Muito Bem Acompanhada
8 Casal Inusitado
Notas iniciais
— CAPÍTULO OITO –
CASAL INUSITADO
— NÃO! – Marlene gritou, percebendo que eles estavam a um segundo de se atacarem, as mãos de ambos dentro das vestes à procura das respectivas varinhas. – Hoje é o meu aniversário, será que eu não tenho o direito de pedir pra vocês não brigarem, não hoje?
Sirius então esticou as mãos como se quisesse mostrar que estava desarmado, mas Severus manteve a mão segura dentro das vestes quando o grifinório respondeu:
— Eu não vim brigar – destacou Sirius, voltando-se para Marlene. – Eu só quero te pedir desculpas pelo que fiz nas últimas semanas...
— Tudo bem... – ela respondeu, tentando evitar a fraqueza na voz e olhou para Severus; ele desviou o olhar, mas o rosto dele estava sério e rígido, o que a fez dizer para Sirius: – Se é só isso, acho que você já pode ir então, né?
Os olhos de Sirius lampejaram, confusos pela segunda vez.
— O que é que isso significa? – ele perguntou sem acreditar. – Agora é você quem está me mandando sair? Você, Lene?
Marlene olhou novamente para Severus e recebeu dele um olhar que a incentivava a continuar com o teatro; depois olhou para Sirius, lembrando-se de sua atitude na sala comunal da Grifinória e então deixou que a raiva falasse por ela:
— Eu não pedi pra você vir aqui! – ela disse, colérica. – E outra: você nem deveria estar aqui!
A resposta de Marlene deixou Sirius quase em convulsões; ele olhou para Severus com os olhos cinzas cintilando de ódio.
— E ele? — Sirius meneou a cabeça para Severus. – Por acaso ele deveria estar aqui?
Marlene abriu a boca num esgar sem humor.
— Severus é o meu namorado, Black – disse ela, numa voz áspera e fervorosa. – Ele pode vir aqui à hora que ele quiser! E eu agradeceria se você fosse embora! Ou você não percebeu que nós estávamos tendo uma conversa particular? – e voltou-se para Severus, enlaçando o pescoço dele: – Não é, amor?
Ela não pensou que causaria uma reação tão violenta com aquelas palavras. O rosto de Sirius enrubesceu de repente, ele se voltou novamente para Severus, revelando o mais puro ódio quando ele gritou:
— O QUE VOCÊ FEZ COM ELA?
Severus o ignorou.
— Não se preocupe, querida – Severus disse a Marlene numa voz tranquila.
— FIQUE LONGE DELA! – Sirius continuou aos berros, uma das mãos já sustentando a varinha.
— Não, Black – Severus ordenou inexpressivamente. – Você não vai querer fazer isso... — e outra vez passou Marlene para trás de si. – Então se você não sair, eu vou fazer você sair...
— Não acho que terei problemas – retrucou Sirius num tom frio e um rosnado baixo escapou de sua boca. Ele sorriu, erguendo a outra mão, a palma virada para cima; ele dobrou os dedos duas vezes, convidando Severus a avançar.
— Não! – Marlene pediu de novo, segurando o braço do "namorado".
Porém, antes que qualquer um pudesse perceber o que acontecia, Severus já havia alcançado a varinha e exclamado sua única resposta: uma azaração cheia de ódio:
— Estupefaça!
E todo o resto aconteceu com muita rapidez; Marlene sentiu sem perceber que fora empurrada de costas para cima de Emmeline ao mesmo tempo em que via o ex-namorado ser arremessado contra a parede e caindo sobre o que segundos atrás fora uma penteadeira de vidro; Sirius afundou na bagunça dos vidros e espelhos quebrados, mas se levantou rapidamente com a varinha em punho, avançando outra vez na direção de onde estavam Marlene, Emmeline e Severus, gritando furioso:
— Expu...!
Mas ele foi impedido por Benjy, que correu para dentro do quarto com a varinha em punho quando viu a cena:
— Impedimenta! – gritou o loiro e, mais uma vez, Sirius foi ao chão, embrenhando-se nos cacos de vidro; o armário ao lado também desmontou com o baque.
E só quando se deu conta disso, que seu quarto estava sendo destruído, Marlene pareceu ter um lapso de racionalidade:
— CHEGA! – ela gritou enérgica, apontando a varinha para Sirius: – Expelliarmus! – e a varinha dele voou para as mãos de Benjy, que estava mais próximo.
