Muito Além Da Dor!

5 Capítulo 5 EM CARNE VIVA...


Notas iniciais
Amados todos! Sei que estou atrasada nas respostas dos reviews, mas mesmo que demore, eu responderei. Estou priorizando a escrita e a postagem, porque neste fim de ano, o trabalho e outros compromissos me exigem muito e eu ainda tenho que atualizar outras fics. Me perdoem a demora, mas saibam que, como sempre faço, eu responderei a todos! Bjs e obrigada!

— Você é mesmo um homem intrigante. Um heliporto nos fundos de casa... Uma estrutura digna de um James Bond— disse Esmeralda tentando acompanhar o passo firme e rápido de Ikki.

— Esse lugar é bastante isolado, preciso de um transporte rápido.

Esmeralda franziu o cenho. Uma infraestrutura como aquela exigia muito dinheiro. Na realidade, para ter e manter tudo aquilo, Ikki devia ser milionário. Porque ele era um agente? Diversão? Vício em adrenalina?

Como se lesse os pensamentos dela, ele falou:

— Esse lugar e toda essa estrutura me foram deixados como herança. Meus pais morreram num assalto quando eu tinha 15 anos. Na época, a polícia japonesa não se mostrou interessada em investigar, por isso eu mesmo resolvi descobrir quem eram os criminosos. Acabei adentrando um segredo de família. Meu pai havia desafiado um chefe da Yakuza e acabou pagando caro por isso. Nossa família tinha posses, então eu deixei o Japão e usei os recursos para proteger meu irmão e seguir carreira como investigador.

— Então você conheceu meu pai...

— Sim, Guilty foi o único que viu além do verniz que me rotulava como um riquinho com sede de aventura. Mesmo que ele tivesse segundas e terceiras intenções, sou-lhe grato por ter me tornado o que sou.

— Você... encontrou quem matou seus pais?

— Sim.

— E?

— Estão mortos. Agora vamos, não quero que Seiya tenha mais surpresas. – disse Ikki encerrando o assunto.

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Hyoga abriu os olhos, sentindo que era carregado com relativa facilidade por Seiya. Quando deu por si, estava em um táxi e rumando, rapidamente, pelas ruas que pareciam borrões coloridos.

— O-Onde... está me levando? – perguntou o russo.

— Já disse, para a Fortaleza. – respondeu Seiya de olho em tudo.

— Sei que não devo me meter, mas... o garoto aí parece precisar de um hospital. – disse o motorista do táxi.

— Ele vai ficar bem, foi apenas um pequeno acidente doméstico. – falou Seiya.

O motorista fez uma cara de “sim, acidente... tá me tirando pra otário, garoto?”e continuou dirigindo. Seiya permanecia atento, a arma próxima ao corpo. Nessas horas, ele não brincava, nem fazia piada. Ikki contava com ele e não iria se decepcionar.

— Ali! pode nos deixar ali. – disse Seiya ao motorista.

Buena suerte.— disse o motorista hispânico.

Seiya agradeceu e ajudou Hyoga a sair. Quinze minutos depois, um helicóptero aterrissava no Central Park para surpresa de alguns atletas noturnos e casais de namorados.

Hyoga fazia força para manter-se acordado, mas Seiya tinha lhe aplicado algo para a dor que o deixara sonolento. Viu a face preocupada de Ikki e também a de Esmeralda. Então tudo escureceu, novamente...

— Faça o que eu lhe disse e diga a Isaac que eu dou notícias. – disse Ikki despedindo-se de Esmeralda.

A jovem fez que sim com a cabeça e, logo em seguida, seu celular tocou.

— Onde você está? – perguntou a voz.

— Neste exato momento, no Central Park. – respondeu ela.

— Venha para cá imediatamente. Houve uma mudança nos planos.

— Ele está com Hyoga. – disse ela, baixo.

— Eu sei e é melhor que Hyoga fique com ele.

— Como?

— Eu explico quando chegar. Mantenha-se atenta e tome cuidado.

