Muito Além de Mim
25 Novas propostas.
O dia amanheceu com poucas nuvens e ideal para nadar no rio. Eu não encontrei com Max no café da manhã, o que foi estranho, porque eu estava muito ansiosa para falar com ele sobre os nossos planos para hoje. Fazia algum tempo que eu não me permitia me divertir de alguma forma. Mas tudo bem, vai ver ele estava ocupado e apareceria a qualquer momento mais tarde.
— Você parece radiante essa manhã. – Comentou a Dona Célia enquanto nos servia com uma fatia de bolo de milho.
— Max e eu vamos nadar um pouco essa tarde.
Célia me olhou com surpresa.
— Você e Max?
— Pois é. Acho que estamos começando a nos dar bem.
— Nossa! Eu fico feliz... eu torci muito por isso.
Dava para perceber na expressão dela o quanto ela estava sendo sincera.
— Mas tome muito cuidado. Aquele rio pode ser perigoso!
— Não se preocupe. Eu tive aula de natação com o melhor professor.
Sorrimos ao lembrar de Andrew e o quanto ele era bom em quase tudo que fazia.
Já não era tão doloroso pensar nele. Andrew aos poucos se tornavam uma lembrança boa. Mas não mudava o fato de que eu ainda faria qualquer coisa para tê-lo de volta em nossas vidas.
Depois do café da manhã, fui até a sala assistir um pouco de TV. A casa estava extremamente silenciosa. Célia estava lá fora cantando com suas flores, Catarina foi resolver umas coisas na cidade, Isabeli estava no colégio e Max sumiu do mapa.
Estava eu vendo uma reportagem sobre boa alimentação na terceira idade, quando de repente passei a mão em minha barriga e olhei para ela, admirada com o quanto estava crescidinha.
Em relação a minha gestação, eu estava sempre atrasada. Descobri que estava grávida com dois meses, comecei os exames pré-natal bem atrasados e ainda não tinha comprado nada para o bebê. Pode parecer cedo para algumas pessoas se preocupar tanto com isso agora ainda no comecinho, mas a questão aqui não é essa. O problema é que eu não tenho me preocupado com absolutamente nada em relação ao meu futuro e isso é pouco assustador.
Todos meus planos para o futuro foram por água a baixo com a morte do Andrew, agora eu tinha de começar a pensar em outras coisas importantes: meu futuro e do bebê, se eu voltaria a trabalhar com alguma coisa, como ganharia dinheiro, onde moraria... eu não podia ficar aqui para sempre, certo? Essas pessoas são ótimas demais comigo, mas não me parecia justo e nem muito certo me aproveitar disso pelo resto da vida.
Algumas vezes eu me sentia como um peso morto, sem muita utilidade, além de dar trabalho e despesas.
— Pronta para uma tarde empolgante?
— Max! Nossa... que susto!
— Desculpe. – Ele sorriu. — Eu deveria avisar que estava entrando.
— Tudo bem. É só que... Eu estava pensando numas coisas.
— Que coisas? – Ele se encostou no braço do sofá.
— Nada muito importante. – Menti. — Que horas nós vamos?
— Podemos ir agora mesmo.
— Então espere aqui. – Desliguei a TV. — Vou subir para pegar umas coisas antes de irmos.
No meu quarto lá em cima, peguei uma pequena bolsa, onde dentro coloquei um protetor solar que é sempre importante, meu celular, uma toalha e uma blusinha limpinha e seca.
— Vocês já vão? – Catarina entrou. — Não vão nem esperar o almoço?
— Não precisa se preocupar, amiga. Eu tomei café muito tarde, não estou com muita fome e não vamos demorar muito.
Lá em baixo, Max me espera com seus óculos escuros e uma toalha pendurada no ombro.
— Por favor, levem alguma coisinha para comer. – Insistiu Catarina.
Max bufou.
— Pode ser. Não precisa ser muito. Não estou com fome.
Rapidamente, ela nos preparou uma cesta com frutas, alguns pedaços de bolo e uma garrafinha térmica com suco de laranja.
— Tomem cuidado.
E lá fomos nós, finalmente.
