Muito Além de Mim
5 O primeiro encontro.
Ele não apareceu mais aqui no Café. Nem me mandou uma mensagem. Nem telefonou. O que me deixa paranoica e surtada. Porque eu estava tão cheia de expectativas. Tão ansiosa. Tão animada.
— Eu sinto muito por isso, Nina. – Diz Sydney após eu explicar a situação a ela.
— Olha, sabe o que eu acho? Ele brincou com você. – Comenda Judy, me olhando seriamente. — Te viu, te achou bonitinha, conseguiu seu número e pronto. Era só isso. Como um desafio. Um jogo.
— Eu não entendo. Mas com qual objetivo?
— Ah, sei lá. – Ela dá de ombros. — É isso que os caras bonitos fazem.
— Nem todos, Judy. – Sydney intervém.
— É o que eu acho. Pois não há mais explicações.
— Ou talvez ele só esteja ocupado com o trabalho. Esse tipo de coisa.
— Será? – Olho para Sydney, esperançosa.
— Aposto que sim. – Ela sorri.
É, tem um milhão de teorias.
Eu só queria saber qual delas é a verdade.
— Eu concordo com essa tal de Sydney. – Eli me diz aquela noite. — Acho que ele só está sem tempo agora. Você precisa ser paciente porque isso não é o fim do mundo. E essa Judy, eu mal a conheço, mas já acho que ela é uma vaca.
Concordo. Ás vezes a Judy pega realmente pesado comigo.
Continuo com a minha vida normalmente como se eu não tivesse tempo para ficar pensando naquilo.
Eu tinha medo de admitir que eu concordava com a Judy: Andrew conseguiu o que queria, viu como eu era fácil e bobona e caiu fora antes que as coisas ficassem ainda maiores.
O pior de tudo foi eu ser sido burra o bastante para não pedir o número dele também. Assim eu poderia ligar para ele nesse exato momento, xingá-lo e me sentir um pouquinho melhor.
— Pare de olhar para esse celular. – Eli murmura no meio da aula. — Você está me deixando maluco!
Guardo o celular na bolsa.
— Preste atenção na aula!
Sabe, eu realmente gostaria. Eu só não consigo.
— O que aconteceu com o Fernando, hein? – Pergunto, quando enfim a aula termina e eu recolho minhas coisas e jogo na mochila. — Ele nunca mais falou com a gente. Será que aconteceu algo?
— Provavelmente sim. Mas não me importo.
— Isso porque você o detesta. Mas eu acho ele uma gracinha. Quem sabe agora que as coisas não deram certo entre mim e o Andrew eu possa começar a investir no Fernando.
— O quê? Não! De jeito nenhum.
— Porque não?
— Apenas esqueça isso. É o que eu te peço.
Espero o Eli se afastar de vez, para ir direto ao seu novo trabalho. O qual ele já ama de paixão. E espero o Fernando no corredor.
Tento falar com ele como quem não quer nada, mas ele simplesmente me ignora. Alegando estar com presa e se vai praticamente correndo.
Estranho...
No trabalho, continuo fazendo o meu melhor. Pois o Mr. Wilson continua de olho em mim. Pronto para me mandar embora no meu primeiro deslize. Por sorte, o Andrew me defendeu naquela vez. Se não eu já estaria muito longe daqui agora.
Judy estava limpando o chão, aproveitando que não tínhamos nenhum cliente no momento. Sydney estava organizado as prateleiras. E eu limpando as mesas , calada.
Elas conversam o tempo todo. Judy, pelo que parecia, estava mais feliz do que nunca, pois estava saindo com um carinha algum tempo e estava certa de que as coisas ficaram ainda mais sérias a qualquer momento. Sydney a apoiava, pois ela é assim, tão boazinha e leal.
O sininho tocou, mas nem dei importância. Desde que o Andrew sumiu eu já não ligava muito para nenhum cliente. Só fazia o que tinha que fazer.
— É para você, Nina. – Sydney me chamou.
Nem acreditei. Lá estava ele. Como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse passado duas semanas desde a ultima vez que nos vimos.
— Então, qual é o seu pedido? – Perguntei friamente, tentando parecer o mais séria e profissional possível.
É claro que ele estranhou.
— Você não precisa falar inglês comigo.
— Estou apenas fazendo o meu trabalho.
Ele abriu um sorriso torto.
— Ah, já sei. Você está brava comigo.
— E porque eu estaria? – Olhei bem para ele.
— Olha, foi exatamente por isso que eu vim aqui hoje. Eu vim te ver para dizer que eu acidentalmente perdi o meu celular e foi exatamente por isso que eu não entrei em contato.
