Mrs. & Mrs. Swan-Mills
10 Escudo
Notas iniciais
REGINA
Cortar a linha fora um risco calculado.
Mas eu não tive escolha! Estava dependurada sobre as garras da morte carregando um peso extra — minha quase ex-mulher. Tinha de fazer algo drástico caso esperasse sair viva daquela situação.
Assisti a um retrospecto de minha vida inteira num único instante. Fui salva pela lembrança da imagem de um trapezista que vi quando criança. Se eu queria sobreviver não poderia pensar em seguir correndo em direção a um prédio, deveria acreditar que eu era um artista aéreo seguindo reto a uma plataforma — quem sabe até ouvir a música do circo, sentir o cheiro da pipoca, dos elefantes...
Topei no parapeito de uma varanda um milésimo de segundo mais tarde — cheguei a sentir os pombos abrindo espaço enquanto eu pousava.
Sã e salva! Talvez não tão sã... No mesmo momento me virei para ver como havia ficado minha... adversária.
Quando a vi, perdi o fôlego.
Juro. Passei seis anos com uma mulher que acreditava merecer um prêmio por sua habilidade de beber enquanto dirigia um carrinho de golfe, e que o prêmio deveria ser uma nova rodada de drinks servidos à beira da piscina do clube.
A mulher que voara pelos ares como o Tarzã dependurado em cipós não podia ser a mesma pessoa com quem eu me casei.
Ela Tarzã, eu Jane.
Incrível. Eu sei: não é nada fácil voar pelos ares encarando uma vidraça pela frente. Mas ela sabia o que estava fazendo —eu assisti à manobra. E não acreditei no que vi quando ela ficou de pé após um único e breve movimento.
Céus! O que eu estava fazendo? Eu não deveria estar admirando esta mulher, suas habilidades ou seu físico. Ela era uma mentirosa, uma fraude.
Chicoteei minha linha kevlar, enrolei-a no meu ombro e fui abrir a porta da varanda. Eu tinha de sair dali o mais rápido possível e reencontrar minha equipe.
Maldita! Espero que ela não tenha sentido o que senti enquanto estávamos dependuradas.
Nem farejado meu medo.
Não meu medo de cair ou de morrer.
Meu medo dela.
Por Deus... esses momentos sob as estrelas... Foi uma das melhores noites que passamos juntas em vários anos.
Eu não sabia quem era aquela maldita mulher armada e perigosa, e não carregava nenhuma arma capaz de me proteger dela.
EMMA
Mais uma vez busquei refúgio na casa de Killian, onde andava de um lado para o outro como uma fera enjaulada. As artérias latejando com a adrenalina, os músculos crispados, prontos para darem o bote — a conhecida síndrome da “luta ou fuga”.
Mas lutar com quem? Fugir do quê? Da minha própria vida ao longo dos últimos cinco anos?
Eu estava paralisada. Subjugada pela intensidade de emoções conflitantes, eu não conseguia enxergar direito, não encontrava nenhuma explicação.
Sabia apenas que precisava cobrir alguém de porrada.
Para piorar as coisas ainda mais, Killian estava mais intragável do que nunca.
— Você está dizendo que...
Ele se refestelava no sofá da sala, vestindo um roupão de banho e fumando um cigarro atrás do outro, enquanto eu examinava uma pilha de entulho carbonizado que eu havia surrupiado do escritório de Regina.
— Está dizendo que poderia ter atirado à queima-roupa e não atirou?
Eu não queria falar sobre o assunto. Então continuei a trabalhar, vasculhando aquele entulho em busca de... do quê mesmo? Sei lá... de alguma coisa. Algo que pudesse dar sentido à história toda.
Ou talvez estivesse apenas adiando o inevitável.
— Cara! — exclamou Killian. — Isso aí parece coisa da era mesozoica. Deixa de molho de um dia pro outro, e pimba! A gente acorda com uma pilha de diamantes no chão.
— Continua procurando, Killian, caladinho.