Assim como da primeira vez, fui logo atrás de Max, sempre tomando cuidando onde estava pisando. Ele ia lá frente, muito calado, o que era bem normal para ele. Eu já estava me acostumando.
— Pelo visto não vem muita gente aqui.
— Raramente. – Ele comentou assim que chegamos perto de uma pedra. — Antigamente, as crianças vinham muito aqui, mas logo pararam. Inventaram uns boatos de que uma adolescente havia sido raptada aqui e que nunca mais tinha sido encontrada...
— E isso é verdade?
— Bom, eu não sei. Mas duvido muito.
— Mas é bom ficar sempre atento com essas coisas, as pessoas podem ser bem cruéis as vezes.
— Não se preocupe, Donzela. Estarei de olho em você. – Ele piscou de maneira graciosa. Eu tive que rir.
De repente fiquei bem desconfortável. Eu não sabia o que fazer a seguir. Se me sentavam um pouco para apreciar a vista ou se sugeria que fossemos nadar logo. Caso a escolha fosse a segunda opção, seria constrangedor demais se eu não quisesse tirar a blusa? Mesmo estando com a parte de cima do biquíni por baixo? Eu tinha esperado tanto por aquele momento e agora estava toda estranha e tímida com a presença de Max ao meu lado.
Ele tirou os óculos escuros e o colocou por ali mesmo em cima da grama, em seguida, ele tirou a camiseta sem nenhum pudor, revelando seu abdômen com alguns pelos pelo peito e barriga.
— Vou verificar a água.
Eu esperei.
Observei ele tirando os chinelos a beira do rio e colocando o pé cuidadosamente na parte mais rasa. Então, ele se virou para mim com um sorriso largo.
— Está uma delícia. Acredite em mim.
Essa era a minha vez.
Larguei meus chinelos e bolsa perto dos óculos deles e andei vagarosamente até onde ele estava, mais próximo do rio.
Coloquei meu dedão na água e de fato a água estava boa, nem tão gelada e nem quente, apenas ideal para dar um mergulho.
Max entrou primeiro e me encorajou a me juntar a ele, mas tudo era tão esquisito... nadar com ele... interagir com ele estando dentro da água. Foi uma péssima ideia virmos aqui hoje.
Eu não ia dar para trás agora, então entrei de qualquer forma. Com meu shortinho e minha regatinha. Nem a pau que ia colocar meu biquíni. Não só por vergonha, mas também porque agora eu estava grávida e ainda não me sentia à vontade com isso.
— Vamos! Se mexa! Você disse que sabia nadar...
O que ele estava tentando fazer: me incentivar ou me intimidar?
Respirei fundo e me joguei com tudo. Fiz exatamente tudo que Andrew tinha me ensinado: controle a respiração, mova os braços e pernas, não tenha medo e vá no seu tempo, não se preocupe.
Aos poucos eu fui relaxando e admito que Max estava ajudando bastante. Parecia que ele estava fazendo um grande esforço para não tornar a situação difícil para nós dois. Para que ambos pudessem se divertir sem nos sentirmos desconfortáveis.
Quando saímos da água, voltamos para perto da pedra.
— Acho que vou comer um pouco desse bolo. – Comentou ele, chacoalhando o cabelo como um cachorro molhado.
— O que seria de nós sem a Catarina? – Brinquei.
Resolvi então comer uma pêra.
— Foi bom, não foi? Podemos voltar sempre que você quiser.
— Acho que vou abusar um pouquinho de você.
— Eu não me importo. Você é uma mulher grávida e tem seus privilégios.
Nesse momento, ele foi com a mão na minha barriga. Por cima da blusinha molhada mesmo. Ele deu um pequeno afago ali.
Foi um gesto tão momentâneo, mas tão estranho. Acho que não foi só eu quem percebeu. Porque do jeito que ele me olhou, seu olhar me dizia que ele também não podia acreditar que tinha feito aquilo. Tanto é que ele retirou a mão rapidamente e tentou disfarçar o deslize.
— Vire-se para lá. – Pedi. — Vou trocar de blusa.
