Muito Bem Acompanhada
13 Constrangimentos
Notas iniciais
Resumo do Capítulo: O dia seguinte a festa é um verdadeiro festival de constrangimentos para Marlene.
– CAPÍTULO TREZE –
CONSTRANGIMENTOS
Ainda era cedo quando Severus abriu os olhos; o elfo doméstico que sempre arrumava o quarto havia dado um jeito de entrar ali e o despertou do pouco sono que tivera; ele se certificou de que Marlene dormia calma e profundamente, então saiu da cama sem movimentos bruscos, substituindo por um travesseiro o lugar que antes ele mesmo ocupara.
Severus pediu para que o elfo lhe trouxesse o café da manhã, mas na verdade tinha sido quase uma ameaça ao pobre ser, já que ele sabia que Marlene não acordaria a tempo de tomar o café da manhã, e mesmo que o fizesse, tampouco conseguiria sequer pisar naquele salão, depois do fiasco da noite anterior.
Assim que o elfo retornou com o café, Severus se serviu de uma torrada e suco – os bolinhos de amora eram somente para Marlene –, depois rumou para a cama de Avery, onde poderia terminar de dormir e assim, Marlene não teria nenhuma surpresa ao acordar, apesar de ele já ter quase certeza de que ela não se lembraria de qualquer coisa que tivesse acontecido depois da festa.Qualquer coisa.Foi com pesar que ele constatou que ela não lembraria de nada do que acontecera entre eles no chuveiro,nada mesmo... Mas ele também não faria questão nenhuma de contar.
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Marlene sentiu-se zonza e particularmente naquela manhã, seus olhos pareciam ter uma dificuldade infinitamente maior para se abrirem. Ela se enrolou nas cobertas e afundou a cabeça no travesseiro, surpresa por estar sentindo aquele perfume conhecido.
"Nossa... por que será que até aqui eu sinto o cheiro do Severus?" – ela se perguntou, mas nem conseguiu pensar na resposta.
Ela estava com uma dor de cabeça horrível e ela mesma se sentia horrível, um trapo, uma roupa velha e maltratada. Então prometeu a si mesma que jamais colocaria Absyntho outra vez em sua boca, pelo resto de sua vida.
Marlene virou a cabeça no travesseiro e se deparou com o criado-mudo; olhando para o relógio, ela notou que marcava onze horas, mas como não havia muita claridade ali, não soube dizer se era da manhã ou da noite. E só então ela percebeu que havia algo errado.
"Espera aí! Eu não tenho um relógio na cabeceira da minha cama...!" – pensou ela, confusa. – "E a minha cama não fica ao lado da porta... que porta é essa? Quediabosestá acontecendo aqui?"
Alarmada, ela ergueu o corpo, sentando-se na cama. Sentiu a cabeça girar um pouco, mas teve certeza de que o que viu não era fruto de delírios. Esquecendo-se completamente da dor de cabeça e da dificuldade em abrir os olhos, Marlene literalmente arregalou os olhos castanhos ao ver Severus já vestido, sentado na cama da frente a lhe observar. Ele parecia cansado, mas ela não fazia a menor ideia de como tinha ido parar naquele quarto comele.
– Está melhor? – Severus perguntou, e ela percebeu a preocupação que ele tinha na voz.
Marlene fechou os olhos com força, desnorteada pela dor de cabeça. Ela apenas fez que sim com um movimento de cabeça, tentando juntar os fatos e corou quando percebeu que vestia uma camisa de pijama – provavelmente dele – e mais ainda depois de constatar com uma olhadela discreta para dentro da camisa, que embaixo daquilo, estava somente de calcinha.
"Ah meu Merlin... O que aconteceu ontem?" – ela se perguntava aflita, e resolveu perguntar isso a única pessoa que poderia lhe dizer.
– Severus, eu... nós... ontem à noite... – Marlene começou, sem saber ao certo por onde começar.
– Por que não come alguma coisa primeiro? – Severus sugeriu sem responder, apontando para a bandeja de café.
