Muito Além Da Dor!

3 Capítulo 3 JOGOS E MÁSCARAS...


Notas iniciais
Eu não sou espírita, mas já vi alguns filmes e li algumas obras. Aqui na fic, não vou entrar no mérito das manifestações em si, nem na questão religiosa. Apenas vou situar os personagens dentro deste contexto espiritual em mais uma das minhas viagens, ok? Bjs e obrigada!!!

A loira não tinha o biótipo de uma agente. Tinha belas pernas e um corpo mignon. O rosto era suave, fazendo o estilo Lolita. Definitivamente, não se enquadrava na imagem e nas referências que Ikki tinha das mulheres que se dedicavam a esse tipo de profissão.

Ela parecia mais uma enfermeira, mesmo... Pensou o agente, enquanto ambos apertavam as mãos.

Esmeralda colocou a arma num coldre por dentro do jaleco, com uma segurança que, definitivamente, ela não tinha e sim interpretava. Tinha sido muito difícil incorporar o papel de mulher forte e bem resolvida, mas ela conseguira e ali estava pronta para agir como a protetora do homem responsável pela prisão de seu pai...

Ela sabia que Ikki tinha feito a coisa certa e o quanto deveria ter sido difícil para ele denunciar o homem que o treinara. Ele não sabia quem ela era, nem que ela crescera com o propósito de tornar-se uma agente perfeita e competente. No seu íntimo, ela desejava limpar, através de si, a mancha que seu pai causara em sua família.

— Isaac pediu-me para ajudá-los, se fosse necessário. O pessoal da limpeza já está chegando para dar um jeito nos corpos. Então, vou tirá-los daqui e levá-los para um esconderijo seguro. – disse ela.

Hyoga franziu o cenho. Esconderijo? Ikki acompanhou-o no gesto, enquanto olhava para os corpos estendidos ao chão.

— Esmeralda... Estou achando tudo isso rápido demais. Sei que o pessoal da ATF está envolvido no caso devido ao roubo de armas de seu depósito, mas minha divisão é outra e...

— Ikki... – interrompeu ela com um tom de voz doce e educado. – Sei que trabalhamos em equipes diferentes, mas o roubo das armas afeta o seu departamento também, já que foram vocês os responsáveis pela operação dos 585 fuzis apreendidos. Agora já são duas situações que requerem um trabalho conjunto, o roubo das armas e a armadilha de que foram vítimas.

O moreno ficou ainda mais sério. Sim, ele havia liderado aquela operação e quase surtara ao saber que os fuzis acabaram sendo roubados. Não era responsável pela guarda de tais armas, mas saber que todo o esforço de sua equipe acabara sendo em vão, tinha sido um golpe difícil de assimilar. A armação naquele celeiro também o deixara puto da cara, principalmente, por utilizar crianças. A situação estava saindo do controle e controle era algo que ele se esforçara até verter sangue para manter.

— Mesmo assim, prefiro fazer as coisas do meu jeito. – disse Ikki.

— Isaac me alertou que você é um sujeito desconfiado, mas francamente, agir dessa forma com uma colega... Você não confia em mim? – perguntou Esmeralda com um tom misturando mágoa e indignação.

Nesse momento, Hyoga olhou atrás de Esmeralda, vendo Shun continuar com uma expressão de poucos amigos. Aquilo o intrigou. Seria Esmeralda uma agente dupla, como nos filmes? Se ela era, porque não conseguia ver nada de suspeito sobre a vida ou as ações dela?

— Ikki. – interferiu Kanon. – Talvez seja melhor discutirmos isso em outro lugar.

O agente ouviu a fala do amigo, mas não se importou:

— Não, acho que devo deixar as coisas bem claras entre nós. Não gosto do rumo que este caso está tomando e vou agir como meu instinto diz para fazê-lo. Vou voltar para minha casa e avaliar tudo o que aconteceu. Se quiser vir, ótimo, mas quem dá as ordens sou eu.

Esmeralda sentiu o rosto arder e seus olhos demonstraram um princípio de constrangimento. Isaac era o Todo-Poderoso daquela divisão e tinha lhe dado ordens expressas de aproximar-se do agente Fênix. Ele sabia que Ikki era teimoso e gostava de agir como um lobo solitário e a incumbira de ficar perto dele, informando-o de todos os detalhes e passos dados pelo agente, já que ele não costumava agir como o esperado e Aiolia o deixava livre demais...