Ele se virou e aproveitou para colocar sua camiseta também. Eu troquei a molhada por uma seca. Odiava quando algo molhado ficava grudando no meu corpo.
— Pensei que nadaríamos mais um pouco.
— Uma mulher grávida se cansa rápido, sabia?
Tentei descontrair após nosso momento nada estranho.
— Pode se virar agora. Terminei.
Ele se virou e colocou os óculos escuros.
— Então vamos.
Já em casa, subi para tomar um bom banho quente e colocar um vestidinho mais solto. Depois desci para comer algo e fiquei conversando um pouco com Catarina na mesa até dar a hora de ela sair para buscar a Isabeli no colégio, no centro da cidade.
Max só apareceu ao anoitecer.
Eu adoraria saber se ele passava todo esse tempo trancafiado em seu escritório sem comer e sem usar o banheiro ou se ele saia para fazer alguma coisa na cidade e só voltava um tempo depois.
Fui dormir cedo, nem vi quando ele colocou o colchão no meu quarto para dormir. Só vi quando acordei, mas ele já nem estava mais lá, apenas o colchão e o lençol desdobrado.
Espero que ele não tenha pensando que eu organizaria essa bagunça.
Quando Célia foi a cidade vender algumas de suas flores, aproveitei para pedir uma carona a ela. Tinha resolvido dar uma volta e ver se eu achava alguma coisa para o bebê, mas não contei isso a ela, não queria criar grandes expectativas.
Dei uma volta em tudo e a verdade era que eu tinha poucas opções, pois só tinha duas lojas que vendiam coisas de bebê. Pelo jeito eu teria que encomendar muita coisa pela internet.
Passei na frente de uma banca para ver quais eram as novidades mais atuais nos jornais e nas revistas. Não era um hábito, mas não era como se eu tivesse muito o que fazer. Nas últimas páginas no jornal principal da cidade, vi que tinha um anuncio de um cursinho preparatório para uma faculdade na cidade vizinha que ficava a duas horas de viagem daqui.
Resolvi que compraria o tal jornal.
No carro de volta para casa com algumas sacolas no colo, aproveitei para ligar para o Eli já que o sinal era bem melhor.
Nós conversamos rapidamente até eu chegar em casa.
Me encontrei com Catarina nos fundos da casa, pois ela estava lavando algumas coisas no tanque.
— Tenho uma coisa para te mostrar.
Dei o jornal a ela na página que lhe era de interesse.
— Uma vez você me disse que tinha uma grande vontade, achou que estava velha demais para isso e sem tempo, então eu lhe disse que acreditava em você e esperava que você também acreditasse. Veja vem... essa é a sua chance.
Ela leu tudo com atenção.
— Isso é impossível, Nina...
— Não para você.
— Claro que é! Eu mal tenho dinheiro. Tudo que tenho foi deixado pelo meu pai e não é muito. E eu tenho a Isabeli, essa casa para cuidar.... Eu não tenho mais tempo para essas coisas.
— Não diga isso. Veja bem, Isabeli já é grandinha e está no colégio a maior parte do dia, o cursinho é totalmente gratuito, se você se desempenhar pode fazer a prova e pode ganhar uma bolsa na faculdade que só fica a duas horinhas daqui. E a casa, bom, ela não é um problema. Sei que Célia entenderia perfeitamente.
— Eu não sei se sou capaz...
— Você é! E esse é o seu sonho... você não pode desistir assim.
Peguei suas mãos mesmo molhadas.
— Pense bem. Você tem algumas semanas para se decidir. As inscrições do cursinho vão até o começo do mês que vem.
Deixei ela sozinha e voltei para dentro de casa. Em meu quarto, eu voltei para a minha escrita. Estava mais inspirada do que nunca agora que tinha retomado com tudo.
Célia bateu na porta antes de entrar.
— Desça para o jantar.
Deixei o notebook de lado.
— Preciso falar com você. Pode se sentar um pouco?
— Claro.
Ela fechou a porta e se sentou comigo na cama.
— Eu tenho me sentido muito mal ultimamente desde que me dei conta de que não tenho contribuído muito para essa família...
— Não vamos ter essa conversa, querida.
Ela ia se levantar quando eu a puxei de volta.