Ela sentiu que realmente precisava comer alguma coisa antes que desmaiasse de fome, e sem pestanejar, avançou sobre os bolinhos de amora. Severus esperou que ela comesse e depois de uma xícara de chá, Marlene retomou a pergunta.
– Hm... – ela disse temerosa. – O que aconteceu ontem...?
– O que vocêlembra? – ele respondeu com outra pergunta.
Marlene então se pôs a pensar. Lembrava-se de que os amigos haviam saído para procurar Dorcas, e que enquanto ouvia coisas horríveis das "sereias", havia tomado um belo porre... Mas não se recordava com nenhuma nitidez de como havia chegado até o quarto de Severus à noite passada.
– Depois que você saiu – ela começou a explicar o pouco que havia lembrado –, eu conversei com James, com Lily e depois assereiasvieram falar comigo... – suspirou. – Um pouco depois, Remus disse que estava preocupado com a Dorcas, pensou que ela podia ter passado mal e resolveu ir atrás dela... James e Lily acharam melhor ir com ele... Eu também ia, mas achei que você ficaria chateado se voltasse e eu não estivesse mais lá, então fiquei. Aí aquelas garotas continuaram conversando comigo e... O resto eu não lembro... O que exatamente houve a noite passada? – indagou ela, ainda meio incerta, e pedindo a Merlin para que o pensamento que teve estivesse sendo precipitado e fosse absurdamente infundado.
– Você não se lembra de nada mesmo? – Severus insistiu.
– Não – Marlene murmurou, sentindo o coração pulsar de forma estranha, ansiosa. – Eu, você, a gente, nós... quero dizer... – ela balbuciou gesticulando de forma displicente. – Eu dormi com você, é isso?
Instantaneamente o rosto pálido dela, que mal havia tido tempo de retomar a cor natural, voltou a tornar-se vermelho com o rumo e a conclusão de seus pensamentos. Aquela pergunta que fizera foi tão direta que Marlene sentiu como se fosse ter uma parada cardíaca, tamanho salto que seu coração dera no peito, se tivesse a confirmação. Teria realmente feito amor com ele? E pior: sequer se lembrava? Por alguns instantes, sentiu como se tivesse parado de respirar.
Severus apenas arqueou a sobrancelha antes de responder.
– Não – respondeu ele simplesmente. – Não aconteceunada.
– Comonada? – ela quase grunhiu, sem acreditar. – Eu acordei na sua cama! E se eu acordei, é porque eudormiaqui...!
– Dormir na minha cama não significa que você dormiucomigo– explicou ele, com uma calma inabalável. – Você bebeu demais, eu te trouxe pra cá e você dormiu, apenas isso.
Mas Marlene ainda não tinha se convencido.
– Então, como... como se explicaisso? – Marlene apontou para si e para a camisa que usava.
– Nada – Severus voltou a afirmar. – Você estava agitada, eu te dei um banho, te vesti e te coloquei na cama, só isso.
– O que você quer dizer, quando diz agitada e... Espera! – ela perdeu a linha de seu raciocínio. – Você disse que... me deu umbanho? Eu ouvi bem isso? – e corou furiosamente.
– Sim – ele respondeu com simplicidade. – Mas não há porque se preocupar, eu nem toquei em você; resolvi tudo usando magia – mentiu ele.
Marlene não sabia se podia acreditar nisso, mas de qualquer forma, deveria ter sido humilhante demais.
– Ai que vergonha... Por Merlin, que vergonha – ela murmurou, baixando a cabeça sentindo aquele calor subir às maçãs do rosto novamente e nervosa, ela olhou as próprias mãos, apertando uma na outra. – Tem certeza de que foi só isso mesmo? – e voltou a questionar, tinha outra preocupação agora. – Quero dizer... Acho que você sabe como isso pode acabar, caso tenha acontecido mais do que você me contou...
