Muito Além Da Dor!
2 Capítulo 2 SUSSURROS...
Notas iniciais
Levar dois tiros no peito, mesmo com o colete à prova de balas, era brutalmente doloroso. Os músculos tinham espasmos e o corpo tremia, sendo difícil coordenar até um movimento de mão.
Kanon e Ikki haviam levado, juntos, dois tiros cada um e ainda assim, agarrar-se às pernas dos dois homens quando esses se aproximaram para ver o resultado de sua ação. Os quatro rolaram pelo teto e acabaram torcendo o corpo, de modo que ao cair, usaram o corpo do inimigo para amortecer a queda que acabou sendo sobre um monte de feno que jazia atrás do celeiro.
— M-Menos mal... – disse Kanon, ofegante. – Se não tivesse esse monte aqui, teríamos morrido igual.
— Somos duros de matar... meu amigo. – disse Ikki rolando de cima do homem que atirara nele.
Nem bem tinham recuperado um pouco de fôlego, Ikki viu uma claridade dentro do celeiro. Chamas!
— Droga! Isso vai explodir! — disse o moreno sem saber como, mas tendo a nítida sensação que havia uma bomba, ali.
— Como assim, explodir? E as crian...
Kanon não teve tempo de terminar a fala. A explosão jogou os dois homens para trás. O telhado do celeiro foi pelos ares, caindo em chamas pelo chão e incendiando arbustos e árvores. Em minutos, ambos ficaram cercados pelo fogo...
Estonteado, Ikki viu flashes da sua vida. A morte de seus pais e a sua responsabilidade de criar Shun. Sua entrada no FBI, sua integração às Forças Especiais. a morte trágica do irmão... Shun... Vou juntar-me a você. Pensou enquanto tudo escurecia.
Kanon também apagou, o mundo transformando-se em um denso vácuo escuro, permeado de um zumbido, enquanto ele aterrissava no solo cheio de destroços.
Hyoga não conseguia respirar direito. Havia corrido 400 metros em menos de três minutos e agora inalava fumaça, enquanto procurava por Ikki e Kanon. Em sua mente tinha visto quando ambos sobreviveram ao tiro, mas logo tudo ficou confuso e só restou a imagem da explosão e do incêndio no celeiro.
As crianças... As crianças haviam sido uma isca! Deus, quem seria tão sórdido ao ponto de cometer um crime tão hediondo? Hyoga pensava, mas não conseguia ver! Por alguma razão sua percepção bloqueara, seu coração estava disparado e as imagens se confundiam com sua perplexidade frente ao que havia acontecido.
Estava vasculhando a área quando seu celular vibrou.
— Hyoga! O que está fazendo? Você não é agente e sim um tradutor. Volte imediatamente para a van e deixe que a equipe de campo tome conta da situação. – disse Isaac com um tom irritado.
O jovem levou a mão aos cabelos.
— Me desculpe Isaac, mas não pude ficar impassível diante do que aconteceu!
— Pois volte, imediatamente! Se ficar aí vai comprometer a missão e a mim. Sem falar no perigo a que está exposto. – falou Isaac.
Hyoga desligou e, ao andar, tropeçou em algo. Olhou para o chão e encontrou uma arma. Mesmo não sendo agente, era informado e inteligente o suficiente para saber que aquela arma poderia levar aos criminosos. Rasgou uma parte da camisa que usava e pegou a arma com ela, cuidando o máximo para não apagar possíveis digitais.
— Hyoga!
Ouviu o chamado, enrolando a arma, e foi ao encontro do seu novo amigo.
— Estou aqui, Shun. – disse ele.
— As crianças estão bem, eu consegui que os dispositivos se soltassem de seus corpos. Existe um porão sob o celeiro e uma menina me enxergou e achou que eu estava vivo. Aproveitei e pedi que ela levasse os outros para lá, segundos antes da explosão. Mas, Ikki está ferido e seu amigo também. Temos que tirá-los daqui.— disse Shun.
— A equipe de campo já está vindo. – disse Hyoga se curvando sobre Ikki para examiná-lo e depois foi até Kanon.