— Procurando o quê? Fósseis? Ems, minha cara, você não está com tempo pra brincar de arqueóloga. Eles te deram quarenta e oito horas, e só te restam o quê? Vinte e duas? Vinte e três?
Eu sabia que estava correndo atrás do meu próprio rabo. Mas não consegui evitar. Olhei para o relógio e disse:
— Dezoito e uns quebrados.
— Dezoito horas até despacharem vocês duas para o inferno! Ems, chega de embromação. Você precisa apagar essa vadia já!
Olhei para ele, séria.
— Não preciso que você me diga como lidar com a minha própria mulher.
Killian balançou a cabeça, impaciente. Não era de tapar o sol com a peneira.
— Ela não é sua mulher.
Demorei um pouco para digerir estas palavras.
— Você precisa aceitar isso — ele continuou, um pouco mais ameno. — A gata não é sua mulher. É o inimigo. Vai por mim. Ela agora deve estar lá, com as amiguinhas, arrumando um jeito de acabar com você. E ficar com a casa, o carro, o gato, até a porra da torradeira...
— Killian! — gritei.
Ele estava indo longe demais. Talvez em direção ao campo de guerra ao qual se resumira quase todos os seus relacionamentos no passado.
De repente, avistei um pedacinho de papel, minúsculo e poeirento, que me deixou intrigada. Killian se aproximou para ver o que estava escrito nele. Apenas quatro letras:
“TZKY.”
— Pô, será que dá pra comprar uma vogal? — brincou. Talvez fosse uma pista.
Mas Killian não concordou e preferiu continuar a me importunar:— Você tem que apagar a vadia, Ems.
Sim, mas como? Não se tratava de uma cabecinha de vento qualquer. Nem de uma matadora de aluguel ordinária. Regina era boa no que fazia, por mais que me custasse admitir isso. Muito boa. Mas não era páreo para mim. Apenas um desafio.
Killian prosseguiu com a saraivada de conselhos:
— Tem que entrar na vida dela... na cabeça dela... encontrar uma porta... Vá pra casa!
Para casa? E onde é que ficava isso? A ideia não quis sair da minha cabeça. Ir para casa. Humm...
Ridículo? Talvez não.
Nem sei se ela estaria lá.
Talvez já tivesse desaparecido. Ou talvez estivesse mesmo lá, confiando que eu jamais colocasse os pés naquele bairro outra vez. O que a deixaria ainda mais vulnerável.
— E Ems, é melhor você não ir sozinha — advertiu Killian. — Leva um escudo.
Alguém pra levar o primeiro tiro caso ela esteja escondida e armada até os dentes na porra da chaminé!
Joguei os braços para o alto e disse:
— E onde vou encontrar esse escudo, cara?
Depois parei e pensei. Um rosto me veio à mente. O escudo perfeito, que além de tudo morava debaixo do meu nariz.
Em dois segundos eu já estava na soleira do meu vizinho. Afinal nós éramos amigos, certo? Toquei a maldita campainha.
Quantas vezes naqueles últimos cinco anos eu havia parado diante daquela mesma porta, levando uma garrafa de vinho ou um pacote de cerveja debaixo do braço? Ou segurando uma bandeja de salgadinhos enquanto Regina dava os últimos retoques na maquiagem?
O perfeito casal dos subúrbios dando as caras para mais uma insípida reuniãozinha de suburbanos. Como aquela última. Regina chegando na última hora, arfando, com aquele brilho estranho no olhar. Eu estava tão preocupada em esconder o que eu tinha feito que sequer enxerguei o que se passava com ela. Achei que estivesse um pouquinho ansiosa por causa da festa. Por onde ela teria andado naquela noite? Que diabos estava fazendo?
E com quem?
O anão no jardim dos Nolans parecia rir de mim, portanto tive de calar a boca dele com um discreto chute no saco. Merda, doeu. O pouquinho de culpa que eu pudesse estar sentindo pelo que estava prestes a fazer agora havia dado lugar a um ódio incontrolável e indefinível.
Esmurrei a campainha outra vez.