— Tá, mas... Porque a demora para me dizer isso?
— Eu estava meio ocupado com as coisas do trabalho. As coisas andam bastante difíceis e estressante. Mas eu pensei em você todo o tempo. E só esperei a primeira oportunidade para vir aqui te ver e te contar isso.
Eu não sei se essa história é verdadeira ou não, mas ele venceu.
Acabei sorrindo e desmanchando a carranca.
— Eu também pensei muito em você e....
— Achou que eu estivesse brincando com você.
— Sim, e....
— Eu sinto muito, Nina. Mas eu posso te compensar. Você tem um pedaço de papel? – Passei meu bloquinho a ele, onde rapidamente ele anotou seu novo número. — Se você tiver realmente me desculpado por esse deslize, me mande um SMS a qualquer hora.
Assenti.
— Eu preciso ir, mas antes.... Você pode me preparar um latte, por favor?
— Claro!
Assim que ele se foi, as meninas vieram correndo até mim.
— Meu Deus! Eu não consegui entender nada do que vocês conversaram. Que língua era aquela? – Sydney perguntou.
— A nossa língua. – Eu ri.
— Mas então.... Conta tudo! – Judy pediu.
Expliquei a história toda a elas o mais rápido que pude, para o Mr. Wilson não pensar que só ficávamos de conversinha durante o trabalho.
— Ele é um amor. – Sydney disse.
— Você vai mandar uma mensagem a ele? — Judy quis saber.
— Claro que sim! Mas não agora. Não hoje. Quem sabe daqui uns três dias. Só para ele sentir na pele o que eu passei nos últimos dias.
— Uau! Você é um arraso, garota. – Sydney sorriu.
Foi muito difícil, mas eu consegui. E fiz exatamente o que eu tinha prometido a mim mesma. Mandei uma mensagem alguns dias depois perguntando como ele estava. Nada de tão extraordinário. Só para ele saber que eu não era tão fácil assim.
Eu pensei que você nunca fosse me mandar nada.
Pois é. Mas eu mandei, não mandei?
Sim, então quer dizer que estou perdoado?
É, posso dizer que sim.
Ele mandou uma carinha feliz.
Depois disso nós trocamos mensagens todos os dias, quase o tempo inteiro. Exceto, é claro, quando não estávamos atarefados no trabalho. Por enquanto, nossas conversaram eram bem simples. Perguntávamos se estava tudo bem, o que estávamos fazendo, se tínhamos alguma novidade e só.
Tudo em relação a ele era um grande mistério.
E para mim, isso era bom. Pois eu realmente não queria ir com pressa. Pois sempre que isso acontecia, eu me ferrava.
Uma hora ou outra você precisa aprender a lição.
Preciso te perguntar uma coisa, Nina.
O que é?
Quer sair comigo qualquer dia desses?
Seria ótimo.
O.K. Me diga quando estiver livre e nós resolvemos isso o quanto antes.
Você parece ansioso.
E porque não estaria?
Ele sempre sabe o que dizer? Só isso me faz gostar ainda mais dele.
Eli parecia mais ocupado do que nunca. Com os estudos, o trabalho e suas saídas noturnas misteriosas. Nem mesmo aos domingos ele tinha tempo livre para mim. Pois ele trazia trabalho para casa. O que eu achava um absurdo. Mas sabia que ele só fazia isso porque queria agradar sua nova chefe e quem sabe, futuramente, receber um aumento ou coisa assim.
Andrew e eu marcamos de nos encontrar esse domingo à tarde em frente ao Café. Ele ainda aparecia por lá algumas vezes, mas muito menos que no começo. E nós não mantínhamos muito contato, mas para irritar o Mr. Wilson que já estava achando aquilo tudo muito estranho.
Acordei cedinho no domingo, tomei um banho, vesti qualquer coisa e saí para comprar algo para beber.
A maioria das lojas estavam fechadas.
Depois, fiquei por ali. Apenas andando para todos os lugares e pensando muito sobre o meu encontro mais tarde.
Eu estava quase tendo um pequeno infarto.
Em casa, fiquei um bom tempo decidindo o que vestir. Eu não tinha muitas opções, já que não trouxe muitas coisas na minha mala. E ainda não tinha tido tempo de fazer umas comprinhas. Por fim, acabei ouvindo os conselhos do Eli: menos é mais, amiga. E por fim, escolhi um vestidinho claro, rasteirinhas e deixei os cachos soltos e ainda mais volumosos.
Como ainda era dia não exagerei na maquiagem. Apenas apliquei um pouco de corretivo, base, máscara para cílios e um batom clarinho.
