Muito Além de Mim
7 Pensamentos confusos.
Notas iniciais
— Seja bem-vinda!
Assim que desci do carro olhei em direção a sua casa bastante impressionada com o que via. Era como na televisão. Só que real. Maior. E muito mais bonita. Muito diferente do minúsculo cubículo que eu dividia com o Eliezer todos os dias.
Apesar de já estar escuro, posso ver que mesmo de fora a casa é simples e muito aconchegante. Logo de cara vejo um jardinzinho muito bem cuidado, a caixa do correio, uma garagem acoplada com espaço para dois carros, as janelas brancas, a fachada com um revestimento de pedra e tijolinhos e uma escadinha com poucos degraus antes da porta.
Logo após a porta de entrada me deparo com um roupeiro para pendurar os casacos e um espaço para deixar os sapatos, o que evita sujar o carpete. Mais à frente, a sala de estar. Uma TV comum, sofás, mesinha de centro e uma ou outra baguncinha que dá todo um toque pessoal no ambiente.
A cozinha está logo ali, separada apenas por uma bancada americana, onde acredito que eles façam suas refeições, pois não há mesa. A cozinha é toda de madeira, inclusive o chão. Em um cantinho ali, a área de serviço. Com uma máquina de lavar moderna, passadeira e um cesto de roupa suja.
Ah, e o lavabo. Como qualquer outro.
Eu não tinha visto por estar atenta a tantos outros detalhes, mas há uma porta na cozinha, logo depois da geladeira de duas portas, um acesso para a área dos fundos onde tem um pequeno quintal com uma grelha, uma bela arvore, mesinhas e cadeiras.
Lá em cima, no primeiro andar, ficam os quartos. No total são três. Um para cada garoto. E o banheiro que eles dividem. Digo ao Andrew que não faço questão de ver o quarto dos outros meninos, afinal, é a privacidade deles. Mas faço questão que ele me mostre o seu quarto. É espaçoso, limpo e organizado. Com uma cama de casal no meio, um closet embutido na parede, uma escrivaninha com seu computador, uma poltrona, prateleiras de livros sobre biologia e animais marinhos e uma cômoda com seus pertences em cima.
A decoração é em cinza, branco e verde.
— Os meninos não estarão presentes para o jantar especial tão esperado? – Pergunto ao descermos.
— Não. – Ele sorriu, pude ver. — Eu basicamente os expulsei essa noite. Queria ter você só para mim por algumas horas. Mas não se preocupe, eles voltam logo.
Sigo o até a cozinha, onde deixei minha bolsa sobre a bancada junto de uma sacola com um vinho que comprei hoje mais cedo.
— Trouxe isso para complementar o jantar.
Ao pegar a garrafa, ele parece satisfeito. E leva a garrafa para gelar por alguns instantes, enquanto finaliza o jantar.
— E então, o que teremos para o jantar?
— Eu disse para você que não era nenhum profissional. – Diz ele enquanto mexe a panela. — Então, resolvi fazer uma macarronada com almôndegas. Espero que goste. É a única coisa que eu faço que tenho certeza de que faço bem.
— Espero que esteja deliciosa. O cheiro está ótimo.
Conversamos enquanto ele termina de preparar o que está fazendo. Percebo que ele é atencioso no que faz.
— Quando poderemos começar nossas aulas de natação? – Pergunta ele colocando dois pratos sobre a bancada, em seguida velas, talheres, guardanapos, copos e o vinho.
Quando está tudo em perfeita ordem, ele se senta ao meu lado.
— Podemos começar quinta-feira que vem, que tal? Ou qualquer outro dia. Estou livre depois do trabalho.
Ficamos de confirmar isso melhor uma outra hora.
Tudo que importa agora é experimentar essa macarronada e sentir o sabor. Que por sinal, está ótima. Não estou brincando! Está muito boa mesmo. Ele é bom!
— Você só está dizendo isso para me agradar. – Diz ele com um sorriso.
— Não! É sério. Isso está uma delícia! Continue assim e você vai longe. – Retribuo o sorriso e volto a comer.
Insisto em ajudar a lavar a louça, mas ele é insistente. Diz que não precisa. Que fica por conta dele dessa vez. Mas não aceito. Não posso aceitar. É muito cavaleiro, mas eu sou assim. Me vejo na necessidade de ajudar, em colaborar.
E aliás, ele já fez tudo sozinho!
Após terminar de organizar tudo por ali e apagar as luzes, vamos até a sala com nossas taças e o vinho e nos sentamos no chão, com as costas encostadas no sofá.
— Me fala um pouco sobre a sua família. Como eles são? Como seus pais lidam com essa distância toda?
