Notas iniciais
Agradecimentos: À xicadasilvaleao, Mandy Snape e Gisele_Potter que comentaram o Capítulo 8 e à nova leitora, Anassis que comentou os anteriores! Seja bem-vinda! Obrigada!
Resumo do Capítulo: Depois de tantos acontecimentos, Marlene acaba ficando com a cabeça cheia de dúvidas...

– CAPÍTULO NOVE –

DÚVIDAS

– Por quê? – foi o que Severus perguntou, fazendo distinção em cada palavra.

Marlene então percebeu que ele não estava nem um pouco satisfeito com o seu "pedido"; foi fácil ver isso em seu rosto e antes que Severus pudesse se ofender de verdade, ela achou melhor explicar:

– Não que não tenha sido bom, porque foi. Nossa, foi bom demais...! – ela murmurou, vendo-o arquear a sobrancelha e sentiu o rosto pegar fogo. – Mas é que eu acho estranho a gente... você sabe e... – continuou ela, visivelmente incomodada com aquela conversa. – Enfim, sei que namoradosreaisse beijam e tudo mais, mas acho que a gente só deve fazer isso...

– ... em casos deextrema necessidade? – ele perguntou, e seu tom era rude, quase arrogante.

– Isso – confirmou ela, tentando ignorar o sarcasmo dele; ainda sentia o rosto queimar. – Porque senão eles, o Sirius e os outros... eles poderiam desconfiar, não é mesmo?

Claro –Severus concordou sem sinceridade e acrescentou cínico: – Nada de beijos sem que aminha namoradao deseje...

Marlene não tinha certeza se era isso mesmo, mas sentiu o coração se agitar estranhamente ao pensar que aquela ideia o magoava de alguma forma, embora percebesse claramente que não era isso o que Severus tentava demonstrar. Suspirando, ela ainda tentou explicar melhor:

– Acredite, vai sermelhorpra vocênãome beijar... E eu também não acho legal se você me beijar e eu estiver pensando em outro – disse ela, e ficou esperando a resposta dele.

A menção da palavra "outro" trouxe uma pontada de irritação ao rosto de Severus. Mas estranhamente, o rosto dele era totalmente tranquilo quando ele respondeu:

– Não sei porque está se justificando. Isso não tem nenhuma importância pra mim – disse ele por fim, como se tivesse passado horas se dedicando a um plano bobo.

Marlene sentiu o peso daquelas palavras e viu-se obrigada a perguntar:

– Você... você está sendo sincero?

A raiva brilhou como metal nos olhos dele.

– Que pergunta idiota é essa? – ele a questionou.

– Só responda – insistiu ela.

Severus riu sem nenhum vestígio de humor.

– Acha que eu estoumentindoagora?

– Não! – Marlene exasperou-se. – É que você pode estar sendo sinceroagora... mas talvezdepois...

A sobrancelha dele voltou a se erguer.

– Isso tudo é uma grande mentira,meu amor...– ele disse cínico, e ela achou que era verdade. – Mas não se preocupe: como estamos sozinhos, não há necessidade nenhuma de mentiragora...

Ela suspirou sem saber o que responder. Eles se encararam por um longo minuto, até que ela desviou o olhar primeiro, olhando para o chão. Sem tocar novamente no assunto, Severus tomou a mão dela entre a sua outra vez e um silêncio frio se instalou entre os dois, durante todo o tempo que levaram para chegar às Masmorras.

Lá dentro, havia pouca claridade e estava muito silencioso. E assim continuou por toda a manhã: Severus logo foi ver como estava o andamento da Poção Polissuco e sequer dispensou atenção alguma para Marlene. Por outro lado, ela ficou aliviada por não ter que falar nada depois daquela conversa. Na verdade, ela ficara um tanto intrigada, pensando que talvez esse silêncio frio e o mau-humor dele tivessem um significado diferente. Ou não. Talvez ela estivesse, como sempre, mais uma vez tendo alucinações sobre o comportamento dele.

Severus só pareceu lembrar que Marlene existia próximo à hora do almoço, quando começou a recolher seus materiais. Ele se levantou em silêncio e ficou parado à porta, esperando por ela. Ela se levantou também, mas não conseguiu pensar em nada para dizer e ele também não falou nada. Então, outra vez foram numa caminhada silenciosa até o Salão Principal.

Marlene não notou muita diferença quando chegaram ao salão. O comportamento dos alunos em relação a ela e Severus era o mesmo da manhã. Andar por entre as mesas acompanhada dele, novamente chamou a atenção de todos que estavam presentes. Enquanto andavam lado a lado, ela viu que os olhos dele disparavam para ela de segundo em segundo, numa expressão especulativa. Parecia que a aparente irritação da manhã já estava perdendo força, e que logo alguém teria que falar alguma coisa. E teriam mesmo, já que uma voz soou às costas deles:

– Feliz aniversário, prima! – exclamou Dorcas, pulando à frente deles agora.