— Você está um arraso, amiga. – Eli comentou um pouco antes de eu pegar minha bolsinha e sair do apartamento.
Enquanto me aproximava do Café, não consegui tirar os olhos dos pés. Com medo de que quando erguesse os olhos não visse o Andrew onde ele disse que estaria. Sei lá, poderia ter acontecido qualquer coisa. Ele ter esquecido, desistido. Não sei.
Mas eu estava enganada, porque lá estava ele mais lindo do que nunca. De jeans, camisa branca, mocassim e óculos escuros de sol.
— Oi. – Ele sorriu e tirou os óculos. — Você está linda.
— Obrigada. – Sorrio timidamente.
— Você parece tensa.
Ele pega a minha mão. A sua é macia e quente.
— Eu pensei que...
— Você pensa muito, Nina. Apenas confie em mim.
Entrelacei meus dedos aos dele.
— Tudo bem. Então.... Para onde nós vamos?
— Você está com fome? Eu pensei em almoçarmos no calçadão, depois dar uma caminhada pela praia e conversar um pouco.
Ele mesmo escolheu o restaurante, já que aparentemente conhecia aqui muito melhor do que eu. Como o dia estava bonito e claro, decidimos ficar em uma das mesas do lado de fora. Onde poderíamos ver o mar a poucos metros.
— Eu não sou muito fã de frutos do mar, mas sei que aqui tem o melhor bolinho de carne de caranguejo que já provei.
E foi exatamente o que pedimos, mais uma soda com gelo.
— E então, me conta – Ele puxou assunto logo após fazermos os pedidos ao garçom. — Você trabalha a muito tempo no Café?
— Não. Na verdade, estou aqui por causa do meu intercambio e precisei de um emprego para me manter nesses meses.
— Intercambio? Sério? E porque a Austrália?
— Ah, não sei bem. Eu e o meu melhor amigo, o Eli, pesquisamos muito antes de nos decidimos. Foi difícil chegarmos a uma conclusão. Pois não queríamos um lugar comum demais, frio demais, calor demais ou exótico demais. E a Austrália me pareceu perfeito em muitos sentidos.
— E você está gostando daqui? Era o que você esperava?
— Ainda melhor. – Sorrio. — Esse lugar é quase magico. Mas e você, como veio parar aqui?
— Faz um tempo já. Eu ganhei uma bolsa de estudos. Eu me especializei em biologia marinha. E atualmente trabalho em um aquário um pouco longe daqui. Mas é o que eu amo desde muito pequeno. Não sei de onde surgiu isso. Só sei que aqui foi onde me encontrei pra valer.
— Nossa! Eu nunca conheci um biólogo. Me fala mais sobre o seu trabalho. Fiquei bastante impressionada!
— Bom, eu trabalho principalmente na colaboração da criação de espécies em cativeiro. Mas ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, nós não pegamos os bichinhos e simplesmente os prendemos lá para vida toda. O nosso trabalho é resgatar os animais feridos, trata-los e devolver de volta ao habitat natural. E se isso não for possível, ele fica sob os nossos cuidados. Se você tiver interesse, posso te levar lá um dia.
— No aquário?
— É, ou em qualquer outro lugar. – Ele sorri.
Nossos pedidos chegam.
— Então, você não está aqui sozinha?
— Não. Eu vim com o meu único e melhor amigo, o Eliezer. Era um plano nosso desde que nos conhecemos no colégio.
— Espero poder conhecê-lo um dia.
— Aposto que ele adoraria.
Depois do almoço, vamos até a praia, onde caminhamos e conversamos enquanto a água molha nossos pés.
As praias daqui são excepcionalmente lindas. Muito limpas, com águas cristalinas e segura. Estão sempre cheias, especialmente aos finais de semana. Cheia de turista e famílias. O mais interessante é poder deixar suas coisas na areia, sair para dar um mergulho e ter a certeza de que ninguém vai tocar no que é seu.
— Você mora muito longe daqui? Mora sozinho?
— Não, eu moro até que perto. Mas moro com uns amigos. Aqueles dois idiotas que levei ao Café aquele dia....
— O dia do acidente.
Ele sorri.
— São águas passadas.
— Para você é fácil falar, não foi você que pagou o maior vexame e quase foi demitida.
— Naquele dia você parecia bem nervosa. Não pude deixar de reparar. E nos dias anteriores em que te vi também. Por acaso, tem algo acontecendo com você?
Como explicar a ele que minha vida era muito normal e simples antes de ele aparecer e mudar tudo dentro de mim fazendo eu me comportar de maneira estupida o tempo todo?