— Está bem. – reagiu ela, franzindo a testa e apertando os lábios. – Agirei segundo os seus métodos, se intitular-se como o macho alfa o faz sentir melhor.

Ikki sorriu e seu olhar deslizou sobre o corpo mignon, como se a estivesse avaliando.

Macho alfa... Gostei. – disse ele piscando para ela.

Hyoga sentiu-se tomado por um intenso desconforto e soube que logo seria descartado. Inspirou fundo e estava pronto para deixar o local quando Shun cochichou-lhe ao ouvido:

— Vá com eles.

— Não posso. Já vi que estou sobrando e... Isaac vai me matar se descobrir que estou desobedecendo as ordens dele. – falou Hyoga, baixinho.

— Você já desobedeceu, agora não faz diferença. Por favor, Hyoga, eu não quero que Ikki fique sozinho perto dessa mulher.

— Afinal, o que tem ela? Vi como a olhou. – rebateu o loiro.

Ela não tem culpa, mas ele vai acabar conseguindo convencê-la. Ele quer machucar o Ikki!

— Ele? Ele quem? – perguntou Hyoga.

Ele! — disse Shun apontando para uma sombra que estava em pé, ao lado dos homens mortos.

Um vulto, cujo rosto Hyoga não conseguia ver com clareza, mantinha-se afastado, mas a simples presença dele causava arrepios até o último fio de cabelo loiro. O russo estreitou os olhos, mas logo a imagem se desfez.

Ikki olhou para o rapaz que parecia estar vendo algo e com muita atenção. Não conseguira conversar com ele como desejava e ainda o achava intrigante e, de certa forma, atraente, fato que não o deixava muito confortável.

—Hyoga! — chamou ele.

O russo olhou-o com uma expressão interrogativa.

— Sim?

— Você vem com a gente? – perguntou o moreno.

Um sorriso iluminou o rosto de Hyoga.

— Está me convidando para ir a sua casa?

— Estou. Não queria envolver você nisso, mas desde que veio ao hospital e testemunhou tudo o que aconteceu, creio que ficará mais protegido ao meu lado.

Kanon olhou para Ikki percebendo que o companheiro estava planejando alguma coisa. Fênix não costumava dar ponto sem nó e seu interesse naquele jovem russo parecia por demais acentuado...

— Isaac não vai gostar de ver Hyoga envolvido nisso. – disse Kanon.

— Afinal, Hyoga, qual é a sua relação com Isaac? – questionou Ikki.

— Ele... Bem, ele é meu ex-padrasto. – respondeu o russo.

— Padrasto? Mas, por que ele nunca disse nada?

Hyoga suspirou.

— Isaac conheceu a minha mãe há três anos e viveram juntos, algum tempo. Minha mãe gostava de homens mais jovens e ... Isaac foi o único que ficou ao lado dela mesmo depois que ela caiu em depressão. Quando ela se... suicidou, ele continuou a me apoiar e eu o ajudo no lance das traduções com escutas.

— Eu sinto muito por sua mãe. – disse Ikki sério. – Bem, vamos informar a ele que você está conosco por questões de segurança.

Kanon coçou a cabeça e Esmeralda suspirou. Os únicos felizes com aquela ordem eram, Hyoga e Shun.

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Em seu escritório, Isaac inspirou e expirou fundo várias vezes. Nem mesmo a vista ampla da cidade, emoldurada pela janela de vidro, que parecia colocá-lo no centro da megalópole, ajudava em seus questionamentos.

Tomara algumas decisões equivocadas em sua vida, mas agora parecia estar perdendo o controle da situação e isso o enfurecia.

Era óbvio que, se alguém investigasse a fundo e descobrisse sua origem, fatalmente o associaria aos erros que seu departamento vinha cometendo. Havia sido um garoto de rua, aliado a membros de gangue e aprendido a conviver e usar a violência como moeda de troca. Até a máfia o havia cooptado durante um tempo e graças a ela, possuía marcas profundas tanto no físico, quanto na alma...

Levou a mão ao rosto, cuja cicatriz profunda e o tapa-olho se constituíam no testemunho de erros passados e esfregou a nuca, desejando por um segundo não ser o Todo Poderoso como o chamavam e sim o marginal de antigamente com mais coragem que astúcia.

— Aiolia acabou de chegar, senhor. – anunciou a jovem pelo interfone, interrompendo os pensamentos de Isaac.

