Muito Além de Mim
26 Nova rotina
Catarina começou o cursinho preparatório na cidade. Ela saia bem cedinho todos os dias para levar a Isabeli no colégio e de lá ia direto para o cursinho, onde ela passava a tarde toda e só voltava para casa no final da tarde, junto da filha que ela buscava.
No começo, ela estava animada. Quando chegava ia direto preparar o jantar, também ajudava a filha com a lição de casa e brincava um pouco com ela. Eu por enquanto só ficava responsável pela faxina e organização da casa, até porque eu não era tão boa cozinheira quanto ela ou a Célia. Cuidar da casa era tranquilo, pois como eu ficava basicamente sozinha o dia todo, quase não tinha como sujar muito, apenas o necessário.
Logo depois das duas primeiras semanas, Catarina já chegava em casa exausta e já não tinha mais aquele pique todo para tomar conta de tudo. Ela tomava um banho e na maioria das vezes ia direto para a cama. Eu ou Célia ajudávamos Isabeli com as coisas do colégio e Max ficou encarregado de diverti-la um pouco.
— Eu conheci um cara no cursinho. – Contou Catarina, enquanto aproveitávamos o sábado de sol lá fora ao ar livre.
Então ela nos contou a história toda.
— Que mania estranha de se apaixonar por caras mais velhos. Esse não é casado não, né? – Max estava tão rabugento.
E não era só hoje. Era sempre ultimamente.
— Max! Porque você está aqui, hein? – Ela o olhou com cara feia. — Esse é um papo de meninas! Sai fora daqui.
Ele se retirou e se juntou a Isabeli para brincar de alguma coisa que só eles entendiam.
— Ele nem é tão mais velho...
O cara só era três anos mais velho que ela. O único problema era que ele era seu professor do cursinho. E ao que parecia, ele era um amor com ela. Catarina não era de se relacionar muito, pelo que ela me disse fazia um bom tempo que ela não saia com ninguém.
Ela é aquele tipo de pessoa que está sempre cuidando de todo mundo menos de si mesma.
Por isso eu a apoio muito nesse novo romance.
— Por enquanto estamos só nos conhecemos e caso dê certo nós vamos esperar esses três meses de cursinho acabar para iniciarmos um relacionamento sério. Mas é cedo para pensar nisso. – Disse ela, tentando conter a empolgação.
Eu podia ver no olhar dela o quanto ela estava envolvida com esse tal professor. Eu torcia para que isso desse certo para eles.
Ajudei Isabeli com o dever de casa no comecinho daquela noite e logo depois ela foi jantar. Ela é uma menininha muito boa, inteligente e bem-educada. Nós ainda não tivemos nenhum tipo de problema. Ela é obediente e sabe fazer quase tudo sozinha.
Já muito cansada, decidi subir para o meu quarto, onde eu fico escrevendo por algum tempo. Sinto que as coisas finalmente estão se encaminhando para o que eu desejava. O final está cada vez mais próximo e isso me deixa empolgada e satisfeita ao mesmo tempo.
Acabo indo dormir mais cedo após passar um tempão conversando com o Eli por mensagens. Temos nos atualizado com muita frequência. Ele está cada vez mais preocupado comigo por causa da gravidez e cada vez mais envolvido também.
Levanto-me durante a madrugada, após ter sido abruptamente acordada após mais um dos meus pesadelos. Resolvo descer para beber um pouco de água para me acalmar um pouco.
Estou suando frio.
Não faço muito barulho para não acordar o pessoal e nem acendo todas as luzes da casa.
Sou sorrateira e rápida.
Quando estou prestes a subir de volta para o meu quarto, ouço um barulho na escada: tem gente descendo. Resolvo voltar de fininho para a cozinha e fingir que nunca estive ali.
— Então, tudo isso nunca significou nada para fazer além de sexo casual? Você está me dispensando, Max? É isso?