– Shhh! – Marlene disse irritada, levando um dedo aos lábios pedindo silêncio. Mas a grifinória ignorou e partiu para cima da prima num caloroso abraço.

– Parabéns! Parabéns! Parabéns minha prima! – Dorcas disse exasperada, dando beijos repetitivos no rosto da prima. A grifinória se afastou ofegando, e como se só agora tivesse percebido que Marlene estava acompanhada, se voltou para Severus: – E aí, tudo bem?

– Oi – disse Severus, num tom que pareceu divertido e irritado ao mesmo tempo.

– Boa tarde – a voz de Remus soou como um sussurro atrás do grupo; primeiro ele colocou a mão no ombro de Marlene. – Desculpe por isso, Lene. Não consegui refrear Dorcas – e depois abraçou a namorada.

Marlene sorriu. Remus era o único dos seus amigos grifinórios que não vinha implicando com a repentina "amizade" dela com Severus. Não sabia se ele iria agir diferente agora que a estranha amizade se transformara em "namoro", mas ela nem conseguiu pensar muito nisso naquele curto espaço de tempo. O simples gesto dele de abraçar Dorcas pareceu tê-la despertado, e ela, num gesto automático se pendurou no pescoço de Severus; percebendo o que ela queria encenar, ele passou a mão em sua cintura e a trouxe mais junto de seu corpo.

– Ai amor! Só porque a Lene não quer festa, não significa que não vamos comemorar! – a voz de Dorcas soou outra vez animada e ela voltou-se à prima: – Eu ia mesmo falar com você de manhã, mas como vocês estavam se beijando na mesa da Sonserina...

– Querida... – Remus interferiu.

Dorcas então pigarreou, como se fosse medir as palavras e resolveu perguntar ao novo casal:

– É... vocês estão juntos? – ela perguntou sem ofensa, somente como se não acreditasse. – Juntosmesmo?

– É... – Marlene começou, mas foi cortada.

– Exatamente – Severus respondeu por ela – Juntos,namorando– e como se quisesse provar isso, colocou a mão de Marlene sobre a dele, para que os grifinórios pudessem ver o anel que a corvinal tinha no dedo.

– Que lindo, Lene... – Dorcas disse, parecendo bestificada com a singularidade do anel. – E você nem pra me contar, né? – ela perguntou com um pouco de decepção na voz.

– Bom, é que... – a corvinal começou, só que mais uma vez hesitou, olhando para o "namorado" como se pedisse respaldo se poderia ou não continuar; o olhar dele a incentivou de novo e ela respondeu: – Na verdade já faz um tempo que nós estamos juntos... Mas só ontem nós decidimos assumir...

– Ah... – murmurou a grifinória, sem emoção de repente. – Sirius já sabe?

Marlene engoliu em seco. Imediatamente as cenas da briga que ocorrera de manhã voltaram-lhe a mente, coisas que ela queria esquecer. O que ia responder a prima? Que Sirius já sabia e tinha ido até parar na Enfermaria por causa disso?

Mas ela não precisou responder, e nem Severus tampouco se manifestou. Remus deu um sorriso fino e depois disse a Dorcas:

– Ele já sabe sim, querida – comunicou ele, e Dorcas fez cara de espanto.

– Mas se ele está naEnfermaria,como ele pode saber? – ela indagou a todos e vendo a expressão de Marlene, insistiu: – Por que essas caras? Tem alguma coisa que eu não estou sabendo?

Marlene então começou a explicar:

– Hm... é... é que Sirius estava no meu quarto... – ela disse em meias palavras, não queria mesmo entrar em detalhes sobre o acontecido – ... quando semachucou...

– Ah é, ele comentou que ia lá te pedir desculpas mas... – a grifinória suspirou por um momento e quando compreendeu, acusou Severus com os olhos. – Que horror!

Remus percebeu a hostilidade e então assumiu a palavra.

– Bom, nos vemos mais tarde em Poções – ele disse, já puxando Dorcas com ele para que fizessem a volta. Mas rapidamente a grifinória escapou do abraço dele e se voltou para a prima:

– Sabe, eu ia convidar você pra almoçar com a gente... – ela disse, e Marlene não sabia se Dorcas estava mesmo brava ou se era cinismo. – Mas acho melhor deixar pra depois – e meneou com a cabeça para a mesa da Grifinória.

Do outro lado, Marlene viu Peter, Lily e James; depois de uma encarada rápida, o Monitor-Chefe literalmente virou a cara e no instante seguinte, ela ouviu Severus responder a Dorcas:

– Agradecemos pela intenção, Meadowes – afirmou ele numa voz artificialmente tranquila. – Mas de qualquer forma, isso não seria mesmoadequado.