— Obrigado, mande-o entrar.

Aiolia entrou com um olhar tenso. Isaac esperou que ele falasse e ambos pareceram se enfrentar num desafio mudo.

— Sinceramente, não sei o que aconteceu. Minhas fontes eram seguras, mas...

— Mas, era uma armadilha! Temos um agente duplo, Aiolia e não conseguimos descobrir quem é. Por Deus, pela eficiência desse maldito, chego a pensar que é um dos nossos e o melhor deles.

— Você não está insinuando que...

— Eu sei o que é sentir lealdade pela pessoa errada, Aiolia e o quanto isso pode afetar sua mente. Ele foi treinado pelo melhor, não esqueça disso.

— Eu me recuso a acreditar nisso. Ikki estava na emboscada, porque iria armar pra si mesmo?

— Seria uma forma de nos despistar. Ele estava na apreensão das armas e nas missões anteriores. O roubo dos fuzis se sucedeu de forma estranha, quase cinematográfica. Eu não sei, mas Ikki tornou-se um estranho depois da morte de Shun. A perda pode ter desencadeado algo sombrio nele e ele pode ter se arrependido de ter denunciado Guilty, afinal, eles tinham uma relação de pai e filho. O próprio Guilty manteve sua filha afastada e dedicou-se a Ikki de forma integral.

— Ikki sempre foi correto e ambos sabemos o quanto difícil foi ele descobrir que Guilty era um traidor. Shun era o único parente que restava a ele e perdê-lo, logo em seguida, foi muito doloroso E é por isso mesmo que não acredito que Ikki seja um traidor, ele jamais trairia a confiança e admiração que Shun tinha por ele.

Isaac suspirou.

— Sinceramente, espero que tenha razão. Entretanto, enviei Esmeralda para vigiá-lo.

— Você enviou a filha do Guilty para espionar o Ikki? Tem certeza do que está fazendo? Isso pode se tornar um jogo muito perigoso.

— Veremos.

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Os quatro saíram do hospital juntos, notando a movimentação da equipe de limpeza que retirara os corpos sob o olhar assustado dos funcionários. Entretanto, a eficiência como tudo foi feito, não deixou espaço para dúvidas ou questionamentos. A equipe era composta por agentes credenciados como policiais e tudo foi orquestrado de forma a parecer o mais normal possível, diante das circunstâncias.

Esmeralda os conduziu para a esquerda onde um carro esporte blindado jazia estacionado. Sentindo dores, Ikki aguçou ainda mais seu instinto e, pelo canto do olho percebeu uma movimentação numa viela próxima.

O tempo pareceu entrar em câmera lenta quando uma mulher trajada de preto se aproximava deles, rapidamente. Um segundo depois, ela sacava uma arma e atirava.

Esmeralda empurrou Ikki para o chão e também sacou sua pistola. Disparou e percebeu que estava no ângulo errado quando acertou a lixeira ao lado do seu alvo.

A mulher atirou de volta, na direção de Hyoga e foi a vez de Kanon puxá-lo para o chão, enquanto Esmeralda voltava a disparar.

A estranha bateu em retirada.

Esmeralda ajudou Ikki a se levantar, mas ele se desvencilhou dela e se pôs a correr atrás da atiradora.

Droga, Ikki! – gritou ela.

Ele não respondeu, apenas correu com uma velocidade impressionante para quem estava com duas costelas quebradas, um corte na cabeça e outro na perna.

Kanon o seguiu e Hyoga fez menção de ir também, porém Esmeralda o segurou pelo braço e ordenou que entrasse no carro.

Ikki, Kanon e a mulher desapareceram na rua da frente do hospital por um momento. Porém, Esmeralda teve um vislumbre da atiradora no meio da multidão. Direcionou o carro para uma rua paralela e avaliou a situação, conseguindo se adiantar à mulher. Manobrou o carro de forma a posicioná-lo para encurralar a atiradora entre si e Ikki. Hyoga permanecia em silêncio, vivenciando uma perseguição pela primeira vez em sua vida.

A atiradora percebeu a manobra e diminuiu o passo, como se fosse se entregar, mas logo disparou para o meio da rua, quase sendo atropelada por um ônibus.

Tanto Ikki, quanto Kanon e Esmeralda, viram-na correr e desviar dos carros até ser apanhada por um motoqueiro que surgiu de uma das vielas e ambos fugirem em alta velocidade.

