Muito Além de Mim
6 Meu maior medo.
Tivemos uma pequena provinha essa manhã para testar nosso processo no curso. Apesar de não estar preparada, acho que me saí muito bem. No intervalo, chamo o Eli para ir comer alguma coisa. Mas ele se recusa e fica na sala, esperando.
Compro apenas um chá e resolvo voltar para sala para lhe fazer companhia. De longo posso ver que a porta da nossa sala estar fechada e o corredor muito vazio. O pessoal sempre aproveita para cair fora daqui durante nosso curto intervalo.
Antes de entrar na sala sinto meu celular vibrar.
É uma mensagem do Andrew.
Estou com saudade.
Desde o nosso pequeno encontro na semana passada nós não nos vimos ainda. Mas eu fico o tempo pensando naquele momento, quando ele me beijou e tudo se intensificou dentro de mim. Fico pensando, pensando e desejando seus lábios outra vez colados aos meus, suas mãos na minha cintura...
Sinto sua falta também.
Antes que eu enlouqueça resolvo entrar na sala. Está vazia, como o esperado. Exceto por duas figuras agarradas no canto, tocando um ao outro em meio a um beijo intenso.
Penso em recuar e sair daqui antes que me notem. Mas quando vejo aquela camisa azul-marinho, aquele jeans desbotado, aquele par de tênis limpinho e aquele cabelo bagunçado.... Simplesmente não consigo. Pois não é nenhum desconhecido. É o Eli com outro cara aos beijos.
A campainha toca. Ouço vozes se aproximando. Os dois se afastam, sobressaltados. Olham na minha direção e...
— Merda, Nina! Você me assustou.
Eli passa a mão no cabelo claro.
— Eli? – Olho para ele ainda chocada. — Fernando?
Ele abaixa o olhar, visivelmente envergonhada.
— Esqueça isso. – Eli vem na minha direção, tentando tapar minha visão. Como se eu já não tivesse visto o bastante para entender tudo. — Conversaremos sobre isso mais tarde.
As pessoas voltam para seus lugares assim como eu. A professora volta com o resultado das provas. Uau. Ela é rápida. Eu ainda estou em choque. Sem saber no que acreditar.
Quero matar o Eliezer por ele ter me escondido isso por tanto tempo. Com o Fernando? E o que dizer sobre isso? Eu jamais imaginaria que ele gostasse de garotos também. Agora posso entender tudo. Sua aproximação, o ódio do Eli, suas saídas misteriosas.
— Então era isso. – Comento secamente, já na hora da saída.
— Isso o quê? – Pergunta ele, na mais cara de pau no mundo.
— Você e ele.... Juntos.
— Não é bem assim, Nina. – Ele para de repente e me encara.
— Então me explica! Estou esperando. – Bato o pé e cruzo os braços.
— É o seguinte: ele é gato. Eu tinha notado isso logo no primeiro dia de aula e fiquei interessado. Aí ele se aproximou, se mostrou interessado em você e aquilo me intrigou. Pois eu tinha certeza de que ele era gay. Sabe, eu posso até não ter certeza, mas eu meio que sinto essas coisas.
— Tá... E daí?
— Foi quando comecei a ficar de olho nele. Só para garantir e ter a certeza de que não estava errado. Eu praticamente virei um detetive e passei a seguir todos seus passos. Ele, é claro, nunca desconfiou e continuou fingindo seu teatrinho. O que só me deixou ainda mais puto da vida. – Ele deu uma pausa dramática. — Numa noite, durante minhas investigações, eu vi ele entrando numa boate suspeita. Entrei também. E fiquei de olho. Não demorou muito e lá estava ele, aos beijos com outro cara.
— Aí você resolveu beijá-lo só para ter ainda mais certeza.
— É, mais ou menos isso. Eu o confrontei hoje mais cedo, quando saí para o banheiro e ele apareceu logo em seguida. Ele negou, mas eu tinha provas. Fotos no celular. Ele ficou todo envergonhado, mas por fim acabou admitindo. E implorou para eu não contar para ninguém. Pelo menos não ainda.
— Porque?
— Bom, digamos que ele não seja tão bem assumido.
— E como acabou rolando o beijo e toda a pegação?
— Ele me passou um bilhetinho durante a aula, pedindo para eu esperar na sala durante o intervalo. Foi o que eu fiz. Mas para não ficar tão obvio, ele esperou todo mundo sair no corredor. Inclusive você. E aí ele entrou, fez inúmeras perguntas. Quis saber como eu descobri, como desconfiei. E eu disse tudo a ele. E aí uma coisa deu em outra, logo após ele me dizer que também me achava interessante e tudo mais.