Dorcas revirou os olhos e preferiu não responder; dirigiu-se apenas a Marlene:

– A gente se vê, Lene – ela disse, numa voz cheia de subentendidos e lhe deu as costas, se afastando com Remus.

Sem perceber, Marlene sentiu que Severus já estava puxando-a junto dele enquanto andavam na direção oposta. Ele seguia para o mesmo lugar onde haviam se sentado no café da manhã, na ponta da mesa da Sonserina, o mais distante possível.

Enquanto andavam, Marlene e Severus quase se esbarraram com Emmeline e Benjy, que se dirigiam à mesa da Corvinal. Elas não trocaram nem uma palavra, talvez pela expressão vazia de Marlene ou simplesmente porque Emmeline ainda seguia irritada com aquela rusga da manhã. Em algum lugar, em algum canto de sua mente, a morena se sentiu mal por isso, mas não conseguiu se concentrar na amiga por muito tempo, já que Severus acelerava o passo com ela em direção contrária.

Quando se sentaram do outro lado da mesa comprida, Marlene se deparou novamente com os mesmos amigos de seu "namorado". Eles a observavam aparentemente surpresos, o que não deveria estar acontecendo, já que eles tinham visto-a mais cedo naquele mesmo lugar.

Marlene então se serviu apenas de algumas frutas que estavam à sua frente. Mas não conseguiu comer. Havia algo literalmente entalado em sua garganta. Ao passar os olhos pela mesa, ela viu que Rosier e Avery olhavam para Severus e Mulciber a encarava de um jeito estranho, como de manhã. Mas o grupo logo pareceu dispersar quando se juntaram a eles Barty Crouch Jr. e Regulus Black, que não conseguiu evitar a surpresa de ver a ex-namorada de seu irmão ali, nem de se dirigir a ela:

– E aí, McKinnon? – perguntou Regulus.

Só pelo olhar que Severus lhe lançara naquele momento, Marlene decidiu responder ao outro apenas com um educado aceno de cabeça.

– O que eu disse sobreolhar para os outros? – a voz de Severus, mesmo num sussurro era áspera e a despertou de novo.

Marlene então olhou em volta, certificando-se de que estavam fora do alcance de ouvidos alheios, já que o outro grupo parecia estar entretido com outra conversa e só então se voltou ao "namorado" também aos sussurros:

– Eles é que estavam olhando pra mim – contestou ela. – Até parece que você não contou a eles sobre nós...

– Eu não contei mesmo – afirmou Severus, e sua voz ainda era áspera. – Não sou como você, que faz questão de dar satisfações a todos, sobre tudo...

Marlene lhe lançou um olhar zangado.

– Você nem percebeu, não é? – ela o questionou. – Eu não gostei dojeitocomo aqueleMulciberme olhou...

Severus olhou de relance na direção de Mulciber, que continuava olhando interrogativo para Marlene, embora ela não tivesse percebido agora. Por um momento, ele sentiu sua testa se crispar de irritação, mas depois se suavizou enquanto seus olhos assumiam uma expressão maliciosa.

– Acho que ele só estava lhe admirando,querida –ele disse cínico. – Obviamente, você é a coisa mais linda nessa mesa...

– Olha aqui... – ela se inclinou para ele, estreitando os olhos castanhos.

Marlene parou de falar quando sentiu uma das mãos dele envolvendo seu pescoço. Ao ver que ela estava a um segundo de erguer a voz, essa foi a maneira de Severus lembrá-la de que estavam numa mesa cheia em pleno horário de almoço, com provavelmente muitos olhares curiosos em cima deles.

– Mas se isso a incomoda – ele acrescentou, aproximando-se mais dela com um olhar penetrante –, eu falo com ele depois...

Ela lutou para não enrubescer com aquele olhar, e antes que aquilo a pudesse expor, emendou a frase, disse como quem ainda queria discutir:

– É... E-eu não gostei do que você falou pra minha prima – assinalou Marlene, referindo-se a Dorcas.

Severus então afastou a mão do pescoço dela e perguntou com aparentemente despreocupação:

– Sobre?

– Sobre não seradequadosentar com eles à mesa da Grifinória – ela insistiu.

Ele então crispou os lábios, como se tivesse se lembrado de alguma piada.

– Vocêrealmenteestá me perguntando isso, Marlene? – ele indagou debochado.

Marlene não entendeu no primeiro momento, mas depois devolveu o deboche:

– Ah, claro – ela disse com sarcasmo. – Esqueci que você jamais se sentaria à mesa com traidores do sangue, sangues-ruins e... estou esquecendo de mais alguma coisa? Se é isso, não sei como você permitiu queeume sentasse aqui...

– O convite que Meadowes feznãose estendia amim– respondeu ele, calmo. – Mas de qualquer forma, eu não permitiria que você fosse.

