Muito Além de Mim

12 Festa caótica.


Estou terrivelmente preocupada.

Andrew parecia querer mais do que tudo que eu ficasse aqui na Austrália com ele. Ele não falava em outra coisa. Fazia mil planos. Eu queria muito ficar feliz por ele e com ele, queria poder me entusiasmar também, afinal, ele estava fazendo planos para o futuro contando comigo. O que poderia ser melhor do que isso? Mas eu só conseguia pensar que talvez isso pudesse não dar certo e nem funcionar como gostaríamos.

Eu não sei se me agrada a ideia de manter um relacionamento a distância. E acho que para ele isso está fora de cogitação também. Eu sou o tipo de pessoa que precisa estar junto, senti-lo por perto. Morar no Brasil não é algo que ele queira agora. E eu super entendo, afinal, ele construiu uma vida toda aqui. Não é justo que ele abra mão de tudo isso...

Já eu não tenho nada me esperando quando eu voltar. Só os meus avós. Mas eu não quero mais morar com eles. Eu estou mesmo pensando em começar uma vida sozinha, encontrar um lugar só meu, um novo emprego... qualquer coisa. Eu só preciso que seja diferente, que seja melhor e que seja do meu jeito, onde eu tenha paz e sossego e mais conforto.

Como se não bastasse todos esses pensamentos infernizando a minha mente, meus avós resolveram ligar de uma hora para outra para saber como eu estava.

Fazia um tempão em que não nos falávamos.

— Eu nem sei como te dizer isso, querida. Acontece que sua mãe ligou, querendo falar com você. Então, nós contamos que você tinha ido estudar fora e ela pareceu bastante impressionada e satisfeita com isso, apesar de também ter ficado triste por não ter podido falar com você.

— Vocês não deram meu número a ela, não é?

— Não! Claro que não!

Eu estava muito surpresa e chocada com essa repentina aparição da minha mãe. Há anos não sabíamos seu paradeiro.

— Eu conheci um cara. E a gente está junto! É bastante sério. Estou muito feliz e ele também é brasileiro!

Porque eu disse tudo isso? Não sei. Acho que foi uma tentativa muito fraca e falha de mudar logo de assunto. Não era como se eu conversasse com eles sobre esse tipo de assunto o tempo todo. Eu só não queria falar sobre a minha mãe.

— Nossa... Isso é bom, não é?

— Sim! Estou muito apaixonada...

E talvez eu nem volte para casa só para ficar aqui com ele. Sei que parece loucura, mas ao dele eu me sinto amada de uma forma que nunca me senti amada por vocês. Sei que vocês sempre me deram tudo e se esforçaram tanto, mas.... Sinto muito. É que com ele é tudo tão mais fácil e real.

**

Josh estava fazendo mil planos para a festa que ele ia dar no sábado.

— Eu quero que vocês três apareçam por lá e levem todos os seus amigos. Estão todos convidados! Essa festa preciso bombar. – Impressão minha ou ele parece meio desesperado para provar alguma coisa?

Não importa, já que eu não estou a fim de ir. Tinha planos melhores para o sábado. Sei lá. Talvez ir ao cinema com o Andrew ou sair para jantar fora. Qualquer coisa com ele.

— Você vai, não vai? – Perguntou Sydney mais tarde.

— Acho que não...

— Você precisa ir, Nina! Por favor. Eu preciso de companhia. Não quero ficar sozinha.

— Mas e a Judy?

— Ela é uma vaca! Sempre que a gente sai ela inventa de ficar bêbada e dar o maior vexame.

Eu ri, mas não conseguia imaginar...

— Tudo bem. Eu vou com você, mas espero que não se importe se eu trazer o Andrew e o Eli comigo.

— Eu vou super amar conhece-los melhor.

Sorrimos uma para a outra.

Na minha pausa mandei uma mensagem ao Eli e outra ao Andrew.