Hyoga, que até então estava no carro, olhou para a placa da moto e gravou-a, mentalmente. Só então, saiu do carro para ver como estavam as coisas.

— Que diabo estava fazendo? – questionou Esmeralda com a respiração acelerada.

— Eu queria pegá-la e interrogá-la. Parece que alguém está mesmo decidido a acabar com a gente. – respondeu Ikki, ofegante e pálido.

— Está ferido, caso tenha esquecido! Se continuar a agir de modo tão estúpido, vai acabar se matando e matando todos nós.

Ikki respirou fundo, embora o ato doesse horrores. Esmeralda tinha razão, estava expondo a todos, principalmente Hyoga que não era agente e ainda tinha laços com Isaac.

— Tem razão. Mudança de planos. Leve Hyoga para casa e providencie para que fique protegido. Depois encontre eu e Kanon em minha casa. Eu ligo para dar o endereço.

Esmeralda também respirou fundo, pegou a carteira e retirou uma nota de cinquenta dólares.

— Tome, para o táxi. – disse ela estendendo a nota para o moreno.

Hyoga , que até então parecia um joão bobo lançado de um lado a outro, franziu o cenho e tomou uma posição.

— Lamento informá-los, mas nenhum dos dois tem autoridade sobre mim, já que não pertenço ao FBI. Não preciso de babá, nem de proteção. Portanto, vou para minha casa do mesmo jeito que vim até aqui: sozinho! Passem bem! – disse ele dando as costas aos três.

Nenhum dos três estava preparado para aquela fala do jovem russo. Até então, Hyoga se mostrara introspectivo e observador, mas Ikki sentiu força e determinação naquelas palavras e algo dentro de si gostou da atitude do russo. Entretanto, mesmo não sendo agente, o garoto havia participado de uma missão ao seu lado e só isso já era perigoso.

— Hyoga! – chamou Ikki.

— Sim? – perguntou o russo como se nada houvesse acontecido.

— Mantenha contato e qualquer coisa, me ligue. Meu número é...

— Não precisa me dar seu número. Eu sei como encontrá-lo. – respondeu Hyoga.

Franzindo o cenho, Ikki olhou-o bem dentro dos olhos, como se estivesse tentando ler ta expressão profunda e tranquila nos olhos azuis. Hyoga sorriu e, desta vez, não era um sorriso tímido e sim de quem sabia do próprio potencial.

— Adeus, pessoas!— disse o russo sinalizando para um táxi.

Esmeralda suspirou. A situação toda parecia de um filme de segunda categoria. Todos ali possuíam personalidades complexas e Ikki mostrava-se tão fascinante quanto difícil de lidar. Parecia ter tantas camadas quanto ela própria, com a diferença que ela somente revelava o que as pessoas queriam ver e ele não. Ele parecia não se importar em ser machista e individualista, mesmo trabalhando em equipe o que a deixava, sumariamente, irritada.

— Bem, você é o macho alfa, diga-nos o que fazer. – disse ela com um tom sarcástico.

— Vamos para minha casa. – disse ele seco.

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Dentro do táxi, Hyoga analisava os últimos acontecimentos e se perguntava como tudo acabara daquele jeito. Entre suas divagações, estranhou a ausência de Shun e, no mesmo instante, seu celular tocou.

— Onde você está? – perguntou a voz tensa e irritada.

— Em um táxi.

— Eu não disse para se manter afastado dos meus agentes? Por que faz questão de desobedecer as minhas ordens?

— Ei, eu não trabalho prá você! Eu apenas ajudo, mas não sou seu agente, ok?

Mesmo pelo celular, Hyoga podia sentir a irritação de Isaac que ficou em silêncio por alguns segundos.

O taxista indiano olhou para trás, elevando uma sobrancelha e Hyoga baixou o tom de voz.

— Escuta, Isaac, aconteceram coisas e eu estou cansado. Eu te ligo quando chegar em casa.

— Não desligue! – gritou Isaac.

Hyoga hesitou, mas desligou o celular por completo. Olhou para o movimento na rua e viu Shun no outro lado.

— Pare, aqui! – disse ele ao motorista.