Aconteceu o que eu temia, mas evitava pensar muito: ele tocou no meu ponto franco. A minha família.
— Eu preferiria não falar sobre isso.
— Porque? – Ele parece surpreso.
— Ah, sei lá. É complicado.
— Olha – Ele toca a minha mão com leveza. — Eu entendo. Se não quiser, não falaremos sobre isso. Mas quero que saiba que pode contar comigo. Para qualquer coisa.
— Eu sei, você é ótimo. É só que...
— É difícil para você. – Ele completa.
Faço que sim.
— Mas antes que você pense que eu sou uma garota problemática, só quero deixar bem claro que eu não tenho nada contra a minha família. Nós nos damos bem na maioria das vezes. Só não é perfeito. Nem como eu gostaria que fosse.
— Nunca é.
— Então me fala você, como é a sua família?
— Bom, nós temos nossos problemas também. Mas graças a minha mãe nós sempre tentamos resolver tudo antes que as coisas se agravem. Entende? Ela é o elo forte entre nós. Uma mãe presente, dedicada, prestativa. A melhor pessoa que eu conheço. E não digo isso só porque ela é minha mãe não. Eu sei que você iria adorar conhece-la.
— Sim, eu adoraria. – Sorrio.
— E eu tenho um irmão mais velho. Como já era de se esperar, somos totalmente opostos um do outro. Mas temos também nossas semelhanças. Poucas, mas temos. Basicamente, ele é uma pessoa difícil de lidar. É um cara peculiar. Eu e minha mãe somos praticamente os únicos que conseguimos domar a fera. – Ele ri e eu rio também.
— Ele parece difícil...
— E é! Quase ninguém gosta dele logo de cara. Você, provavelmente, iria detesta-lo à primeira vista. Mas tudo é uma questão de tempo, de costume. No fundo, ele é bom.
— E o seu pai?
— Meu pai é um cara esquisito. Deixou a minha mãe quando eu tinha seis anos. Por nenhum motivo especifico. Eu nunca entendi, mas, sei lá, não sou do tipo de guarda mágoas. – Ele bebeu um pouco, eu automaticamente levei minha taça a boca também. Já estávamos no meio da garrafa. — Ele voltou depois de um tempo. Mas não para recomeçarmos. Só para estar ali, sabe? E garantir que nunca esqueceríamos que apesar de tudo, ele ainda era nosso pai e estaria ali.
— Eu não entendo...
— Pois é, eu mesmo nunca entendi. Mas também nunca fui atrás de explicações. Nem questionei a minha mãe. O fato de ela aceitar essa situação como se fosse normal. Eu só me acostumei com esse vai e vem. E foi assim que eu cresci.
— E seu irmão, como ele lida com isso?
— Eu não sei bem. Ele detesta tocar no assunto. Mas nas poucas vezes em que conversamos sobre isso, ele me disse que era coisas deles. Do pai e da mãe. E que ninguém deveria se meter. E foi o que sempre fizemos. Só deixamos para lá.
— Bom, pelo menos vocês conhecem o pai de vocês. E ele está lá quando pode. Mesmo que do jeito dele. Já eu não. Nem se quer sei o nome do sujeito. E duvido muito que a minha mãe saiba. Basicamente, ela é uma desajuizada. E ele deve ser também.
E lá estava eu, falando no assunto que eu tinha prometido a mim mesma que não tocaria tão cedo com qualquer pessoa.
Talvez fosse o vinho...
— Se você quer saber, minha mãe é a definição exata de garota problemática. Sempre deu trabalho aos meus avós, se envolveu com caras errados, confiou nas pessoas erradas, engravidou cedo e fez escolhas estupidas. Fora tudo isso, ela tem um grave problema com drogas. E por causa disso fui criada pelos meus avós que foram muito bons comigo o tempo todo, mas eu só meio que me senti um fardo a vida toda.
— Eu duvido que eles pensem assim.
Andrew me olha diretamente dentro dos olhos.
— Você não os conhece.
— É difícil para mim olhar para você – Ele se aproxima devagar. — E imaginar que você já passou por isso tudo.
Desvio o olhar, constrangida.
— Essa é a minha vida. Seja bem-vindo a ela! – Ironizei.
— Nina, você é muito especial para mim. Tem se tornado cada vez mais significativa na minha vida. Eu nunca se quer imaginei que sua vida, por trás de tudo isso, de tanta beleza e graciosidade, você tivesse uma história tão complicada.
Ele toca meu rosto.
— A partir de agora, tudo que eu puder fazer para compensar você, eu farei. Pode ter certeza.
E com isso, ele me beijou. E eu me entreguei. Praticamente me jogando em cima dele. Sentindo seus lábios quentes colados nos meus e o gosto de vinho em sua língua.