Marlene piscou os olhos, confusa pela segunda vez.

– Mas... mas vocênão podeme proibir de falar com eles, de almoçar com eles, o que quer que seja! – ela discordou num sussurro, sacudindo a cabeça em dúvida.

– Eu posso sim – afirmou Severus, e ela viu que seus olhos ficaram ameaçadores de repente. –Eusou o seu namorado...ou não?

Marlene sustentou o olhar dele, lutando para pensar com clareza no que ele dissera e então seu coração afundou com aquelas palavras. Severus tinha razão. De novo.Ele era o seu namorado,e ela, mais do que qualquer outra pessoa, tinha obrigação de aceitar isso. Pelo menos enquanto fosse necessário.

– É sim – ela concordou, a contragosto. – Mas então porque você deixou que eu sequerfalassecom a minha prima e Remus?

– Não me preocupo comeles– Severus respondeu cético.

– Não? Então...? – ela o pressionou, tentando ignorar sua expressão cínica.

– Então vamos nos atrasar se não sairmos daqui agora – disse ele, mudando completamente de assunto e ficou em pé num movimento leve.

Marlene não respondeu, apenas olhou em volta, sobressaltando-se ao ver que Severus tinha razão sobre o horário e que o salão já estava quase vazio; nem tinha percebido isso. Num pulo, ela se pôs de pé, pegando a bolsa que ficara esquecida no chão e novamente deixou que ele tomasse sua mão e a conduzisse porta afora.

Eles voltaram às Masmorras, a sala de Slughorn já parecia lotada e todos os que estavam lá os viram andando juntos para assumirem um lugar na bancada. Severus e Marlene sentaram-se lado a lado com Benjy e Emmeline – Benjy entre Marlene e Emmeline – mas o mal-estar da manhã ainda continuava. Só que Marlene nem estava preocupada com isso; assim que encostou sua cabeça no ombro de Severus, sentiu uma eletricidade inesperada perpassar seu corpo. Com muita dificuldade, ela resistiu ao impulso louco de erguer o rosto e beijá-lo. Então cruzou os braços bem firmes antes que perdesse o juízo e no instante seguinte, Slughorn entrava pela porta para começar sua aula.

A hora em si pareceu muito longa. Marlene não conseguia se concentrar absolutamente em nada do que o professor estava falando. Sem sucesso, ela tentava relaxar, mas aquela corrente elétrica que insistia em perpassar seu corpo não se abrandava nunca. O imenso desejo de beijar Severus também se recusava a diminuir e ela apertou os punhos até sentir seus dedos doendo com o esforço.

"Droga!" – ela praguejava em pensamentos. – "Peço pra ele não me beijar mais e fico querendo fazer exatamente o contrário..."

Ela finalmente suspirou aliviada quando Slughorn decidiu tornar a aula prática.

– Então – Slughorn falava rápido – essa é uma das poções que todos vocês devem ser capazes de saber preparar ao final dos N.I.E.M.s. A receita da poção encontra-se abrindo na página 162 deEstudos Avançados no Preparo de Poções. Temos pouco mais de uma hora restando, que deve ser o tempo de vocês fazerem uma tentativa decente da Poção do Acônito, também conhecida como Mata-Cão. Ela é recente, porém pode ser mais complexa do que qualquer coisa que tenham tentado antes, e eu não espero uma poção perfeita de ninguém. Podem começar!

Todos os alunos se levantaram; no instante seguinte começaram a aproximar seus caldeirões e a pesar coisas em suas balanças; outros corriam para o armário atrás de ingredientes.

Entretanto, dois alunos pareciam calmos demais.

Marlene só olhou para Severus. Eles trocaram um olhar de cumplicidade e ela sorriu timidamente ao notar que ele deveria estar pensando a mesma coisa que ela... A Poção Mata-Cão era a mesma que eles haviam preparado dois dias atrás.

Sem pressa, eles se dirigiram ao armário e pegaram somente os ingredientes que sabiam que seriam utilizados. Ao voltarem para a bancada, Severus disse tranquilamente:

– Não vamos usar o livro.

Marlene piscou.

– Mas... não! – ela protestou. – Eu não sei se...

– Nós fizemos essa poção há dois dias – ele a interrompeu. – E... eu confio em você.

– Tem certeza?

– Acho que posso correr esse risco, não? – ele disse cínico.

Claro –ela também debochou, rindo depois.

Eles começaram a trabalhar na poção, e detalhe, sem utilizar o livro – mesmo sob protesto de Marlene. Resultado: terminaram antes que qualquer um chegasse perto disso. Ela olhou para o lado e viu Emmeline discutindo alguma coisa com Benjy; não muito longe dali, também se via Remus resmungar com Dorcas sobre a poção e até Lily e James olhando confusos para o livro aberto sobre a bancada.

