Muito Além de Mim

13 Meus ultimos dias.


Na segunda-feira entrei no trabalho pisando fundo. Pelo visto, Josh ainda não tinha chegado. Atrasado? Nossa, que novidade. Mas as meninas, Sydney e Judy, já estavam por lá devidamente uniformizadas e atarefadas com os clientes. Apressadamente, guardei minhas coisas nos fundos, no meu armário e bati a porta de mental com força. Queria deixar claro que estava de péssimo humor e elas sabiam porquê. Eu só precisava esperar o momento certo para falar com as duas.

Na minha pausa, corri lá para fora para comer algo antes de voltar ao trabalho.

Sydney veio ao meu encontro, toda esquisita.

Virei-me para ela, irritadiça.

— Qual é o seu problema? Pensei que fosse minha amiga, Sydney. Pensei que tivesse se dado bem com o Eli...

— Nina... Calma...

— Você nos traiu, Syd. – Continuei, tremendo de raiva. Eu não sou muito de explodir, mas quando acontece, sugiro que saiam da frente. — Você o apunhalou pelas costas!

— Nina, eu posso explicar... – Ela se aproximou, os olhos azuis perdidos e o cabelo muito claro preso num rabo de cavalo frouxo. — A culpa foi toda do Noah. Eu juro!

Só me faltava essa.

— Ah, tá bom. Ele te agarrou e você não pôde evitar?

— Bem, foi quase isso. – Ela se remexeu, passando o peso de uma perna para outra. — Eu estava lá no corredor, ele apareceu de repente, puxou conversa, me elogiou, ficou sorrindo, passando a mão no pescoço, me olhando com aqueles olhos cheios de mistério, todo galanteador... Então, de repente... Nós estávamos aos beijos dentro do banheiro.

— Me polpe de suas explicações, Sydney. Eu não quero saber dos detalhes! Você errou e ponto. Viu que o Eli estava interessado no Noah e mesmo assim ficou com ele na festa. Sabe, se você gostou tanto assim dele, poderia ao menos ter esperado e feito isso em outro lugar.

Suspirei, já mais calma.

— Você deve desculpas ao Eli.

— Eu sei! Eu errei e assumo. Fui uma vaca! Mas você não acha que já não tentei me desculpar? Ele ignora todas as minhas tentativas. Não sei mais o que fazer, amiga.

— Ele está chateado. Normal.

— Eu me sinto péssima, Nina. De verdade. Quero muito consertar isso. Eu não pensei direito no que estava fazendo. Só aconteceu. Eu sabia que ele estava a fim do Noah, mas sabia também que ele estava magoado por causa de outro cara...

— Venha comigo para casa hoje depois do trabalho. – Eu pedi, calmamente. — Tente conversar com ele.

Apesar de tudo, eu queria ajuda-la. Sabia que ela era uma boa garota. Eu gostava muito dela desde que vim trabalhar aqui. Ela me ajudou muito, jamais esqueceria isso. E também, não queria que houvesse nenhum abismo entre nós.

**

Estava preparando um café para um cliente, quando Judy parou ao meu lado e espero eu terminar de usar a máquina para ela poder usa-la também logo depois de mim.

O movimento por ali estava intenso. Tínhamos muito trabalho.

— Pare de suspirar toda vez que chego perto de você. – Ela grunhiu.

— Eu estou furiosa com você, Judy. – Disse eu, sem olhar para ela. Concentrada no meu trabalho ao máximo.

Eu estava cada vez melhor.

— Você está de TPM, não está? Parece que hoje está de mal com o mundo todo.

— Não, não estou de TPM coisa nenhuma. Estou puta com você. Louca para meter a mão na sua cara sínica.

Ela arregalou os olhos, não tinha visto esse meu lado ainda.

— E não se faça de desentendida, Judy.

Desliguei a máquina, fechei o copo de café extraforte e entreguei ao cliente que me aguardava próximo ao balcão.

Esperei ela terminar também.

— Você tentou agarrar meu namorado! – Disparei depois que ela serviu seu cliente. — Você se lembra disso?

Judy deu um passo para trás.

Os poucos clientes que estavam por ali olharam para nós, curiosos com a cena. Eu bem que tentei evitar um espetáculo, mas não podia mais me segurar. O dia já estava terminando.

