Mrs. & Mrs. Swan-Mills
11 Túmulo de Metal
Notas iniciais
EMMA
Quase caí para trás ao olhar para o alto do espigão de oitenta e tantos andares, novinho em folha, que se lançava em direção ao céu cor de anil. Alguém estava montado na grana.
Conferi o endereço que aparecia no bloco de anotações de Regina. Era ali mesmo.
Octogésimo segundo andar.
Nunca soube que o negócio de assistência técnica na área de informática desse tanto dinheiro.
O prédio ainda estava em construção, mas aparentemente a Magic-Click não tinha tempo a perder. Afinal, tinham um assassinato para planejar: o meu.
Vestindo um macacão preto, boné para esconder o cabelo e carregando uma caixa de ferramentas surrada, eu era apenas mais um operário-padrão a caminho do trabalho; portanto, não tive dificuldade para cruzar os andaimes.
Dentro do elevador, apertei o botão que me interessava e fiquei ali, olhando para os números: 70, 71, 72, 73... O 74 não se acendeu. 75, 76... De repente, o carro parou entre dois andares.
Esperei por um instante para ver se se tratava de um truque de espionagem premeditado ou de apenas um probleminha rotineiro. Por fim, uma voz masculina disse pelo alto-falante:
— Aqui é da segurança. Aparentemente há um problema com o elevador. Podemos mandar um engenheiro pra dar uma olhada, se o senhor quiser.
— Não, muito obrigado — respondi. — Prefiro ficar aqui, esperando que o problema se resolva sozinho.
Um momento de silêncio. Depois:
— O senhor está brincando, não está?
Não respondi. Então o guarda se manifestou novamente, impaciente demais para um reles segurança:
— Então, está brincando ou não está?
Na verdade, aquele jeito de falar lembrava demais o tom de impaciência da minha mulher quando se metia numa discussão.
Sorri calmamente para a câmera de segurança fixada na parede. Nunca se sabe quem está nos observando nesse tipo de situação.
E mandei um beijinho para ela.
REGINA
Então era isto: Ela havia descoberto o endereço a partir da anotação que eu havia feito no bloco da mesinha-de-cabeceira. E agora estava lá. Eu sabia muito bem para quê, e o que planejava fazer. Eu olhava para as imagens de Emma, presa no elevador entre dois andares.
Merda! Minha esposa sempre ficava irresistível em roupas pretas.
“Ela não é minha esposa”, tive de me lembrar.
Eu havia falado com ela como se fosse um guarda de segurança, minha voz distorcida por um modulador de modo a ficar mais grave. Quando ela não me respondeu, fui obrigada a repetir:
— Está brincando ou não está?
No monitor, ela levantou o queixo e olhou diretamente nos meus olhos. Eu tinha certeza de que, com ou sem modulador, ela sabia exatamente com quem estava falando.
Sobretudo quando mandou um beijo.
Piranha!
Deixei de lado a voz falsa e disse:
— Este é o primeiro e último aviso que eu lhe dou, Emma.
Ela sorriu para a câmera, e acho que ouvi uma de minhas assistentes mais jovens suspirar.
Aquele sorriso sempre fora uma de suas armas mais poderosas.
— Você sabe que não vou à lugar nenhum — ela retrucou sem se alterar.
A safada tinha coragem, isso ninguém podia negar.
— E não vai mesmo — devolvi. — Neste exato momento você está trancada num caixote de aço hermeticamente fechado e pendurado a uma altura de 76 andares.
Emma esmurrou as portas do elevador, mas elas não se mexeram. Tentou alcançar a escotilha de emergência, mas ela era alta demais.
— O que você tem aí em cima? — perguntou.
— Você não gostaria de...
— Cargas ocas no cabo de contrapeso? — ela arriscou. — E também nos sistemas primário e secundário de frenagem?
— Ela as encontrou! — disse Ariel, surpresa.
Sorri. Eu também fiquei impressionada.
— Mas não todas —revelei a Ariel, antes de voltar ao microfone.
— Emma, por acaso também viu a carga-base no cabo principal?
O sorriso de um milhão de dólares murchou pela metade. Estava claro que não tinha visto.