David Nolan teve o azar de estar em casa. “Carma ruim, meu amigo”, pensei ao vê- lo abrir a porta com um daqueles chapéus de chef ridículos na cabeça e um avental de churrasco onde se lia “Cuidado com a salsicha quente”.
O cara era um perfeito panaca dos subúrbios.
— Aloha — ele disse, animado, entrando rapidamente no papel de vizinho amigão.
Não foi difícil convencê-lo a dar um pulinho até minha casa. Ele adorou. Acho até que se sentiu lisonjeado. De repente percebi, com uma pontinha de remorso, que nunca o tinha convidado para ir à minha casa, muito embora tivesse comparecido à dele inúmeras vezes.
David praticamente trotou até a minha varanda. Com muito cuidado, passei os olhos pelos arbustos do jardim, à procura de armas apontadas em nossa direção. Mas as azáleas me pareceram inofensivas. Destranquei a porta da frente e empurrei-a com a ponta do pé.
Silêncio.
A porta se abriu lentamente, e eu espiei para dentro.
Nenhum sinal dela.
Na qualidade de anfitriã perfeita, fiz sinal para que meu escudo — quer dizer, meu convidado — entrasse primeiro.
David Nolan entrou na minha casa como se estivesse entrando na Disneylândia pela primeira vez.
Quanto a mim, preparei-me internamente para ouvir o hall de entrada explodir. Ou pelo menos a cabeça do cara.
Mas nada aconteceu.
— É inacreditável que eu nunca tivesse vindo aqui antes — exclamou David, olhando ao seu redor sem nenhum constrangimento.
Eu também olhei ao meu redor. E fiquei inquieta. Talvez fosse uma cartada inteligente de Regina. Deixar que eu entrasse em casa e esperar até que eu me sentisse suficientemente confiante para abaixar a guarda.
Alerta, eu seguia atrás de David, com a cabeça baixa e uma das mãos no coldre do revólver.
— Este piso é sensacional! O que é? Teca?
Olhei para a porra do piso e disse:
— Não tenho a menor ideia. Vem, vou te mostrar a casa inteira. Ambos seguíamos de olhos bem abertos enquanto atravessávamos a penumbra em que se transformara minha antiga casa. David, por causa da curiosidade. Eu, por causa da apreensão.
— Olha só pra isso — disse David, retirando um troféu da prateleira —, você ganhou o Master do Country Club este ano!
Mas eu estava aflita demais para me vangloriar do que quer que fosse naquele momento.
Aos poucos chegamos à sala de visitas.
E subitamente David deu um gritinho duvidoso.
Agachei o mais rápido que pude e, sem tirar a mão do coldre, varri a sala com os olhos.
Mas não vi nada de interesse.
— O que foi?
David apontou para o lavabo, cuja porta estava entre aberta.
— Mármore de Carrara!
Ufa! Soltei a respiração e acenei para que ele seguisse em frente e olhasse o que quisesse.
Assim que David entrou no banheiro para admirar o acabamento, sai de fininho e subi as escadas.
Arma em punho, quebrei para a esquerda e entrei no nosso quarto. Ou melhor, entrei no quarto. “Você não mora mais aqui”, disse à mim mesma. “Se é que um dia você morou...” Depois de uma rápida olhada atrás da porta, vasculhei as gavetas de Regina, à procura de armas ou... na verdade, não sabia exatamente o que estava procurando. Algum tipo de explicação, eu acho. Mas as gavetas estavam meio vazias — talvez Regina já tivesse retirado dali o pouco que queria guardar para si depois de cinco anos de casamento. Na verdade, o lugar dava a impressão de ter sido saqueado por uma gangue de profissionais. E eu sabia muito bem que gangue era essa.
Segui para o closet logo adiante, abrindo caminho com o revólver, só para garantir.
Ela havia deixado um montão de roupas para trás — fantasias de esposa suburbana já sem nenhuma serventia. Afastei uma das camisolas de seda com o cano do revólver.
— Dessa eu me lembro bem.
Antes que pudesse me conter, puxei o tecido contra o rosto e fechei os olhos. O cheiro lembrava o silêncio da noite, os lençóis amassados sobre a cama, minha mulher...