Assim, não havia mais nada que Marlene pudesse fazer a não ser tentar não olhar para Severus... sem sucesso. Ele estava encarando-a, e ela não soube decifrar o que havia por trás daquele olhar sutil. Mas antes mesmo que pudesse perguntar, ela o viu levantar a mão, chamando Slughorn até onde eles estavam.

O professor sorriu radiante quando mexeu e cheirou a poção feita por Severus e Marlene.

– Excelente! – exclamou Slughorn. – Sr. Snape, Srta. McKinnon! Bem, quanto ao Sr. Snape eu já sabia, mas a senhorita também revelou ser uma preparadora de poções de mão cheia! A senhorita realmente deveria estar na Sonserina!

– Eu realmente deveria estar na Corvinal – ela disse num sorriso amarelo. – Como meus pais.

– Claro, claro – Slughorn concordou. – O seu pai também gostava muito de Poções – e sem mais palavras, o professor anunciou: – Cinquenta pontos para cada um!

Ouviram-se alguns murmúrios raivosos e indignados de outros alunos, mas Marlene sequer os ouviu. Tomada de uma fúria diferente, cheia de felicidade, tudo o que ela fez foi se jogar literalmente nos braços de Severus. Um tanto surpreso com o "ataque", ele escorou o corpo na bancada quando ela enlaçou ambas as pernas em sua cintura e uniu seus lábios aos dele com urgência. Ela o sentiu corresponder com urgência igual e rezou para o momento não acabar; não queria escapar daqueles lábios cálidos e macios que se moviam de forma inebriante e lasciva nos seus enquanto as mãos grandes percorriam-lhe as costas de forma possessiva, apertando-a de encontro a si. Ela sentiu um calor entre as pernas e desejou que ele a possuísse naquele momento, em cima da bancada e...

Slughorn pigarreou. Imediatamente, Severus parou de beijá-la e Marlene sentiu que seu rosto começava a ficar quente quando firmou os pés no chão; seu corpo inteiro tremia.

– Está tudo bem? – Slughorn perguntou.

– Sim – foi Severus quem respondeu.

Marlene não teve coragem de olhar para ninguém depois que percebeu em que situação estavam; sentiu o hálito quente dele contra o seu pescoço e só então percebeu o que acontecia com o resto de seu corpo... Sentiu um arrepio correr-lhe por todo o corpo de novo.

– Eu não devia ter feito isso... – ela murmurou agarrada a ele.

"Droga!" – Marlene praguejou em pensamentos outra vez, lembrando-se do que dissera a ele: –"Então você achou que eu ia fazer o quê? Pular em cima de você feito uma fera no cio?..."

E não é que havia mesmo pulado em cima dele?

Severus apenas crispou os lábios no que parecia ser um meio sorriso, divertindo-se com o constrangimento de Marlene. No fundo, estava adorando aquilo: um acesso de espontaneidade que terminava com aquele belo rosto corado e constrangido. Ele aproveitou um pouco mais a sensação do corpo dela contra o dele, respirando fundo... Até que o perfume dela de Amêndoas não era tão ruim assim; pelo contrário, era bom... exótico, pensou ele.

– Podemos sair, professor? – ele indagou, para quebrar aquele momento de constrangimento.

– Mas é claro – Slughorn concordou; ele ria pelo nariz da cena que presenciara.

– Calma... – Severus sussurrou para que só Marlene pudesse ouvir; ela ainda estava tremendo quando ele pegou a bolsa dela e a colocou em seu ombro.

Eles seguiram para o corredor de pedras, e Severus, que até o momento tinha achado divertido o constrangimento de Marlene, agora repreendia a si mesmo pelo aparente descontrole. Ele também não estava pensando, só conseguia sentir... e que sentimento! Os sinais que sua libido mandava para seu cérebro eram inconfundíveis e ele sabia que tinha segurado – e que ainda estava segurando – Marlene daquele jeito para sentir o contato do corpo dela o máximo de tempo que pudesse.

Parando próximo a uma sala adjacente, Severus foi se afastando lentamente de Marlene. Aparentemente, ela ainda não conseguia olhar diretamente para ele depois do que tinha acontecido na sala de Slughorn. Ele então pegou no queixo dela e fez com que seus olhos se encontrassem.

"Como eu tive coragem de beijar ele de novo, sendo que pedi exatamente o contrário, instantes atrás?" – ela se perguntava, surpresa consigo mesma. – "E aquelas coisas que eu senti depois... Por Merlin!"

– Sobre o que aconteceu lá... – Marlene murmurou sem jeito, outra vez sentindo o rosto pegar fogo e então se afastou ainda mais, tentando não olhar para aqueles lábios macios e cálidos tão perto dos seus.

– Eu vou beijá-la de novo – ele a interrompeu, puxando-a pela cintura para mais junto dele.