Esmeralda ainda olhou para o céu, vendo o helicóptero transformar-se num pequeno ponto negro até sumir. Suspirou e foi em direção ao caminho que levava até um táxi, quando uma criança maltrapilha aproximou-se dela estendendo a mão.

— Uma esmola... moça?

Algo sinalizou dentro de Esmeralda que deu um passo para trás, mas já era tarde demais. Um homem corpulento chegava pela sua retaguarda e ela sentia a ponta de uma adaga na altura das costelas.

— Sorria milashka e caminhe sem atrair a atenção se quer viver. – ameaçou o homem.

Esmeralda obedeceu e logo entrava em uma limusine, onde um homem bem apessoado a esperava.

— Então, minha cara... Que tal uma breve conversa em particular?

Nikolai Poseydon abriu um champanhe e estendeu uma taça para Esmeralda.

— Não, obrigada! – disse ela, recusando.

— Ora, minha querida... Uma mulher atraente como você não deve privar-se dos prazeres da vida. Beba, vai relaxar e se sentir melhor. – insistiu o russo.

— Senhor... Nikolai, eu não estou aqui por vontade própria, então diga logo o que quer comigo.

Baixando os cílios, o russo demorou-se a contemplar os lábios pequenos e rosados de Esmeralda, para depois admirar as curvas que o tecido fino do vestido revelava.

— O que eu quero? Bem, neste exato momento, eu gostaria de tomá-la em meus braços, despi-la e fazer amor com você. Mas, primeiro o dever, depois o prazer...

Esmeralda sentiu-se estremecer, chocada em ouvir aquelas palavras.

— Está jogando comigo. O que quer, realmente, senhor Nikolai?

— Eu quero que leve uma mensagem a Isaac, só isso.

— Uma mensagem?

Um sorriso perverso delineou-se nos lábios finos do russo e no espaço restrito da limusine, ele aproximou-se de Esmeralda, puxando-a pelos cabelos. Ela tentou reagir, mas sentiu, mais uma vez, o contato da lâmina fria com sua pele. Nikolai moveu a mão livre para as costas femininas e após baixar o vestido dela, cortou com a faca o sutiã de renda que ela usava expondo os seios pequenos e empinados.

Aterrorizada, Esmeralda gritou ao sentir-se, barbaramente despida e Nikolai cobriu sua boca com a dele. Ela o mordeu e ele riu, passando a língua no sangue que escapava em um filete...

— Selvagem, lubimaya... Eu gosto! – disse Nikolai puxando-a com força pelos cabelos, fazendo-a dobrar a cabeça para trás.

— P-Pare! – gritou ela.

O russo ignorou-a e foi levando a ponta da faca até o ombro esquerdo dela, riscando a pele alva e gravando uma letra. Era um grande K. A jovem gritou de dor, mas Nikolai ignorou-a até terminar o trabalho.

— Esse é o meu recado para Isaac... diga que se ele não me der o que é meu eu destruirei cada agente, cada operação que ele empreender. A cruzada já começou, meus inimigos tramam a minha queda e ele me deve!... Você será minha última tentativa de trazê-lo à razão!

Com lágrimas escorrendo pelos olhos, Esmeralda fitou o rosto do russo, temendo o que viria a seguir. Então, ele a recompôs e abriu a porta da limusine.

— Agora vá, lubimaya e, na próxima vez que nos encontrarmos, eu prometo que será a vez do prazer.

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O céu pareceu se abrir para desatar num aguaceiro. As nuvens negras brilhavam com os relâmpagos e a chuva, agora atingia as janelas com uma força incrível. Numa questão de segundos o céu ficou tão escuro que parecia noite em vez de o começo da manhã.

Um trovão ribombou no mesmo instante em que Hyoga abria os olhos. Estava deitado na cama larga do quarto de Ikki que possuía uma porta de vidro que dava direto para o jardim interno da casa. A primeira visão do russo foi o moreno sob um fundo de pingos d’água escorrendo.

Por reflexo, Ikki estendeu a mão para ele, fechando-a sobre o ombro do russo, acalmando-o.

— Calma... Está tudo bem.

O jovem franziu o cenho e olhou em volta.

