Notas iniciais
Dedicado à Vanessa. Divirta-se.

REGINA

Ah, minha linda casinha...

Minha equipe esquadrinhava todos os cômodos, virando tudo de cabeça para baixo. Tive de morder a língua para não gritar: “Parem! Parem!”

Era a casa com a qual eu havia sonhado desde menina. Bairro bom, rua boa, quintal grande.

Dentro, tudo era espaçoso e bonito. Carpete grosso. Xícaras de porcelana enfileiradas numa prateleira. Geladeira sempre estocada com o que há de melhor. E um lindo quarto compartilhado com uma esposa linda, a mulher dos meus sonhos.

Tudo perfeito. Como as casas que aparecem nas revistas. E agora uma equipe de agentes bem treinadas jogava tudo abaixo, desterrando os seus segredos mais íntimos.

Ariel berrava ordens como um sargento do exército:

— Coisas esquecidas nos bolsos. Recibos. Caixas de fósforos. Vocês sabem o que fazer.

Sim, elas sabiam. E eu sabia também. Quantas vezes já não havia revirado pelo avesso a vida de alguém até que tudo se reduzisse a impressões digitais e pedacinhos de fibra?

Eu mesma havia treinado aquelas mulheres; sabia que eram boas, e também o que estavam fazendo ali. Investigavam a “cena do crime”, à procura de todo tipo de pistas. Logo estariam bisbilhotando os e-mails de Emma, examinando nossas contas, vasculhando nossas gavetas, nossas recordações, nosso lixo.

Como se dissecar as coisas fosse me ajudar a compreender melhor a situação.

Disse à mim mesma para voltar à realidade, para fazer o que precisava ser feito. Quanto antes melhor.

Passando pela sala de estar, vi Mulan levantando uma estatueta de vidro e gelei.

— Deixa que eu cuido disto.

Ignorei o olhar condescendente no rosto dela e embolsei o enfeite. Sim, eu havia guardado um pequeno suvenir do passado. Que mal haveria nisso?

Mal nenhum, eu estava imune. Derramei uma caixa inteira de fotos no chão e sequer me senti tentada a olhar para elas.

Mas então caí de joelhos. Ao lado da pilha de fotos, encontrei um jornal amarelado, um jornal em língua portuguesa com uma flor seca escapando das páginas. Peguei-o com todo cuidado, lembrando...

Nossa primeira “manhã seguinte” juntas. O café com leite, o jornal com aquela florzinha selvagem escondida na dobra, um singelo presente de amor.

Até mesmo um marciano teria sentido uma centelha de nostalgia.

— Encontrou alguma coisa? — perguntou Kathryn.

Levantei o rosto e vi que minha amiga me observava. Desfiz o nó na garganta e respondi:

— Estou apenas checando os bens pessoais do nosso alvo. Joguei o jornal sobre a pilha de fotos e saí da sala.

Vagando de um cômodo a outro, fiscalizando o trabalho da minha equipe, tive a sensação de que via minha própria casa pela primeira vez. Lembrei-me de como estava a sala de visitas quando nos mudamos: totalmente vazia, e cheia de esperanças. Na primeira noite, Emma e eu dividimos uma pizza e uma garrafa de vinho, jantando à luz de velas sobre um caixote emborcado. E depois fizemos amor ali mesmo...

Senti um aperto no coração. Fazia anos que eu não pensava naquela noite.

Agora a casa estava completamente mobiliada e lindamente decorada com peças elegantes e caras.

Quando foi que tudo isso deixou de ser tão maravilhoso?

Sem nenhum motivo específico, subi as escadas e parei diante de uma fotografia emoldurada: eu e Emma em Coney Island, sorrindo.

Sorrindo e mentindo.

Senti que alguém me observava e olhei pela porta da suíte.

Meu enorme urso de pelúcia estava sentado à beira da cama, acenando com seu sorriso pateta. Sorri de volta, lembrando-me do dia em que ganhei este prêmio, numa feira de rua em Little Italy. Da expressão no olhar de Emma quando eu...

Então vi uma faca afundar no coração do urso. Uma de minhas colegas havia cortado a pelúcia e começava a vasculhar o estofo à procura de pistas. Outro nó na garganta.

Mas levantei o queixo e respirei fundo. Eu não ia chorar. Minha vida naquela casa tinha sido apenas um disfarce esperto, só isso. E então ouvi a voz de Emma dentro do quarto.

Meu Deus! Ela estava ali? No meio daquela confusão toda?

Fui correndo ver o que era e me deparei com um cenário parecido com uma festinha de colegiais. Algumas das minhas colegas estavam aboletadas na cama, assistindo a uma fita de vídeo que eu havia gravado numa viagem de férias.

As Sras. Swan-Mills dançando na praia.

Dali saíra a voz de Emma. E minha voz também. E risadas. Muitas risadas.

—O que é isso? — perguntei.

—Aparentemente sua lua-de-mel — respondeu Aurora. — Sei muito bem o que é! —desferi. —Quero saber o que vocês estão fazendo com essa fita!

—Pesquisa — disse Aurora, defendendo-se. — Informações adicionais. Sobre o alvo. — As outras garotas concordaram com a cabeça.

Ah, não! Eu acabara de descobrir que meu casamento tinha sido uma farsa e que minha esposa era uma perfeita desconhecida; não estava em condições de assistir ao vídeo da minha lua-de-mel!

— Nunca te vi assim, tão feliz — suspirou Aurora.

Não estava disposta a ver aquele vídeo em que eu aparecia feliz nos braços de Emma. Não queria me lembrar do calor daqueles braços. Um dia cheguei a achar que meu passado se resumia a uma pálida sucessão de lembranças. Mas agora sabia que era bem pior.