Eli respondeu primeiro:

Claro que eu topo! Estou mesmo precisando sair e conhecer umas pessoas novas.

Como o Andrew não me deu uma resposta, eu resolvi ligar.

— Eu não gosto muito desse tal de Josh. Pelo que você me diz ele é um imbecil. Mas se você quer tanto ir, eu vou com você.

— Obrigada! – Fiquei animada de repente. — Podemos convidar o Noah e o Mason também se você quiser.

— Vou falar com eles.

Andrew precisou desligar e voltar ao trabalho, assim como eu.

Em casa, mais tarde, Eli fez pipoca para a gente comer enquanto dávamos uma olhadinha na internet em busca de inspiração para nossas roupas para a festinha do final do curso que aconteceria em breve.

— Pelo menos você vai ter um par. – Comentou ele, parecendo chateado.

— E você teria também se parasse de frescura e fosse logo se resolver com o Fernando.

— Deus me livre ir com ele ao primeiro baile da minha vida. Credo! Com certeza vou encontrar outra pessoa...

— Você já tem alguém em mente?

— E se eu investisse no Noah?

— Você tem certeza de que ele é gay?

— Não, mas... Essa seria uma boa oportunidade para descobrir.

— Bom, se isso é tão importante para você, eu apoio. E se quiser, posso até dar uma ajudinha.

**

Ao contrário do que Josh esperava, sua festa não bombou.

Quando chegamos em sua casa – o Mr. E Mrs. Wilson tinham ido visitar os pais em outra cidade – ainda não tinha chegado quase ninguém. E foi nesse momento em que pensei que são nossos companheiros de verdade: quando a gente mais precisa deles, eles simplesmente evaporam.

Josh veio imediatamente nos cumprimentar, com um sorriso todo sem jeito.

— Fiquem à vontade. Só não destruam nada. As bebidas estão lá fora e o banheiro fica no final do corredor. Ah, os quartos estão proibidos!

Não entendi porque nesse momento ele olhou para mim e para o Andrew. Como se eu fosse fazer qualquer coisa no meio de uma festa. Francamente, Josh não me conhece.

Judy soltou um suspiro alto e saiu toda animada para conhecer um grupinho de pessoas novas que estavam por ali.

Eli e Sydney saíram e foram se sentar no deck perto da piscina para continuarem conversando.

Desde que os apresentei, eles não paravam de conversar nem por um segundo. Só não fiquei com ciúmes, porque conheço o Eli há anos e sei que ele é muito carismático com praticamente todo mundo.

Noah e Mason ficaram de vir mais tarde.

Andrew e eu também saímos para o quintal, pois o ar estava mais fresco.

Lá dentro, Josh ligou o som em um volume razoável.

Andrew se virou de frente para mim, me abraçou e começou a se movimentar levemente de um lado para o outro.

— O que você está fazendo? – Perguntei.

— Dançando com você. – Ele sorria.

— Mas essa música.... Ela é tão...

Era uma música bastante agitada, típica de festa.

— Shhhh... Apenas relaxe...

E foi o que fiz, deitando minha cabeça em seu peito e fechando os olhos.

Ele tinha um cheirinho tão bom... Tão característico...

— Vocês querem uma bebida? – Josh nos interrompeu de repente, sem ao menos pedir licença ou se desculpar.

Parece até que fez de propósito.

— Não, cara. Valeu, mas estou de carro hoje. – Andrew respondeu em inglês.

Josh fez uma cara esquisita de quem não entende o que uma coisa tem a ver com a outra. Até que a ficha caiu.

— Mas você, Nina, não está dirigindo hoje...

Eu nem sei dirigir, para ser bem sincera. Mas enfim, aceitei a bebida só para ele sair logo do nosso pé.

— Eu sei. Ele é tão inconveniente! – Revirei os olhos e dei um gole na minha cerveja. Eca! Um gosto horrível.

Andrew pegou minha mão e nós fomos até o deck nos juntar aos nossos amigos. Não tinha muito o que fazer ali.