Severus então se aproximou de Marlene, assumindo de novo uma clara posição defensiva. Ela tremeu, sentindo a cabeça latejar, como se fosse desmaiar a qualquer momento e tudo que ela fez foi abraçar-se a ele. Não sabia se era por ter ficado tonta de repente ou desorientada; de qualquer forma, sentia-se mais segura assim, já que não conseguia mais olhar para Sirius: escorria sangue de sua boca e o olhar dele era irracional.
Ela se sentiu culpada por tudo que havia acontecido. Mas ela sabia que tinha realmente uma parcela de culpa: suas palavras raivosas aumentaram ainda mais o clima de provocação.
Emmeline então atravessou o quarto, pondo-se na frente de Benjy e o olhou preocupada, tocando o braço dele de leve.
— Você está bem? – indagou ela, sem disfarçar a preocupação.
— Claro – disse o loiro. – Acho que é ele – e apontou para Sirius – quem não está...
Sirius nada respondeu, ainda se rastejava no chão, retirando com as mãos os cacos de vidro entalhados em seu braço e peito; seus olhos ardiam em fúria, focados em seu rival.
Severus, ainda abraçado a Marlene, disse:
— Precisa dos seus amigos pra se levantar do chão? – ele perguntou cínico.
Sirius apenas murmurou:
— Lene...?
Marlene até pensou em fazer alguma coisa, no fundo, queria correr até Sirius e ajudá-lo. Talvez, Severus tivesse percebido isso, e quando ela fez menção de se afastar, ele segurou seu braço, apertando-a fortemente contra seu peito e sussurrou ainda mais imperceptível, para que somente ela ouvisse:
— Se você fizer qualquer coisa, nosso acordo acaba aqui.
Ela então suspirou fundo; voltou apenas seu olhar para Sirius e viu que os olhos dele continuavam furiosos quando ela respondeu:
— Desculpe – foi o que ela conseguiu dizer numa voz seca, e tão falsa quanto à afirmação. – Foi você quem quis assim...
E sem mais palavras, Marlene afundou o rosto novamente no peito de Severus, sem que ele notasse o olhar que ela lançou a Emmeline antes de se virar. A loira compreendeu algo como "Ajudem Sirius!" e no instante seguinte, ela e Benjy se abaixaram ao lado do grifinório e o ajudaram a se levantar.
Marlene não conseguiu ver o que aconteceu depois. Na verdade, ela continuou com o rosto afundado no peito de Severus durante todo o tempo que Emmeline e Benjy levaram para carregar Sirius pela porta afora. Ela pensou por um momento que poderia passar o resto de sua vida assim, nos braços dele, sentindo o perfume amadeirado e inebriante que vinha dele, um perfume que ela não se lembrava de ter sentido nele antes, mas tão bom que quase a entorpecia.
Um segundo passou e Severus assentiu lentamente, relaxando-a do abraço. Marlene só levantou o rosto saindo daquele transe depois, como se estivesse se sentindo sufocada, e se afastou dele depressa. Em silêncio, ela deu dois passos vacilantes na direção onde ficava a penteadeira, reduzida a cacos de vidro; olhou para a bagunça, depois se virou para Severus novamente, acusando-o com o olhar. Ele desviou os olhos, olhando para a janela.
O silêncio dele estava deixando-a louca.
— Diga alguma coisa! – ela pediu por fim.
— O que quer que eu diga? Me desculpe? – ele limitou-se a responder cínico, numa voz sem emoção.
— Não era para isso ter acontecido! – Marlene continuou, exaltada, chutando os cacos de vidro.
— Não seja melodramática – Severus respondeu indiferente, uma expressão sombria. – Infelizmente, Black vai sobreviver...
Marlene não conseguiu responder. A maneira como ele havia falado a impediu de responder. Ela percebeu que Severus não demonstrou arrependimento ou remorso em momento algum e temeu pensar no que aquilo realmente significaria, temeu pensar que para ele pouco importava se Sirius tivesse morrido ali...
— E por um momento, você quase pôs tudo a perder – Severus voltou a falar em tom áspero. – Estava indo tudo muito bem, até você querer ajudar Black!