O prédio onde Shun se encontrava estava cercado para demolição e Hyoga se perguntou a razão dele estar ali. Quando chegou perto o suficiente, Shun apontou para um dos andares que parecia em melhor estado. Hyoga notou que ele parecia fraco, a imagem transparente demais. Bem, deve ter alguma razão para isso, mas parece que ele tem pressa que eu veja o que ele quer mostrar. Pensou Hyoga ultrapassando a faixa que dizia: Mantenha-se afastado!

Subindo as escadas em visível degradação, Hyoga viu insetos e ratos movendo-se por entre escombros. Franziu o cenho até ouvir um choro baixo e a imagem de várias crianças adentrar-lhe a mente. Eram sete, ao todo, e estavam magras e desnutridas. Uma delas chorava sem parar, enquanto outra, um pouco maior, afagava seus cabelos e a confortava cantando uma canção de ninar.

Quando chegou ao andar escuro que vertia água do teto e exibia paredes pichadas, Hyoga ouviu gemidos e sons de corpos se chocando. Diminuiu o passo e encostou-se à parede.Mesmo não sendo agente, sabia agir para não ser percebido.

Fechou os olhos e deixou que sua mente se abrisse, novamente... Eram dois homens, um corpulento e outro menor e mais magro. Estavam encostados na parede suja fazendo sexo oral, com o menor tomando o falo em sua boca, enquanto o outro ofegava e dizia em russo: *Isso...chupa, vadia. Chupa até a minha porra encher essa tua boca gostosa.

Perto dali, estavam as crianças que se pareciam, muito, com as do celeiro. Parecia haver uma ligação entre os dois grupos, mesmo que parecesse impossível, dada a distância e circunstâncias dos fatos.

Buscando acalmar a respiração, Hyoga se afastou, buscando um lugar onde pudesse usar o celular sem ser visto. Conhecia uma delegada que tratava desses assuntos e tratou de acioná-la. Tinha sido ela quem encontrara o corpo e o avisara da morte de sua mãe. June era uma mulher forte e destemida, mas que soubera ser humana ao tratar do assunto com ele de forma sensível e respeitosa. Lembrou-se dela de imediato e usou o número que ela lhe dera sempre que precisasse.

Vinte minutos depois, uma ambulância e dois carros de polícia estavam em frente ao prédio. Os policiais entraram, encontrando os dois homens em pleno ato sexual e as crianças que se amontoavam no único canto seco daquele andar.

Paramédicos e assistentes sociais cuidavam das crianças, enquanto os policiais cercaram os dois homens, algemando-os e colocando-os na viatura sob protestos em russo.

No outro lado da calçada, Hyoga via tudo com o cenho franzido e uma sensação que misturava alívio e perplexidade. Dissera a June que não podia aparecer e ela deixou-o no anonimato sob a promessa de conversarem em outro momento.

Agora, ele se preparava para enfim, voltar para sua casa. No entanto, Shun não aparecera e ele estava preocupado. Seu instinto dizia existir algo muito errado, tanto no mundo dos vivos, quanto na dimensão dos mortos...

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Shun, novamente, se encontrava naquele lugar que parecia um meio-termo entre o mundo dos vivos e um limbo cheio de transeuntes brilhantes e transparentes que o fitavam de forma interrogativa.

Ele parou e observou o ambiente ao seu redor. Havia um campo dourado, cuja ondulação do trigo maduro abria caminho para um lugar que ele já visitara e encontrara pessoas serenas e sábias que o haviam situado sobre a sua atual condição.

Mas, também havia uma porta que se abria, de tempos em tempos, no meio do nada e o levava a ele, o jovem que tinha um dom e uma imensa tristeza por ter perdido a sua mãe. Neste momento, essa porta estava fechada e ele não conseguia mais ir até Hyoga.

Antes de levantar a sua mão e vê-la resplandecer, Shun olhou para o lado e ouviu um suave estalo. Passos rápidos ecoaram pelo ambiente e uma menininha apareceu do nada e sorriu.

— Olá! – disse ela e seu pequeno corpo começou a brilhar.

— Olá. – respondeu Shun notando que o corpo da menina aumentava em brilho e se tornava ainda mais transparente.

— Eu já vi mamãe e papai, mas agora minha vó está me chamando. Você pode dizer a minha irmã que eu não estou triste com ela?

— E quem é sua irmã?

— O nome dela é Lubinka!

Dito o nome, a menina entrou em outra porta brilhante que se abriu ao lado da que ele costumava entrar e desapareceu.

