encontrei por acaso o anel quebrado nas vestes dele.
Marlene quis se manifestar, contar a sua versão da história, mas Eileen prosseguiu.
– Ele não havia me contado nada até ontem – ela continuou. – Apenas quando eu pedi uma satisfação sobre o anel, ele disse que você decidiu terminar tudo quando descobriu os planos dele que envolvem o Lorde das Trevas.
Marlene suspirou. Realmente não esperava mesmo que Severus tivesse a dignidade de contar toda verdade para Eileen, muito menos as coisas horríveis que ele havia dito e feito antes dela tomar a iniciativa de pôr um fim a tudo.
– Eu nem sei o que dizer pra senhora... – Marlene respondeu perplexa. Num primeiro momento, até pensou em contar a sua versão dos fatos para Eileen, mas quando pensou que poderia deixá-la ainda mais aborrecida, desistiu.
– Não precisa me dizer. Eu sei como você se sente – Eileen afirmou. – Na verdade, eu sinto o mesmo. Eu pensei que seria diferente, que ele levaria em consideração todo o amor que sente por você, mas acho que me enganei. Você era a minha última esperança... – e suspirou desabafando: – Eles vão fazer a Marca Negra no final do mês...
Ao ouvir aquilo, dito com tanta certeza por Eileen, Marlene não conseguiu evitar que as lágrimas voltassem a encher os seus olhos.
– Eu sinto muito, Dona Eileen – Marlene disse nervosa, também desabafando: – Mas eu tentei, e não apenas uma, mas várias vezes eu disse ao Severus que não concordava nem um pouco com essa história de Artes das Trevas na vida dele, e eu sinto muito se o meu amor por ele não foi suficiente pra que ele desistisse...
– Não – diga – um – absurdo – desse! – Eileen pediu pacientemente e levou a mão até o rosto de Marlene para secar as lágrimas dela. – Isso não cabia a você, e eu também não quero que você se culpe! – disse ela em ultimato. – Eu apenas queria lhe dizer, que se teve um momento em que eu pensei que o Severus não faria isso, foi quando eu soube que você entrou na vida dele. Mas se infelizmente isso não aconteceu, se ele não foi capaz de mudar de ideia, saiba que mesmo assim eu me orgulho muito do que você fez, você não poderia ter tomado uma atitude mais digna e mais correta do que a que você tomou.
– Obrigada – Marlene disse emocionada, abraçando-se a Eileen.
Naquele instante, as chamas verdes crepitaram na lareira, e Mike chegava com o pai, adentrando a sala onde Marlene e Eileen estavam. Elas se afastaram, e Marlene logo tratou de não demonstrar na frente de seu pai e de seu irmão que havia chorado nos últimos minutos.
– Ah, vocês estão aí! – Mark disse simpático, se aproximando delas.
– Alguém viu a minha futura noiva? – Mike perguntou impaciente, relanceando pela sala.
– No jardim com a mamãe! – Marlene lhe respondeu.
– E o que ainda estamos fazendo aqui dentro? – Mike perguntou de repente. – Vamos para o jardim!
Sem contrariar Mike, todos se dirigiram ao imenso jardim e Mark estranhou quando Eileen e Marlene se deram as mãos num gesto de cumplicidade. Assim que pisaram no jardim, Mike correu para abraçar e beijar Tanya, e logo Eileen se juntou a Lorraine, dando alguns palpites sobre como deveriam ser colocados os arranjos da cerimônia.
Aproveitando que todas as atenções estavam agora em Mike e Tanya, Marlene deu a volta na casa, descendo a pequena escadaria de pedra. Os bancos de mármore escuro e a enorme piscina estavam cobertos pelo manto prateado da lua.
Marlene caminhou até um dos bancos de mármore e sentou-se. O banco era pequeno e não tinha encosto, porém ela não se importou com isso. Aquele silêncio, interrompido apenas pelo leve ruído da água na piscina, era bom e acolhedor. Ela não desejava mais nada naquele momento. Apenas permaneceu ali por longos minutos, pensando em tudo que Eileen dissera.