– O que-que-queee... como? – ela indagou confusa e seu rosto ficou vermelho.

Vendo um tipo de pânico se instalar no rosto dela, Severus logo admitiu:

– Calma. Eu só estou te sacaneando – disse ele, e se afastou dela a tempo de vê-la sorrir depois do comentário.

– Ah... claro – Marlene suspirou aliviada e perguntou de repente: – Você deve estar furioso comigo, não é? Eu fui totalmente ridícula te agarrando na sala do Slughorn, na frente de todo mundo...

Ela parou de falar, esperando que ele dissesse alguma coisa. E se surpreendeu com as palavras gentis que ouviu dele:

– Esquece – Severus limitou-se a dizer, não queria que ela ficasse pior com alguma reclamação, se bem que ele nem iria fazê-lo. – Eu mesmo já esqueci... – mentiu ele.

Marlene não sabia se era verdade, mas ao menos Severus estava sendo cavalheiro o suficiente para não jogar-lhe na cara o pedido ridículo que havia feito e a maneira mais ridícula ainda de como o mesmo fora completamente ignorado por ela.

– Acho melhor você voltar para a sua torre e tentar se acalmar um pouco – sugeriu ele, por fim.

Ela pareceu decepcionada de repente.

– Eu pensei que você fosse ficar comigo – murmurou ela, corrigindo depois: – Quero dizer, pensei que fôssemos ficar juntos até o jantar...

– Não – respondeu ele com sinceridade, explicando: – Os seus amigos têm que pensar que eudeixovocê respirar... Nós passamos o dia juntos, é evidente que eles querem falar com você, mas não vão fazer isso se eu estiver por perto...

– É verdade – ela concordou num suspiro.

– E então? Acha consegue chegar sozinha até a sua torre?

– As coisas estão sob controle agora. Sério.

– Até mais, então – disse ele com uma frieza aparente, e sem mais palavras, deu-lhe as costas, indo em direção ao outro corredor.

Marlene acelerou o passo em direção à Torre Corvinal. Não era o que ela tinha planejado, se é que tinha planejado alguma coisa, mas esperaria Emmeline no dormitório delas, para tentar desfazer a rusga que tiveram de manhã.

Não demorou muito para que a loira adentrasse o dormitório que elas dividiam. Emmeline tentou ignorar que Marlene estava lá, indo direto para o banheiro. Mas Marlene tomou coragem para chamá-la.

– Emme? – indagou ela, franzindo o nariz enquanto se encolhia na cama, esperando que a amiga se voltasse a ela.

Emmeline fingiu que não ouviu e Marlene tentou de novo.

– Emmeline?

A loira então girou nos calcanhares e disse ríspida:

– Está falandocomigo, McKinnon?

– Claro que estou – disse a morena, tentando ignorar o peso do "McKinnon".

– O que você quer? – Emmeline continuou pouco amistosa e Marlene então se levantou, fazendo a volta na cama para ficar frente a frente com a amiga.

– Eu quero te pedir desculpas – ela respondeu com sinceridade. – Não sei nemporqueexatamente eu estou pedindo desculpas – as palavras pareciam desajeitadas como numa frase mal formulada –, mas se eu fiz ou disse alguma coisa que te magoou, eu me desculpo por isso agora.

Desarmada com as palavras de Marlene, Emmeline então se rendeu e abraçou a amiga.

– Você não tem que se desculpar, Lene. Não é devocêque eu estou com raiva...

Sabendo do que a amiga falava, Marlene pediu:

– Tudo bem, a gente deixa o Severus fora disso e continuamos sendo amigas...!

– Não, Lene – disse a loira, começando a falar sem pausas: – Como você se sentiria se Sirius tivesse saído daqui com mais do que cortes nos braços? E pior: sabendo que você não fez nada para ajudá-lo?

Marlene ficou séria. E tudo o que ela fez foi falar a verdade:

– Eu nãopudefazer nada, Emme – respondeu ela, tentando persuadir a amiga. – Você viu, Severus não medeixoufazer nada, isso podia estragar os nossos planos...

– Mas é exatamente desseplano medonhoque eu estou falando! – Emmeline respondeu séria. – Você não acha que essa história está indo longe demais? Você tem que desistir disso antes que seja tarde!

– Eu já disse, Emme, me desculpe se algo que eu fiz ou falei magoouvocê –Marlene disse em ultimato. – Mas eu não vou me afastar do Severus agora, nós acabamos de começar a fingir esse romance e...

– Tem certeza de que só estão fingindo? – perguntou Emmeline de repente, apontando para o anel que Marlene tinha no dedo.

Marlene percebeu onde a amiga queria chegar.

– É tudo fingimento sim, Emme! – disse ela, exaltando-se um pouco.