— De agora em diante só vou pegar o elevador de serviço. — resmungou.
— Acha que sou burra o bastante pra deixar um mapa da mina ao lado da cama? Puxa, Emma, achei que você fosse mais que um rostinho bonito.
Foi o que bastou para acabar de vez com o sorriso dela. Quanto a mim, tive de reprimir a vontade de tripudiar.
Emma retesou os músculos da face, os olhos faiscando na direção dos meus. Depois balançou a cabeça e disse:
— Você não vai detonar.
— Ah, não?
— Não.
Estávamos jogando uma sinistra partida de pôquer; muito divertida para mim, mas nem tanto para ela, pendurada no alto de um fosso de elevador.
— Acha mesmo que não vou?
— Acho.
Ela respondia sem hesitar, segura, petulante.
De repente minha cabeça se deixou levar pela dor e pela raiva de quem havia sido traída. O coração duro como pedra, virei-me para Mulan e dei o sinal que ela esperava.
Mulan apertou os botões na mesma hora. As luzes verdes do monitor ficaram vermelhas. Tradução: armado. Comecei a contagem regressiva:
— Cinco, quatro...
— Contar pra quê, Regina? — desafiou Emma. — Se vai mesmo detonar, detona logo. Vamos lá: três, dois, um... fogo!
Engraçadinha. ela estava me provocando, e eu detesto ser provocada.
— São essas as suas últimas palavras?
Um sorriso maldoso brotou em seus lábios.
— Não, são estas: eu detestei as cortinas novas!
Filha da puta.
— Adeus, Emma.
Se estivesse esperando por um coração mole ou por uma comutação de pena, tinha esperado à toa. Coloquei os dedos sobre o botão que mandaria aquele rostinho arrogante para o inferno...
Aquele rostinho. Aqueles olhos, aqueles lábios. Aquele corpo...
Foi então que algo aconteceu. Algo que nunca havia acontecido antes, nem mesmo nos primeiros anos de carreira.
Travei. Minha mão literalmente congelou sobre o botão.
Não consegui ir em frente. Deixei a mão cair no colo, horrorizada comigo mesma.
“Eu sabia!”, era o que dizia o sorriso presunçoso nos lábios de Emma.
Insuportável.
Mas antes que eu pudesse pensar no que viria a seguir, ouvi um estrondo terrível:
Buuuuum!
Emma ficou igualmente surpresa quando juntas nos demos conta: as cargas tinham explodido!
O carro de elevador de duas toneladas despencou como um saco de tijolos.
Vi, estupefata, quando Emma foi bruscamente jogada contra o teto da caixa de aço, movida pela força da queda.
Mas eu não tinha apertado botão nenhum! Que diabos poderia ter acontecido? De repente minha atenção se voltou para uma palavra que não parava de piscar no laptop de Mulan: ATIVAR.
Virei-me para ela, os olhos fumegando como duas explosões nucleares simultâneas.
— O que foi? —falou Mulan. — Você disse “adeus”, não disse?
Saltei da cadeira e grudei os olhos no monitor sem poder fazer absolutamente nada. Chocada com o que estava acontecendo. Tomada de terror...
“Rápido! Talvez eu possa...”
Zzzztttt! O monitor chiou como se dissesse: “Sua tonta!”
O rosto de Emma sumiu da tela, substituído por um vazio estático, mudo.
EMMA
Com a velocidade de um trem de carga, o carro despencava rumo ao fundo do fosso. A força da queda me empurrava contra o teto.
Mesmo assim, consegui dar um sorrisinho de adeus para Regina quando atravessei a escotilha e subi no topo do elevador em queda.
A vibração fez com que eu soltasse a caixa de ferramentas. Alicates, martelos e chaves voaram para todos os lados. Voltei a cabeça para dentro do elevador, onde agora se ouvia uma versão pasteurizada de “Garota de Ipanema”. Um absurdo. Por que uma maldade dessas com uma canção tão linda?