— Nina... Que diabos você tem?

— Você é uma vadia, Judy! E o que fez foi imperdoável. Eu deveria quebrar o seu nariz agora, mas eu seria despedida...

— Ah, então é isso? – Ela abriu um sorrisinho sacana. — Isso é sobre a festa.

— É claro que é sobre a festa! E sua bebedeira e o vexame que você deu na frente de todo mundo.

Ela estreitou os olhos.

— Quer saber a verdade, Nikolina? Você e aquele cara... O Andrew... Vocês não vão durar. Ele merece coisa melhor...

Cerrei os punhos, a raiva voltando a todo vapor.

— Você não viu? Ele estava cansado de você e totalmente na minha. Eu não poderia deixar algo assim passar...

Eu nunca briguei com ninguém assim, nem nunca cogitei tal possibilidade. Mas naquele momento eu não era mais eu.

Parti pra cima dela. Judy deu um grito. Consegui agarrar parte do cabelo castanho dela. Pessoas se levantaram para ver melhor a cena. Sydney pedia ajuda, desesperada. Eu só queria brigar. Mas o Josh surgiu do nada. Tinha acabado de chegar pelo visto. Ele se aproximou correndo e colocou as mãos de mim, tentando me afastar de Judy de qualquer forma.

No final das contas, eu não fiz nem um estrago grandioso como gostaria. Judy fez um drama enorme. Chorava no canto, me chamando de maluca o tempo inteiro.

Sydney veio ver como eu estava. Eu estava bem, não tinha sofrido nenhum dano. Judy nem tocou em mim. Ela não teve chances. Tudo que eu precisava agora era me acalmar e de um pouco de espaço e beber um gole de água gelada.

**

Andrew me convidou para viajar com ele na sexta-feira para Brisbane.

Eu aceitei, porque sabia que seria um final de semana incrível ao lado dele e era isso que eu estava precisando: só nós dois por alguns dias. E eu também estava precisando tirar alguns pensamentos dessa minha cabeça maluca.

Nós chegamos por lá durante a madrugada e por essa razão estava quase tudo fechado e nós também estávamos muito cansados por causa da longa viagem. Então, só tomamos banho e fomos direto para a cama.

Acordamos bem cedinho e descemos para tomar café da manhã no hotel onde nos hospedamos, depois fomos dar uma volta no entorno para conhecer melhor a cidade. Era tudo muito novo para mim. Tudo muito bonito, organizado e agradável. O clima, infelizmente, não era dos melhores. O céu estava coberto de nuvens cinzas e chuvosas.

Quando paramos a tarde para comer em um restaurante pequeno e com uma decoração mais antiga, mas muito charmosa, Andrew viu na internet que teria um jogo aquela noite de rugby. Eu nunca tinha ido em um jogo assim tão grandioso, nem mesmo no Brasil. Não era do meu interesse, mas seria uma grande e primeira oportunidade.

Apesar do friozinho a noite, o jogo foi incrível. Eu não entendi muito, mas Andrew era paciente e fofo. Tentando me explicar tudo o máximo que podia com as palavras certas e compreensíveis. Nós comemos pipoca, cachorro quente e tomamos refrigerante. Ah, tiramos fotos de tudo também.

Chegamos no hotel muito tarde devido ao transito que pegamos pelo caminho. Tomamos banho juntos na banheira do nosso enorme banheiro, fizemos amor e fomos dormir.

Domingo seria nosso último dia por aqui, infelizmente. Eu queria ficar mais, conhecer mais, fotografar mais, caminhar mais, só que não podíamos abandonar tudo. Muito menos os nossos trabalhos.

Nossa primeira parada do dia foi na praia artificial construída no meio da cidade chamada Streets Beach. Nós até vimos alguns brasileiros por ali em bandos. Compramos alguns donuts e café para comer por ali mesmo, com os pés dentro da água geladinha. Hoje o dia estava mais agradável, ainda com bastante nuvens, mas o sol estava tentando reagir.

Vimos alguns vendedores e resolvemos ver de perto do que se tratava. Eram umas caras hippies que faziam sua própria arte, assim como existe muito no Brasil nas ruas e praias. Andrew me comprou uma pulseirinha com vários pingentes de peixes coloridinhos. Um amorzinho. Não tinha como não olhar para objeto e não lembrar dele e seu amor pelos mares.