— E... Agora?
— E agora que nós vamos nos conhecer melhor. Sei lá. Nos tornar amigos ou seja lá o que for. Não me importo!
— Você não gosta dele?
— Não, Nina. Não assim.
Todas essas informações são demais para minha cabeça, então decido ir logo para o trabalho antes que me atrase.
Depois de atender um casal de clientes lá fora, pego um copo vazio na mesa ao lado quando sou surpreendida por um par de mãos que cobrem os meus olhos muito rapidamente.
— Eu sei que é você, Andrew. – Sorrio.
Como poderia eu errar? O cheirinho dele é bem característico.
— Como você sabia? – Agora ele está bem diante dos meus olhos, com sua pele mais bronzeada do que nunca.
— Não seja bobo. Mas e aí, o que faz aqui?
— Vim te ver e pedir um café para viagem.
Pego-o pela mão e o arrasto para dentro do Café para preparar seu café. Ele cumprimenta as meninas e aguarda.
— Obrigado. – Ele agradece e me dá o dinheiro.
Ele é tão perfeito o tempo todo. Carinhoso, atencioso, alto astral. E bonito, bronzeado, dono de um belo topete, um perfume natural ótimo, braços fortes e mãos grandes e quentes. Fico imaginando se ele teria algum defeito. E se sim, qual seria? Seria um psicótico? Fanático por futebol? Mulherengo? Torturador de garotas indefesas?
Ele olha de um lado para o outro, acho que para se certificar de algo.
Abre um sorrisão quando volta a olhar para mim.
— Será que nós podemos ir à praia juntos esse final de semana?
— É claro!
Eu estava muito ansiosa por esse momento. Quando finalmente ficaríamos juntos e sozinhos outra vez.
— Eu te pego na sua casa as onze.
Ele tira um cacho do meu rosto e coloca atrás da minha orelha.
— Tchau, Nina. Até domingo.
Fico encantada, observando ele partir.
— O que tá rolando? – Pergunta Sydney, sorrindo. Nem notei que ela tinha se aproximado tão repentinamente.
— Vamos nos encontrar de novo no domingo.
— Você é uma garota de sorte, Nina. Aproveite! – Ela me dá um rápido abraço e volta ao trabalho.
Novos clientes chegaram.
Estou em casa pela noite fazendo meu dever de casa e esperando a entrega do meu jantar quando batem na porta.
— Fernando?
— Hi. – Ele diz em inglês.
— Se você está procurando pelo Eli, ele não está.
— Não, na verdade, queria mesmo falar com você.
Ele entra e coloca a minha entrega sobre a bancada.
— Esse é o meu jantar?
— Sim! O entregador estava lá em baixo quando cheguei.
— Obrigada. – Pego um pedaço da minha pizza, mordo e me sento no beliche. — Você quer? Pode pegar.
Ele pega um pedaço e senta-se na cadeira em frente a mesa de estudos.
— Queria me desculpar com você.
— Pelo quê? – Pergunto.
— Pelas mentiras, pela encenação.
— Porque você fez isso?
— Eu não sei. Por vergonha, talvez?
— De quem você é?
— É... Eu venho me redescobrindo aos poucos. Tudo isso é muito novo para mim. É muito difícil. Espero que entenda.
— Eu entendo. E te desculpo. Na verdade, estou feliz que você esteja na vida do Eli agora. Ele é maravilhoso!
— É, ele é mesmo. Tem me ajudado bastante.
Não tocamos mais no assunto. Sinto que é desconfortável para ele. Mas continuamos a devorar minha pizza e a conversar sobre diversas coisas. Como se fossemos amigos há décadas.
Eli chega vinte minutos depois, parecendo exausto.
— O que significa isso? – Ele olha para nós dois.
— Uma conversa entre amigos. Algum problema?
— Hum. Não. Nenhum.
Ele toma um banho, veste algo mais confortável e pega o ultimo pedaço de pizza.
— Vocês não deixaram nada para mim! – Ele acusa.
— Posso comprar outra se quiser. – Sugere Fernando.
Eli sorri, contente.
— Não, obrigado. É muita gentileza sua, mas eu só estou brincando.
Fernando olha para mim.
— Se acostume. Ele é assim. – Pisco.
Digo a eles que vou sair para dar uma caminha noturna só para deixá-los ter um momento de privacidade.
Só espero que não transem na minha cama.
— Estou atrapalhando?
Resolvi ligar para o Andrew. Ouvir sua voz.
— Você nunca atrapalha.