Pulei para dentro do carro para pegar uma chave de grifa que chacoalhava no chão e voltei ao topo o mais rápido que pude. Ali, afundei a chave no que parecia ser um mecanismo de frenagem secundário. De início, a coisa não saiu do lugar, mas acabou cedendo. E então algo aconteceu. A velocidade da queda começou a diminuir. Cada vez mais.
Até que finalmente o carro parou. No quarto andar. O número estava grafado no dorso da porta. Fiquei pensando numa maneira de abri-la.
Bang!
O que quer que estivesse nos segurando não segurava mais.
E o elevador voltou a cair fosso abaixo, duas toneladas de metal, para depois se esborrachar no chão com um impacto ensurdecedor.
REGINA
Acabou. Santo Deus, como eu pude...
Olhando para o outro lado da rua, vi uma nuvem de poeira e estilhaços vazar pelas portas do arranha-céu ainda em construção.
Acidente de trabalho. É o que diriam depois. Ninguém jamais saberia o que de fato tinha acontecido.
Eu sequer estava no prédio quando tudo aconteceu. Minha equipe e eu estávamos perfeitamente seguras a poucos metros dali, dentro da nossa van preta — um centro de comando móvel de onde eu havia orquestrado a coisa toda. Na verdade, Emma passou bem ao nosso lado quando estava a caminho do prédio, e em nenhum momento de nossa conversa percebeu que não estávamos no octogésimo segundo andar.
Em termos estritamente técnicos, eu não tinha feito nada. Mulan havia detonado os explosivos.
Mas eu tinha planejado tudo. Tinha armado as cargas com minhas próprias mãos. Tinha premeditadamente deixado a impressão daquele endereço no bloquinho de anotações. A isca foi das mais rudimentares, coisa de criança, mas Emma mordeu-a com a inocência de um cordeirinho.
Tudo não passou de uma armadilha. Na qual ela havia caído como um pato.
Portanto, que diferença fazia não ter sido eu quem apertou o fatídico botão?
Minha intenção havia sido o tempo todo apertá-lo. Afinal era esse o plano. Minhas mãos estavam sujas de sangue — do sangue de Emma.
O que senti depois? Horror? Remorso? Pesar?
Não sei dizer. Um atordoamento, talvez, como o de um sonâmbulo que acaba de acordar no meio de um lugar desconhecido.
Como é que eu fui parar ali?
Por fim ouvi o alvoroço das sirenes dos carros de polícia e das ambulâncias que cercavam o local do acidente.
Mas sabia que as ambulâncias seriam desnecessárias. Sou muito boa no que faço. Tinha certeza de que nenhuma pista havia ficado para trás.
Nenhum corpo.
Emma tinha... ido embora.
As luzes dos carros de polícia rodopiavam no ar como as luzes de uma discoteca surreal.
Sentada ao meu lado, Kathryn analisava a expressão em meus olhos. Mas virei o rosto antes que ela pudesse descobrir o que eu estava sentindo. Eu era uma profissional. Como uma cirurgiã, não podia me permitir nenhuma espécie de sentimento se quisesse realizar bem o meu trabalho.
Meus olhos se voltaram para o tumulto do outro lado da rua.
Sim, eu tive coragem.
Fiz exatamente o que ela teria feito se eu não tivesse feito antes.
EMMA
— Ela foi capaz — eu disse, ofegando. — Ela foi mesmo capaz...
Levei alguns segundos para me convencer de que não estava no céu — nem no inferno. De que ainda estava viva, pendurada pela ponta dos dedos a uma aba, quatro andares acima do elevador em escombros.
Escombros que deveriam ter incluído pedacinhos do meu crânio, do meu esqueleto inteiro.
Meu Deus. Ela foi capaz.
Cheguei a achar que jamais tivesse coragem. Mas teve. Talvez tivesse pensado: “É ela ou eu.” E você, Emma? Teria a mesma coragem que ela?
Se tivesse a oportunidade, teria estourado os miolos da vaca antes que ela pudesse despachá-la para as profundezas do inferno?
Teria, Emma?
Pois ela teve. Não pensou duas vezes.
De volta à realidade: eu precisava usar parte da adrenalina que desperdiçava desejando a morte de Regina na tentativa de sair dali de alguma forma — e acertar minhas contas tão logo possível.
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