— Não tenho medo de trovões... – disse Hyoga erguendo um pouco a cabeça e sentindo um gosto horrível na boca.

— É a força do hábito. Eu sempre ficava ao lado do meu irmão quando... Bem, isso já faz muito tempo. Como se sente? – perguntou Ikki.

— Parafraseando um certo agente, meu corpo inteiro dói, mas não posso me dar ao luxo de pensar nisso agora. Porque me trouxe aqui?

Parafraseando? De onde você tira esse tipo de vocabulário? – falou Ikki franzindo o cenho.

Hyoga bufou e apertou os olhos que estavam doloridos.

— Que remédio aquele seu amigo sem noção me deu? Quase não consigo abrir os olhos.

— Um pouco de codeína. Sempre carregamos conosco, caso sejamos feridos e precisemos continuar até receber atendimento. Ele achou que você estava nervoso com todos os acontecimentos e não quis que sentisse muita dor no ferimento.

O olhar crítico de Hyoga recaiu sobre o de Ikki.

— Ainda não me disse por que me trouxe para cá? Isaac sabe?

— Há essa hora, já deve saber. E você está aqui, porque agora, está sob a minha proteção. E antes que comece com a ladainha que não precisa disso ou daquilo, aconselho que descanse bem e se prepare para a conversa séria que vamos ter.

— Que conversa séria é essa?

— A que ainda não tivemos, a qual você vai me contar direitinho quem é e que tipo de habilidade é essa que o faz ver e ouvir através das paredes. Agora descanse até passar o efeito da codeína. – disse Ikki deixando o quarto.

Hyoga sentiu como se tivesse levado um baque. Estava cansado, ferido, mas o que o incomodava era perceber que tudo o que acontecera parecia estar ligado mais a si que aos outros agentes. A participação naquela missão, a invasão ao hospital, a perseguição da mulher, o ataque ao seu apartamento... Em todas as cenas, a figura que se repetia era a dele!

Fechou os olhos tentando enxergar a conexão, ver o que ainda não tinha percebido. Porém, sua cabeça doía e sua boca estava seca. Notou um copo e uma jarra ao lado da cabeceira da cama. Bebeu com certo nervosismo e tornou a deitar, sentindo-se vulnerável como jamais pensou que se sentiria, novamente.

Ikki deixou o quarto pensativo. A presença de Hyoga ali mexia com ele em uma proporção estranha. Quando fechara a porta e vira o rosto bonito olhá-lo de um jeito vigilante, algo dentro de si teve vontade de voltar e tomá-lo nos braços, dizer que estava tudo bem, que ele não seria ferido novamente...

Jamais se sentira tão ciente da presença de alguém, ao ponto de experimentar, dentro de si, ternura e desejo, emoções que não tinham mais espaço em sua vida. Considerava-se um homem duro, do tipo que fazia o que tinha de ser feito. Sem remorsos, nem sentimentalismo. O único a quebrar essa barreira tinha sido Shun, mas quando ele se fora, ela erguera-se, novamente, ainda mais forte e inquebrantável.

Ainda não tinha uma explicação decente para si mesmo sobre o motivo de colocar o jovem no seu quarto. Tentava justificar que vê-lo em sua cama lhe dava maior segurança emocional para protegê-lo.

Não minta pra si mesmo, Ikki! Você o quer, mas sabe que seria uma roubada! Então, vá se contentando em vê-lo em sua cama e travesseiros, afinal, faz muito tempo que você não transa, nem ao menos se masturba! Isso, sublime seus instintos como dizem os psicólogos! Contente-se em sentir o cheiro dele, seu... Patético!

Com os pensamentos ecoando em sua mente ao estilo daquelas batalhas entre o anjo e o demônio nos desenhos animados, Ikki foi até a sala onde comandava tudo. Kanon juntou-se a ele com duas canecas fumegantes de café e um cigarro.

Isso aí ainda vai te matar. — disse Ikki apontando para o cigarro.

— Acho que não, certamente não viverei muito ao ponto de desfrutar um câncer de pulmão. – respondeu Kanon dando uma longa tragada.

