Mrs. & Mrs. Swan-Mills
9 Abraço
Notas iniciais
REGINA
Na sala de reuniões da Magic-Click, as máquinas zumbiam como um Jaguar bem-regulado à espera do sinal verde. Assim como eu.
— Muito bem, o perfil do alvo é a nossa maior prioridade, meninas. Dedicação integral.
Utilizem todos os meios necessários: grampos telefônicos, cartões de crédito. Varredura magnética de todas as frequências civis.
— Com o quê, Regina? — perguntou Mulan.
Tirei da gaveta um minúsculo microcassete. Todas olharam com curiosidade. Mas quando apertei o play, viram que não se tratava da engenhoca high-tech que aparentava ser.
“Olá, você discou para Emma e Regina. Não estamos em casa neste momento, por favor deixe seu recado logo após o sinal... Biiip!”
As meninas arregalaram os olhos, mas preferi ignorá-las.
— E vasculhem todos os bancos de dados à procura de...
— À procura do quê? — interrompeu Kathryn, com sarcasmo. — De Emma Swan?
Abri a boca para dizer alguma coisa, mas as palavras sumiram. Embora me custe admitir, senti o rubor se espalhar lentamente nas minhas bochechas.
Kathryn estava coberta de razão. Emma Swan... Onde é que eu estava com a cabeça? De repente me dei conta de que ignorava totalmente o nome verdadeiro da minha própria esposa.
Que humilhação! Sem falar em todo o resto.
As garotas olharam para mim com uma expressão de pena. E isso me deixou fula da vida! — Encontrem a mulher —rugi.
Tudo bem. Reconheço que não agi com minha fleuma tradicional. Mas, dadas as circunstâncias, achei que tinha o direito.
— Hmm, Regina —disse Ariel timidamente. — Acho que já a encontrei.
Meu coração saltou como o de um leopardo que acaba de localizar sua presa. A equipe inteira se virou para Ariel. Ela ficou pálida.
— E então? — perguntei. — Onde está ela?
Ariel engoliu a seco.
— Está aqui. — ela pressionou algumas teclas de seu computador, ampliando sobre a tela uma das muitas imagens do nosso sistema de segurança.
Câmeras de vigilância apontavam para o elevador quando as portas se abriram.
Vazio!
Achei que ela pudesse estar escondida. Fechei o zoom, à procura de uma sombra, uma unha, qualquer coisa invadindo o campo de visão da câmera.
Nada. Epa... Algo cintilou no chão do elevador.
Fechei o zoom ainda mais.
Um minúsculo disco dourado rebatia as luzes do Elevador. Uma aliança. E dentro daquela promessa de amor eterno, outra promessa:
Uma bala solitária.
O recado de Emma estava dado.
— Invasão do sensor térmico no perímetro — informou Mulan de repente.
A tela do computador exibia uma reprodução tridimensional dos dutos do sistema de calefação — bem como a termo imagem de uma mulher se arrastando através deles.
Juntas, todas nós olhamos para o teto, à espera de algum ruído.
Riiiiiing!
Pulei de susto quando meu celular tocou. Atendi sem desgrudar os olhos do teto. Não precisava olhar para o identificador de chamadas para saber quem era.
—Já disse um milhão de vezes que não gosto de ser importunada no escritório — fui logo dizendo.
—Primeiro e último aviso, Regina — disse Emma, sem nenhum preâmbulo. — Você precisa desaparecer. Agora.
—E por que eu faria isso?
—Porque — Ela disse — eu posso apertar o botão a qualquer hora, em qualquer lugar.
Não resisti.
— Querida, você não acharia o botão nem com uma lupa e um mapa.
Um momento de silêncio.
—Emma?
— Você está cinco segundos atrasada.
Ouvimos uma pancada metálica no alto e seguimos o ruído através do teto, parede abaixo, até uma saída de ar...
Meu Deus, Ela não estava brincando! Uma granada minúscula rolou para fora e continuou deslizando pelo chão. Mais parecia um brinde do McDonald's ou uma granadinha da Barbie. Mas eu sabia que aquilo não era brinquedo nenhum.