— Eu gostei dessa garota. – Disse Eli em português e piscou.

Sydney, é claro, não entendeu nada. Mas acho que essa era a intensão do Eli.

Alguns minutos depois, Noah e Mason chegaram e se juntaram a nós.

— Mas... Cadê o pessoal dessa festa? – Perguntou Mason, intrigado.

— Por enquanto o movimento está bastante fraco. – Andrew explicou ao amigo.

— Tá afim de uma bebida, Noah? – Perguntou Eli cheio das intenções. Pelo menos eu percebi. Conheço ele muito bem. — Vamos pegar alguma coisa. Vem!

E eles foram.

— Esse tal Noah é bem gatinho. – Comentou Sydney só para mim. Andrew estava de papo com Mason. — Ele é solteiro?

Ihhhh... Ferrou total.

— Hm, até onde eu sei sim, ele é.

— Hmmm. Interessante.

Passou-se algum tempo e pouca gente tinha chegado. Entrei com Sydney na casa para ver como Judy estava. Ao que parecia, ela já estava muito bêbada. Dançando com um pessoal na cozinha. Josh falava ao telefone em um canto, parecia nervoso por algum motivo.

Lá fora, vi pela janela, Eli estava investindo no Noah. Coisa que Sydney pareceu não ter gostado. Andrew ainda estava conversando com Mason sabe-se lá sobre o quê.

— Vem, vadias! – Gritou Judy na nossa direção. — Balancem essas bundas magras.

Não tive com fugir. Quando dei por mim estava sendo arrastada até o meio do cômodo, me balançando de maneira desajeitada e fora de ritmo. Eu ria de mim mesma. Bom, pelo menos ninguém estava olhando... Engano meu. Andrew estava na porta, me filmando com o celular. Josh ao lado, perplexo.

Abaixei a cabeça e sorri, envergonhada.

Quando cansei de passar tanta vergonha, arrastei Andrew lá para fora de novo. Primeiro eu o beijei docemente. Depois briguei com ele.

— Pode apagar aquele vídeo! – Brinquei.

— Nem pensar! Você estava linda dançando daquele jeito esquisito.

Ele me puxou e me beijou de novo.

**

— Espera aí... Aquele ali é o Eli devorando a boca do Noah? – Perguntei, perplexa ao ver a cena.

Andrew se virou.

— É, parece que sim. – Andrew parecia tão confuso quanto eu.

— Então, ele é gay. Você não sabia?

— Não... Nunca tocamos no assunto. E também, não é como se ele tivesse a obrigação de me dizer algo assim.

— Eu sei... Mas... Ele é seu amigo!

— Parece que nem tanto. – Ele sorriu. — Vamos pegar um refrigerante lá dentro?

Lá dentro, outra cena surpreendente: Judy aos beijos montada no colo do Mason na frente de todo mundo no sofá.

— Que noite, hein. – Eu ri.

— Bem que nós dois também poderíamos aproveitar um pouquinho. – Andrew colocou o refrigerante de lado antes de vir até mim com um sorriso um tanto quanto safadinho.

Ele colocou suas mãos na minha cintura e apertou.

— Que tal a gente ir para casa? – Ele sugeriu.

— Não podemos abandonar nossos amigos.

— Eles nem vão perceber!

Eu ri.

— Mais tarde, ta bom?

Ele assentiu.

— Vou ao banheiro. Já volto.

A porta estava aparentemente trancada. Resolvi aguardar no corredor. Esperei cinco minutos e nada. Bati na porta várias vezes. Nenhuma resposta. Resolvi tentar a maçaneta. Quando abri a porta que estava milagrosamente aberta, houve um grande estrondo diante dos meus pés, no chão.

Noah caiu com Sydney agarrada a ele.

Ela estava com o batom escuro todo borrado, assim com ele.

— Mas que merda é essa? – Berrou Eli. Como ele tinha surgido ali de repente? Eu não sei.