Tinha sido uma enorme mentira.

Mesmo nossa lua-de-mel...

Chamas de ódio consumiram o que ainda sobrava do meu coração.

E no entanto falei com a frieza de um iceberg:— Muito bem, meninas. Vocês não têm mais nada pra fazer aqui. Relutantes, elas se escafederam do quarto. Peguei o controle remoto com a intenção de parar o vídeo e desligar a TV.

Mas não pude me conter. Como alguém que passa por um acidente na estrada e não consegue desviar o olhar. Sabia que não devia fazer aquilo, mas acabei sucumbindo à curiosidade mórbida e olhei.

Minha nossa... Emma e eu... numa ilha paradisíaca. Rindo, beijando, fazendo palhaçadas. Como se a vida fosse tão bonita e ensolarada quanto o céu acima das nossas cabeças. Quase não reconheci a mim mesma. Seria possível tanta felicidade assim?

“Não”, respondi mentalmente. “Tudo não passou de um sonho. Um sonho lindo e delicioso, mas... infestado de mentiras!”

Apertei o botão do controle remoto e meu passado sumiu como teria sumido um filme da Disney. Sei lá, Cinderela, ou qualquer um desses filmes de garotinhas iludidas.

Fui até a TV, retirei a fita e arquivei-a em seu devido lugar.

Na lata de lixo.

Depois disso, decidi deixar o resto da tarefa nas mãos da minha equipe. Eu já havia olhado nos olhos do dragão e não tinha mais nada para fazer na casa.

“Casa que já não era minha”, não pude deixar de pensar. Mas, do lado de fora, eu ainda tinha uma última coisa a inspecionar.

O anexo que servia de quartinho de ferramentas.

Meus domínios sempre tinham se limitado à cozinha — caramba, eu havia aprendido a cozinhar por pura necessidade. Na infância, não tive alternativa: era cozinhar por conta própria ou morrer de fome. E então me dediquei à culinária com a mesma mania de perfeição com que me dedicava à tudo na vida. E por fim me transformei numa verdadeira gourmet.

Mas o quartinho de ferramentas era território exclusivo de Emma. Jamais quis saber o que ela fazia ou guardava ali. Mas agora, pensando bem, não havia dia em que ela não passasse por lá.

Então entrei ali com voracidade, certa de que havia encontrado uma mina de ouro.

Levantei o interruptor, e uma lâmpada pendurada ao teto iluminou o lugar.

Que bagunça!

Abri todas as caixas de ferramentas, vasculhei as gavetas. Não podia sequer imaginar para que servia grande parte daquela tralha. E então... percebi uma coisa.

Enquanto caminhava, ouvia meus passos ecoarem ligeiramente sob os pés.

Sorri. Piso falso!

Pisei mais forte. Mais ecos. Eu havia encontrado o centro da mina!

Peguei uma lanterna e entrei em ação.

Imagino que Emma jamais suspeitasse que um dia alguém pudesse desconfiar dela. Não ali, naqueles subúrbios endinheirados e convencionais.

A entrada da caverna estava escondida, é claro, mas não tive dificuldade para encontrá-la. Empurrei uma espécie de bancada e lá estava: um alçapão trancado. Ora, cadeados com segredo eram uma das minhas especialidades e não levei mais que alguns minutos para abri-lo. Por fim, joguei-me no buraco.

Iluminei as paredes com a lanterna.

Santo Deus! Eu estava diante de um verdadeiro arsenal!

O lugar regurgitava de armas, de todos os tipos e tamanhos! Um supermercado de material bélico!

E nas prateleiras, pilhas e mais pilhas de cédulas, de todos os valores. E muitas notas estrangeiras também. Mais dinheiro do que a agência local do nosso banco jamais tinha visto em seus cofres.

No meu rosto, o primeiro sorriso espontâneo do dia. Limpar o quartinho de ferramentas nunca havia sido minha ideia de felicidade. Mas naquele dia em particular nada me deixaria mais feliz.

As meninas apareceram pouco depois e ficaram tão chocadas quanto eu.

— Vamos levar tudo isso — eu disse. —Tudinho!

Como o Grinch que roubou o Natal, rapidamente empacotamos os brinquedinhos de Emma e levamos tudo para cima. Já na rua, fiquei satisfeita ao ver minha equipe encher uma van inteira com fronhas e lençóis estufados de armas.

Duas garotinhas da vizinhança passaram por mim, curiosas.

— O que é isso aí? — uma delas perguntou.

— Festa no jardim, meninas — respondi com um sorriso.

EMMA

Olhei rapidamente para o relógio.

Ainda havia tempo para um último gole.

Tirei do bolso o cantil de prata, desenrosquei a tampinha e levei o gargalo à boca. Mas parei quando vi a dedicatória. Foi como se eu a estivesse lendo pela primeira vez.

“Às balas que não nos encontraram. Regina.”

Porra. Uma mensagem oculta do passado.

Seria aquilo uma advertência? Seria possível que ela já soubesse, naquela época — mesmo quando se contorcia e gemia ao meu toque, mesmo quando sussurrava doces promessas no meu ouvido —, que as balas que me perseguiriam no futuro viriam dela?

Diabos. Subitamente perdi o gosto pelas bebidas grã-finas, especialmente por aquelas que derramavam de um cantil de prata. Voltei a tampinha ao gargalo. Pensei em jogar aquela porcaria na lata de lixo. Mas decidi ficar com ela. Como lembrete da minha própria estupidez.

Guardei o suvenir no bolso e tomei a direção do boteco mais próximo.

Senti uma súbita vontade de tomar cerveja. Qualquer coisa muito gelada. Algo barato, mas honesto.

Notas finais
Bem curtinho por motivos de: preguiça.