Eu finalmente pude ouvir a voz da companheira de Max com mais clareza.
Ela parecia furiosa e decepcionada.
— Fale baixo, Rosana. Por favor. Não vamos acordar a casa inteira por causa de uma besteirinha atoa. Fique calma...
— Ficar calma? – Ela eleva ainda mais o tom de voz. — Eu pensei que você gostasse de estar comigo. Mas eu me enganei!
— Eu só achei que seria uma boa dar um tempo.
— Mas porque, Max? Você se cansou de mim?
— Não, é só que...
— Você cansou de mim. É isso. Entendi.
— Rosana...
— Tudo bem, Max. Se é o que você quer... nós terminamos.
Então, ela sai de vez e vai embora.
Max permaneci ali, largado no sofá. Parece meio arrependido ou talvez seja só impressão minha. Eu não sei. Ele é quase sempre muito difícil de decifrar. Mas ele ao menos podia voltar para o quarto, para eu poder voltar para o meu também sem ser notada.
Eu esperei, mas de nada adiantou.
— O que você faz aqui? – Perguntou ele, surpreso quando me viu.
— Tive um pesadelo e desci para tomar um pouco de água, mas não se preocupe, porque eu não ouvi nada...
— Ah, sei. – Ele me olha desconfiado. — Bom, me desculpe por não ter aparecido para dormir com você hoje.
— Tudo bem, você não me deve nada e pelo jeito estava ocupado demais resolvendo outros tipos de coisas.
Ele me olhou feio.
— Não faça isso.
— Eu não estou fazendo nada. Só voltando para o meu quarto.
— Você está sendo sarcástica comigo.
— Não estou, não.
Talvez eu tenha sido um pouco, mas não foi intencional.
Custei a pegar no sono de novo, eu não sabia ao certo o porquê, mas algo me incomodava. Passei a mão na barriga, pensando no bebê. Achei que seria uma boa ler para ele pela primeira vez, mesmo não tendo certeza se ele poderia me ouvir ou me entender.
**
Max era a única pessoa que estava disponível para me levar ao médico aquele dia. Eu estava disposta a chamar um táxi para me levar até a cidade, mas Célia me convenceu de que poderia ser perigoso e que não era preciso, já que Max estava ali para isso. Eu não pedi nada a ele, é claro. Não tive coragem. Mas ela fez isso por mim mesmo que não fosse exatamente o que eu quisesse.
Ele não entrou na sala de exame comigo, o que foi um alivio, seria muito estranho para nós dois. A consulta foi tranquila. A médica só precisava ver se o bebê estava crescendo normalmente e com o peso ideal. Ah, e ela fez umas perguntas também: como eu estava me alimentando, se eu estava sentindo alguma dorzinha, se tinha algum tipo de dúvida...
— Não. Está tudo ótimo. Tenho comido de tudo um pouco, principalmente frutas. E a tarde, gosto de caminhar um pouco para exercitar as pernas que as vezes ficam um pouco pesadas e dolorosas. Fora isso, continuo fazendo minhas coisas normalmente.
— Sua gestação parece bem tranquila. Vocês estão se saindo muito bem. O bebê é muito saudável, mas tente pegar leve em algumas tarefas, principalmente as domesticas. – Ela deu uma pequena pausa para fazer anotações na minha ficha. — E o seu sono, está normal? Você dorme a noite toda tranquilamente?
Pensei se deveria ou não falar dos pesadelos, mas provavelmente ela não entenderia isso, nem por tudo que passei. Era muito particular e pessoal. E eu não queria que ela me direcionasse a um terapeuta, mesmo que isso pudesse ser bom para mim. Eu só não estava pronta para isso agora.
— Eu acordo somente para fazer xixi. Eu faço muito xixi. — Brinquei.
A consulta terminou e Max ainda me esperava na sala de espera, tomando um café quente e lendo uma revista de fofoca.
— Não sabia que você gostava de saber tudo sobre as celebridades.