— Me escuta. – Pedi. — Eu gostaria de poder trabalhar e voltar a fazer alguma coisa útil, mas creio que será mais difícil agora com o bebê. Então, como não posso fazer muito até ele nascer, pensei que eu poderia tomar conta da casa para vocês. Eu não sou tão boa nesse requisito quanto a Catarina, mas eu posso tentar...
— Nina, nós já temos a Catarina e ela ama o que faz...
— Eu sei! Mas hoje eu apresentei uma nova proposta a ela. Por conta da Isabeli, ela acabou deixando isso de lado, mas agora ela tem a chance de fazer o que sempre quis. Só que ela acha que não pode, porque não tem tempo, dinheiro e porque tem a casa... E eu estou disposta a ficar no lugar dela. Posso até cuidar da Isa se ela quiser...
— Nina, isso o que você está fazendo é lindo!
— Ela e eu nos tornamos grandes amigas e desde que cheguei aqui ela já fez muito por mim, eu gostaria de fazer algo por ela também. Mas você precisa me ajudar e conversar com ela!
— Veremos o que eu posso fazer. – Ela deu um leve aperto na minha mão. — Agora vamos. Vamos comer alguma coisa.
Assim que terminei de comer, subi para escovar os dentes. Mas não ia dormir agora, eu ia escrever mais um pouco até estar com muito sono. Lá fora já estava chovendo outra vez.
Alguns minutos mais tarde, houve uma batidinha na porta.
Max entrou com seu colchão
— Ontem quando eu entrei você já estava dormindo.
— Pois é. Eu estava bem cansada ontem.
— Mas hoje não?
— Ainda não o bastante.
Ele colocou o colchão no chão e se sentou de frente para mim.
— Me conta um pouco sobre o que você tanto faz aí.
Ele se referia ao notebook, o que era curioso, porque ele raramente queria saber alguma coisa sobre mim.
— Eu escrevo.
— Sério? – Ele pareceu admirado.
— Sim. Muito sério. É uma paixão que eu tenho desde jovem.
— E você escreve exatamente o quê?
— Romances.
— Uau! Nunca conheci alguém que escrevesse algo.
— É mais comum do que você imagina.
— Pois é. Nunca tinha parado para pensar nisso. – Ele me olhava atentamente. — E como é? Me explica mais sobre isso...
— Ah, por enquanto eu só escrevo mesmo. Mas algumas pessoas publicam suas histórias online, compartilham com outras pessoas. Outras pessoas, vão em busca de editoras para publicar seus livros em lojas físicas.
— E porque você não divide suas histórias com outras pessoas?
— Ainda não me sinto pronta para saber o que elas pensam sobre as coisas que eu escrevo.
— Você tem medo? Vergonha?
— Um pouco de tudo. Só não estou pronta ainda.
— Mas você pretende publicar um dia?
— É, talvez.
Eu sorrio, e ele sorri de volta.
— Bom, sobre ontem... – Sem jeito, ele amarrou melhor o cabelo, pois alguns fios estavam se soltando aos poucos.
Já tinha notado que ele geralmente prendia o cabelo todo para dormir. E eu entendia bem ele. Sei como é um saco dormir com o cabelo solto, repuxando o tempo todo.
— O que tem?
— Quero me desculpar por ter invadido seu espaço.
Mas do que ele está falando? Parei para pensar um pouco.
Ahhhh... Então me lembro.
— Tudo bem. Não tem problema.
— Eu não pretendia. Só aconteceu.
— Tudo bem. Mesmo.
— Não vai mais acontecer. Não sem sua permissão.
Do jeito que ele falava, parecia até que ele tinha apalpado o meu bumbum sem permissão. Mas ele só tinha me dado um afago na barriga. O que deve ser normal e comum quando se está gravida. Todo mundo quer sentir, saber como é.
— Estou desculpado?
— Totalmente desculpado.
Novamente sorrimos um para o outro.
— Vamos dormir, agora?
Eu já tinha perdido toda minha linha de raciocínio mesmo...
Fechei o notebook e guardei.
— Vamos dormir então.
Apaguei as luzes e me deitei.
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