A poucos milissegundos da morte, não havia tempo para que meu cérebro ordenasse às minhas pernas para- dar o fora dali!
— Bum! Você está morta — berrou Emma. As últimas palavras que eu ouviria.
Um pequeno estalo, e um clarão intenso iluminou a sala. Fugimos para todos os lados, cedendo a um impulso derradeiro e inútil.
E então...Vi que não estava morta.
A granada cuspia uma fumaça vermelha e chiava. Era inofensiva. Pelo menos assim esperávamos.
Mesmo que fosse, eu estava certa de que Emma não mandaria outro aviso. Nossa história logo chegaria a um fim, fosse de que jeito fosse.
Do meu jeito, de preferência.
— Plano de evacuação C! — berrei para minha equipe. —Rápido!
Joguei-me sobre o primeiro teclado que vi e digitei um comando: o disco rígido foi completamente esvaziado.
As meninas recolheram todas as pastas de arquivo, as de papel, e jogaram-nas numa urna de incineração. Sem titubear, Kathryn lançou na mesma urna um dispositivo incendiário e — wuuufl — adeus arquivos.
Nossos múltiplos planos de evacuação iam longe no alfabeto, mas quase todos especificavam que nada que pudesse nos incriminar — nenhum pedacinho de papel, nenhuma vírgula, nenhuma pegada — fosse deixado para trás.
Enquanto eu terminava de limpar os computadores, as meninas desviaram seus esforços para as paredes do escritório: com alguns movimentos hábeis, abriram tapumes secretos e retiraram lançadores portáteis de seus compartimentos igualmente secretos.
Também escondida ali, uma fileira de botões era reservada para uma fuga de última hora. Pressionados estes botões, as Janelas se estilhaçariam numa série de explosões centrípetas que cobririam o escritório inteiro de pedacinhos de vidro, parecidos com gelo moído.
Em seguida, as meninas passaram os fios de kevlar dos lançadores por âncoras presas ao teto. Assestaram os dispositivos na direção das Janelas e dispararam garras de metal, também atadas aos fios de kevlar, rumo aos prédios vizinhos.
Ouvi com prazer o barulhinho produzido pelos ganchos quando se engastaram nos telhados. Tão logo os fios se retesaram, os lançadores alçaram ao teto, criando rotas de fuga firmes e seguras.
Kathryn buscou um kit de polias e alças e atou as engenhocas às cordas; por fim, uma a uma, as meninas saltaram das Janelas e voaram pelo breu da noite — cinquenta andares acima da Mãe Terra.
Foi uma linda manobra, bem planejada e bem executada, mais rápida do que toda essa longa descrição poderia sugerir. Eu admirava profundamente a competência e a sensatez da minha equipe. Mulheres de fibra, sem dúvida alguma.
— Venha, Regina! — gritou Kathryn enquanto eu apagava o último disco rígido. Fiz um gesto rápido com a cabeça, indicando que não iria me demorar. Kathryn desapareceu pela janela.
Fiquei sozinha.
Dei uma última olhada no escritório tomado de fumaça. Aquele lugar tinha sido para mim uma espécie de porto seguro, uma ilusão de permanência em minha vida. Tinha sido um enorme prazer trabalhar ali.
Mas era hora de partir.
Dei à velha sala um emocionado adeus, peguei o meu lançador e disparei.
Eu havia acabado de atar a polia quando pensei ter ouvido alguma coisa. Virei o rosto e vi Emma pulando do teto.
Ela se virou na minha direção, arma em punho, e buscou o meu olhar através da fumaça.
Poderia atirar a qualquer instante.
“Está vendo?”, lembrei a mim mesma. Naquele ramo, um mísero segundo de sentimentalismo muitas vezes significava morte certa.
Devolvi o olhar de Emma com um esgar de desafio.
Ela hesitou.
O suficiente para que eu desse o fora. Com a adrenalina a mil, saltei pela janela.
EMMA
Eu poderia ter atirado ali mesmo, mas cometi a burrice de olhar diretamente naqueles olhos de aço.