— Eu não gosto. Só estava entendiado. – Ele larga a revista e se levanta. — Pronta para ir para casa?
Seguimos no carro muito calados.
— Você está bem? – Perguntou ele, me olhando de lado.
A verdade é que eu não estava tão bem assim, pois meus pés doíam muito e estavam inchados. Eu só não queria ter que conversar sobre isso com ele. Por isso me contive com algumas caretas.
— O que foi? Qual é o problema? — Ele insistiu.
— São meus pés.
— Acho que você deveria colocá-los um pouco para cima.
Não sei se ajudaria, mas não custava nada tentar.
Assim, coloquei os pés sobre o painel.
— Ufa. – Suspirei. — Bem melhor assim.
Max sorriu. Parecia satisfeito consigo mesmo.
Em casa, eu esquentei o almoço que Célia tinha preparado e comi de frente para televisão enquanto passava alguma novela que eu certamente desconhecia, pois não acompanhava nenhuma delas.
Nunca tive esse hábito.
No finalzinho da tarde, quando o sol já estava mais fraco, eu resolvi sair um pouco com meu notebook e revisar o capitulo que eu tinha escrito na noite passada. Por coincidência ou não, Max também estava lá fora, mexendo no motor do seu carro.
Ele olhou na minha direção algumas vezes, mas eu fingi que nem notei, porque estava muito ocupada com minha escrita.
— Como anda seu livro? – Ele perguntou mais tarde ao se sentar próximo a mim. Seus dedos estavam sujos de graxa.
— Não é bem um livro.
— Não ainda. – Ele sorriu, presunçoso. — Me fala um pouco sobre a história.
Uau. Então vamos lá.
— Não é nada demais, apenas a história de uma jovem que perdeu seu irmão/melhor amigo muito cedo por causa de uns caras maus e devido a isso ela se torna muito rebelde e agressiva com todo o resto de sua vida. Ela é durona com os pais, perde os amigos, deixa de ir a escola e arruma confusões por onde quer que vá.
— Tá... legal. E o que mais?
Ele parecia mesmo interessado ou só estava tentando ser legal comigo.
— Então, ela conhece um cara que muda tudo. Ele é órfão e também perdeu pessoas importantes, mas diferentemente dela, ele buscou fazer coisas legais, buscar sempre o melhor das coisas... E apesar da dificuldade, ele vai tentando mostrar isso a ela. Eles se apaixonam, apesar de ser uma história complicada e difícil de dar certo, pois ela é muito fria e insegura com tudo...
— E deixa eu adivinhar... Ele consegue transforma-la em alguém por melhor?
— Bom, não exatamente. Ela acaba perdendo ele devido sua teimosia e isso deixa ela ainda mais instável, então ela acaba ferindo a si mesma numa tentativa de suicídio que quase deu certo. Quando ele descobre o que ela fez, ele vai atrás dela e aí... Bom, essa parte ainda estou escrevendo. Estou quase finalizando, na verdade.
— Que tipo de final você planeja para eles?
— Ainda não me decidi ao certo, mas eu sei que quero que ela enxergue as coisas de uma outra forma e veja a vida de uma maneira melhor e mais saudável, assim como aconteceu comigo.
Isso parece pega-lo de surpresa.
— Quando você perdeu o meu irmão... Você, por algum momento, pensou em se... em se... – Ele não conseguiu dizer.
— Se eu pensei em me matar? – Ele concorda. — Oh, não. Para fazer algo assim a pessoa tem que ser muito corajosa.
— Você acha?
— Eu acho. E se tem uma coisa que eu não sou é corajosa.
— Eu não acho. Acho que você foi muito corajosa e forte.
— Eu não sei. Pode ser. Talvez.
— Bom, de qualquer forma, fiquei muito interessado em sua história e sei que muitas pessoas também ficariam. Quando é que eu poderei ler pelo menos os primeiros capítulos?