Ikki sorriu e continuou a vasculhar os monitores, tendo uma visão das estradas próximas e também de toda a sua propriedade que recebia a chuva torrencial.

— Estranho Isaac não ter ligado... Estou começando a crer que existe algo muito obscuro nessa história toda. – disse Ikki sorvendo um gole de café.

— Também acho e arrisco dizer que tem a ver com certo jovem russo. Essa história de padrasto não me desceu direito. – falou Kanon soltando uma baforada de fumaça em espiral.

— Investigue-o pra mim, quero saber o máximo sobre a relação dele com Isaac.

— Já comecei, mas muitas das informações sobre eles estão bloqueadas. Tanto juntos, como individualmente. Consegui acessar só o que já sabemos.

— Vou deixá-lo descansar um pouco mais e depois vou falar com ele. Paciência, eu vou ter de pressioná-lo. – disse Ikki apertando o canto interno dos olhos.

— Ele mexe com você, não? – perguntou Kanon.

Impressão sua. Ele é apenas um garoto.

— Garoto? Ele é jovem, é verdade, mas também é considerado um gênio, assessora figurões da Universidade e cuidou da mãe que sofria de esquizofrenia e depressão. Pelo que eu descobri, Isaac ofereceu apoio e juntos, os dois mantiveram Natássia longe de instituições psiquiátricas. Mas, ao que parece, algo saiu do controle e ela cometeu suicídio... Hyoga passou por coisas que o tornaram mais maduro que muita gente.

—Eu sei disso, mas... quando eu olho prá ele, eu lembro do Shun e do que ele poderia ter sido. Lembra que ele também era um expert em jogos e até desenvolveu alguns? Tinha uma empresa japonesa interessada. Mas, então ele adoeceu... Ah, Kanon, eu devia ter ficado com ele naquele dia.

— Não adianta ficar se martirizando, Ikki. Ele estava bem, você não poderia ter adivinhado.

— Errado. Eu senti que ele precisava de mim, mas a verdade é que eu não quis que ele me visse fraquejar, eu... pensei que se fizesse tudo da mesma forma, nada iria acontecer! Eu fui covarde, Kanon! – disse Ikki com tanta amargura que o amigo tocou-o no ombro.

— Então somos dois, amigo. Quando Saga aceitou aquela missão eu também fingi que tudo ia dar certo. E quer saber, até hoje eu não acredito que ele morreu! Eu ainda continuo acionando meus contatos, tentando saber detalhes... Eu sinto que, qualquer dia, ele vai entrar pela porta e me abraçar dizendo que tudo não passou de um pesadelo!

Os dois se olharam em uma cumplicidade única. Então Hyoga surgiu na porta, quebrando o momento.

— Desculpem, mas... – nem bem acabara de falar, Hyoga sentiu-se tonto.

Ikki levantou rápido para ampará-lo.

— E-Eu estou bem. – disse o russo, mas a sala girando diante dos seus olhos traía suas palavras.

— Vem, sente-se aqui. – disse Ikki puxando a poltrona giratória.

Hyoga sentou-se e então se deu conta dos computadores em rede e das imagens que piscavam em um e outro, mostrando cenas, temperatura e uma série de outras informações.

— Então é aqui o comando central... Você escolheu bem. Esse programa permite uma maior fluência de informações em poucos segundos. – disse Hyoga forçando uma postura de estou bem!.

— Verdade, é o mesmo usado pelo FBI. – falou Ikki.

— Eu sei, fui eu quem o recomendou a Isaac. O software é meu.

Kanon franziu o cenho e Ikki também.

— Querem um café?- perguntou Kanon.

— Eu prefiro um copo de leite gelado. – respondeu Hyoga.

— E eu um uísque. – disse Ikki.

Foi a vez de Hyoga franzir o cenho. Uísque? Àquela hora da manhã?

Ikki percebeu o olhar reprovador do russo sobre si e pensou em como extrair dele, as respostas que tanto desejava.

— Então, Hyoga... Além da sua genialidade para informática, que outros talentos têm? Pode começar com aquela emboscada e a forma com que você disse ter ouvido a conversa dos russos, quando a transmissão não nos permitia isso...