E por mais que Eileen tivesse afirmado que não era sua culpa, Marlene se sentia, além de tudo, derrotada. A convicção nas palavras de Eileen só mostrava que em todo esse tempo, o "amor", ou qualquer que fosse o "sentimento" que Severus tinha por ela, nunca foi maior do que a vontade que ele tinha de se juntar ao "Lorde das Trevas".
– Marlene? – a pergunta de Mark interrompeu seus pensamentos.
Marlene imediatamente voltou-se para trás, a tempo de ver seu pai se aproximando. Ele sentou ao lado dela no banco.
– Eu estava te procurando – comunicou ele. – Eileen não quis ficar para o jantar e lhe deixou um abraço.
Ela estava ali tão absorta em seus pensamentos que nem percebera o avançado da hora.
– Ah, que pena – ela disse com tristeza. – Eu queria ter me despedido dela.
Mark apenas assentiu.
– Acho que ela tinha preocupações demais e quis voltar logo para Spinner's End – disse ele, e suspirou fundo antes de tocar num assunto que ele julgava ser delicado demais: – E acho que as preocupações dela têm muito a ver com o que aconteceu entre você e o Severus.
– A Dona Eileen contou pra vocês? – Marlene perguntou completamente perplexa. E antes que ela entendesse mal, Mark explicou:
– Ela contou porque eu perguntei, enquanto estávamos no jardim – disse ele. – Se dependesse da sua mãe, eu não iria saber. Imagino também que o seu irmão não reagiu muito bem a notícia, sendo o primeiro a saber de tudo...
– Desculpa, pai – Marlene pediu, completamente arrependida e acrescentou: – Mas eu tive vergonha de contar pra vocês que mais uma vez, eu estava sozinha.
Ele deu um meio sorriso.
– Tudo bem – ele disse, e perguntou com tranquilidade: – De qualquer forma, acho que não teria mesmo dado certo, não é?
Ela desviou os olhos antes de responder.
– É complicado, pai – Marlene disse. – O Severus está metido até o pescoço com Artes das Trevas e vai se juntar a Voldemort ... Eu não posso e nem quero fazer mais nada a respeito.
Mark ficou surpreso.
– Não pode e não quer... – ele analisou as palavras da filha. – Isso é estranho, porque eu não acredito que seja isso mesmo que você quer...
Marlene deu um riso triste.
– Foi ele quem não quis, pai – ela respondeu. – E, se eu resolvesse perdoá-lo mesmo depois de tudo que ele fez, o que os outros vão pensar?
– Desde que você era pequena, você sempre se preocupou com a opinião dos outros – ele disse com firmeza. – Agora me diz: o que você acha? Ele é o cara para você?
Pega de surpresa com a pergunta, ela respondeu a verdade.
– Eu o amo – ela confessou ao pai – mas, por favor, não me peça pra aceitar numa boa que ele...
– ... se afunde cada vez mais em Artes das Trevas? – Mark completou, respondendo depois: – Não. Até porque, isso vai contra o que você acredita, o que nós acreditamos. Mesmo assim – ele insistiu –, eu gostaria que você pensasse numa coisa...
– O quê? – ela perguntou com tristeza.
Mark suspirou fundo antes de continuar.
– Bem, se você o ama, se você sabe dos problemas dele, e no final do dia você ainda prefere desistir ao invés de tentar, nada nunca vai valer a pena – sentenciou ele.
– Pai! – Marlene protestou.
– Eu não estou dizendo o que você tem que fazer – Mark assegurou. – Você é quem sabe – e quando a filha o olhou enternecida, ele convidou: – Vamos jantar?
– Vamos sim – Marlene concordou por fim e então se levantou. Ela abraçou o pai enquanto voltavam para dentro da casa.
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Dois dias depois, Marlene dividia a mesa do café da manhã apenas com Mike. Como seu pai já tinha saído, e Lorraine fora ver algumas vestes de gala no ateliê de Madame Malkins, Marlene notou também a ausência de Tanya – embora soubesse que o café da manhã de Tanya era bem diferente do de sua família. Mesmo assim, a loira sempre estava presente nas refeições deles, e Marlene ficou intrigada ao não vê-la ali.