Nos beijamos por tempo o bastante no meio daquela sala para eu me sentir perdida, leve e zonza. Não sei se era o beijo em si e todo seu efeito sobre mim ou se era o efeito do vinho.
— Quero te mostrar umas fotos. – Ele abriu uma gaveta por ali e tirou um bolo de fotos enroladas em um elástico.
Fotos de sua família no Brasil, fotos dele em sua terra natal, fotos dele mesmo sozinho em viagens ou em seu incrível trabalho ou com os amigos, em festas, passeios, eventos.
Uma foto mais incrível que a outra.
— Que bom que eu finalmente encontrei você. – Disse eu ao me virar para ele após ter visto foto por foto.
Dessa vez eu tomei a iniciativa e o beijei. Ele me puxou para mais perto. Firme e seguro. E enfiou os dedos nos meus cabelos cacheados.
— Eca! Arrumem um quarto! – Disse uma voz em inglês.
Me afastei rapidamente de Andrew, assustada.
Noah e Mason tinham acabado de chegar da rua, sabe-se lá de onde, completamente ensopados e sorriam para nós.
— Está chovendo? – Perguntei a eles, aflita.
— Está sim. Faz um tempão que não chove assim por aqui. Mas também, com esse calorão era de se esperar.
Por essa eu não esperava.
Eu não tinha presenciado a chuva ainda por aqui desde que cheguei.
Levantei-me meio grogue e fui até a janela mais próxima.
— Puxa! É chuva de verdade.
Andrew estava agora ao meu lado.
— Vamos lá fora? – Perguntei a ele, como uma criancinha que pede ao pai para ganhar uma bicicleta no natal.
— Tem certeza?
Antes de responder eu já estava calçando minha bota de cano baixo e correndo lá para fora para sentir a chuva.
Que tipo de pessoa em sã consciência faria isso?
— Você é maluca! – Gritou Andrew em meio ao barulho da chuva que batia no asfalto com força.
Eu rodopiei.
— Isso é incrível!
Ele chegou mais perto, me agarrou pela cintura e me olhou bem de perto.
— Você é incrível!
Ele me girou, eu ri alto e abri os braços.
— Até parece um filme!
Éramos os únicos dois malucos gargalhando no meio da rua vazia e escura, tomando um verdadeiro banho de chuva.
— Vamos entrar! Não quero que você fique doente.
Antes de subirmos, Andrew colocou uma toalha em meus ombros. Em seu quarto, eu me sequei melhor.
— Foi divertido. Mas eu espero que não passe disso. – Comento enquanto seco meus cabelos.
— Calma. É só uma chuva. – Diz ele um pouco antes de tirar a camiseta completamente ensopada.
Por um momento eu não sabia mais se me importava com meu medo por tempestades ou se admirava seu corpo...
Por via das dúvidas, fui até ele. Encostado meu peito no dele. Olhei em seus olhos, depois desci até sua boca.
Estava hipnotizada.
— Você precisa me beijar agora. – Sussurrei.
Ele me beijou. Faminto como nunca. Eu me sentia quase em combustão. Querendo tocar todas as partes de seu corpo.
Passei meus dedos por suas costas, ombros, peito, abdômen. Tudo isso sem tirar a minha boca da dele. Deu para sentir que ele estava ficando ofegante. Assim como eu.
Eu realmente não sabia o que tinha dado em mim. Eu não sou assim tão ousada. Não sei se é o calor do momento, minha euforia repentina ou se estou levemente bêbada.
Acho que um pouco de tudo.
Puxei-o para cama. Porque tudo que eu queria era limpar a minha mente de tudo e senti-lo um pouco mais. E não custava nada, certo? Somos dois adultos, estamos nos apaixonando e estamos sozinhos em um quarto trancado.
Com certeza ele deve ter sentido meu desespero, mas ao contrário do que eu imaginava, de que ele iria retribuir tudo na mesma intensidade, ele apenas me afastou um pouco.
— Vamos com calma, ta bom? Eu não quero estragar nada.
— Você não vai estragar nada! É o que eu quero. É o que você quer. Então vamos fazer. Vamos fazer isso agora.
Tento beijá-lo de novo, mas ele recua.
— Você tem certeza de que quer que aconteça assim?
Essa pergunta me pegou desprevenida. Me fez parar e pensar um pouco. Sim, eu quero muito estar com ele. Quero mais que tudo. Mas quero ser capaz de lembrar disso amanhã. Com todos os detalhes. Quero que seja perfeito. Único. Diferentemente da minha primeira e desastrosa vez. E tem os rapazes, que estão logo ali, em algum lugar dessa casa.
Agora não me parece tão seguro ou tão certo.