Porra. “Ela não é sua mulher, ela não é sua mulher...”, repeti para mim mesma.
Virando a cabeça, vi um corpo jogado num canto: o urso de pelúcia que ela havia ganhado numa feira de rua em Little Italy. “Sorte de principiante”, foi o que ela disse então.
Sei.
O urso estava com o peito dilacerado. Coitado do bicho. Eu sabia muito bem como ele estava se sentindo. Em seguida vi um objeto escuro na lata de lixo. Uma fita de vídeo. Guardei a arma na cintura da calça, peguei a fita e li a etiqueta pregada no dorso.
Era a fita da nossa lua-de-mel.
Senti uma pontada no estômago. “Ela não é sua mulher...”
— Então, qual é o seu segredo?
Assustada, teria metido uma bala na testa do intruso se não tivesse percebido a tempo de quem se tratava. David Nolan. Parado no vão da porta, o olhar fixo em mim.
Teria visto minha arma? Teria encontrado naquela casa algo que revelasse os segredos que eu e Regina havíamos guardado uma da outra durante tantos anos?
— Vamos lá, pode se abrir — ele disse, sorrateiro. — Afinal, pra que servem os vizinhos?
“Bons escudos?!” Pensei.
Sacudi os ombros, com dissimulada inocência. Insistente, David piscou o olho e entrou no quarto.
— Como você faz para... você sabe... manter as coisas... interessantes? — ele perguntou, apontando o queixo para as minhas mãos.
Com uma delas eu segurava a fita de vídeo; com a outra, a camisola. Merda.
Minha vontade era quebrar aquele plástico contra a parede e rasgar a seda em pedacinhos.
Mas não podia perder o controle na frente de uma testemunha bisbilhoteira. Além do mais, já tinha me safado de situações muito mais intricadas do que aquela.
— Bem, David... — eu disse calmamente. — Não é fácil. É preciso prestar muita atenção uma à outra. Observar os detalhes...
Perdi o fio da meada quando reparei no bloco de anotações ao lado do telefone, na mesinha-de-cabeceira. Dava ainda para ver a marca da última anotação sobre a primeira folha.
Ora, ora, ora.
— ...e nunca se esquecer da importância do elemento-surpresa — concluí.
Então peguei o bloco, dei as costas para David e tirei do bolso da jaqueta um spray mais ou menos do tamanho de um batom. Uma rápida baforada de vapor ultravioleta sobre o papel bastou para revelar o que estava escrito ali: Lubetzky Corretagem Imobiliária. E um endereço.
Bingo! Ali estavam as quatro letras misteriosas: TZKY.
Perfeito. Obviamente a Magic-Click precisaria de uma sede nova depois do inesperado incêndio da véspera. E Regina, muito gentil, havia deixado para mim um cartãozinho com o novo endereço.
Rapidamente inventei uma desculpa para meu convidado: disse que havia subitamente me lembrado de um compromisso e prometi que muito em breve Regina e eu teríamos o maior prazer em recebê-los, ele e a mulher, Mary, para uns drinques ou para jantar. Uma mentirinha esfarrapada e fácil de dizer.
Acompanhei David até sua varanda e depois dei meia-volta, seguindo direto para o quartinho de ferramentas. Uma vez na escuridão, tranquei a porta, busquei uma lanterna e abri o alçapão. Pulei para dentro e...
“Mas o que foi que...” Mal acreditei no que vi; ou melhor, no que não vi. Meu dinheiro, minhas armas... tudo havia sumido. Nem mesmo um misero canivete tinha ficado para trás.
Meu arsenal secreto havia sido totalmente pilhado... por Regina e sua fiel criadagem, não restava nenhuma dúvida.
“Aquela vaca!”
Foi o banho de água fria que faltava para dissipar de uma vez por todas aquela minha estúpida recaída sentimentalóide.
Com o ânimo redobrado, subi a escada e deixei para trás o subsolo vazio.
A profissional estava de volta.
E agora era guerra.
Fale com o autor