– Onde está a Tanya, Mike? – ela perguntou preocupada.
– Ela saiu – respondeu Mike displicente. – Disse que precisava entregar um convite.
– Mas as corujas vão entregar todos os convites – replicou Marlene, sem entender.
– Mas tinha um que ela precisava entregar pessoalmente – Mike voltou a falar. – Não entendi direito, ela saiu bem cedo... Por quê?
Mas Marlene não respondeu. Uma vaga compreensão do que acontecia logo chegou à mente dela e, desnorteada, ela se levantou da mesa e correu até o andar de cima da casa, entrando abruptamente no quarto do irmão. Assim que encontrou a pilha de convites sobre a escrivaninha, ela os revirou, olhando nome por nome. Não tinha erro, ela e Tanya passaram horas escrevendo os nomes nos convites, um a um, porque Lorraine não queria que o trabalho que ela considerava tão delicado fosse feito com magia. E como faltava apenas um convite em especial, ela teve a confirmação de que Tanya só podia ter ido à casa de uma pessoa:
"Eileen Prince Snape" – Marlene pensou desesperada.
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Em Spinner's End, Severus observava pela janela o conversível prata de Tanya estacionado à sua porta. Ele já havia notado o carro rondando sua casa anteriormente, mas nada o preparou para aquilo: segundos depois, Tanya já estava dentro da casa, mais precisamente ao seu lado na sala. E antes de sequer imaginar como ela deveria ter entrado ali, mesmo com todas as proteções mágicas, ele ouviu a voz da vampira.
– Bom dia, Snape – Tanya disse na voz melodiosa de sempre e ele se virou para ela.
– O que faz aqui? – Severus perguntou em tom inquisidor, observando os olhos dela atentamente. – Minha mãe não está em casa.
Ele reparou que os olhos dela estavam diferentes, estavam escuros, tão ou mais negros que os dele próprio, somente com as bordas das íris em tom de caramelo.
– Tudo bem, eu vim trazer o convite do meu noivado – ela respondeu calma, tirando o envelope da bolsa e deixando sobre a mesinha de centro. Ela suspirou fundo e então anunciou: – E também preciso conversar com você. Conversar sobre a Marlene.
Ele deu um sorrisinho de escárnio.
– Ela foi chorar pra você? – ele perguntou debochado. – Ou você veio cumprir a promessa do seu namorado?
Tanya riu, devolvendo o tom de deboche.
– Se fosse isso, eu teria rasgado o seu pescoço com meus dentes antes mesmo de você notar a minha presença – ela disse, rindo mais alto ao vê-lo tentar pegar a varinha discretamente. – E antes que você tentasse um menear de varinha, já teria virado patê.
Severus nada respondeu ao notar que sua varinha estava nas mãos de Tanya. Havia esquecido o quanto ela era rápida. Ela lhe devolveu a varinha e voltou a falar, agora em tom sério:
– Mas indo ao que interessa: a Lene me contou tudo, e acho que você deve saber o quanto ela ficou magoada com o que houve – ela disse com firmeza e começou sua apelação: – Depois de tudo isso, ela decidiu que quer ser como eu, ela me pediu pra que eu a transformasse em vampira...
– O seu namorado não vai permitir isso – ele respondeu com um pouco de exaltação na voz, diante daquela possibilidade.
– Ele não vai saber, pelo menos, não antes de acontecer – Tanya pontuou, sustentando a mentira. – Isso é um acordo entre mim e a Lene.
– Não entendo porque está me dizendo isso – Severus respondeu indiferente, recuperando a máscara de frieza que perdera no instante anterior. – Se ela quer ser como você, isso não é problema meu.
Tanya respondeu com sinceridade.
– Na verdade, eu estou tentando lhe compadecer.
– Compadecer? – ele fingiu surpresa. – De quê?
