Muito Além de Mim
8 O que faltava em mim.
— Você é maluca, Nina.
Pedi ao Eli que viesse me encontrar fora do Café depois do trabalho. A princípio ele foi relutante. Disse que estava atarefado demais. Mas bastou eu dizer que era urgente, que precisava de um amigo, meu único amigo, que ele veio correndo me encontrar. Depois disso caminhamos calados até a praia. Não era muito longe. O céu já estava escuro e totalmente estrelado, apesar disso ou por causa disso, havia uma enorme movimentação por ali. Principalmente de adolescentes bêbados e agitados. Nós nos deitamos na areia como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Você não entende.
O céu estava mesmo bonito. O clima muito agradável. O barulho da garotada não me incomodava. O mar estava calmo e pacifico. Muito diferentemente do meu coração que andava muito inquieto desde que saí às pressas da casa do Andrew, após meu pequeno surto. Ainda não sei o que deu em mim. Na verdade, eu sei muito bem. Eu sou uma covarde, é isso.
— Sim, eu entendo. Porque sou seu amigo há anos e é exatamente por isso que eu entendo. Mesmo assim, acho que você é maluca, paranoica e um pouquinho instável.
— Não é verdade!
— É sim. E você sabe exatamente porque. A questão é: você precisa superar esse episódio da sua vida. Precisa esquecer tudo que te aconteceu no passado, com a sua mãe, seus avós, seu desconhecido pai. Você precisa entender que não é todo mundo que vai te abandonar, te deixar na mão ou não saber como te amar. Olha só para mim! Veja só. Eu sou seu amigo. Seu único amigo de verdade. E eu nunca fui cruel com você. Ou será que fui?
— Você está sendo agora. – Olhei bem para ele.
— Só porque estou lhe dizendo umas verdades? Então porque você me chamou aqui? Não. Não diga. – Ele suspirou, parecia aborrecido. — Não venha me dizer que é só porque sou sua única opção. Apesar disso também ser verdade. Mas sabe porque você me chamou aqui com tanta urgência? Porque você precisava ouvir certas coisas que ninguém mais diria, porque ninguém sabe, porque você faz questão de esconder.
— Eu não vou ficar falando do meu terrível passado com todo mundo!
— Você ao menos contou parte dele ao Andrew? Você sabe que todo relacionamento precisa ter honestidade de ambas as partes.
— Nós não temos um relacionamento!
— Ah, é? E vocês têm o quê? Para mim isso parece bem sério. Com tudo que você me conta, está muito claro que ele é louco por você. E é claro que você também gosta muito dele.
— Mas e se isso nunca for o bastante?
— Mas será, sim. – Ele sentou-se. Eu fiz o mesmo. — Para com isso, tá? Você merece sim tudo isso, Nina. Merece um cara lindo, leal, amoroso e tudo de bom. Você só precisa parar de pensar o contrário, sentir pena de si mesma e fugir das coisas. Simplesmente deixe acontecer. Deixe a vida e o coração te guiarem. Para de pensar tanto e dramatizar tudo.
— Eu não sou dramática!
— É sim! E as vezes um pouquinho infantil também.
— Que absurdo!
— Você parece uma garotinha amedrontada agora. – Ele sorriu, me fazendo sorrir também. — Nem parece que já passou por tanta merda na vida e agora só quer seguir em frente em busca da verdadeira felicidade.
Ele segurou a minha mão.
— Obrigada.
Eu amo o Eli. Amo com todo o meu coração. Ele pode até ser um chato as vezes, meio abusado, sincero, direto demais e insuportável, mas ele é o meu amigo e sabe exatamente como agir e o que dizer ou fazer quando eu mais preciso dele.
Não preciso nem dizer que me sinto um pouco melhor agora.
— Vem! – Puxei-o comigo. — Vamos comer alguma coisa, porque todo esse papo chato me deixou faminta.
Em casa, tomei um banho morno e li um pouco no meu kindle— já que não tinha muito tempo para sair e comprar livros físicos – e depois fui dormir, certa de que no meu próprio tempo certo eu resolveria as coisas entre mim e o Andrew.
Ele me ligou algumas vezes durante a semana enquanto eu estava no trabalho, mas eu ignorei todas suas chamadas. Primeiro, porque estava ocupada demais e não queria fazer nenhuma besteira na frente do Mr. Wilson. Segundo, eu ainda precisava de um tempo para saber exatamente o que dizer a ele.
— Você parece tristinha. – Comentou Sydney aquela tarde depois que terminei de servir dois clientes lá fora.
O dia estava quente e abafado.