Sorrio.
— O que você está fazendo?
— Estava terminando de lavar a louça.
— Do jantar?
— Exatamente.
— E quem cozinha aí de vocês três?
— Os três. Mas não somos nem um pouco profissionais.
— Será que mesmo assim algum um dia você poderia preparar algo especial para mim?
— Eu ficaria muito grato.
— Ótimo.
Estou sorrindo sem parar.
— E você, o que está fazendo além de conversar com o cara mais incrível de toda a cidade?
— Estou caminhando.
— Sozinha?
— Sim, sozinha.
— Porque?
— Ah, sei lá. Por nada.
— Tem certeza?
Adoro saber que ele se preocupa comigo.
— É, mas já, já vou direto para a cama.
— E vai pensar em mim antes de dormir?
— Eu sempre penso em você. – Admito.
— Eu também penso muito, muito, muito em você. As vezes só quero que o tempo passe logo para eu poder te ver no domingo.
Se eu morresse agora, eu morreria feliz.
— Preciso ir. Está ficando tarde.
— Tudo bem.
Nos despedimos e eu desligo. Quando volto ao prédio, Fernando está de saída. Acena e se vai. Lá em cima, no apartamento, Eli já está de pijama, escovando os dentes.
— Você parece diferente. – Comento ao me deitar.
— Diferente como?
— Não sei. Acho que mais reluzente
— E porque eu estaria reluzente?
— Porque você está amando. Obvio.
— Eu não sou uma pessoa de amar. Você sabe disso, Nina.
— Sei. E sei também que tudo pode mudar quando menos se espera.
Acabo adormecendo muito rápido.
Apesar de toda minha ansiedade, o resto da semana passa voando. O que é muito bom. Porque eu não conseguia me aguentar de tanto esperar pelo domingo ao lado do Andrew e tudo que faríamos juntos mais uma vez.
Não esqueça a roupa de banho.
O quê? Como assim? Vamos a praia de novo? Não que isso seja um problema. Eu adoro praias. Mas odeio o mar. Dá para entender? Sei que parece confuso. O grande problema mesmo é que eu não sei nadar. Então, no máximo, sempre que estou na praia vou até onde a água bate nos joelhos. Mais do que isso jamais.
Não sei nem de onde surgiu esse meu medo de águas profundas. Mas ele é real. E me apavora de várias formas.
Como dizer isso ao Andrew sem parecer ridícula?
Dessa vez ele vem de carro. Seu carro. E abre a porta pra mim como um verdadeiro cavalheiro. Estou em pânico, mas tenho no rosto meu melhor sorriso. Ele sorri de volta assim que volta ao banco do motorista. Se inclina e me beija no rosto.
Adorável.
Na praia ele estende uma grande toalha na areia macia e úmida na parte mais vazia, onde nos sentamos lado a lado. E ele pergunta como foi a minha semana e eu pergunto sobre a semana dele também. Quando menos se espera ele tira a camiseta. E eu me vejo babando no peitoral dele.
Ele não é tão sarado quanto os caras alucinados por academia, o que é bom, porque tudo que é demais acaba se tornando ruim para mim. Mas ele é forte e sensual. Totalmente bronzeado. Sem pelos. Faz totalmente o meu tipo.
Quando ele me vê olhando, desvio o olhar, constrangida.
— Vamos lá. Desde que te conheci quero saber absolutamente tudo sobre você. – Diz ele, me olhando.
— O que exatamente você quer saber?
— Ah, sei lá. Podemos começar pelo básico. – Ele pega minha mão e começa a desenhar círculos, o que me distrai totalmente. — Por exemplo: Qual sua cor favorita?
— Azul.
— A minha é verde. Torce pra algum time?
— Não. Não entendo nada de futebol. E você?
— Prefiro Baseball. Mas não torço pra nenhum time em particular.
— Eu definitivamente não entendo nada de esportes.
Ele sorri.
— Na verdade, eu também não. Acho perca total de tempo. Mas não julgo quem gosta. Mas se tem uma coisa que eu amo fazer no tempo livre é surfar. De surf eu entendo tudo. E é um esporte também.
— Sério? – Estou verdadeiramente impressionada.
— Quero te ensinar um dia.
Ah, meu Deus... Não!
— Agora você está me devendo duas coisas. – Lembro.
— É verdade. – Ele ri.
O sol aos poucos vai ganhar o céu e ficando cada vez mais forte e intenso. A praia começa a encher. Primeiro de atletas, fazendo suas caminhadas. Em seguida, turista e o pessoal que passeia com os cães. Por fim, as famílias.