— Vamos esperar um pouco. Não tem problema. – Diz ele em um sussurro enquanto beija cada parte do meu rosto.
— Vamos esperar. – Fecho meus olhos.
Acabo adormecendo.
Acordo no outro dia sem mais nem menos. Graças a Deus estou de folga. Então não tenho com o que me preocupar. Mas espera aí.... Essa cama é grande demais para ser a minha.
Abro meus olhos e me deparo com um par de olhos que não são nada parecidos com os olhos do Eli, meu amigo.
Meu Deus... Como foi que eu acabei dormindo aqui, na casa do Andrew, no quarto dele, na cama dele e com ele?
Será que nós...?
Com um rápido movimento tiro o lençol de cima de mim e confiro... Merda! Cadê as minhas roupas? Onde foram parar?
— Relaxa. Nós não fizemos nada além de dormir. – Comenta ele com um sorrisinho. – Eu só tive que tirar suas roupas molhadas e colocar para secar.
Ele me viu seminua?
Aos poucos começo a me lembrar de tudo sobre ontem.
— Está sentindo algo? Você está com uma cara estranha...
— Estou com dor de cabeça. – Admito, arrependida por ter bebido ontem mais do que estou normalmente acostumada.
— Vamos descer. Temos remédios lá em baixo. E pelo cheiro, os garotos já fizeram algo para a gente comer.
Fiz uma careta.
— Não. Não vamos descer agora. – Viro-me para ele. — Antes queria te agradecer pela noite de ontem. Foi tudo tão maravilhoso. Você é perfeito! Nem acredito que acabamos nos esbarrando por aqui, de uma hora para outra, sem mais nem menos.
— Aposto que isso tem uma explicação. – Ele sorri com os olhos escuros e profundos vidrados nos meus.
— E qual seria? – Pergunto, sorrindo também.
— Aposto que já estava predestinado. – Seus lábios agora estamos praticamente grudados nos meus. — Sabe como eu sei isso? Porque descobri que é inevitável te amar.
Ele me beija.
Vamos com calma. Vamos analisar essa situação surreal. É isso mesmo que acabei de ouvir? Ele praticamente acabou de admitir que me ama? Mas já? Será que não é muito cedo para isso, não? E quem sou eu para dizer algo assim? Basicamente já me apaixonei por ele na primeira vez em que o vi entrar no Café. Não importa! Tudo que sei agora é que estou apavorada como jamais estive.
Sim, eu sei. Sou uma garota de sorte. Encontrei o amor da minha vida aqui na Austrália. E ele é ótimo pra mim. Tudo que ele faz, tudo que ele diz, torna toda essa história tão surreal. É quase difícil de acreditar que está acontecendo. Que finalmente está acontecendo comigo. Logo comigo!
Eu esperei muito por isso. Cheguei a acreditar que fosse impossível. Que todos os caras são inacreditavelmente ridículos, insensíveis e imaturos. Mas não. Eu estava enganada. Porque existem sim as exceções. E uma delas está aqui. Bem na minha frente. E é isso que me apavora. Mesmo depois de tudo que passei. Me faz pensar se eu mereço isso.
E mesmo que eu mereça, continuo com medo. Medo de estragar tudo mesmo que todas as minhas intensões sejam boas. Porque é isso que acontece sempre. Por mais que eu tente acertar, por mais que eu persista. Não acho que o Andrew seja o tipo de cara que coloque tudo a perder. Eu também não sou assim. Mas quais são as chances de isso funcionar sem que eu ou ele estrague isso mesmo que essa não seja a intensão?
E isso que mais me assusta. Que um de nós acabe estragando algo tão grandioso, tão bonito, tão intenso. Eu não sei se suportaria. Com certeza não. Porque só de imaginar me parte o coração. Dói mesmo. Dói lá no fundo. Um aperto enorme.
— Eu preciso ir agora. – Salto da cama, avisto minhas roupas e as coloco imediatamente.
Não quero que ele veja com meus olhos estão cheios de lágrimas nesse instante.
— Mas já? O que aconteceu? Você não precisa ir agora. Vamos descer, tomar café, pensar em algo pra fazer mais tarde...
— Eu... Eu não posso. Acabo de me lembrar que marquei algo importante com o Eli. Não posso deixa-lo na mão. Espero que entenda.
Alcanço a porta.
— Você não vai nem...
Não.
Não posso nem olhar para ele quanto mais me despedir de maneira descente.
— Me desculpe. Nos falamos depois! – Grito do final da escada.
Cumprimento rapidamente os rapazes que estão conversando na frente da TV, pego minhas coisas e saio em dispara, antes que o Andrew me alcance e me questione, na tentativa de tentar entender a loucura que é a minha mente.
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