– Eu preciso de um motivo pra fazer a Lene desistir dessa história de ser vampira – disse ela, tentando e conseguindo ser o mais convincente possível. – E eu realmente não quero fazer isso, mesmo que ela tenha me implorado tanto. Se eu tiver um motivo pra acreditar que ela ainda pode ser feliz, que vocês ainda podem... – ela fez uma pausa, suspirando – ... talvez seja mais fácil convencê-la a desistir...
Mesmo tentado a fazer o contrário, Severus se manteve firme em sua posição. No fundo, acreditava que Tanya tinha bom senso, que gostava de Marlene e que não faria isso.
– Eu não posso ajudar – ele sentenciou.
– Eu sinto muito, então – ela disse triste, como se estivesse se lamentando. – Uma palavra sua poderia evitar tanta coisa... – e voltou a apelar: – Eu penso muito no sofrimento que a Lene vai ter depois que eu a morder...
Pela primeira vez, Severus desviou o olhar, incomodado com aquela ideia. O simples fato de que Marlene poderia sofrer algo, sempre o atormentava.
– Nos primeiros dias ela vai sentir as dores horríveis do veneno ardendo nas veias e tomando conta do corpo... – Tanya explicou. – E quando ela não for mais humana...
Severus observou de relance os dentes afiados e reluzentes de Tanya. A visão dos dentes dela no pescoço de Marlene era praticamente a visão do inferno. Ele apertou os olhos, como se não suportasse pensar naquilo, e as dúvidas começaram a surgir. Talvez, a vampira estivesse falando a verdade quando disse que ia mesmo morder Marlene.
Tanya percebeu a aflição contida dele.
"Parece que a manipulação está surtindo efeito." – ela pensou satisfeita, e prosseguiu.
– Além de tudo, eu confesso que realmente tenho medo de matá-la – ela frisou –, não intencionalmente, é claro...
– Pare... – ele murmurou em voz baixa.
Porém, Tanya ignorou o que ele dissera e não parou de falar:
– Há tempos eu não bebo sangue humano, talvez eu possa me descontrolar...
– Pare! – a voz de Severus saiu quase num grito e ele se voltou exaltado para Tanya: – O que você quer saber? Eu conto, mas não faça nada com ela – ele disse numa súplica.
– Já disse que não vou fazer nada se você me convencer de que ainda há uma saída – Tanya disse com firmeza, encorajando-o. – Não precisa mentir. Eu sei que você ama a Lene, e ama tanto, que por algum motivo que a gente não sabe, precisou se afastar dela. Mas você pode confiar em mim.
Ele suspirou cansado, dando-se por vencido.
– Você vai saber de tudo, e vai concordar comigo no final – disse Severus, indicando o sofá para que Tanya se sentasse. Porque a conversa ia ser longa.
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– Marlene? – Mike entrou no quarto perguntando num grito, ao ver a irmã em prantos sobre a escrivaninha.
Marlene o olhou com ódio.
– Foi você, não foi? – ela perguntou com raiva, e se aproximou dele para socá-lo. – Você que pediu pra Tanya ir lá e... Droga! Você sabia que ela estava há dias sem sair pra caçar, e você mandou ela ir pra casa da Dona Eileen...!
Mike a segurou firme pelos ombros, esquivando-se dos socos da irmã.
– Pára! Não é nada disso! – ele se defendeu, porém não evitou acrescentar: – Mas se a Tanya por um acaso mudou de ideia, eu preciso muito agradecer a ela!
Marlene se descontrolou e cuspiu no rosto dele, que respondeu em tom autoritário:
– Quer saber? Eu não vou pra Divisão de Aurores hoje – comunicou ele. – Se você ficar sozinha em casa, é bem capaz de querer fazer alguma besteira! – e saiu batendo a porta.
Ótimo. Agora Mike ia fiscalizar a rede de flu da casa e também reforçar os feitiços para que ninguém pudesse aparatar ou desaparatar...
Mas era perda de tempo dele, pensou Marlene, porque ela não ia tomar nenhuma atitude precipitada. Aliás, por que ela estava tão preocupada? Tirando o fato de que Tanya estava há dias sem se "alimentar", ela tinha certeza que a namorada de seu irmão não faria absolutamente nada contra Severus... Pelo menos, foi isso que ela começou a repetir pra si mesma, e se jogou ali mesmo na cama de Mike, esperando ansiosa que Tanya voltasse.