– Não sei, Lene – Emmeline continuava pressionando a amiga e expressou sua opinião: – Porque depois daqueles beijos que eu vi, por um momento eu quase acreditei que era verdade.Quase.Só não acreditei porqueeusabia, ou pelo menospenseique sabia, o que estava acontecendo.

– Não tem porque querer que seja verdade – Marlene afirmou. – Severus não gosta de mim e nem eu dele... – mas por um momento pareceu confusa, e murmurou: – Apesar de que...

Apesar de que... o quê? – Emmeline perguntou insistente.

– Não sei dizer... – ela suspirou. – Mas todas as vezes que Severus me beijou foi mesmo diferente...

Diferente...como?

– Foi como se eu estivesse nua nos braços dele e depois teve um momento em que eu pensei... – Marlene suspirou, sem concluir. – Não sei, Emme. Acho que eu fiquei louca, definitivamente. Mas tudo isso é loucura mesmo, não é?

Emmeline sorriu, um sorriso meio incrédulo.

– Olha pra mim, Lene, e me responde sinceramente – disse a loira e perguntou: – Você está gostando do Snape? Porque daí tudo passa a ser diferente...

– Não! – Marlene respondeu com plena certeza. – Não estou não...

– Está sim!

– Por favor, Emme, não invente...!

– Das duas uma: ou você está gostando dele, o que seria péssimo... – Emmeline constatou. – Ou você está acreditando na própria mentira...

– Nada disso, Emme – Marlene discordou. – Um dia isso vai acabar, ele mesmo me disse isso. Disse até que eu podia devolver o anel, acredita?

– Snape falou isso? Que grosso! – Emmeline disse contrariada. – Mas você não vai devolver, né?

– Não sei... – disse Marlene, aproveitando o clima bom para mudar de assunto. – Mas me fale uma coisa: e você e o Benjy?

A questão do anel pareceu ter mesmo distraído Emmeline, e logo elas engataram uma gostosa conversa, dessa vez sobre Benjy. Marlene acompanhava com atenção a euforia da amiga cada vez que tocavam no nome do rapaz. Sabia que no fundo, a loira também gostaria de ganhar de Benjy um anel como aquele.

Aquela meia hora voou mais rápido do que elas imaginaram e logo Benjy veio chamá-las para o jantar. Por um momento o loiro ficou surpreso de que Marlene fosse junto, talvez por também pensar que ela estaria com Severus, mas não deu importância a isso, pelo contrário, até gostava quando tinha todos os seus amigos e conhecidos presentes a mesa da Corvinal.

Durante todo o jantar, Marlene não viu Severus nem os amigos sentados à mesa da Sonserina. Intimamente perguntava-se se ele falaria mesmo com Mulciber sobre os olhares que ela não gostou. Mas logo ela foi interrompida do devaneio quando o assunto "Quadribol" surgiu à mesa.

Quando o trio se levantou para ir embora, Benjy e Emmeline foram na frente, e Marlene preferiu andar sozinha mais atrás. Logo, ela foi surpreendida novamente por Dorcas, que a alcançou próxima da Torre Corvinal.

– Oi Lene – Dorcas se manifestou e Marlene notou os pacotes que ela segurava nas mãos. – Eu quero te entregar os seus presentes!

– Não, não vamos conversar aqui no corredor. Entre, prima! – convidou Marlene.

Ela respondeu à questão da aldrava em forma de águia e então recebeu a prima na sala comunal. Dorcas voltou a falar, com uma animação aparente ao agitar os pacotes de presente.

– E agora... – anunciou ela – ... hora de abrir os presentes!

– Dorcas! – Marlene replicou. – Não precisava se incomodar! Eu disse que não queria nada...!

– Que bobagem! – exclamou a grifinória.

Dorcas então ajudou Marlene a abrir os presentes: ela e Remus lhe deram uma caixa cheia de doces sortidos da Dedosdemel e uma capa azul-royal com fecho de águia prateado. De Lily e James, Marlene recebeu um livro, "Voando com as Harpias de Holyhead" e uma agenda de deveres de casa,mais umana verdade, já que a corvinal conseguiu perder a última agenda que ganhara de Lily. Os presentes eram em conjunto, mas ela sabia muito bemquemhavia escolhido oquê.

A grifinória riu-se ao ver o presente da ruiva:

– Pois é, Lene... – debochou Dorcas. – Lily sempre diz que você é tão desorganizada com os deveres que até lhe deu uma agenda...

Marlene riu sem empolgação diante do presente e Dorcas assumiu a palavra de novo.

– Só isso de presentes, prima? – ela continuava debochada. – O que mais você ganhou?

– Não sei se a Emme vai me dar alguma coisa, eu espero sinceramente que não, eu disse a vocês que não queria nada, lembra? – assinalou Marlene, respirando fundo para dizer: – Mas domeu namorado,eu ganhei este anel – disse, mostrando a joia novamente a Dorcas, que pareceu curiosa e empolgada de repente.