— Mas nem isso eu consegui fazer, já que você me ameaçou e me apertou com tanta força que eu não consegui nem me movimentar! – Marlene respondeu à altura, tentando se justificar sem nem mesmo saber por quê: – Ah, por favor! Sirius estava machucado, precisando de ajuda! Eu fiz o que qualquer pessoa faria!
— Não – explicou ele, calmo. – Você fez o que qualquer ex-namorada idiota e apaixonada faria.
Marlene piscou. Os olhos castanhos faiscaram de raiva, ela ergueu o queixo e praticamente marchou até onde ele estava.
— Por acaso você me chamou de idiota? – perguntou ela, parando à frente de Severus.
— Claro que não – ele repetiu a explicação, ainda calmo. – Até porque, você não é mais a ex-namorada idiota e apaixonada do Black. Agora, você é a minha namorada e é nisso que ele tem que acreditar. Ele e Hogwarts.
Marlene pensou por um momento: Severus tinha razão. Ela não deveria mais bancar a ex-namorada idiota e apaixonada, e esse era o seu propósito com a vingança. Não podia mais se dar ao luxo de ter esses rompantes que pudessem estragar seus planos. Mas ela não chegou a formular uma resposta; outra vez ele a interrompeu:
— Podemos descer agora? – indagou ele.
— Claro – respondeu ela, pegando a bolsa mais uma vez.
Marlene se dirigiu até a porta; Severus abriu-a sem dizer uma palavra e quando ela já estava no corredor, o viu voltar-se para dentro de seu quarto novamente com a varinha em punho.
— Reparo Máxima! – ela o ouviu murmurar, antes de alcançá-la no corredor.
De novo, Marlene ficou séria e o questionou apenas com um olhar.
— Seu quarto está intacto, querida— disse ele, debochado, quando começaram a andar. – A propósito, você deveria estar de bom humor, hoje é o seu dia...
— E se eu não quiser ficar de bom humor? – ela devolveu o deboche.
— Isso é péssimo... – ele disse cínico. – Mas seja ao menos boazinha quando chegarmos ao Salão Principal, mesmo que Black não esteja lá...
— Claro. Mostrar pra todo mundo, menos pra quem mais importa, que nós estamos apaixonadíssimos... – ela riu sarcástica. – Espero que eu não pareça tão falsa...
— Eu realmente espero que não – ele respondeu meio presunçoso, quando chegaram ao corredor externo e depois foram diretamente para o Salão Principal.
Agora eles estavam no corredor de acesso ao salão. Muitos alunos se apressavam por ali, para não perder o café da manhã. Marlene percebeu que Severus parou à sua frente. Ela olhou para dentro do salão obstinadamente, sentindo uma pontada secreta de presunção quando ele disse:
— Lembre-se do que eu lhe disse ontem – Severus afirmou num suspiro. – Você não deve...
— ... olhar pra ninguém, só tenho olhos pra você, amor... – Marlene completou cínica.
— Ótimo – concordou ele, delicadamente. – Não será tão ruim assim...
Severus se inclinou, passando o braço pela cintura de Marlene; ela mesma tomou uma das mãos dele, entrelaçando seus dedos. Ele manteve um braço firme em volta dela, segurando-a a seu lado e começou a conduzi-la junto dele para dentro do salão.
Quando finalmente entraram, Marlene sorriu ao perceber que o Salão Principal já estava cheio, as mesas de todas as casas lotadas com seus respectivos alunos; testemunhas do que ela e Severus estavam tentando transparecer. Eles andaram devagar, no corredor entre a mesa da Corvinal e da Sonserina, ambos num passo lento e cadenciado para que ninguém pudesse perder nenhum detalhe. Contrariando a advertência, ela olhou arriscadamente para a mesa da Grifinória, a tempo de ver sua prima Dorcas aparentemente engasgada com o suco que segurava, mexendo os lábios como se dissesse "AH – MEU – MERLIN!" diante do casal inusitado.
— Todo mundo está olhando pra gente...! – ela murmurou baixinho.
— Aquele cara da Lufa-Lufa não – ele respondeu cínico, indicando o outro com um discreto menear de cabeça. – Quero dizer... agora ele olhou...
Por fim, Severus a conduziu para a ponta da mesa da Sonserina, onde Marlene reconheceu alguns amigos dele que assistiam a cena impassíveis: Evan Rosier, Avery e Mulciber, a quem ela não conseguiu encarar diretamente, pois depois do primeiro choque do reconhecimento, ela recebeu dele um olhar estranho, que a deixou pouco, na verdade nem um pouco, à vontade.