O pulso de ambos estava regular, mas ainda havia muita fumaça ali.
— Ikki! – chamou Hyoga.
O moreno abriu os olhos lentamente, vendo tudo borrado. Mas, ainda assim, sua resistência era excepcional, pois mesmo sentindo dor, ele ergueu a cabeça e Hyoga se viu preso àqueles olhos azuis que pareciam duas safiras brutas e furiosas.
— Temos que sair daqui! Pode levantar? – perguntou o russo.
O cabelo negro e repicado do agente estava coberto de poeira, feno e cinzas. Havia um corte na cabeça que sangrava e ele havia quebrado duas costelas.
— Ajude-me... – pediu ele com a voz rouca. – Temos que tirar o Kanon também.
Hyoga ajudou-o e Ikki suprimiu um gemido quando se apoiou na perna direita.
— Onde está doendo? – perguntou o jovem russo vendo que Ikki cerrava os dentes.
O olhar de Ikki foi intenso e sarcástico.
— Em cada maldito centímetro do meu corpo, mas não posso me dar ao luxo de pensar nisso. Agora vamos ajudar o Kanon.
Kanon já estava voltando a si quando os dois o ajudaram a levantar.
— E aí, pessoal... perdi... muito da festa? – brincou o grego com o belo rosto coberto de fuligem.
— Vamos sair daqui, antes que essa fumaça nos mate. – falou Ikki.
Hyoga posicionou-se entre os dois homens e os três saíram dali.
Enquanto os carregava, o russo olhava para o jovem a sua frente que os observava com o semblante sério e preocupado. Shun não falava nada, o que era até melhor, porque ele não poderia responder mesmo.
Quando atravessaram a cortina de fumaça, viram seus companheiros de equipe se aproximando. Aiolia estava com uma expressão fechada, algo que Ikki notou mesmo sentindo dor.
— O helicóptero já está vindo. Hyoga, obrigado pela sua ajuda, mas sabe que não devia estar aqui. Isaac deu ordens expressas que você fosse retirado daqui imediatamente. Por favor, acompanhe Seiya.
— Ok. Mas... tem crianças lá dentro. – disse o russo. – Estão escondidas no porão.
Ikki franziu o cenho, mas nada disse. Aquilo tudo era muito surreal, desde a missão, até aquele garoto estranho que parecia um personagem de séries televisivas.
— Vamos tomar conta de tudo por aqui. Agora vá.
Hyoga obedeceu e enquanto acompanhava Seiya, viu Shun acenar-lhe com um sorriso tímido e triste. Tossiu, sentindo a intoxicação com a fumaça e, em sua mente, imagens confusas dançaram de forma violenta, deixando-o zonzo. Crianças, homens e uma mulher que lhe sorria, simpática, durante todo o tempo, mas que fazia a sua cabeça doer.
— Tem certeza que está bem? – perguntou Seiya vendo que o russo cambaleou.
— E-Estou... Acho que foi a fumaça. – respondeu Hyoga.
— Isaac mandou que o levasse direto para casa. – disse Seiya abrindo a porta do carro.
Hyoga tentou sorrir e só então se lembrou que não entregara a arma para ninguém da equipe. Olhou para Seiya e, quando fazia menção de mostrar-lhe a arma, ouviu a voz de Shun bem próximo ao seu ouvido:
— Guarde a arma e só mostre ao meu irmão.
Seiya olhou-o, no mesmo instante e Shun estava sentado no banco traseiro fazendo sinal de “não” com o dedo indicador.
— Viu alguma coisa aí atrás? – perguntou o agente.
— Não, nada. – respondeu Hyoga e voltou seu olhar para a janela, vendo Shun parado em meio à fumaça que ficava para trás...
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Ikki estava sonhando que escalava uma montanha e Shun subia mais que ele, rindo e chamando-o de molenga. Quando ele o alcançou, não era Shun quem sorria e sim Hyoga e aquele sorriso que era uma mistura de timidez com inocência deixou-o com dores no peito...
Quando acordou, parecia que cada fibra do seu corpo era espetada por milhares de agulhas.Olhou em volta, estava em um quarto que parecia o de um hospital. Começara a recuperar sua audição, mas as dores eram intensas.