— É lindo, Peixinho. – Eu nunca tinha pensado em nenhum apelido para ele, mas aquele parecia perfeito e ideal para a ocasião mágica. Ele sorriu, acho que gostou. — Obrigada. Vou guardar para sempre.

Durante nossa caminhada pelas margens do rio onde se era possível ver o skyline de toda a cidade, eu vi de longe uma roda gigante e pulei feito criança, louca para ir dar uma volta.

Foi bem no topo da roda gigante onde eu e Andrew tiramos juntos a foto mais perfeita de todas no meio de um beijo carinhoso e apaixonado. Aquela foto com certeza já era a minha preferida e iria ser o plano de fundo do meu celular.

Nós também fomos conhecer as construções históricas da cidade e acabamos encontrando uma feirinha de produtos orgânicos, onde nós resolvemos almoçar.

Ouvimos dizer que em algum lugar por ali havia um santuário de coalas. Eu fiquei louca para ir até lá ver os bichinhos de perto, mas já era tarde e a viagem era de mais de trinta minutos até lá. Infelizmente essa visita teria que ficar para uma próxima, pois tínhamos que voltar cedo para casa.

Pegamos nossas coisas no hotel, fizemos check-out na recepção e voltamos para casa antes do temporal nos alcançar.

**

Eu só tinha mais duas semanas aqui na Austrália.

Eu deveria estar correndo atrás das coisas e já deveria ter tomado uma decisão definitiva, mas acabei deixando tudo de última hora para variar.

Nem se quer falei com o Mr. Wilson sobre eu possivelmente ter que pedir as contas do Café porque tinha que ir embora em poucos dias.

Deveria ter sido fácil decidir se eu ia ou não ficar mais algum tempo por aqui. Principalmente por causa do Andrew e de nós. Afinal, eu o amo e estamos mais felizes do que nunca. Mas quando eu paro para pensar um pouco, eu me pergunto se isso não seria loucura demais. Porque vai que tudo desmorona de uma hora para outra e dá tudo errado.

Eu não suportaria ter que ficar aqui sozinha, sem ele, sem amigos, sem ninguém. Não sabia se seria capaz de me virar caso algo de ruim acontecesse entre nós. Era uma decisão muito importante. Muito mais do que realmente parecia. Por isso eu evitei tanto me decidir logo e por isso mesmo tão em cima da hora ainda não tinha chegado a nenhuma conclusão.

Sei que parece bobo da minha parte ainda ter tantas incertezas. Mas a vida é isso: repleta de incertezas. As vezes nós somos corajosos e corremos riscos, mas as vezes nós somos covardes demais para algo assim. E nesse momento, eu não sei bem quem sou. Sei que sou uma jovem tremendamente apaixonada por um cara brasileiro que construiu uma vida inteira aqui na Austrália, mas isso é tudo que sei.

Não sei o que futuro nos reserva, o que o futuro me guarda. Não sei como será a minha vida caso eu resolva ficar ou ir de vez. Não sei se isso vai durar tanto quanto gostaríamos que durasse. Não sei se vou sobreviver a tantas mudanças por tanto tempo. Tempo indefinido. Não sei de nada.

E isso me machuca, pois eu detesto conviver com tantas incertezas, duvidas e receios.

Andrew é um cara maravilhoso e já me prometeu céus e terras. Mas todos os casais apaixonados prometem mil coisas um ao outro. É assim que funciona. É como um ritual entre os casais que se amam. Nós prometemos ser o melhor, prometemos fazer isso durar, prometemos amar por toda vida, prometemos sempre fazer o possível, só que as vezes nada disso é o bastante. As vezes nós nem chegamos perto disso. Não porque não queremos, mas sim porque as coisas são como elas têm que ser e gostando ou não temos que aceitar.

— Adivinha o que chegou! – Eli deu um berro ao entrar com tudo pela porta. Eu que estava devaneando, bati a cabeça com força no beliche de cima e choraminguei.

Não esperava ser interrompida dessa forma.