Hyoga sorriu sob o olhar intenso de Ikki. Os olhos do agente possuíam uma espécie de brilho raivoso, como se ele fosse saltar no pescoço se a resposta dada não fosse satisfatória.

— Você não acreditaria em mim, seu eu te contasse.

— Tente.

— Então tá. Mas, lembre-se, foi você quem insistiu. Bem, eu posso... ver e saber coisas que aconteceram e que acontecem em determinado tempo. Só não consigo prever o futuro, então não me peça pra saber o seu destino ou algo do gênero.

— Interessante... um vidente meia boca. Mais alguma coisa?

— Bem, eu falo com os mortos.

— Você o quê? Ah, não me diz que você pertence àquele clubinho de gente que se senta em volta de uma mesa e fica invocando espíritos! – falou Ikki com escárnio.

— Não, eu não pertenço a nenhum clubinho e nem invoco espíritos. Eles é que me procuram quando precisam de algo.

Ikki gargalhou, depois se serviu de mais uma dose de uísque e só então voltou a encarar Hyoga. O russo continuava com sua expressão impassível, embora, em seu íntimo, ele desejasse dar um soco no moreno. Provavelmente, eu quebraria minha mão, mas pelo menos, tiraria aquela expressão irritante do rosto dele!

Fale de mim! Hyoga ouviu a voz de Shun sussurrar-lhe.

— Ele não ia acreditar em mim. – falou Hyoga.

Ikki olhou-o como se estivesse diante de um doido varrido.

— Pelo visto tá falando com um, agora... – disse Ikki rindo.

— Estou e é o seu irmão. – falou Hyoga sério e olhando bem dentro dos olhos de Ikki.

Ikki aproximou-se dele com os olhos escurecidos pela cólera.

— Escute aqui! Não meta meu irmão nessa merda! Você não tem o direito, ouviu?

— Ikki, calma companheiro! – disse Kanon.

— Foi ele quem me procurou, não o contrário. Ele quer te dizer uma coisa, algo que...

O agente não esperou Hyoga terminar a fala e, ignorando Kanon, avançou e pegou Hyoga pelo braço.

— Eu já disse que não é pra brincar com isso! Estou avisando!

Ikki, não faça isso! Disse Shun, mas seu irmão não podia vê-lo, nem ouvi-lo. Então, ele sussurrou algo para Hyoga.

— Largue-o, Ikki. – insistiu Kanon chegando junto dos dois.

— S-Seu irmão disse que a morte dele não foi culpa de ninguém, que foi um acidente, mesmo que a autópsia tenha dado o laudo como erro médico na aplicação de morfina.

— O quê? O que você está dizendo?— gritou Ikki ficando pálido.

— Ele me disse que não houve erro médico, que foi ele quem se autoaplicou a última dose de morfina, porque não aguentava mais a dor e não queria que você o visse sofrer. A enfermeira havia deixado uma dose preparada para dali algumas horas, mas a dor era tão forte que ele não quis esperar e ele mesmo se aplicou a injeção, vindo a sofrer de parada cardiorrespiratória, logo a seguir. Você culpou a enfermeira, mas a verdade é que ela não pode fazer nada.

Ikki levou as mãos aos cabelos. Deus! Não é possível! Isso só pode ser um truque! Dizia para si mesmo.

— Seu irmão sabe que você se culpa pelo que aconteceu, mas foi um acidente. Ele sofre por tê-lo deixado, mas precisa que você siga em frente e perdoe a si mesmo. Por isso ele fica indo e vindo... Ele estava aqui, mas agora se foi...

Os olhos azuis escuros de Ikki encontraram os cristalinos de Hyoga. O jovem russo parecia febril, as maçãs do rosto estavam afogueadas, ao levantar-se da cadeira.

— Volte... para o quarto. Kanon, por favor, ajude-o. – disse Ikki entre dentes.

— Venha, Hyoga você só precisa de descanso. – falou Kanon.

— Não é preciso. Eu... Eu quero sair daqui. Voltar... pra casa... – disse Hyoga antes de fechar os olhos e desmaiar.