Não era o olhar tépido, enfastiado e oblíquo da mulher que eu pensava conhecer, mas um olhar de desafio, também duro como o aço. Aqueles olhos eram capazes de deter qualquer adversário com uma única mirada.
E por um instante senti uma arrebatadora excitação. Era como se... sei lá, como se minha mente, e não apenas o meu corpo, estivesse subitamente subjugada por ela. Como eu poderia destruir o que suscitava em mim aquele desejo de posse tão incontrolável?
Quando hesitei um segundo para decidir se acabaria com ela ali mesmo, aqueles olhos de aço cintilaram de maneira quase debochada.
Em seguida, com a naturalidade de alguém que entra num elevador, Regina se jogou pela janela.
O coração batendo a mil, corri até o parapeito e vi que ela deslizava por uma espécie de corda. Acho que naquele momento o tal desejo de posse bateu mais forte ainda — eu jamais deixaria aquele tesouro escapar!
Pulei atrás dela.
Isso mesmo. Pulei.
Embora não contasse com o benefício de um fio de kevlar. Nem de um paraquedas. Eu despencava em queda livre de uma altura equivalente a cinquenta andares, tentando bolar um plano enquanto voava.
Regina me viu e ficou devidamente chocada — quisera eu um pouco impressionada também.
Seria ótimo se ela não se importasse em receber uma visitinha naquele horário tão inconveniente.
Furando a escuridão, continuei caindo até me chocar diretamente com o corpo de Regina. Agarrei os pulsos dela e depois seguimos juntas, penduradas na mesma alça.
O peso adicional diminuiu a velocidade da descida; o fio começou a perder tensão até se afrouxar completamente.
Então ficamos ali, penduradas no meio do fio de kevlar, braços e pernas entrelaçados num mesmo desejo de sobrevivência, cinquenta andares acima das ruas, onde a borbulhante vida noturna da cidade prosseguia alheia ao nosso pequeno probleminha. Estávamos numa espécie de limbo, vertiginosamente suspensas no ar.
Acho que foi aquela altura toda que me deixou um pouco zonza. No entanto, devo confessar que Regina era o colete salva-vidas mais delicioso que eu jamais havia vestido em toda a minha vida.
Naturalmente, meu ego ficou um pouco avariado quando pude constatar que nosso inusitado abraço não havia produzido nela o mesmo efeito que havia produzido em mim.
— Você poderia ter atirado lá em cima — ela disse. — Mas não atirou. Um gesto delicado. E suicida.
Então ela ainda planejava acabar comigo! Não se divertia tanto quanto eu com aquele romântico rapel! Fiz menção de pegar a arma no bolso, mas Regina apertou minha mão com a força de um alicate.
Puxa, onde será que ela vinha malhando? Meus dedos pareciam estar sendo esmagados por um maldito gorila.
— Fui descoberta lá em cima apenas porque eu quis — falei com sarcasmo. — Você é previsível, Regina. Sei exatamente o que se passa dentro de você.
Virando o punho, Regina conseguiu enfiar a mão por baixo da minha blusa até a parte de trás da minha cintura, um gesto que eu teria apreciado muito fossem outras as circunstâncias. Era da minha arma que ela estava atrás.
— Não era essa a impressão que eu tinha quando estávamos na cama — ela disse. — Será que você mudou tanto assim?
Vaca! Agarrei-a pelo braço e fiz com que girasse no ar, de modo que agora eu a prendia pelas costas, meus lábios na altura das orelhas dela.
— Quem mudou foi você. Fazia muito que não demonstrava tanto interesse por mim.
Regina tentou se desvencilhar, mas quanto mais nos debatíamos, mais nos apertávamos naquele abraço quente, molhado e perigoso.
— E fazia anos que a gente não ficava tão juntinha assim — emendei, sussurrando.
Opa. Regina ficou tão furiosa com minha observação que finalmente encontrou forças para se desprender e virar, colocando-se face a face comigo.