A expressão de Severus mudou completamente. A preocupação sumiu de seu rosto e Marlene viu um sorrisinho de deboche enquanto ele respondia:
– Se está tão preocupada – ele disse cínico –, acho que deveria procurar Madame Pomfrey depois. Mas eu garanto que não vai encontrar nada meu dentro de você...
– Nojento! – exclamou Marlene, sem conter a indignação com aquelas palavras.
– Acha que seria tão horrível assim? – ele perguntou debochado.
– Não...! – ela interpôs depressa. – Mas é que se tivesse acontecido alguma coisa, eu gostaria de me lembrar – assegurou ela e isso era verdade. – Eu ficaria chateada se você tivesse se aproveitado de mim nessa situação...
–Seeu tivesse me aproveitado de você, você saberia. Mas duvido muito que eu pudesse ter aproveitadoalguma coisa...– afirmou Severus, cínico. – Você estavahorrível,Marlene. Digo... faz ideia de quantos copos de Absyntho você bebeu?
Marlene arregalou os olhos e passou os dedos pelo cabelo, mordiscando o lábio inferior.
– Merlin – ela suspirou. Já não sabia mais em que cor estava a sua face; só sabia de uma coisa: aquele era o momento mais constrangedor de toda a sua vida.
Como se despertasse de um transe, ela rapidamente saltou da cama, pondo-se em pé; sem jeito, ela enrolou-se no lençol, sentindo-se ridícula só de imaginar que Severus poderia e talvez tivesse até visto bem mais do que ela tentava esconder agora. Sem encará-lo e sem dizer uma palavra, Marlene se dirigiu ao banheiro, a fim de tomar outro banho.
Severus ficou ali sentado na cama de Avery, observando inexpressivamente a porta do banheiro bater. Ele sabia que agora jamais conseguiria entrar ali sem imaginar Marlene no chuveiro, ensaboando o pequeno corpo, ou a nudez dela envolta em suas toalhas verde-musgo. O leve perfume de Amêndoas, o cheirodela,ainda impregnava o seu quarto. Ele se sentia entranho, e sabia que algo não estava normal em si mesmo. Sentia-se... esperançoso? Sim, e tinha muito a ver com Marlene. Ele estava inebriado pelo seu cheiro, pelo seu jeito completamente imprevisível, enfim, sabia que ela era muito mais do que ele havia imaginado e pior: a desejava, loucamente. Suspirando fundo, Severus admitiu para si mesmo que aquilo era mais do que um simples desejo, era quase uma necessidade. Aquilo estava se tornando uma doença, ele pensou. Será que tinha se envolvidotanto, a ponto de não conseguir escapar? Pensando nisso, ele decidiu tomar uma atitude: pôr um fim naquilo, antes que fosse tarde.
Depois de um longo banho, Marlene fechou o registro do chuveiro e reconheceu o vestido e a capa em cima do banco. Transfigurou tudo em vestes limpas, as vestes habituais da escola, já que não podia sair dali vestida simplesmente com aquela camisa de pijama. Ela pensava sobre tudo o que havia acontecido, no porre que havia tomado para esquecer as coisas horríveis que ouvira, mas agora, sequer se importava com isso. Estava ali, no dormitório de seu "namorado" e sem perceber, não estava se importando com mais nada além desse momento, onde todos os seus sentidos pareciam ter se voltado a ele: sua respiração, seu corpo, sua alma só respondiam ao efeito que Severus tinha sobre ela, e aquilo estava assustando-a. Sentir as coisas que sentia quando estava perto dele, nunca esteve nos seus planos.
Meio sem jeito, Marlene saiu do banheiro e viu que Severus ainda estava sentado na beira da outra cama, os braços cruzados despreocupadamente.
– Que horas são? – ela arriscou perguntar.
– Quase uma da tarde – respondeu ele, sério. – Então se você ainda quiser almoçar, vamos ter que ir até a cozinha da escola.
Marlene suspirou fundo. Havia algo que ainda precisava fazer. Ou melhor, dizer:
– Acho que isso pode esperar um pouco mais – disse ela, e timidamente foi se aproximando dele. – Sobre ontem ainda, eu...