Uma mulher idosa de cabelos prateados e brilhantes se aproximou e sorriu para ele.

— É... qualquer dia, nós também faremos a travessia. Agora venha, mon chére tem gente chegando e todos eles precisam do nosso apoio.

Shun sorriu e acompanhou a velha senhora com sotaque francês. Desde que chegara, ali, tornara-se uma espécie de anfitrião de crianças e jovens que morriam e adentravam aquele espaço-tempo onde, segundo os seres de luz, teriam a oportunidade de compreender melhor seus desafios e purificar-se para adentrar a Luz.

— Quando eu fizer a travessia não poderei mais ver meu irmão e... Hyoga? – perguntou Shun com tristeza na voz e no olhar.

— Meu querido... quando estiver pronto para fazer a travessia você entenderá que jamais nos afastamos ou perdemos quem amamos. Agora venha, chegaram duas crianças novas e assustadas. Ela merecem encontrar um jovem bonito como você!

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Quando Ikki falara voltar para casa, Esmeralda não pensou que seria uma viagem de 200 quilômetros até os Apalaches. A casa era imensa, grande demais para uma única pessoa. Porém, quando Ikki se apoiou na janela e digitou a senha, portões que estavam escondidos sob a vegetação se abriram dando passagem ao carro e levando-os até uma alameda permeada de pinheiros e plátanos. Esmeralda notou que ele parecia muito à vontade com sua *Fortaleza da Solidão.

— Você vive aqui... sozinho? – perguntou Esmeralda.

— Não, tenho um cão.

Esmeralda sorriu e seguiu-o, enquanto ele digitava uma nova combinação em um painel próximo da porta de entrada da casa.

Kanon se adiantou e abriu a porta para Esmeralda assim que ouviu o clique da trava, fazendo uma mesura como se fosse um cavalheiro à moda antiga. Ela sorriu e, embora hesitando um pouco na soleira, acabou entrando.

Um labrador de pelo dourado surgiu latindo e fazendo um barulho surdo com as grandes patas.

— Aqui, rapaz! Sentiu minha falta, hein? – falou Ikki afagando a cabeça do animal.

O cão olhou para Kanon e se permitiu acariciar por ele também.Esmeralda preferiu manter-se afastada. Não se sentia à vontade com cães e preferia gatos.

Percebendo o retraimento de Esmeralda, Ikki ordenou que o cão deixasse a sala e voltou a ser o anfitrião, mostrando a casa para a jovem.

A sala era ampla e o piso era forrado por uma espécie de tatami. Biombos exibindo desenhos belos e delicados dividiam o ambiente, assim como almofadas coloridas dispostas em volta de uma mesa baixa compunham um ambiente tipicamente oriental.

Acima, no alto da construção, uma instalação enorme em vidro refletia as cores de um prisma, criando efeitos luminosos e coloridos no chão. Ao lado do saguão, Ikki abriu um painel escondido na parede digitando outro código que abriu a porta para outro ambiente.

— Bem, aqui é meu comando central. – disse ele.

Esmeralda observou tudo a sua volta. Monitores e computadores mostravam imagens de dentro e fora da casa, assim como faziam uma varredura de tudo o que acontecia em um raio de 20 quilômetros fora da propriedade.

— É aqui que controla tudo e todos? – perguntou ela.

— Só o que me interessa. Kanon, você já é de casa e sabe onde ficam os quartos. Então se quiser se deitar e descansar, fique à vontade.

Kanon já estava em casa e se servia de um drinque no bar que ficava bem perto de um armário repleto de armas: rifles, granadas, pistolas e facas.

— Impressionante o seu arsenal. – disse ela indo até o bar e verificando cada arma exposta no armário.

— Obrigado. Agora, senhorita, vamos ao que interessa. – falou Ikki também se servindo de um drinque e oferecendo um a ela. – Diga-me, Esmeralda, porque aceitou me espionar?

Ela olhou-o com os olhos cansados e, após aceitar o copo com o uísque, falou com mais naturalidade do que pretendia.

— Eu sempre tive curiosidade de conhecer, pessoalmente, o homem que roubou o afeto de meu pai.

Notas finais
Obrigada a todos pelos reviews, pelas indicações carinhosas no face, pela leitura silenciosa, enfim, quero que saibam a alegria e o carinho que sinto por todas! Bjs, XD ***Fortaleza da Solidão é uma homenagem minha ao Super Homem... * risos