Ela não percebeu muito bem o que aconteceu, mas depois que Severus passou por eles murmurando entre dentes um "Bom Dia" azedo, todos eles se afastaram, desviando os olhos sem fazer perguntas e foi só então que os dois se sentaram à mesa. Marlene baixou os olhos e encarou o prato vazio inexpressivamente. Ele então tomou o prato dela e perguntou:
— O que quer?
Marlene agitou a cabeça, confusa. Ainda não acreditava que tinham mesmo chegado até ali.
— Bolinho de amora e... café! – ela respondeu num susto.
Severus então lhe devolveu o prato cheio e lhe empurrou uma xícara de café.
— Eu disse que não seria tão ruim – ele disse por fim, e Marlene deu um meio sorriso; de novo ele tinha razão.
Eles mal começaram a tomar o café quando houve um rumorejar de asas batendo e várias corujas chegaram voando perto do teto, até que uma delas deixou cair uma caixinha prateada e quadrada nas mãos de Severus; Marlene olhou para ele inquieta, e cruzou os braços irritada, só de pensar que aquilo poderia ser um presente... para ela.
— Comporte-se — ele sussurrou, puxando-a mais para perto dele e deu-lhe um beijo no rosto. Ela sentiu outro arrepio percorrer seu corpo e sem que pudesse reagir, a caixa já estava em suas mãos.
— Quando eu perguntei ontem se você ia me dar presente – Marlene começou sem graça, também aos sussurros –, eu não quis dizer que...
— E quem disse que isso é um presente? – Severus indagou cínico. – Vamos, abra.
Contra sua vontade, Marlene então rasgou sem jeito o papel prateado que envolvia a caixa, que na verdade era uma caixinha de veludo azul-marinho. Ela sentiu o coração disparar ao abrir e ver um anel delicado, na verdade, três alianças entrelaçadas e a do meio era cravejada de pequenos diamantes.
— Hmm... obrigada – foi o que ela conseguiu responder.
— Não agradeça – ele disse simplesmente. – Eu já disse que isso não é presente – e percebendo que ela queria esclarecimentos, acrescentou: – É apenas algo para dar veracidade a essa nossa história, já que o imbecil do seu ex nunca se preocupou com isso...
Marlene nem prestou atenção às ultimas frases; ficou feliz sem sequer perceber quando o ouviu dizer "nossa história" e também sorriu, sem ter ideia do porquê. Eles não tinham uma história... ou tinham agora, mesmo que fosse mentira?
— ... e você pode devolver quando tudo acabar – Severus continuou falando, sem perceber que o sorriso no rosto dela havia se desfeito naquele mesmo instante.
Agora foi a tristeza que a invadiu quando ele disse "acabar". De repente, ela não queria mais que aquilo, o que quer que fosse que eles tinham começado, acabasse.
Severus percebeu que Marlene parecia meio perdida em pensamentos e então numa atitude extrema, ele mesmo tirou o anel da caixinha e colocou com delicadeza no dedo dela.
— E então? – indagou ele.
— Obrigada – ela repetiu, ao fitar o anel, agora em seu dedo.
— Você só tem essa resposta? – ele a provocou.
Ela olhou para ele com um sorriso venenoso nos lábios.
— Tenho uma pergunta, pode ser? – disse ela.
— O quê? – ele quis saber.
E então, Marlene fez sua pergunta:
— Como você conseguiu falar com os meus pais tão rápido?
Severus pareceu confuso.
— Eu não falei com os seus pais – garantiu ele.
Mas ela não se convenceu.
— Ah, para! – Marlene se exaltou, embora ainda estivesse sussurrando. – Você acha que mesmo que eu sou idiota? – e completou: – Mas saiba que não importa o que você tenha feito pra conseguir falar com eles ontem, eu sempre achei lindo esse anel da mamãe! Aposto que foi ela que escolheu, quando leu a sua carta pedindo o anel, não é?
Severus tornou a olhá-la confuso. De onde ela havia tirado aquilo?
— Marlene – ele disse o nome dela um pouco impaciente, como se estivesse explicando o óbvio para uma criança de cinco anos. – Eu não falei com seus pais, nem sequer conheço a sua mãe, e não pedi anel nenhuma ela... – e depois de uma pausa, ele continuou: – Esse anel pertenceu a minha mãe, foi para ela que eu escrevi ontem, entende?