— Ah, eu não sei. Isso pode demorar um pouco.
— Ah, não. – Ele protestou. — Eu quero saber o que acontece com ela e com eles dois. Se vão ficar juntos ou não.
Eu rio.
— Eu não sabia que você gostava de uma boa ficção.
— Eu tenho uma certa preguiça de ler, é verdade. Você poderia ler para mim qualquer dia desses, não seria uma boa?
— Eu ler para você a minha própria história?
— É, não custa nada, né? Eu poderia ser tipo um crítico. Poderia te dizer o que está bom ou o que não estar tão bom assim e precisa ser melhorado...
Penso um pouco.
— É, poderia ser útil. Não sei. Preciso pensar.
— Qualquer coisa me avisa, hein. – Ele se levanta e se vai.
Fala sério, o que aconteceu como aquele Max rabugento de dias atrás?
**
Max apareceu com seu colchão aquela noite e nós ficamos conversando por um tempo, até ele ficar insistindo pra eu ler para ele tudo que já tinha escrito. Mas como eu poderia? Seria tão íntimo e tão vergonhoso. Eu ainda não estava pronta.
— Porque eu deveria? Só para matar sua curiosidade? Você nunca nem se quer me disse o que tanto faz naquele seu caderninho secreto.
— Acho que nunca tive a oportunidade...
— Você me diria o que você faz nele?
A verdade é que eu meio que já sabia que eram só desenhos.
— Acho que podemos fazer um acordo: eu te mostro um desenho e você lê um capítulo e assim por diante. Que tal?
— Tá. Pode ser.
Ele correu para o seu quarto para pegar o seu tal caderninho.
— Sabe, eu nunca mostrei isso a ninguém, então sinta-se privilegiada.
— Tudo bem, porque eu nunca mostrei minhas histórias para ninguém também.
Sorrimos discretamente um para o outro.
Ele abriu o caderninho e me mostrou a primeira folha.
Não era só um desenho qualquer, eu já deveria ter imaginado. Era um desenho feito a lápis com o máximo de perfeição possível. Era quase profissional e bom demais para ser de verdade. Max tinha um talento enorme, quem diria, não é? Não lembro de Andrew ter comentando nenhuma vez comigo sobre isso. Ou vai ver os desenhos eram tão secretos que nem ele sabia a respeito.
— Essa é a...
— Sim, é a Isabeli.
— Nossa! Está perfeito! — Eu disse, surpresa demais.
— Obrigado. Acho.
— Nossa, Max, estou impressionada. Me mostra mais!
— Não, ainda não. Agora é sua vez.
Revirei os olhos, ele riu.
— Tudo bem. Se você insiste, vamos lá. – Endireitei as costas na almofada e abri o notebook. — Capítulo um...
A princípio fiquei tão nervosa que tive que conter a tremedeira nas mãos de qualquer jeito. Max ouvia com atenção, algumas vezes me olhava, outras não. Ele estava absorvendo cada palavra. Era o que parecia e na sua cabeça ele recriava as cenas a sua maneira. Tudo isso era tão mágico que aos poucos fui relaxando.
Acabei me empolgando e lendo para ele em voz alta os três primeiros capítulos.
Quando terminei, fechei o notebook, deixei-o de lado e olhei para ele com certa timidez, sem coragem de perguntar o que ele tinha achado até então de tudo que tinha escutado.
— Sabe o que eu achei? – Perguntou ele, eu assenti apreensiva. — Promissor.
— Promissor? – Ele assentiu de volta. — Nossa!
Caí na gargalhada.
— Poxa... obrigada.
— Guardarei minhas próximas palavras para os próximos capítulos.
— Podemos fazer isso de novo amanhã, então.
— Eu acho ótimo. – Ele apagou as luzes. — Até amanhã, então.
— Até amanhã, Max.
E fomos dormir.
Eu, com um sorrisinho nos lábios.
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