O que não foi de todo mal. Uma posição tradicional de vez em quando tem lá o seu valor.
— Pode tirar o cavalinho da chuva — ela rosnou, contorcendo-se. Ofegava ligeiramente. Cansaço, ou seria algo mais?
Se dependesse de mim, ficaríamos penduradas ali por mais um tempo, mas corríamos o risco de chamar a atenção da polícia se não resolvêssemos logo aquela situação.
Apertei meu corpo contra o de Regina e prendi o braço dela junto ao tronco, impedindo-a de levantar a arma e atirar.
— Quem vai tirar o cavalinho da chuva é você — devolvi. — Vai sair da cidade.
Ela grudou os olhos nos meus, nariz contra nariz, peito contra peito e... tudo o mais contra tudo o mais. Depois seus olhos faiscaram. O que lhe caiu muito bem, devo admitir.
— Está achando que vou me fazer de morta? — ela disse.
— Por que não? — respondi. — Foi o que fiz durante cinco anos de casamento.
— Seis anos!
Dei de ombros, e Regina aproveitou a ocasião para executar uma impressionante manobra: arqueando as costas, liberou o braço e levantou a arma contra mim.
— Não vou a lugar nenhum — falou secamente.
Então respondi com outra manobrinha não menos impressionante: balançando o corpo e chutando para o alto, consegui arrancar com os pés a arma da mão dela. Um pouco de sorte e muita competência — com perdão da imodéstia — permitiram que eu pegasse a pistola no ar, antes que ela despencasse das alturas.
— Nem eu — falei. Com a arma na mão, eu estava em posição de vantagem. Aliás, a posição era ótima, como já foi dito anteriormente.
Pobre Regina. Num derradeiro gesto de resistência, retirou não sei de onde uma faca.
Uma faca bem chinfrim, diga-se de passagem. Balancei a cabeça em sinal de desdém.
— Já devia saber disto, Regina: não se traz uma faca para um duelo de fogo.
— O duelo acabou, Emma — ela disse entre dentes. Depois rodou a faca no ar, mas não em direção à minha garganta, como era de se esperar.
Em vez disso, decepou o fio de kevlar acima de nossas cabeças, o fio que nos mantinha vivas lá em cima — em oposição a “mortinhas da silva lá embaixo”.
Caralho! Qual seria a intenção dela? Matar a nós duas?
Um milissegundo antes que a parte decepada do fio voltasse ao prédio do escritório de
Regina, soltei a arma e agarrei-me nela. Sabia que não teria outra chance de salvação.
Num arremedo de Indiana Jones, estendi as pernas para a frente enquanto despencava a mil por hora na direção de uma grande janela.
Craaaaaash! Estilhaços voaram por toda parte quando atravessei a vidraça, rolei no chão e fiquei de pé numa perfeita sequência de movimentos. “Tacada de mestre”, pensei, tomada daquela euforia de quem sente em cada célula do corpo: “Ainda não foi desta vez!”
Limpei os cacos da roupa, voltei para o buraco que se abrira na Janela e varri com os olhos o prédio da frente. Nenhum sinal de Regina.
Respirei fundo e tomei coragem para olhar para baixo.
Nenhuma aglomeração de transeuntes; nenhuma mancha esquisita no asfalto. Inacreditável. Nós duas havíamos conseguido sair vivas daquela enrascada.
Minha mulher estava à solta, em algum lugar, planejando sua próxima investida.
Que seja.
Eu jamais havia enfrentado um oponente tão valoroso. Ainda sentia o sangue ferver com a excitação da caçada. Estava pronta para a batalha seguinte.
“Pode vir, meu amor, estou esperando.”
Ajeitei minhas roupas e virei-me para ir embora quando percebi, pela primeira vez, a presença de uma faxineira recostada na parede. Estava trêmula e agarrava ferrenhamente o cabo da vassoura.
Na verdade, fiquei envergonhada.
— Sinto muito pela bagunça — balbuciei. E sentia mesmo. Mas não tinha tempo para continuar ali e ajudá-la na limpeza. Tinha uma esposa para matar.
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