— Não! – Marlene respondeu com sinceridade, piscando os olhos sem acreditar. – Severus, esse anel é da minha mãe, acha que eu não sei o que significa? – e apontou para as três alianças entrelaçadas do anel: – É amor, respeito e confiança!
Severus ficou abismado, Marlene descreveu corretamente, mas como ela poderia saber disso? Ele tinha plena certeza do que fizera, e não conseguia entender porque ela estava insistindo que o anel era da mãe dela.
— Esse anel pertenceu a Eileen Prince, minha mãe – ele apelou para o bom senso. – E talvez a sua mãe tenha um anel parecido...
— Não! – ela replicava séria. – Não é parecido! É igual!
— Não pode ser – ele disse coerentemente. – Não existe outro anel igual a esse. Como eu já lhe disse, o anel que a sua mãe tem deve ser parecido, só isso...
— Eu acredito que seja da sua mãe – ela afirmou, depois disse um pouco desesperada para que ele acreditasse nela também: – Mas o que a minha mãe tem... é igual, Severus! É muito igual, entende?
Embora não entendesse de fato a coincidência, e apesar de intrigado, Severus apenas concordou:
— Tudo bem, não vamos discutir isso agora – ele disse, ressaltando que não aquilo não era motivo para discussão. – Quero ir verificar o andamento da Poção Polissuco.
Marlene fez cara de mártir.
— Agora? – reclamou ela.
— Por que não? – ele a ignorou. – Não foi possível verificar ontem, e não temos aula agora.
Ela deu de ombros.
— Sabe, eu achei que no meu aniversário, pudesse fazer o que eu quisesse...
— Na verdade, estou fingindo que não é seu aniversário, como você disse que queria que fosse... – Severus debochou. – Não pode ter as duas coisas, querida. Ou quer que as pessoas ignorem seu aniversário, ou não. Ou uma, ou outra.
Marlene bufou, sentindo-se derrotada. Droga. Mais uma vez ele tinha razão.
— Tudo bem, amor – disse ela, a contragosto. – Então não quero que você ignore o meu aniversário.
— Sendo assim, feliz aniversário— disse ele, num tom estranhamente desesperado ao colocar a mão no queixo dela, puxando o rosto de Marlene para si.
Dessa vez ela não reagiu, não tentou e nem tampouco queria fazê-lo. Severus se inclinou para tomar os lábios dela com os seus e Marlene sentiu o coração disparar numa reação descomunal. E ela sentiu uma das mãos dele afundar em seu cabelo, e a outra segurar o seu rosto com firmeza. Não importava se estavam em público, o beijo deles ia se tornando mais profundo e urgente. Mas dessa vez, não foi Sirius atrás de uma porta, foi Severus quem parou repentinamente, afastando-a com as mãos firmes e gentis. Ele parecia ter se lembrado do detalhe que estavam num salão com quase mil pessoas, detalhe este que fora fortemente ignorado por ela.
Marlene arfou, sem coragem de olhar para os lados; tinha certeza que todos os olhos daquele salão estavam em cima dela, pelo menos naquele momento.
— Pensei que ontem... – ela sussurrou nervosa, tentando se recompor depressa – ... você tinha dito que não era para eu esperar grandes demonstrações de afeto... Você está tentando me matar...? Onde estava a necessidade de fazer isso... e aqui?
— Realmente, não haverá grandes demonstrações de afeto de minha parte. Mas hoje, eu não quero que ninguém aqui tenha dúvidas sobre nós – Severus respondeu firme e tranquilo, apesar de também parecer sem fôlego e mudou de assunto drasticamente: – Agora, querida, nós temos uma poção para terminar... – e se levantou da mesa com fluidez, estendendo a mão para que ela também pudesse se levantar.
— Mas é claro, amor! – ela deu um sorrisinho cínico e se levantou, novamente entrelaçando os dedos ao dele.
Eles andaram em silêncio para a saída do Salão Principal, sem olhar para trás. Ambos não quiseram olhar para ninguém, para ninguém mesmo; não queriam dar margem a perguntas, não naquele momento.
Enquanto Severus e Marlene caminhavam juntos a caminho das Masmorras, encontraram Emmeline e Benjy no corredor; os dois corvinais voltavam da Enfermaria e Emmeline não fez questão nenhuma de esconder a desaprovação ao ver a amiga de mãos dadas com o sonserino e o vistoso anel em seu dedo.