– Eu já disse que não aconteceu nada – ele a interrompeu com a afirmação.
– Eu acredito nisso – respondeu ela, e acrescentou: – E se você realmente cuidou de mim como disse, eu agradeço e prometo que isso nunca mais vai acontecer, isso de beber do jeito que eu bebi ontem...
– Eu tenho certeza que isso não vai mais acontecer – disse Severus com uma firmeza impressionante, surpreendendo-a. – Porque a partir de agora...
Mas Severus não concluiu a frase; Marlene levou as mãos à testa impaciente, só agora lembrando que Emmeline deveria estar surtando de preocupação.
– O que houve? – ele forçou-se a perguntar.
– Eu tenho que ir! – ela disse num grito. – Eu tenho que ir, a Emmeline...!
Marlene começou a andar de costas, afastando-se bruscamente. Resultado: levou um belo de um tombo, e ainda por cima bateu a cabeça na quina do criado-mudo. A dor a deixou tonta e confusa, ela ainda não conseguia enxergar no que tinha batido, com o rosto esmagado contra a madeira e sentiu corpo escorregar até o chão. Ela tentou se virar, mas nesse momento Severus já tinha se abaixado ao lado dela, e parecia preocupado de novo.
– Marlene? – ele perguntou aflito. – Marlene, você está bem?
– Estou! – ela respondeu num grito, tentando inutilmente se levantar. – Eu tenho... eu tenho que ir!
– Ir aonde? – Severus indagou, diante daquela insistência. – O único lugar para onde você vai agora é a Enfermaria!
– Enfermaria? – ela o questionou, sem entender. – Não precisa, eu estou bem!
– Acho que não – afirmou ele, comunicando: – Você tem um grande corte na testa... Está sangrando.
Marlene então passou a mão na testa; estava mesmo pegajosa e úmida.
– Ah, me desculpe... – ela disse sem se conter, e apertou o corte com força, como se quisesse fazê-lo estancar à força.
– Está pedindo desculpa porsangrar? – Severus perguntou como se não acreditasse, e então passou seu braço pela cintura dela, puxando-a para colocá-la em pé. – Vamos, eu vou te levar para a Enfermaria.
Marlene não disse nada, e permitiu que ele a conduzisse devagar pelos corredores. Ela não pôde evitar a vergonha que sentiu ao passar pela sala comunal da Sonserina, onde recebeu uma chuva de olhares e comentários. Mais constrangimentos. Logo, ela imaginou o que todos aqueles sonserinos deveriam estar pensando ao vê-la saindo do quarto carregada por Severus... E o que será que eles haviam pensado na noite anterior? Ela achou melhor nem pensar na resposta.
Enquanto andavam pelos corredores da escola, Severus se preocupou em afundar o rosto de Marlene em seu peito, para que ninguém visse que ela estava sangrando, e nem se importou se ficaria sujo de sangue também; ele só não queria que aquilo fosse motivo para mais comentários. A caminhada até a enfermaria foi rápida, e assim que chegaram, Madame Pomfrey correu aflita até eles.
Durante todo o tempo que a curandeira levou para fechar o corte em sua testa, Marlene sentiu que Severus não largou sua mão em nenhum momento, e percebeu que ele realmente estava preocupado. E ela pensou que Emmeline também ficaria preocupada, tanto que achava melhor nem contar à amiga sobre o tombo que levara.
Assim que Madame Pomfrey liberou Marlene – não sem antes lhe passar um sermão por seu jeito estabanado –, Severus a acompanhou até a Torre Corvinal. Mas de novo, todo o trajeto foi feito em silêncio e Marlene começava a ficar preocupada outra vez; o fato é que ela não gostava desses silêncios dele, era como se algo ruim estivesse para acontecer. E realmente estava. Assim que chegaram à entrada da torre, Severus disse friamente:
– Espero que fique bem – e sem mais palavras, girou o corpo, se afastando com tal rapidez que ela teve que correr e se agarrar às vestes dele.