— Eu também notei. – Judy se aproximou. — O que aconteceu? Você e o bonitão já estão brigados?
— Não exatamente. – Respondi num inglês perfeito. — Ele é maravilhoso. O problema mesmo sou eu.
Sydney arqueou uma das sobrancelhas loira.
— A verdade é que eu sou toda errada. Penso demais o tempo todo e vivo criando mil e uma paranoias sem sentido.
— Deve ter algum sentido para você. – Sydney diz.
— No início, tem sim. Mas depois eu percebo que sou mesmo maluca e passo um pouco dos limites.
Judy revira os olhos, provavelmente me achando uma tola.
— Mas e você e ele já...?
Sydney bate no braço dela.
— O que foi? Eu sou curiosa!
Eu sorrio, envergonhada.
— Não. Ainda não chegamos lá.
— E porque não? Nossa! Vocês são tão devagar.
Eu sou devagar. Estou sempre indo devagar com medo de fazer alguma burrada e me arrepender depois. E quando vou com pressa é porque estou delirando ou estou bêbada.
— Vocês não têm nada para fazer, não? – Mr. Wilson aparece de repente e nos dá um baita susto.
Voltamos ao trabalho rapidamente.
Ao anoitecer, pego minhas coisas e vou para casa. Só consigo pensar em um bom banho e algumas horas de sono.
— Você tem me evitado.
Olho para o lado e me surpreendo com o que vejo: Andrew encostado em seu próprio carro na frente do meu prédio.
— Oi. Você.
Será que ele não poderia ter esperado só mais alguns dias? Eu precisava de tempo! Ainda não estou pronta...
Me aproximo dele com certa cautela.
— Eu sinto muito...
— Pelo o quê? Por eu te apavorar?
— Não é bem assim. Você não me apavora. Eu me apavoro. Eu vivo me apavorando com tudo. E fujo. Sou covarde, eu sei. – Olho para baixo. — Me desculpe. Mesmo.
— Você não precisa se desculpar por nada, Nina. – Ele toca meu braço de leve, me fazendo voltar a olhar para ele. — Eu que te peço desculpas, caso tenha feito algo errado. Ido rápido demais ou sei lá o que. E peço desculpas também por ter aparecido aqui de repente, sem avisar, eu só não conseguia mais aguentar. Precisava te ver, te ouvir, entender...
— Você é perfeito, Andrew. – Seguro sua mão firme e beijo seus dedos. — Não tem nada de errado com você. Sou eu que me assusto com facilidade. É que... De repente estava dando tudo tão certo na minha vida que eu tive medo de algum de nós acabar estragando isso. Algo tão precioso e raro.
— Olha só – Ele toca meu rosto, me olhando com certa profundidade. — Eu não posso prometer que tudo sempre será perfeito entre nós, mas posso ao menos garantir que me esforçarei ao máximo para fazer tudo dar certo, te deixar confortável, segura e feliz. Não quero que você pense que eu sou o cara perfeito, porque eu não sou, Nina. Eu tenho mil defeitos. Cometo erros e me engano assim como todo mundo. Mas o que nós temos agora, o que eu sinto por você e você sente por mim não é qualquer coisa. Então, por favor, não vamos deixar isso escapar tão facilmente.
— Não, não vamos. – Eu o abraço forte, fechando os olhos antes que as lágrimas escapem. — Eu gosto de você. Gosto mesmo. Eu só fiquei apavorada naquele momento. Estava feliz demais por ter acordado ao seu lado pela primeira vez. Mesmo que não me recordasse de todos os detalhes da noite anterior. Isso não vai mais acontecer. – Volto a olhar para ele. — Eu não vou permitir. Quero ficar com você! Quero viver ao máximo isso que temos agora. Quero aproveitar todas as experiências ao seu lado, porque sem dúvidas, isso foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos anos e eu não vou abrir mão.
Ele me beija delicadamente.
— Não fuja mais de mim. – Ele sussurra.
— Nunca mais.
— Se algo estiver te incomodando, se eu tiver dito ou feito algo que não te agradou, por favor, apenas me diga. Não deixe passar. Eu preciso saber para poder consertar, O.K.?
— O.K. – Sorrio.
— Nossa. – Ele sorri de volta. — Eu senti tanta saudade. – Então ele me beija de novo, me abraça e me beija, me abraça e me beija.
E eu não consigo conter os pulinhos do meu coração.
Permaneço ali com ele por mais alguns minutos até resolver subir para tomar banho e ir me deitar.
Combinamos de começarmos nossas aulas de natação na quinta-feira depois do trabalho. Ele passaria no Café e me buscaria para irmos ao Clube onde ele era sócio há tempos.