Kanon o apoiou e Ikki ignorou a angústia que o invadia, ajudando Kanon a segurar o jovem.

— Vamos levá-lo de volta para o quarto, ele não devia ter se levantado. – disse o moreno.

— Talvez seja melhor chamarmos um médico. – falou Kanon.

— Chame o Shura. – disse Ikki com um suspiro.

Kanon fez que sim com a cabeça e pegou o celular. Trinta minutos, depois, um homem alto, forte e moreno adentrava a Fortaleza.

— Então, o que temos? – perguntou ele, sem mais rodeios.

— Um jovem ferido à bala. Nada grave, mas ele parece não ter reagido bem à codeína. – respondeu Kanon.

Shura franziu o cenho e já foi se dirigindo ao quarto. Conhecia bem aquela casa, pois quando Ikki necessitava de ajuda médica eficiente e discreta, era ele quem era chamado.

Filho de uma nativa norte-americana e um espanhol, Shura era um homem exótico. Os olhos amendoados e escuros, os cabelos negros e sedosos, a boca desenhada... O conjunto todo era arrematado por roupas despojadas com alguns detalhes da cultura indígena.

Kanon olhou-o, de forma discreta, deixando-o livre para acessar os quartos que ele conhecia tão bem. Sempre o achara interessante, mas o médico parecia um tanto... inacessível, então era melhor deixar pra lá. Acendeu mais um cigarro e voltou a olhar os monitores que agora mostravam partes da estrada.

Shura se aproximou da cama baixa e larga, encontrando Hyoga desacordado e Ikki ao seu lado, retirando um termômetro da boca do jovem.

— Então, o que temos aqui? – perguntou o médico.

— Obrigado por vir rápido, Shura. Esse rapaz se chama Hyoga e levou um tiro. A bala atravessou e, pela minha experiência, não é grave. Ele não tem febre, mas não consegue ficar acordado e agora, desmaiou. – disse Ikki.

O médico levantou a camiseta de Hyoga, revelando um tórax magro, mas ainda assim bem proporcionado. Viu a faixa e começou a retirá-la.

— Posso ajudar? – perguntou Ikki.

— Pode. Saia e espere. – respondeu Shura.

Ikki franziu o cenho, mas obedeceu. Shura era o melhor médico que ele já tinha conhecido. Sendo um mestiço, ele tinha um amplo conhecimento não só da medicina tradicional, como da medicina de seus antepassados indígenas. Arrependia-se, amargamente, de não tê-lo procurado para que cuidasse de Shun. Achara que um especialista em oncologia seria mais adequado e, no entanto, essa escolha não impediu que a doença vencesse seu irmão.

— Está bem, qualquer coisa estou ali fora. – disse Ikki.

Shura não respondeu e continuou sua investigação. Auscultou o peito de Hyoga e o virou, com cuidado, para ouvir-lhe os pulmões. O russo abriu os olhos no mesmo instante em que Shura se preparava para levantar-lhe uma das pálpebras.

— Sente dor? – perguntou Shura.

— Quem é você? – devolveu Hyoga, fitando-o com os olhos fatigados e cheios de desconfiança.

— Sou médico. Ikki chamou-me para vê-lo.

— Levei um tiro e me deram algo pra dor que me deixou zonzo.

— Quantas horas você está sem comer?

— Não sei, algumas tantas. Houve muita correria, tiros, intromissão de gente estranha em minha vida. Estou cansado e... meio sem noção das coisas.

— Você precisa comer, creio que teve uma hipoglicemia. A codeína eleva os níveis de glicose em um pico rápido, mas depois a taxa cai, na mesma proporção. Se não se alimentar, você se sente mal, seu corpo trava tentando manter a energia e evitar um colapso. Agora vamos ver esse ferimento.

— Hummm... pelo menos, Fênix não esqueceu como se faz um boa sutura.

Hyoga olhou-o com o cenho franzido e depois olhou para o próprio corpo, vendo seu ferimento costurado com pontos quase invisíveis.

— Quase nem aparece... Como ele fez isso? – perguntou Hyoga.