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Assim que terminou de ouvir os motivos de Severus, Tanya estava incrédula.
– E essa foi a melhor coisa que você conseguiu pensar? Francamente... – foi a única coisa que ela conseguiu proferir ao fim do relato dele.
– Não existem opções, Tanya – ele contrapôs. – Ou eu faço isso agora, ou não vou poder fazer nada quando o Lorde perder a paciência com os McKinnons e decidir matá-los.
Tanya não concordava com o que Severus ia fazer, mas ainda assim confiava nele, confiava que podia dar certo.
– Faça o que achar melhor – ela disse e retomou suas "ameaças": – Mas lembre-se de que você tem até o dia do meu noivado pra tomar uma atitude. Senão, eu vou ser obrigada a atender o desejo da Lene.
Depois de contar os fatos para Tanya, Severus voltou a desconfiar de que ela não estava falando a verdade sobre morder Marlene.
– Você blefa muito bem – ele afirmou.
– Eu não estava blefando – Tanya devolveu a afirmativa.
– Você não teria coragem – Severus insistiu.
– Você teria coragem de arriscar? – ela o indagou séria, não podia pôr tudo a perder agora.
– Se você fizer qualquer coisa com ela – ele disse em tom ameaçador –, eu juro que acabo com você.
Tanya riu.
– Não adiantaria tentar me matar – ela debochou. – Eu já estou morta.
– Lembro da sua sogra ter dito algo sobre "esquartejar e queimar..." – ele interpôs sem piedade.
Severus viu um tipo de pânico passar pelo rosto dela, mas Tanya logo se recompôs.
– Que seja. Até o dia do meu noivado, Snape – ela foi taxativa. – Senão, eu vou mesmo transformar a Lene em vampira. E não queira pagar pra ver. Você sabe que ela pode acabar morta.
Antes que Severus pudesse responder, uma terceira voz se fez presente.
– Morta? – Eileen perguntou num grito, largando de qualquer jeito sobre o sofá os pacotes que trazia em mãos.
– Ah, Eileen – Tanya interpôs, se levantando do sofá depressa. – Eu só estava dizendo ao Severus que eu estou morta com os preparativos e que ele não deveria perder o meu noivado por nada. Até mais!
E com uma velocidade impressionante, Tanya desapareceu de vista e eles só ouviram o som do conversível dela cantando pneu a alguns metros dali.
– Merlin, essa moça estava tão diferente, do que ela estava falando? – Eileen perguntou preocupada.
– Da Marlene... – ele disse num murmúrio, respondendo a pergunta que sua mãe fizera anteriormente: – É ela quem pode acabar morta...
Eileen viu as lágrimas que ele tinha nos olhos e isso só fez aumentar sua preocupação. Ela se aproximou de Severus e o abraçou.
– O que aconteceu realmente? – perguntou ela, sentindo que ele não aguentava mais suportar aquilo, o que quer que fosse, sozinho.
E Severus decidiu contar. Se tinha confiado em Tanya, achou que seria mais do que justo contar a verdade para Eileen também, além de ter certeza de que não ia conseguir esconder isso de sua mãe por muito mais tempo.
Ele suspirou fundo e finalmente contou a mãe sobre a conversa que tivera com Tanya e lhe disse a mesma verdade que contara a vampira momentos atrás, desde o que realmente acontecera em Hogwarts. Severus explicou que, entre outras razões, o principal motivo dele querer se juntar ao Lorde das Trevas era apenas um: estando entre os Comensais, ele iria saber quando o Lorde decidisse matar os McKinnons, e sabendo de tudo, ele conseguiria evitar a morte de Marlene e da família dela. Para ele, essa era a única forma de impedir que, mais cedo ou mais tarde, os McKinnons fossem mortos.
– E você fez tudo isso porque a ama? – tal qual Tanya, Eileen parecia não ter palavras. O que seu filho lhe dissera parecia loucura, inacreditável.