– Espera! – Marlene gritou, e percebendo que Severus parecia irritado de repente, tentou se explicar: – Se você está agindo assim por causa de ontem, ou por causa das coisas que eu falei, eu juro, issonunca maisvai acontecer!
– Não vai acontecermesmo– ele respondeu azedo, de cara virada. – Como eu estava lhe dizendo antes, acho melhor você encontrar outra pessoa para afrontar Black a partir de agora! Porque eu não tenho vocação nenhuma para cuidar de você e dos seus fracassos...
A dor, infantil e inconsequente, foi muito forte. As lágrimas encheram os olhos dela.
– Então você está...terminandocomigo? – Marlene indagou, e as palavras pareciam completamente erradas visto que o namoro deles era "de mentira", mas naquele momento, foi a melhor maneira que ela havia encontrado para manifestar o que mais queria saber.
Severus deu um riso amargo.
– Ora, Marlene... – debochou ele, perguntando com frieza: – Podemos terminar algo que tecnicamente não existe?
– Mas... Severus... não! – Marlene grunhiu contrariada, ainda agarrada às vestes dele. – Você não pode fazer isso comigo, eu... – ela não sabia nem o que dizer, a ideia de que ele queria e poderia deixá-la sempre a dilacerava. – Eu não querooutra pessoa, eu quero você! – e meio que corrigiu: – Eu quero quevocême ajude!
Severus então afastou as mãos dela, ainda sem responder. Realmente, não era o que ele queria fazer, e tampouco Marlene parecia acreditar nisso. Mas ele deixou que a razão falasse mais alto naquele momento; acreditava que o melhor a fazer era se afastar dela.
– Sinto muito – ele limitou-se a dizer. – O seu comportamento ontem foi lamentável e como lhe disse, na minha vida não tem espaço para isso – e se afastou, parando a meio passo das costas dela.
Marlene ouviu tudo calada, mas também teve dúvidas sobre o que Severus estava dizendo. Se ele não admitia aquilo, a sualamentávelatitude de ontem, então por que cuidou dela? Não conseguia entender.
– ENTÃO É ASSIM? – ela gritou desesperada, voltando a agarrar o braço dele. – Você disse que não era inteligente terminar comigo na primeira briga, mas faz isso na segunda? – perguntou ela, esforçando-se para esticar a mentira de tal forma que quase parecia verdade. – E qual é o problema se eu bebi demais ontem? Eu posso mudar, posso me controlar! Mas não me abandone agora, Severus! Eu não vou suportar isso!
E na verdade, nem Severus conseguiria suportar. A verdade era que ele, que sempre tinha uma resposta para tudo, não conseguiu vencer aquele argumento. Já não lhe importava mais se Black era o verdadeiro motivo por trás de todo aquele ardil, ou se Marlene queria mais dele do que isso. Ele se voltou a ela, vendo que seus lábios tremiam e deu sua resposta:
– Eu não vou terminar com vocêagora –disse ele, dando ênfase à palavra. – Mas...
De novo, Severus não conseguiu concluir o que falava. Marlene havia se aproximado mais dele.
– Marlene... – ele sacudiu a cabeça, mas não parecia mais haver reprovação em seu rosto, e tinha os lábios muito próximos dos dela, movendo-se suavemente de um lado para o outro, rendendo-se.
Marlene então alcançou a boca dele com a sua. Severus segurou o rosto dela com firmeza no dele e no instante seguinte, tudo o que ele fez foi mover seus lábios nos dela apaixonadamente, sentindo-a fechar os braços em torno de seu pescoço; ela tremia, mas ele teve certeza de que não era de frio e não parou de beijá-la. Dessa vez, foi ela quem teve que se afastar, ofegando, mas ainda assim com uma sensação de vitória: pela primeira vez não se sentia instável diante dele.
– Eu tenho que ir – Severus sussurrou.
– Obrigada – murmurou Marlene, agora afundando o rosto no peito dele.