— Humm... Já acordou. – disse uma voz feminina.
Franzindo o cenho, Ikki analisou a mulher a sua frente. Era bonita, delicada e tinha belos olhos verdes que se acentuavam com a brancura do jaleco.
— Você se chama Ikki, não é?
— Sim. – respondeu ele, automaticamente.
— Quantos dedos o senhor está vendo? – perguntou ela levantando os dedos indicador e médio.
Ikki perdeu-se naqueles olhos que lembravam os de seu irmão e não respondeu. Sua cabeça estava estranha e ele sentia-se um pouco enjoado.
— Quantos dedos? – perguntou ela, novamente, enquanto verificava os instrumentos que mostravam os batimentos cardíacos e a pressão arterial.
— Dois. – respondeu um tanto de má vontade. – Onde estou?
Ela aproximou-se de seu rosto, verificando um curativo que já precisava ser trocado, novamente.
— Está, temporariamente, hospedado no Iowa Memorial Hospital e tem um belo corte na cabeça, duas costelas quebradas, mais um pequeno corte na perna direita. – disse ela. –Os pontos foram bem feitos e a tomografia não revelou nada de grave, apenas uma concussão.
— O homem que estava comigo... Como ele está? – perguntou Ikki.
— Está no quarto ao lado. Não é à toa que são companheiros de equipe, ele também só quebrou algumas costelas e possui pequenas escoriações. Logo, ambos estarão de volta à ativa. – disse a enfermeira sorrindo.
Ikki retribuiu o sorriso.
— Não me disse o seu nome, senhorita...?
— Esmeralda.
Findada as apresentações, a enfermeira deixou o quarto e Ikki levantou-se da cama, arrancando o soro do braço. Abriu a porta e olhou em volta para ver se não havia ninguém. Um pouco ofegante e ainda enjoado, dirigiu-se até o quarto onde a enfermeira lhe dissera que Kanon estava.
Nada. Vazio. Onde diabos Kanon tinha ido parar?
Ikki voltou ao quarto, buscando no armário as roupas que o haviam despido.
Meu celular! Preciso do meu celular! Pensava ele, enquanto procurava nos bolsos com menos rapidez e desenvoltura do que necessitava.
— Está procurando por isso? – a voz de Esmeralda, mais uma vez se fazendo presente.
Ikki franziu o cenho. O que aquela mulher estava fazendo com o seu celular?
Como se tivesse lido o seu pensamento, Esmeralda olhou-o, séria e falou.
— Roupas ficam no armário, mas pertences como carteiras e celulares são colocados em um guarda-volumes até a alta ou até serem, reclamados por parente ou responsável. Mas como vocês dois não são pacientes comuns, achei que gostaria de ficar com o celular e tomei a liberdade de guardar o seu.
— Obrigado. Kanon não está no quarto ao lado, onde ele está? – perguntou Ikki.
— Seu amigo foi fazer uma tomografia e... O senhor não deve andar perambulando por aí. Seus ferimentos não são graves, mas requer cuidado.
— Com licença? – falou outra voz que Ikki conhecia muito bem.
— Hyoga... – murmurou Ikki ao ver o jovem abrindo a porta.
O jovem russo entrou e Esmeralda fez sinal para que Ikki deitasse na cama e estendeu-lhe o celular. Ajeitou as cobertas, se retirando, logo a seguir, com um sorriso simpático.
Hyoga olhou-a, rapidamente, achando-a conhecida, mas estava com tanta coisa na cabeça que o mais importante era falar com Ikki antes que Isaac soubesse que havia estado ali. O amigo e diretor do FBI o instruíra, categoricamente, para manter-se afastado de qualquer um dos agentes envolvidos naquela missão. Porém, ele havia entrado no sistema do FBI e rastreado a informação confidencial sobre a localização dos agentes Ikki e Kanon. Colaborando com sua curiosidade, Shun havia pedido que ele fosse falar com seu irmão e ali estava ele.
— Como se sente? – perguntou o russo.
— Bem, mas o que está fazendo aqui? – devolveu Ikki, sério.