– Me fala um pouco de vocês? – pediu a grifinória. – Quero dizer, desse namoro relâmpago de vocês...

Marlene sorriu e então começou a "contar". Inventar, na verdade.

– Bom, eu tenho que admitir que desde que Severus começou a me ajudar, já estava acontecendo alguma coisa... – ela explicou. – Mas só ontem nós decidimos começar o namoro...

– Ah, que bom, né? – Dorcas assentiu. – Só pelo anel que Snape te deu, acho que ele deve gostar mesmo de você...

Marlene riu por dentro. A mentira estava funcionando bem.

– Euachoque sim – concordou ela. – Mas é difícil ter certeza...

– Na verdade, eu não sei como você temcoragemde ficar sozinha com ele – disse a grifinória num sussurro.

– Por quê? – Marlene perguntou curiosa, e ao mesmo tempo intrigada.

– Snape é tão...intimidador.Eu não saberia nem o que conversar com ele – explicou Dorcas, fazendo uma careta, provavelmente se lembrando da cena da hora do almoço.

– Acho que eu tenho uns problemas de incoerência quando estou perto dele – a corvinal admitiu, e essa parte era verdade.

– Ah, sim – Dorcas disse, dando de ombros.

– Ele é muito mais do que eu imaginei – sem perceber, Marlene tinha saído com essa.

– É mesmo? – a grifinória indagou, os olhos arregalados de surpresa. – Como assim?

– Não sei explicar – disse Marlene. – Ele me mostrou um lado que eu tenho certeza que ninguém conhece...

Dorcas riu, chocada.

– Se for o que eu estou pensando – ela sussurrou maliciosa –, eu não faço questão nenhuma de conhecer... Então vocês já...?

Marlene não confirmou, mas também não negou.

– Na verdade, não éisso – ela interpôs depressa. – Eu quis dizer que ele não é o crápula que todos dizem...Comigoele é bom, entende?

– Serápossível?Dorcas riu de novo e Marlene a ignorou. – Então vocêgostadele, né? – insistiu ela.

– Gosto – disse a corvinal rispidamente.

– Quero dizer, vocêrealmentegosta dele? – a grifinória ainda insistia.

– Gosto – repetiu Marlene, e seu rosto enrubesceu; no fundo, sabia que a prima não se contentaria com uma resposta tão curta. – Gosto muito... Demais.

Dorcas então se exasperou ao olhar no relógio e ver o avançado da hora.

– Nossa, como já é tarde! Eu tenho que ir! – e se voltando a prima, acrescentou: – A gente se fala melhor amanhã, prima.

– A gente se vê – concordou Marlene, dando um beijo no rosto de Dorcas. Ela acompanhou a prima até a porta.

Depois que ela foi embora, Marlene recolheu os presentes e subiu de novo para seu dormitório, pensando na veemência com que dissera a Dorcas que gostava de Severus, e na mesma veemência com que afirmara o contrário para Emmeline.

Onde estava a verdade, afinal?

Confusa, ela levou um dedo aos lábios por um instante; se fechasse os olhos, ainda poderia sentir o gosto do beijo dele. E onde é que ele havia aprendido a beijar daquele jeito?, ela se perguntava, mas era melhor não pensar muito sobre isso, afinal não era muito agradável pensar que poderia ter sido com alguma garota da Travessa do Tranco...

Enfim, tudo ainda era muito incerto, mas como não seria, diante de uma loucura daquelas?

Marlene viu que Emmeline já dormia e suspirou, sentando na cama com a cabeça cheia de dúvidas. Será que estava mesmo gostando de Severus? Ou será que estava começando a acreditar na própria mentira?

Ela trocou de roupa, e parecendo desesperada, pegou uma foto de Sirius que mantinha guardada no criado-mudo.

– É porvocê, Six... Essa loucura toda é porvocê... – murmurou ela, deitando-se.

Marlene permaneceu ali até que pegasse no sono. O dia havia sido cheio e a noite mais ainda, mas os próximos dias, sem dúvida, seriam ainda mais.

SSMMSSMMSSMM

Notas finais
Oi pessoal! Que situaçãozinha difícil a da Lene, né? RSRRSRS. Ela disse que tudo isso é pelo Sirius... Mas sabem que eu não acredito? RSRSR
Beijos a todos os que leram, e um super obrigado adiantado a todos os que além de ler vão clicar no botãozinho para comentar! Só que o pessoal que não comenta, bem, esses nós nunca vamos saber o que estão achando da fic, suas sugestões, enfim... É para vocês leitoras e leitores que nós escrevemos, então nós queremos muito saber o que vocês estão achando! Qualquer que seja a opinião de vocês sobre a fic, nós vamos adorar ler!