– Pelo quê? – ele quis saber.
– Por tudo.
E dizendo isso, ela se afastou de Severus, respondeu a questão da aldrava e entrou apressadamente na Torre Corvinal, tendo a impressão que o vira dar um meio sorriso antes de fechar a porta. Ela mesma sorriu, sentindo que aquele beijo tinha sido diferente de todos os outros, e tinha certeza absoluta disso.
– Onde é que você estava? – a voz de Emmeline cortou seu devaneio.
Só então Marlene reparou nos dois pares de olhos azuis que a fitavam: Emmeline e Benjy estavam parados em frente ao sofá, e pareciam cansados. Mais até do que Severus.
– Eu... – Marlene começou, sem saber o que dizer. – Tudo bem?
Emmeline então sussurrou alguma coisa para Benjy, e Marlene ficou feliz quando viu o loiro repousar um beijo suave nos lábios da amiga. Logo, o rapaz tomou o rumo das escadas e Marlene exclamou:
– Então você e o Benjy estão namorando? – ela indagou num sorriso, mas a loira lhe lançou um olhar feio antes de responder:
– A gente nem dormiu, sabia? – Emmeline retorquiu séria.
Marlene então se aproximou da amiga e sentou-se no sofá com ela.
– Pelo menos uma de nós aproveitou a noite, hein? – brincou ela, mas logo recebeu outro olhar de reprimenda da amiga.
– A gente não dormiu de preocupação! – a loira respondeu. – Eu e Benjy ficamos a noite inteira nesse sofá esperando você chegar, mas a gente devia ter percebido que a sua demora só tinha um nome:Snape– afirmou ela, decepcionada. – Você dormiu com ele, Lene?
Marlene sabia o que a amiga queria perguntar, então suspirou fundo e começou a explicar.
– É, dormi – afirmou ela, e diante do olhar desolado da amiga, acrescentou: – Mas não da maneira que você está pensando... Eu sódormina cama dele, dormimesmo. Não aconteceu nada.
– Como não? – Emmeline perguntou incrédula. – Você acabou de dizer que dormiu na cama dele!
– É verdade – Marlene disse, e até onde ela sabia, achava que era só isso mesmo. – Severus dormiu na cama de um amigo dele... – e parecendo confusa, acrescentou: – Eu não me lembrava de nada, e pelo menos, foi o que ele me disse...
Essa, Emmeline não entendeu mesmo. Então a amiga sequer se lembrava do que havia acontecido?
– Mas... como assim, vocênão selembra? – a loira indagou chocada.
– Não – admitiu Marlene. – Eu bebi demais na festa ontem e a verdade é que eu nem sei como eu fui acordar naquela cama... Mas Severus me garantiu que não aconteceu nada.
– E vocêacreditounisso? – Emmeline insistia. – Se você não se lembra de nada,nada mesmo, então como pode ter certeza de que Snape não mentiu pra você? Ou melhor, como pode ter acreditado nele assim tão fácil?
Marlene deu outro suspiro triste.
– E como eunãoacreditaria nele? – ela respondeu com outra pergunta. – Ele foi o único que se preocupou comigo naquela festa, elecuidoude mim...
Os contra-argumentos de Emmeline morreram com aquelas palavras. Agora ela havia constatado o que há algum tempo desconfiava: a amiga estava apaixonada pelo "namorado de mentira". Ela deu um meio sorriso e disse:
– Depois, você diz que não gosta dele... – debochou ela. – Olha o jeito como você fala dele, parece até que são namorados "de verdade"...! – e concluiu: – Bem, quanto a Snape eu realmente não posso dizer, mas você minha amiga, você está se agarrando nessa mentira só pra ficar com ele!
Marlene decidiu não ignorar mais aquele sentimento e expôs a verdade à amiga.
– Quer saber, Emme? Nem eu sei mais o que eu sinto – afirmou ela em mais um suspiro triste. – Mas eu não vou esperar dele nada mais do que combinamos... – e depois de um meio sorriso, também concluiu: – Pra falar a verdade, eu estou morrendo de inveja de você!
