Mudança e monotonia
1 Parte primeira.
Notas iniciais
A monotonia que um dia quente ousa elucidar. Não há mares, ou flores, só uma cor de madeira, de folhas ressecadas, pelos cabelos, olhos, espírito, ambiente. Tom comum, envelhecido, em que não se presumia o nascer de um poente. Todo ele estava em folhas secas que não esperava nenhum florescimento.
Ainda assim, aquele garoto era uma mudança para mim. Devia ser a fita vermelha com que tinha amarrado seu cabelo, ou a distância de todos aqueles outros como se ele fosse o estrangeiro e não eu. Lembrava-me daquelas caixas em meu lar que ainda tinha de decifrar, um mistério. O professor está falando algo de um trabalho em grupo e, evidentemente, será como se estivesse falando de um remédio ruim que terei de tomar querendo ou não.
Como se eu vivesse em uma caixa pequena que não poderia sair, como aquele outro também um dia pensou e ainda deve pensar. Afinal, fui eu que fugi, não ele quem aceitou.
E aquele garoto olhando para mim não melhorou nem um pouco o suor frio das minhas mãos.
*
As moscas, já reunidas em seus grupos, continuam esfregando as mãos, e cochichando sobre mim, e aquele menino novo, e o que fariam no intervalo. Não havia nenhum desconforto tão certo em mim, porque sem dúvidas estaria lá com eles se tivesse me apressado um pouco mais para entrar no semestre letivo, e não me debatendo em cuidar de mim mesmo.
Contudo, era isso, ou a monotonia teria me vencido de vez. Ela era a minha amiga, também por ser a única, mas além disso podia ser bem cínica. Brigamos muito.
Mas isso vem piorando. Porque eu sou quase um adulto, e o que minha mãe se obrigava, manter uma ligação com a família dela, cada vez mais se distancia para se tornar uma opção, e eu sei o que ela vai escolher.
Acabei vindo de toda forma, tarde, mas presente, e aquele professor, que nada sabe de minha vida, e nem pergunta, está fazendo mais uma vez aqueles pedidos absurdos, quando já se perdeu o momento de qualquer conexão possível entre nós, eles e eu. Digo, para mim as chances já terminaram. Eles apenas fazem muito barulho, zumbido perto dos ouvidos.
A resignação pesava em mim como se tivesse me medicado. Estava a ponto de desistir quando fisguei a imagem dele com o canto do olho. Um estado apenas se finda quando forças físicas ou imaginárias atuam sobre ele, era o que eu acreditava quando monotonia fazia o procedimento mais ridículo para que eu conseguisse respirar mais um dia, mais um minuto.
Ele parecia querer fugir do próprio corpo, como se estivesse preso a ele, e eu entendia um pouco. Se eu não tivesse esse rosto comum, ela, minha infantil e emotiva mãe, não teria se cansado de brincar conosco, seus brinquedos antigos, para ir atrás de novos. Era assim, o comum era aborrecedor, em algum ponto ficava assim.
E eu, por isso, queria mudar. Então, tentei fazer aquele pedido de fazer grupo o menos patético e mais simpático possível, não que eu fosse o mais simpático, e menos patético, presente. Os olhos dele pareceram adquirir um brilho estranho, como se eu fosse uma pequena corda para se escapar de um abismo, procedimento perigoso, mas necessário, e isso me preencheu de um profundo nada.
O que me chamou atenção mesmo foi o sorriso parco quando eu me sentei ao lado dele. E a forma como ele parecia cobiçar a fita vermelha com que eu amarrava o meu cabelo.
— Pode ficar. — Eu estendi a fita vermelha que tinha na mão depois de desamarrá-la.
Ele me pareceu constrangido, mas eu coloquei na mesa dele e, quando viu que eu não aceitaria de volta, ficamos por assim mesmo. O trabalho foi feito sem muitos problemas. Era matemática, depois de tudo.
No dia seguinte ele tinha os cabelos presos pela fita vermelha. O sorriso parco ainda estava ali, e aquela combinação era mais encantadora do que eu poderia ter achado.
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