— Ikki aprendeu alguns truques médicos para o caso de precisar. Agora tome isso junto com a comida que mandarei trazer para você. – disse Shura estendendo duas pílulas, uma vermelha e outra esverdeada, tiradas da valise.

— Mais remédio?

— São uma combinação de antibiótico e um analgésico natural, feito por mim. Depois de comer, durma um pouco e acordará novo. Até mais. – disse Shura tocando-o no ombro.

Hyoga permaneceu em silêncio. Engoliu o remédio, olhando para aquele homem belo e de aspecto selvagem. Ao lado dele, havia dois animais, uma cabra e um lobo e ambos pareciam dar-se muito bem. Focou no pescoço do médico e viu um colar feito de penas, dentes e uma ponta de flecha. Shura percebeu-lhe o olhar e sorriu, pela primeira vez.

— Você também os , não é? – disse o médico.

— Os animais ao seu lado? Sim, eu os vejo. – respondeu Hyoga com a voz rouca.

— São meus animais de poder, meus guias espirituais. Você tem a visão, por isso é solitário e desconfiado, assim como eu. Mas, isso vai mudar, garoto. Agora descanse.

— Você também... pode ver e falar com os mortos? – perguntou Hyoga.

— Eu sou um curador, herdei o poder xamânico de meu avô, minha visão se restringe aos meus guias e suas orientações. São eles que me conduzem a quem precisa da minha ajuda.

— E como sabe que eu... consigo ver?

— Eles cochicharam em meu ouvido que você é especial e que veio trazer a paz para esta casa.

Hyoga suspirou. Paz? Que paz? Ikki quase o agredira quando contara sobre Shun.

— Obrigado. – disse o jovem russo. – Posso tomar um banho, não é?

— Pode, essa faixa que Ikki colocou é de um algodão especial e tratado para tornar-se impermeável. Depois do banho, comida e cama. Ok?

Sorrindo, Hyoga se despediu de Shura e foi até o banheiro. Ficou abismado com aquela banheira estranha que se encontrava em uma das paredes, então se lembrou que já vira uma em um filme. Sim, era um ofurô! Pensou mordendo o lábio inferior. Pena que estava vazia, teria que tomar banho de chuveiro, mesmo.

Ikki bateu na porta e entrou. Hyoga estava na cama, a cabeça voltada para a porta de vidro. Ele parecia muito pensativo, mas se virou ao ouvi-lo entrar. Os olhos do russo brilharam, quando ele viu a bandeja nas mãos do moreno. Nem ele mesmo sabia que estava com tanta fome.

— O médico disse que o seu mal é fome, então eu trouxe um lanche reforçado. – disse Ikki.

Hyoga se empertigou mais na cama. Havia tomado uma ducha rápida e seus cabelos estavam molhados, caindo sobre os ombros nus. Ikki percebeu mais do corpo esguio. A pele de Hyoga era branca, porém tinha uma textura firme, embora parecesse macia ao toque.

— O que tem aí? – perguntou Hyoga.

Ikki pousou a bandeja, abrindo as perninhas dela para acomodá-la próxima a Hyoga. Nela, tinha uma sopa de legumes, pães, um hambúrguer suculento, uma lata de coca-cola e uma fatia de cheesecake.

— A sopa e os pães foram ideia minha. O hambúrguer, a coca-cola e o cheesecake foram do Kanon. Ele disse que você tem cara de quem prefere um bom lanche à comida de doente. – disse Ikki com um meio sorriso.

Aliviado, Hyoga também sorriu ao perceber que não havia mais raiva no olhar de Ikki.

— Acho que gosto de tudo. – disse o jovem se servindo de uma boa colherada de sopa.

Em alguns minutos, o prato de sopa estava vazio e Hyoga mordia com vontade o hambúrguer duplo com carne e queijo. A coca-cola era consumida em longos goles e depois, mesmo não gostando muito de doces, aquele cheesecake tornou-se o alvo final. Ao ver a cobertura de cerejas e framboesas, Hyoga rapidamente socou a torta na boca e gemeu de prazer ao lamber os dedos. É, um doce, de vez em quando, cai bem... Pensou o jovem, enquanto sentia a cobertura deliciosa derreter em sua língua.