– Demim? – Emmeline não entendeu. – Por quê?
A morena riu antes de responder:
– Você e o Benjy, ora. Do que mais? – ela disse rindo, e então resolveu perguntar de novo: – Como é que foi ontem? Vocês estão namorando mesmo?
– É... – a loira confirmou, enrubescendo.
E Marlene ouviu com atenção o relato minucioso e todos os detalhes que a amiga contou, desde o momento que saíra da festa para conversar com Benjy: todas as estruturas frasais utilizadas pelo rapaz até as descrições minuciosas das expressões faciais do mesmo, e beijo tão maravilhoso que Emmeline descrevera. Realmente ela sentiu inveja, mas uma inveja boa da felicidade da amiga.
Logo, a conversa foi interrompida. Marlene ficou surpresa ao ver seu amigo Remus entrando na sala comunal.
– Remus? – ela perguntou preocupada. – Aconteceu alguma coisa com a Dorcas?
– Não – o grifinório respondeu tranquilo. – Ela realmente passou mal ontem a noite, mas já está tudo bem. Eu vim falar com você mesma. Atrapalho?
Marlene só olhou para Emmeline; a loira assentiu com a cabeça e se levantou do sofá, refazendo os passos de seu namorado em direção as escadas. A morena então convidou Remus a se sentar.
– Claro que não – disse ela. – Sente, Remus!
Remus então se sentou no sofá, quase no mesmo lugar que Emmeline estivera instantes atrás. Ele suspirou fundo e começou, meio constrangido:
– Lene, Merlin sabe o quanto eu estou me sentindo ridículo por ter que te falar isso, mas... Padfoot implorou para que eu viesse... Não fique brava comigo, sim?
– Impossível ficar brava com você, você é o meu melhor amigo! – ela garantiu num sorriso divertido. – Eu não ficaria chateada nem se o próprio Sirius tivesse vindo... – disse ela, embora não fosse verdade. – Vai lá, me diz o que você tem que dizer...
O grifinório então explicou:
– Bom... Sei que isso é tão idiota, me desculpe, Lene... – ele mediu as palavras – Sirius quer que vocêtermineo seu namoro com Snape. Ele me pediu pra lhe dizerpor favor– e sacudiu a cabeça com desprazer.
Marlene deu uma risada seca, sem humor.
– Ah, elequer? Isso é ridículo mesmo – concordou ela, por fim. – Mas enfim, por que ele lhe pediu para me dizer...isso?
– Ele ficou... meioassustado,Lene – disse Remus. – Aquelas garotas que estavam com Padfoot contaram a ele sobre o modo como Snape te tirou da festa, e hoje Regulus apareceu lá na Grifinória dizendo que você saiu do quarto de Snape com a cabeça sangrando...
"Regulus?" – Marlene se perguntou confusa. O que ele teria a ganhar, contando ao irmão a cena que viu?
– Eu caí! – ela disse depressa, mas embora fosse verdade, não pareceu.
– Eu sei, e eu acredito em você – Remus assegurou. – Mesmo contrariando a Dorcas, e até Sirius, eu não me importo com o que você fez ontem. Mas você sabe como Padfoot é, e eu acho que ele não vai acreditar nisso...
Marlene então estreitou os olhos, com raiva; mas não era raiva de Remus, ela sabia que o amigo não tinha nada a ver com isso, só estava ali lhe dando um recado.
– Olhe Remus, eu sei que Sirius não vai acreditar nisso nunca, mas eu quero quevocêsaiba – ela disse, olhando nos olhos do amigo para ressaltar a franqueza de sua voz –, Severus foi o único que esteve do meu lado na hora que eu mais precisei; se ele não tivesse voltado e me tirado daquela festa, eu nem sei o que teria acontecido, eu bebi demais...!
– Eu sei – Remus reafirmou, tendo certeza da sinceridade da amiga; talvez conseguisse convencer o amigo pelo menos dessa parte.