Diante da pergunta seca, Hyoga sentiu o rosto ficar quente.
— Fiquei preocupado, afinal passamos por uma situação conflituosa juntos e... Bem, quer que eu vá embora? Não quero ser invasivo. – disse Hyoga.
— Não, chegou em boa hora. Preciso que me faça um favor.
— O quê?
— Conte-me com detalhes tudo o que ouviu naquela noite e me diga como consegue ver e ouvir coisas que os outros não podem.
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Kanon abriu os olhos com dificuldade, mas ainda assim, notou que o levavam por um corredor vazio. Tornou a fechar os olhos e fingir estar dormindo. Porém, logo que o elevador foi chamado, ele olhou para os dois enfermeiros que o carregavam, notando que não usavam sapatos brancos. Merda! Esses caras não vão me levar para nenhum exame e sim para o necrotério, se eu deixar...
Observou o discreto volume sob o jaleco dos dois e respirou lenta e profundamente. Quando o elevador chegou e abriu a porta, Kanon levantou tão rápido que nem parecia ferido. Atingiu um dos homens com um golpe certeiro no pomo de Adão e o outro com os dedos em tesoura nos olhos.
Quando os dois se afastaram, devido ao golpe, ele saltou da maca e a empurrou sobre eles, prendendo-os dentro do elevador. Ignorando a dor no tórax, correu como pode para chegar ao quarto e quando conseguiu, foi direto onde Ikki estava.
— Lamento... interromper, mas... temos que sair daqui... Dois homens tentaram me matar e não devem estar sozinhos. – disse Kanon, ofegante.
Ikki amparou Kanon, enquanto Hyoga sentia que havia algo de errado, naquele lugar. Sua mente vislumbrou mais dois homens que se aproximavam daquele quarto com armas e os agentes do FBI que haviam ficado de guarda, estavam desacordados no início do andar e pareciam mortos!
— Ele tem razão... Precisamos sair daqui! – disse Hyoga.
— Só se formos por fora das janelas. – falou Ikki.
Hyoga olhou para o lado e viu Shun sinalizando para uma porta, no final do corredor, que mais parecia um depósito.
— Não, nenhum de vocês tem condições de ficar se equilibrando sobre parapeitos. Vamos nos esconder ali. – disse Hyoga apontando para onde Shun lhe indicara.
Assim que os três entraram pela porta estreita, dois homens saíram do elevador e adentraram o quarto, vasculhando embaixo da cama e no banheiro.
— Nichego zdesʹ!(Nada, aqui!) – falou um homem cujas mãos estavam tomadas por tatuagens que o identificavam como integrante da máfia russa.
O segundo homem olhou na direção do corredor, vendo a pequena porta. Porém, quando se dirigia até ela, uma cadeira de rodas moveu-se sozinha fazendo o mafioso arregalar os olhos.
— Nekotoryye zloy dukh! Nekotoryye zloy dukh!(Alma penada! Alma penada!) – gaguejou o homem. — Poyekhali! Im udalosʹ sbezhatʹ! (Vamos embora! Eles conseguiram escapar)
— Deixe de ser idiota! – gritou o comparsa que tinha uma cara achatada, parecendo a de um chipanzé.
Porém, antes que algum deles esboçasse um movimento, Esmeralda surgiu, apontando uma arma para a cabeça de ambos e disparando de forma certeira e mortal.
Os dois caíram com um buraco bem no meio de suas testas e a bela enfermeira aproximou-se, sinuosa da porta onde os três estavam escondidos.
— Podem sair, agora, rapazes! – disse ela num tom cordial.
Ikki e Kanon olharam para os corpos e, em seguida para a enfermeira.
— Belo estrago... – falou Kanon.
Observando-a, Ikki notou que ela segurava a arma como um agente. Hyoga não olhava para nenhum deles e sim para Shun que estava com uma expressão zangada.
— Você é uma agente. Resta saber de que lado, você está... – disse Ikki, por fim.
— Esmeralda Stell, agente federal do ATF, portanto, sua quase colega de trabalho. – respondeu a loira estendendo a mão ao moreno. – Pode crer, que estou aqui para ajudá-los!
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