Sydney e Noah arregalaram os olhos. Eli saiu bufando e eu fui atrás, deixando para lá minha vontade de fazer pipi.

— Porque eu só escolho os caras errados?!

— Calma, Eli. Vai ver foi um mal-entendido.

— Não teve mal-entendido, não. Acontece, Nina, que sua amiguinha é uma baita de uma invejosa fura olho. Ela mirou no cara errado. O Noah era meu!

— Bom, pelo jeito ele é de todo mundo.

Ele bufou de novo.

— Eu vou embora. Preciso sair daqui.

— Quer que eu vá com você?

— Não! Estou precisando ficar sozinho. E você, vê se escolhe umas amiguinhas melhores do que essas duas aí.

Ele se referia a Sydney e Judy.

Eli se despediu e se foi. Fiquei com o coração apertado. Queria fazer algo por ele, mas infelizmente não sabia como poderia ajudar.

Resolvi entrar e procurar pelo Andrew. Essa festa maluca foi um caos total. Quem sabe ele ainda estava a fim de ir embora pra gente fazer algo mais interessante e divertido.

Avistei Andrew perto das escadas e ele não estava sozinho. Judy estava com ele, cobiçando meu homem com um olhar devorador de uma verdadeira felina faminta.

Fiquei de longe, só observando.

Eu estava bastante chocada com o que via e arrasada também. Nunca imaginei que algo assim aconteceria logo comigo, bem diante dos meus olhos. Era nítido que ela o desejava naquele momento, eu só queria saber se o desejo ao menos era recíproco. Se fosse... Isso me partiria ao meio.

Mas o que eu queria saber mesmo era porque ele não fazia nada. Ao menos parecia levemente desconfortável naquela situação. Então, porque não se afastava? Judy tentou investir novamente, se jogando pra cima dele. Ela tentou beija-lo. Eu quase fechei os olhos e saí correndo, só que eu precisava ver aquela cena ou jamais saberia a verdade.

Por sorte, o que vi a seguir me agradou bastante. Andrew a empurrou de leve com uma cara feia e disse algo a ela. Judy caiu fora rapidamente, com o rabinho entre as pernas.

Andrew olhou em volta e me viu.

Ele veio até mim com as mãos dentro do bolso da calça jeans.

— Você viu aquilo, não viu? Sinto muito. Eu não sabia o que fazer. Pensei que ela estivesse brincando por estar muito bêbada... Eu jamais imaginei que... Que ela...

— Tudo bem. Você agiu certo. Ela está totalmente fora de si. Ainda assim, é uma vaca e o que fez é imperdoável.

— Então... Vamos embora agora?

— Vamos.

Segurei sua mão e saímos dali.

**

A casa era só nossa, por isso decidimos aproveitar cada minuto. Começamos pela sala e depois subimos para o quarto. Mais tarde, quando já estava tudo apagado e escuro e nossas respirações mais controladas, resolvi dizer algo que eu não conseguia tirar da cabeça.

Meu coração estava pesado.

— Hoje, quando vi aquela cena durante a festa... Eu me senti tão vulnerável. Tive tanto medo de me decepcionar com você a quem tanto gosto e confio e tive medo de te perder...

— Você não vai me perder, Nina. Nunca. De jeito nenhum. – Andrew agarrou forte a minha mão sobre sua barriga lisa e quente. — Não existe ninguém por quem eu me interesse tanto quanto me interesso por você. Foi por você por quem me apaixonei. E é você a pessoa que eu mais amo.

Ele beijou meus cachos soltos e rebeldes.

— Além do mais, eu sou seu agora. Você vai ter que me aturar por muito, muito tempo.

Sorrimos um para o outro em meio a escuridão.

— Não seria nenhum sacrifício. – Disse eu e para finalizar o beijei lentamente, entrelaçando meu corpo ao seu para que não houvesse nenhum espaço entre nós nunca mais.