— Do que você tem mais medo?
Ele continua perguntando tudo. Eu não acho ruim. É diferente. Mostra o quanto ele está interessado. E talvez o quanto ele seja impaciente para essa coisa toda de mistério.
— Tempestades.
— Jura? Você ainda não presenciou nenhuma por aqui?
— Graças a Deus, não.
— Bom, espero poder estar ao seu lado quando isso acontecer.
Não sei se é possível, mas eu me derreto ainda mais. E é quando percebo o quanto estou quente. Não só por causa dele, mas também pelo calor. Decido então arrancar minha regata pela cabeça e ficar só com a parte de cima do meu biquíni azul e meu shortinho jeans mais curto do que normalmente uso.
— E o que mais você faz quando não está trabalhando ou estudando?
— Ah, sei lá. Qualquer coisa. Mas geralmente passo meu tempo com o Eli, papeando. Ou escrevendo. Quando consigo.
— Como assim escrevendo? – Ele me olha com curiosidade.
Novamente ele pega a minha mão e dessa vez brinca com meus dedos finos e cumpridos.
— Digamos que eu seja uma escritora amadora. Bom, pelo menos eu costumava ser. Até não conseguir mais escrever nadinha.
— E onde foi parar sua criatividade? – Pergunta ele com um sorriso bobo.
— Eu também gostaria de saber. – Retribuo o sorriso. — Chega de falar de mim. Fala mais de você. Como são seus amigos?
— Uns otários, mas eu gosto deles. Fizemos faculdade juntos.
— Eles também trabalham no aquário?
— Não. O Noah, o moreno grandalhão, trabalha em um laboratório de microbiologia. Já o Mason, o gordinho bochechudo, saiu totalmente da área e foi trabalhar como consultor imobiliário. E acredite, ele ama o que faz.
— E como é dividir a casa com eles?
— Às vezes é uma loucura, mas eu prefiro que algum dia você veja com seus próprios olhos.
— Está me chamando para conhecer a sua casa?
— Como você acha que vou preparar algo especial para você comer?
— Hmmm. Estou gostando dessa ideia.
Ele me puxa para mais perto. É tão gostoso sentir o contato de sua pele nua com a minha pela primeira vez.
— Quer dar um mergulho? – Ele pergunta, com a boca bem próxima da minha orelha.
— Agora não, mas pode ir se quiser. Eu fico aqui, só olhando. Eu realmente não me importo.
Espero que ele não note o pavor em minha voz.
— Você está com medo de ir nadar comigo? – Ele me vira de frente para ele para poder olhar nos meus olhos.
— Não! Não mesmo...
— É claro que está! – Ele está sorrindo.
— Não, não estou.
— Deixa eu adivinhar: você tem medo do mar.
Puta merda. Como ele descobriu? É tão obvio assim?
— Só porque eu não sei nadar.
— Não acredito! Você sabe com quem está falando? O melhor nadador de todos os tempos. – Ele se levanta e me puxa pelas mãos. — Vem! Vou te ensinar a nadar agora mesmo.
— Agora? Não!
— Confie em mim.
— Eu confio! É só que... Não quero passar vergonha na frente dessa gente toda.
Ele me analisa e vê o quanto estou falando sério.
— Tudo bem. Dessa vez eu deixo passar, mas pode ter certeza que vamos encontrar um jeito de passar por isso. Juntos. O.K? – Assinto. — Vamos então só molhar os pés.
E eu vou, porque tudo que mais quero é ficar com ele. O máximo de tempo que puder. E eu confio nele. Sei que não faria nada que pudesse me fazer sair correndo daqui.
Com a água batendo em nossas coxas, ele me abraça, me toca, me beija, sorri e joga água em mim. Eu não me importo com mais nada. Só quero me divertir com ele de maneira simples e intima de uma forma que nunca estive com ninguém, além do Eli, meu melhor amigo.
No meio da tarde nós deixamos a praia para procurar um lugar para comer. Depois de satisfeitos, caminhamos pela cidade de mãos dadas e ele me conta história pelas quais passou nesses mesmo lugares.
Quando ele para o carro na frente do prédio, eu me viro para ele. Não quero ir embora agora. Quero que ele fique mais tempo. E sei que ele também deseja isso, pois não apressa nada. Só me olha de volta enquanto toca o meu rosto.
— Você é a pessoa mais bonita e incrível que eu já conheci na minha vida. – Diz ele pouco antes de nos beijarmos.
Sei que parece loucura, mas sei que ele está falando a verdade nesse momento.
Porque eu me sinto do mesmo jeito.
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