— Eu sou assim na maior parte do tempo.
— Como?
— Desconfortável? Inquieta? Insegura?
— Você está desconfortável agora?
— Não muito...
Ele parou de repente e ficou de frente para mim. Analisou-me por um bom tempo com seus olhos escuros e mais uma vez pegou minhas mãos e segurou. Coisa que eu não esperava.
— Eu não quero que isso seja desconfortável para você.
— Não se preocupe. – Abaixei o olhar. — É só que... Você me deixa um pouquinho nervosa.
— Como assim?
— Eu não sei. Acontece desde que te vi pela primeira vez. Sei que parece bobagem e muito ridículo...
— Não. Sabe, eu me sinto assim também.
— Nervoso? Por minha causa?
— É, mais ou menos. – Ele aperta de leve os meus dedos. — Deve ser porque fiquei interessado por você desde a primeira vez que te vi naquele Café e isso não acontece muito comigo.
Sorrimos um para o outro.
— Mas independentemente disso, quero que você fique a vontade ao meu lado, ta bom?
Assinto.
— Vou tentar.
Voltamos a caminhar pela areia, só que dessa vez de mãos dadas, como um casal de verdade.
Foi tudo tão natural, a conversa fluiu com tanta leveza, ele era tão divertido e atencioso que eu acabei relaxando de verdade. Como se o conhecesse há muito tempo.
Sentamos na areia para observar o pôr do sol em silencio. Um silencio bom. Um silencio que fazia meu estomago se encher de borboletas e um sorriso constante permanecer no meu rosto ao lembrar eu estava ali ao lado do cara mais incrível do mundo segurando as minhas mãos e as aquecendo.
Já era noite quando saímos da sorveteria e caminhamos em direção ao prédio onde eu estava morando com o Eli.
— Olha, não vou nem te convidar para subir. O apartamento é minúsculo. Mal cabe duas pessoas. E o Eli deve estar lá todo atolado de documentos do trabalho e de pijama...
— Tudo bem. Não precisa. – Ele me puxa para mais perto, com os olhos grudados nos meus. — Estou feliz por ter conhecido você, Nina.
— É, eu também. — Ruborizo.
— Sei que parece precipitado da minha parte, mas eu não posso simplesmente ignorar o que estou sentindo agora. – Ele pousa as mãos na minha cintura e olha para os meus lábios. — Eu quero muito de beijar. E vou te beijar agora. Só estou avisando, caso você pense que sou muito abusado.
E ele me beija. Um beijo que eu nunca tive antes em toda a minha vida. Juro. Fez meu corpo todo amolecer. Como se eu estivesse sob o efeito de alguma magia maluca.
Seus lábios são firmes e macios. Seu beijo é urgente no começo e de repente fica calminho, pacifico. E tem gostinho de chocolate do sorvete que ele tomou alguns minutos atrás.
Depois disso não tenho coragem de dizer mais nada. Nada parece o bastante para a explosão de sentimentos que estou sentindo. Para finalizar, ele me puxa e me abraça.
Ficamos assim por uns dez minutos.
— Eu não queria ir agora, por mim ficaríamos assim pelo resto da noite. Mas está ficando tarde e você precisa descansar. – Ele beija a minha testa e se afasta. — Boa noite, Nina.
Fico ali esperando ele desaparecer, depois subo correndo, o coração quase sem aguentar.
— Ele me beijou! Ele me beijou! – Cantarolo assim que entro no apartamento. Quase mato Eli de susto. Coitado.
— Senta aqui – Ele esfrega os olhos. — Me conta em detalhes tudo que aconteceu.
Conto a ele o máximo de detalhes que consigo me lembrar.
— Resumindo: ele é perfeito, Eli.
— Meu Deus! Não acredito. Será que ele é mesmo real ou você está delirando esse tempo todo?
— Não, Eli. Ele existe e parece realmente gostar de mim. Você precisa ver! Aliás, ele quer te conhecer também.
— Jura?! Minha nossa, esse cara é mesmo perfeito.
— Ele é. Ah, como é.
Sonho com Andrew aquela noite. No sonho, eu sou como uma pessoa invisível que observa tudo sem ser notada. E lá está eu e Andrew na praia a noite. Nos beijando na areia. Vejo a forma como ele me olha, como me toca, como me beija.
Só espero que quando eu acordar tudo isso seja tão real quanto parece. E que eu finalmente mereça ter encontrado o cara certo dessa vez. Que não vai me magoar por qualquer coisa, nem me ferir ou me fazer chorar e sofrer. E vai estar ao meu lado, me apoiando e me amando apesar de tudo.
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