Eli colocou as duas caixas enormes na minha frente, sobre o colchão. E nós abrimos juntos. Eram nossas roupas para o baile do fim do intercambio que fazia um tempo tínhamos encomendado pela internet.

— Que cara é essa? Você não está empolgada? – Perguntou ele, todo sorridente e alegre. — Seu vestido é lindo!

— Eu sei, eu sei. É só que... – Levantei-me e guardei o vestido de volta na caixa. — Eu não estou muito bem hoje.

— Você está doente? – Ele me olhava atentamente. — Está com algum problema? Quer conversar? Nós podemos sair para jantar e...

— Estou sem fome. Obrigada. Mas eu acho que prefiro descer e dar uma caminhada antes de ir dormir.

Ele assentiu levemente.

— Tudo bem então. – Pegou minha mão e a beijou.

Até a algumas semanas atrás eu estava animadíssima com a ideia de ter primeiro baile da minha vida, mas com a aproximação da minha partida tudo mudou subitamente.

Andei distraidamente pela vizinhança sem nenhum rumo especifico quando meu celular tocou.

Era o Andrew.

Primeiro, ele perguntou como eu estava, o que eu estava fazendo, como tinha sido meu dia e eu tentei ao máximo ser convincente em todas as minhas respostas curtas e breves. Não queria preocupa-lo com minhas paranoias.

Quando terminamos de conversar, resolvi voltar para casa e novamente o celular tocou quando eu já subia as escadas.

Nem olhei quem era. Certamente deveria ser o Andrew. Ele deve ter se esquecido de dizer alguma coisa.

— Alô? Nikolina?

Meu coração gelou. Não fui capaz nem de continuar subindo. Apenas me apoiei na parede e fechei os olhos.

— Mãe?

— Ah.. Oi! Filha... Finalmente consegui falar com você.

Eu não sei ao certo o que estava sentindo: fúria, tristeza, nostalgia, saudade, rancor. Um misto de sentimentos indecifráveis e perturbadores em todos os sentidos possíveis.

— Mas... Como você conseguiu meu número?

Ela deu uma risadinha.

— Não foi fácil, admito. Eu tive que insistir muito. Só não entendi o porquê da dificuldade dos seus avós me passarem seu número. Qual é o problema? Eu sou sua mãe!

Por sinal, uma mãe com quem não tenho contato há anos...

— O que você quer, mãe? – Não queria ter soado tão fria, mas não podia evitar. Tudo era muito conflitante.

— Saber de você... Apenas isso. Como você está, meu bem? Soube que conheceu um cara... Como ele é? E como vão os estudos por aí? Soube que esse lugar é um paraíso... Como está o Eli? Vocês ainda são inseparáveis? Ele deve estar tão crescido! E quando você pretende voltar? Estou com saudade!

— Mãe... Calma... Não estou entendendo o porquê disso tudo. Espera. – Suspirei fundo, tentando me controlar ao máximo. — O que você está fazendo? Que tipo de perguntas são essas? Você desapareceu, lembra? Eu não sei de você há muito tempo e agora você me aparece assim do nada e...

Ela ficou muda do outro lado.

— A verdade, filha, é que preciso de você. Eu estou bem agora. Totalmente limpa e recuperada. Eu juro! Tive tempo de pensar sobre muitas coisas. E sinto sua falta. Quero você de volta, quero me reconciliar com você, acertas as coisas...

— Você não pode me dizer essas coisas agora, mãe! Não agora. – Começo a chorar. Foi inevitável. Tudo que estava acontecendo agora era inacreditável. Uma onda gigante caindo sobre mim. — Eu também precisei de você, sabia? Eu precisei muito de você. E você não estava lá! Você nunca esteve...

— Nina... Por favor. Apenas escute, querida.

— Não! Não! Não! Olha, eu já escutei demais. Isso é ridículo! Um absurdo. Você não tem esse direito!

— Apenas... Volte. Por mim, querida. Sua mãe precisa de você mais do que nunca. Me perdoe! Vamos consertar as coisas. Por favor! Volte para casa. Volte para mim, meu bem.

Não suportei mais e desliguei.

Entrei aos prantos no apartamento.

— Meu Deus, Nina! O que aconteceu?!

**

— E como é o seu vestido? – Perguntou Andrew durante nosso passeio pela praia naquela manhã de domingo.