– Bom, eu realmente sinto muito que Sirius tenha pedido avocêpra vir me dizer isso... – Marlene se desculpou. – Me desculpe. Ou melhor, desculpe Sirius por ter pedido para você fazer isso, Moony.
– Não me importo tanto assim – Remus sorriu aliviado. – E aí? Posso dizer a ele que você o mandou para o inferno? – perguntou ele, cheio de esperança.
– Não – suspirou Marlene. – Diga a ele que eu agradeço, embora a gente saiba que ele está perdendo tempo...
– Eu digo sim – dizendo isso, Remus se levantou do sofá e se despediu da amiga com um abraço.
Assim que Remus saiu, Marlene subiu ao dormitório, e como nem ela nem Emmeline tinham almoçado, a solução foi atacar o estoque de bombons da Dedosdemel que Marlene tinha guardado. Elas retomaram a conversa interrompida por Remus e passaram o resto da hora jogando conversa fora, até que Emmeline, como sempre dedicada aos estudos, se lembrou de que ela e seu namorado tinham uma redação para terminar e que precisavam ir à biblioteca. Marlene não tinha planos de sair naquela tarde, mas decidiu acompanhar a amiga e Benjy até a biblioteca.
Enquanto Emmeline e Benjy pareciam muito à vontade procurando livros de Transfiguração, Marlene seguiu para outro corredor, em busca de livros sobre Quadribol, já que estes eram os únicos livros de que ela realmente gostava.
Marlene parecia perdida ali, olhando aqueles livros, até que uma batida de palmas a despertou. Ela se virou e deu de cara com o ex-namorado parado atrás de si.
– E aí? – Sirius perguntou assim que ela se virou.
– E aíoquê? – Marlene devolveu a pergunta pouco amistosa.
Na verdade, ela sequer entendia porque Sirius estava ali: será que tinha necessidade de lhe dizer pessoalmente as palavrasridículasque pedira para Remus lhe dizer momentos atrás?
– Fiquei sabendo... Você eSnivellusontem, hein? – perguntou ele, num tom revoltado.
– Isso não é da sua conta – ela respondeu séria.
– É sim! – Sirius quase gritou. – Ele bate em você, e você acha que não vamos fazer nada?
– Você não tem que fazer nada! – rebateu Marlene. – E mais: Severusnão bateuem mim! Eu caí!
– Que seja – disse ele, ignorando-a completamente. – Ainda não gosto disso. Você não vai mesmo terminar com ele?
– Claro que não! – ela se exaltou, nervosa. – Por que eu faria isso?
– Não acredito que ele goste de você!
–Vocêpode não acreditar, mas pra que você tenha certeza absoluta disso, saiba que Severus vai falar com o meu pai no Natal! – ela improvisou, fazendo menção de se afastar.
Para Sirius, aquilo sim foi um verdadeiro tapa na cara. Ele sentiu o peso daquelas palavras: Marlene jamais permitira que ele tomasse tal atitude na época em que namoravam, e agora ela parecia fazer questão de que Severus fizesse isso. Como se não tivesse mais saída, ele apelou antes que ela fosse embora:
– Sendo assim, então acho que eu tenho uma coisa muito importante para te dizer – interpôs ele, depressa. – E mesmo que você não queira ouvir, eu sinto que eu preciso te contar. Só preciso que você me dê um minuto. Você pode me escutar, ou não?
SSMMSSMMSSMM
Notas finais
Mais uma vez, agradeço a todos que comentaram no capítulo anterior, significa muito, de verdade!
Beijos a todos os que leram, e um super obrigado adiantado a todos os que além de ler vão clicar no botãozinho para comentar! Só que o pessoal que não comenta, bem, esses nós nunca vamos saber o que estão achando da fic, suas sugestões, enfim... É para vocês leitoras e leitores que nós escrevemos, então nós queremos muito saber o que vocês estão achando! Qualquer que seja a opinião de vocês sobre a fic, nós vamos adorar ler!
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