Marlene então pareceu forçada a perguntar:
— Está tudo bem, Emme?
Emmeline continuava com o rosto duro.
— Não, Lene – ela disse com sinceridade, e olhando feio para Severus, acrescentou: – Acho que depois do que aconteceu hoje de manhã, nunca mais vai ficar tudo bem...
Benjy, como sempre, tinha o dom de interferir sempre que percebia um clima ruim.
— Black vai ficar algumas horas na Enfermaria – comunicou o loiro –, mas não foi nada grave. Mesmo.
— E... como ele está? – a pergunta escapou dos lábios de Marlene, e ela olhou para Severus como se pedisse desculpas.
Foi Emmeline quem respondeu.
— E como você acha que ele está? – ela indagou cínica, respondendo depois: – Mal, né! Eu disse, Lene, depois do que aconteceu, eu duvido muito que tudo volte a ficar bem! Agora se você nos dá licença, nós vamos tomar café! – e sem mais palavras, deu as costas a amiga, arrastando Benjy pela mão.
Marlene não conseguiu dizer nada. Pela primeira vez na vida, sentiu raiva de sua melhor amiga, das palavras duras e desnecessárias que ouviu de alguém tão querida por ela. As lágrimas então rolaram naturalmente pelo seu rosto e ela esfregou a mão embaixo dos olhos. Não demorou nem dois segundos para que Severus percebesse o choro contido dela.
— Isso é totalmente ridículo – afirmou ele, e depois perguntou, parecendo frustrado: – Por que está chorando, afinal?
— Porque a minha melhor amiga está com raiva de mim... e eu estou furiosa! – admitiu ela.
— Marlene? – Severus perguntou, voltando para ela toda a intensidade daqueles olhos negros.
— O quê? – ela murmurou, distraída.
— Me convença – insistiu ele.
E mesmo em meio às lágrimas, Marlene não conseguiu segurar o riso. A alegria em ouvir aquela frase de novo dissipou completamente a raiva que ela sentira instantes atrás, e os olhos de Severus derreteram toda a sua fúria. Era impossível não rir, e ela tinha certeza que ele sabia que sua reação seria essa, até poderia dizer que ele estava pensando a mesma coisa, ao lembrar-se daquela mesma frase dita por ele no primeiro dia do "reforço" em Poções.
— Ainda está com raiva? – Severus perguntou e soou até divertido. – Vontade de chorar?
— Não – Marlene respondeu, incapaz de encará-lo sem rir. – E eu não vou mais chorar.
Mal disse essas palavras, ela se abraçou a ele, como se fosse um jeito impertinente de pedir proteção; ele não se recusou a protegê-la e a envolveu nos braços sem dizer uma palavra.
— Obrigada... – ela murmurou contra o peito dele.
— Pelo quê? – indagou ele.
— Por me enganar desse jeito dizendo "me convença"... – Marlene riu-se, e ergueu os olhos para Severus, mas ao sentir que ele estava cheirando o seu cabelo, ela então se afastou dele, brigando: – Ei! Eu não estou fedendo!
— Ninguém disse isso – disse ele, inspirando fundo de novo, medindo as palavras: – Só acho diferente esse seu perfume de Amêndoas...
— Eu sei que você me pediu para mudar esse perfume... – ela começou. – Mas eu realmente não achei nenhum outro de que gostasse... Será que você poderia me dar mais um tempo, pra me adaptar a isso?
— Talvez eu não devesse nem me importar mais com isso... – Severus concluiu, e ela entendeu imediatamente, arregalando os olhos.
— Sério? – Marlene perguntou sem acreditar. – Você não vai mais implicar com o meu perfume doce e enjoativo demais para o seu gosto?
— Não – garantiu ele, com sinceridade. – Desde que você não use exageradamente.
Ela sorriu.
— Obrigada! – exclamou Marlene. – Então eu vou aproveitar que você teve esse lapso de bondade, e aproveitando também que eu assumi que hoje é o meu aniversário, será que eu posso te pedir uma coisa?
— O quê? – Severus ficou desconfiado.
— É só um favor, na verdade é mais um favor... – ela começou, como se tivesse receio de continuar. – Será que você poderia... hm... não me beijar mais?
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