— Como é que é? – Parei, surpresa. Eu não tinha conversando com ele sobre essas coisas ainda.

Então, como ele sabia?

— Eli comentou comigo um dia desses, sobre a tal festa de despedida do curso de inglês de vocês. Ele não sabia que eu ainda não sabia e acabou falando. Mas foi sem querer!

Revirei os olhos.

— Ele sempre fala demais. Mais do que deveria. Esqueça isso, Andrew. Vamos dar um mergulho? – Puxei-o.

— Não. – Ele me puxou de volta. — Porque você não quer conversar comigo sobre isso? Porque não me falou antes sobre o tal baile? E nem sobre o vestido? O que está acontecendo com você, Nina? Está tão estranha ultimamente! Você não quer que eu vá com você a essa festa, é isso? Porque se esse for o problema, tudo bem. Eu entendo...

— Não! Não é isso. Bem, não é só isso. É muito mais que isso. Só não quero falar disso agora, tudo bem?

— Então qual é o problema?

Ele era insistente e eu teimosa.

— É sobre tudo. – Acabei me sentando na areia, porque sabia que a conversa seria longa. Ele sentou-se também, me olhando atentamente. — Eu só tenho mais alguns dias aqui e eu estava muito decidida a dar uma chance a tudo isso. Estava disposta a ficar aqui com você para vivermos juntos e felizes. Foi muito difícil pensar sobre isso, mas eu sabia que seria o melhor para mim, para nós. Mas aconteceu uma coisa.

Ele não me interrompeu nem por um segundo.

— A minha mãe me ligou. Lembra dela? Sei que evito ao máximo falar sobre a minha família e os nossos problemas, mas você sabe tudo que passei e sofri até chegar aqui. Então, de repente ela me liga e diz coisas que bagunçam todo o meu mundo. – Olho bem para ele, sentindo os olhos marejados. — Ela me pediu para voltar, Andrew. Pediu para eu perdoa-la, pediu para eu dar uma chance a ela.

Deixei as primeiras lágrimas escaparem e não pararam mais.

— Você sabe o quanto isso é difícil para mim? Depois de todo esse tempo escutar exatamente o que eu sempre sonhei escutar quando tinha... Sei lá... Uns quinze anos? Mas agora eu tenho mais de quinze! Sou praticamente uma adulta e achei que tinha superado ou pelo menos tinha deixado isso para lá... E então tudo volta de repente e arruína tudo.

Escondo meu rosto entre os dedos e soluço.

Andrew me abraça por um rápido instante.

— Olha só. Olha pra mim. – Ele segura meu rosto com aquela suavidade que me apavora e ao mesmo tempo me agrada muito. — Não espere que eu seja o cara que vai te fazer escolher entre mim e a sua mãe. Porque eu não sou assim. Eu nunca te colocaria nessa posição, Nina.

Com os polegares ele limpou minhas lágrimas.

— Se você tem que ir para se resolver com a sua mãe, então, por favor, vá. Não se prenda a nada e nem a ninguém aqui. Mas essa é uma decisão sua. Somente sua. Eu te amo muito e continuarei aqui te esperando, louco para fazer isso dar certo quando tiver que ser. Vamos dar um jeito.

Por fim, ele beijou meu rosto molhado. Mas eu não pude suportar. Isso não podia ser real. Ele não tinha que ser assim sempre tão fofo e perfeito. Sempre tão educado, gentil e sábio. Ele tinha que ser o cara que me faz escolher entre tudo ou nada. Ou fica ou vai. Se eu ficar, melhor. E se eu ir, o perderia para sempre.

Ele deveria tornar essa decisão mais fácil, mas tornou.

E foi por isso que eu me levantei abruptamente e saí correndo dali com lágrimas pingando dos olhos. Não sabia como suportar aquele peso enorme. Não sabia como carregar isso sozinha e Andrew não tornava isso mais fácil, só mais difícil. Mas por outro lado, eu entendia o lado dele. Eu respeitava o tipo de pessoa que ele era. Ele não tinha que fazer tanto por mim. Eu que deveria ser a pessoa decidida e firme por aqui.

Todas as decisões da minha vida dependiam muito mais de mim do que qualquer outra pessoa.