– Sim, eu a amo! E não quero que ela morra, não vou permitir isso nunca! – Severus respondeu firme. – Foi por isso que tomei essa decisão.
– Uma decisão muito incoerente – Eileen disse, e uma longa pausa se fez. – Será que vai ser sempre assim? Você sempre vai tentar resolver tudo da forma mais difícil? – ela suspirou cansada. – Ao menos, você ainda tem tempo de voltar atrás e tomar outra atitude.
– Não há mais tempo pra voltar atrás, mãe – ele disse, e aquelas palavras cruéis assustaram Eileen. Ela então respondeu com o mesmo nível de crueldade:
– Então pense, que se a Tanya realmente fizer o que prometeu e se a Marlene morrer, todo o seu sacrifício terá sido em vão! – ela disse séria e mais uma vez acrescentou o seu desabafo: – Por Merlin, essa menina ainda te ama, mesmo você sendo o canalha que foi. E cabe a você, somente a você, reconquistar a confiança de Marlene e provar que ainda merece o amor dela, que ela ainda tem motivos pra querer viver! Por favor, Severus! Pela primeira vez na sua vida, pense em tomar uma atitude menos egoísta!
Para Severus, foi difícil ouvir aquilo de Eileen. O que mais doía nas palavras de sua mãe, é que ela tinha toda a razão do mundo. Ele precisava mesmo fazer alguma coisa. E ele faria.
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Logo que Tanya chegou à casa dos McKinnons em Londres, Mike a alcançou assim que ela pisou na sala.
– Mike? – ela perguntou surpresa. – Pensei que tivesse ido...
– ... trabalhar? – Mike completou. – Não, eu fiquei cuidando da Lene. Ela está no meu quarto, desesperada pra falar com você.
Tanya lhe dirigiu um meio sorriso e sumiu entre as escadas. Chegando ao quarto de Mike, ela viu Marlene sentada na cama dele com uma expressão apática. Tanya andou até a cama e se sentou ao lado dela.
– Por favor... me diga que você não fez o que eu estou pensando que fez...! – Marlene murmurou, sem encará-la.
– Se você está pensando que eu consegui arrancar a verdade do seu namorado, então sim, eu fiz isso – Tanya respondeu em tom jocoso. – E eu tenho certeza de que até o dia do noivado, ele vai tomar uma atitude.
– Como? – Marlene se voltou a ela incrédula.
– Nós tivemos uma boa conversa – disse Tanya. – E digamos que eu fico um pouco assustadora e agressiva quando passo dias sem me alimentar...
– Tanya! – Marlene disse em protesto, ficando em pé.
– Não foi nada de mais, eu juro! – Tanya respondeu depressa, tranquilizando Marlene. – Enfim, eu consegui descobrir porque o Severus fez tudo aquilo. Mas se você vai acreditar, é outra história. Senta aí que eu conto tudo...
Tanya encarou os olhos ansiosos de Marlene. Ia contar a verdade para Marlene e que Mike a perdoasse, pois agora que conseguira fazer a Ponte Dourada¹ entre aqueles dois cabeça-dura, mesmo às custas de uma mentirinha boba, não podia desistir de vê-los juntos outra vez.
SSMMSSMMSSMM
¹ Ponte Dourada: técnica utilizada em negociações empresariais, cria caminhos alternativos quando as partes envolvidas têm uma grande dificuldade de chegar a um entendimento. É feita por mediadores.
Notas finais
Mais uma vez agradeço a todos que comentaram o capítulo anterior! Isso motiva muito, incentiva muito a gente, de verdade!
Beijos a todos os que leram, e um super obrigado adiantado a todos os que além de ler vão clicar no botãozinho para comentar! Só que o pessoal que não comenta, bem, esses nós nunca vamos saber o que estão achando da fic, suas sugestões, enfim... É para vocês leitoras e leitores que nós escrevemos, então nós queremos muito saber o que vocês estão achando! Qualquer que seja a opinião de vocês sobre a fic, nós vamos adorar ler!
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