Ikki observou-o sem ação e sofrendo com as imagens eróticas que afloraram em seu cérebro cansado e sobrecarregado. Também estava ferido, mas não conseguia ficar parado diante de tantas coisas para analisar, principalmente o fato de Hyoga saber, exatamente, o que acontecera com Shun.

Também não entendia aquela atração irracional que sentia pelo russo, fazia anos que esse tipo de coisa não acontecia. Não que ele fosse celibatário ou não gostasse de sexo, apenas se envolvia em tantas missões que lhe tiravam o foco e a energia para o prazer sensual. Agora estava ali, sentindo a virilha fisgar e a respiração se alterar em ver Hyoga comer.

— Parece que estava com fome, mesmo. Há quanto tempo estava sem comer?- perguntou Ikki, tentando abstrair suas sensações.

— Bastante tempo, mas o caso é que isso tá muito bom! Obrigado! Ah, agradeça ao Kanon, também. — respondeu Hyoga com a boca cheia de torta.

Ele parecia tão sincero e tão feliz que Ikki quase riu.

— Bem, Shura disse que você só precisa de descanso. Então, durma um pouco.

Hyoga sorriu, depois ficou sério. Ikki removeu a bandeja e se encaminhou para a porta, então voltou-se, novamente e encarou Hyoga nos olhos. O jovem abriu a boca para dizer algo, mas a visão de Shun, atrás de Ikki, com o dedo indicador nos lábios o fez desistir.

— Desculpe por... tê-lo agredido. A morte de meu irmão é algo que eu não consigo aceitar, nem processar direito. Ele era tão criativo, tão doce, tão cheio de vida... Perdê-lo me fez desacreditar em muitas coisas, principalmente, nas pessoas.

Aos poucos, Ikki foi contando como tudo tinha acontecido. A sua ausência quando Shun piorou e morreu, a culpa por ter acreditado quando ele dizia estar bem e sem dores, a forma egoísta de achar que se portando como um eterno otimista iria ajudar seu irmão a acreditar na cura.

— Ikki... sei que uma perda como a sua é muito dolorosa. Eu também perdi minha mãe e de uma forma semelhante. Eu acreditei quando ela me disse estar bem e...dois dias depois, recebi um telefonema dizendo que ela tinha se suicidado. E pior que isso é... o fato de eu nunca tê-la visto. Eu não estou mentindo quando afirmo ver e falar com os mortos, mas, no entanto, eu nunca vi ou falei com minha mãe.

Os dois se olharam, Hyoga mergulhando sua dor na de Ikki, ambos sedentos de algum consolo, de alguma coisa maior e mais intensa que os afastassem daquela realidade sombria e daquele sentimento excruciante, sempre agarrado às sensações e memórias que carregavam no coração...

A mão grande de Ikki tocou a face de Hyoga e os olhos do russo ficaram escuros, as pupilas se expandindo. Nada era dito, apenas as respirações ficavam mais rápidas e rasas, o calor do hálito tocando-os, como se fossem dedos, os lábios, perigosamente, próximos...

Ikki passou o polegar no lábio inferior de Hyoga.

— Vem... – sussurrou Hyoga sem dar-se conta das implicações daquela palavra.

Notas finais
Obrigada a todos que leem, se emocionam, favoritam, dão aquela olhada básica, enfim, só posso agradecer, SEMPRE!!! ****Próximo capítulo, a rendição ao desejo e aos sentimentos "escondidos" e algumas revelações... ****Palavrinhas em russo: milashka= minha cara lubimaya= minha querida ****Tradição xamânica: As tradições xamânicas são muito antigas e todas centradas na natureza. Os índios norte-americanos acreditam que cada direção(norte, sul, leste e oeste) possui um dom e um animal de poder, um totem cuja sabedoria nos ensina muito. Por exemplo, Shura representa aqui a direção sul, a direção dos que curam e cujos animais são todos os quadrúpedes. Já o Hyoga pertenceria a direção leste, a direção dos que veem além dos olhos físicos, os visionários. Os animais rastejantes protegem essa direção. Bjs!!XD