O Clube era bem bonito mesmo a noite. Próximo a praia. Num local mais isolado rodeado por uma vasta vegetação, com todos os tipos de piscinas. Para crianças, adultos e idosos. Piscina aquecidas, cobertas e externas. E vários cursos disponíveis para cada tipo de cliente. Além de um refeitório enorme, banheiros, vestiários, sauna e área para lazer.
Por nada no mundo eu iria me inscrever no curso de natação. Morreria de vergonha por causa da minha idade. Uma vergonha ainda não saber nada por puro medo. Mesmo assim, Andrew garantiu que me ensinaria tudo que fosse necessário e que em pouco tempo e bastante pratica eu seria quase uma nadadora profissional, o que duvido muito.
A sorte é que o Clube é bem mais vazio a noite, já que está próximo de fechar. E a piscina que escolhermos na parte interna não tem ninguém, então fica mais fácil para mim. Ou nem tanto. Já que é difícil me concentrar em qualquer coisa que não seja o corpão do Andrew bem na minha frente.
Nossa aula de uma hora de duração é bem cansativa. Saio da piscina me sentindo exausta. Parece até que sofri um grave acidente. Digamos que eu não seja muito habituada a nenhuma atividade física, apesar de admirar bastante quem faz.
Jantamos em uma lanchonete perto de casa e depois ele me leva para casa de carro para eu poder descansar.
Desde que nos entendemos as coisas têm sido muito boas entre nós. Temos nos falado com mais frequência, mesmo que por celular ou através de mensagens. Ele vem me ver sempre quando pode e nós saímos para caminhar, conversar ou comer alguma coisa.
Só o fato de estar ao lado dele torna tudo muito melhor.
Eu esqueço qualquer problema ou cansaço.
Eu me sinto cada vez mais maravilhada por ele. Me derreto sempre que ele me beija de surpresa, diz algo fofo quando menos espero, me olha e sorri sem nenhum motivo aparente, entrelaça nossos dedos ou me toca com suavidade e delicadeza.
Eli já não aguenta mais ouvir eu falar sobre o Andrew e ele não gosta muito de falar sobre o Fernando, apenas o essencial. O que me mata de raiva. Porque gosto de saber de cada detalhe sobre as histórias românticas. Pelo menos a Sydney está sempre interessada nas minhas histórias, o que eu acho que deixa a Judy um pouquinho enciumada, já que ela é sempre tão fria e indiferente comigo.
Mas eu não me importo, porque no momento estou feliz demais para dar importância a esses pequenos detalhes.
— Você está mesmo fazendo o que eu acho que está fazendo? – Pergunta Eli ao chegar em casa.
— O que você acha que estou fazendo? – Lanço meu melhor sorriso para ele.
— Você está mesmo escrevendo?
— Sim. Estou! – Tenho que me conter para não largar tudo, saltar da cama e dar um abraço de urso dele.
Com toda a felicidade e satisfação que o Andrew me proporciona eu finalmente consegui voltar a escrever. Ainda é pouco comparado ao ritmo que eu tinha antes de escrita. Mas ao menos tenho bastante inspiração ultimamente. E porque não teria? Eu estou tão, tão feliz.
Eu já não aguentava mais ver páginas e mais páginas dos meus arquivos em branco.
— Eu trouxe isso para você. – Disse Andrew no dia seguinte.
Ele me entregou uma caixa de chocolate confeitados.
— Mas porque isso?
— Ué, não posso presentear minha namorada sem nenhum motivo aparente?
Minha namorada?
— Claro que pode!
— E além do mais, achei que você merecia, após ter me contado com tanto entusiasmo que tinha voltado a escrever por minha causa.
Beijo sua bochecha.
— Obrigada. Por tudo.
— Tenho outra surpresa para você.
Viro-me para ele, surpresa.
Do bolso do jeans ele tirou algo que não pude identificar.
— Eu não te disse antes, mas eu também amo escrever. Cartas, bilhetes, lembretes. Nada muito elaborado. E amo cartões postais também. E fiz isso aqui para você. – Ele me entregou uma foto que não tinha um tamanho normal. Era menor e mais quadradinha. — É uma foto do seu prédio, como você pode ver. – Ele explicou. — Eu queria comprar algo pronto, um cartão postal talvez. Mas eu jamais encontraria. Não desse lugar tão especial e tão marcante para nós dois.
Virei a foto e atrás havia algo escrito.
Para você se lembrar do local onde pela primeira vez eu te beijei e tive a certeza de que era você o que faltava em mim.
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