Mrs. & Mrs. Swan-Mills

2 Às Balas que não nos Encontraram


Notas iniciais
Dedico à você que leva bala pra sala e divide com os coleguinhas. Divirta-se. :)

REGINA

Bem, é meio esquisito botar tudo isso no papel. Mas vamos lá. Foi assim que conheci Emma.

Tudo aconteceu há seis anos. Eu me hospedava no hotel Americana, em Maputo. Estava lá para assass... Eu tinha um trabalho a realizar para a minha firma. A empresa para a qual eu trabalho. Coisa de rotina. A cidade estava um verdadeiro caos. Políticos eram assassinados, soldados invadiam os prédios todos os dias, policiais vasculhavam os quartos.

Certo dia, num abrir e fechar de olhos, a cidade inteira entrou em ebulição: as pessoas saíram às ruas, gritando e berrando. Ouvi alguém dizer:

— O Malawi foi baleado!

O Malawi: Samora Machel.

Conhecia muito bem aquele nome. Um político local que governava a província. Não era um cara do bem. Eu tinha... ouvido dizer que ele fora assassinado. Nuvens escuras e ameaçadoras se formavam no céu espelhando o clima nas ruas, e por ambos os motivos achei melhor voltar para o hotel. Meus cabelos eram castanhos e meu português sofrido, mas minhas roupas definitivamente entregavam o ouro: uma turista gringa. Não era um dia propício para se destacar na multidão. Às cotoveladas, abri caminho através da turba ensandecida e cheguei ao hotel.

Dei uma rápida espiada para trás antes de cruzar a porta. Enquanto meus olhos se acostumavam à luz mais amena do lobby, avistei uma mulher sentada ao bar. Ela observava o tumulto do lado de fora, impassível, como se assistisse a uma parada militar. Cabelos claros, pele bronzeada. Magra, porém forte, como uma pugilista. Simplesmente linda. Executiva americana em viagem, supus. Ou talvez uma turista. Usava um guia de turismo — com algumas páginas marcadas — como apoio para o copo. Foi a primeira vez que deitei os olhos sobre Emma. E naquele instante cheguei a pensar que jamais seria capaz de olhar para outra direção.

Um mensageiro do hotel contava-lhe a novidade do assassinato.

— A polícia está recolhendo os turistas desacompanhados — alertou o jovem moçambicano. Nunca entendi direito por que eles fizeram isso. Talvez fosse alguma coisa que aprenderam nos filmes americanos.

— A senhora está sozinha? — perguntou o mensageiro à Emma. Ela respondeu que sim com a cabeça.

A melhor notícia do dia. Emma sentiu o meu olhar, pois levantou os olhos naquele mesmo instante. E eu perdi o fôlego. Ela tinha olhos impossivelmente verdes. Olhos nos quais qualquer um poderia facilmente se perder. Já havia cumprido minha agenda do dia e portanto achei que não haveria mal algum em me perder um pouquinho.

Dei um passo na direção dela. Foi então que um capitão da polícia irrompeu no bar e arrumou a festa, recolhendo suspeitos e intimidando todos os demais. Por um simples capricho poderia nos arrastar para a cadeia, e ninguém jamais teria notícias nossas outra vez.

Meu coração veio à boca quando o policial notou minha presença. Olhou-me da cabeça aos pés, tirou suas conclusões e olhou para Emma.

— Vocês duas estão juntas? —perguntou. Nossos olhos se encontraram.

E... foi o que bastou. Uma troca de olhares — um refúgio no meio daquela confusão sanguinolenta — e Emma e eu ficamos juntas.

Apertou-me a cintura como se tivesse esperado por mim a tarde inteira. Dei-lhe um abraço carinhoso e puxei-a em direção às escadas. O policial deu uma olhada invejosa e seguiu em frente — iria aterrorizar outros inocentes pelo caminho. Apertei a mão de Emma enquanto continuávamos descendo. Aparentemente havíamos escapado de mais um paredão.

EMMA

Muito esquisito.

Não sei se vou conseguir.

Tudo bem. Vamos lá.

Foi assim que conheci Regina. Tudo aconteceu cinco anos atrás; eu estava em Maputo para assass... Bem, eu estava à trabalho. Para a minha construtora. Estou sempre viajando a serviço. Estava no bar do lobby do hotel Americana, vendo o mundo sucumbir à anarquia, quando um mensageiro correu na minha direção, ansioso por contar a novidade:

— Alguém atirou no Malawi! — Ele berrou em português.

— Samora Machel?

O garoto fez que sim com a cabeça. Inútil dizer que aquilo já não era novidade nenhuma para mim.

— A polícia está recolhendo os turistas desacompanhados — acrescentou o mensageiro, o que também não era novidade. — A senhora está sozinha?

Eu estava sozinha. Estava sempre sozinha. Esse era o tipo de vida que eu levava. Então um capitão de polícia irrompeu no bar — grande surpresa! —, liderando sua escolta de ratos e intimidando todo mundo com seu revólver de merda. Sempre odiei pessoas covardes.

Não demorou muito para que ele se plantasse na minha frente, berrando alguma coisa. De repente, embora eu falasse português com fluência, não consegui entender uma única palavra do que ele estava dizendo. Pois uma verdadeira miragem acabara de cruzar a porta, e, por um instante, eu não conseguia prestar atenção em mais nada. Cabelos da cor de chocolate. Olhos castanhos, capazes de perfurar o coração de qualquer pobre inocente que faça contato visual por muito tempo. Curvas que pareciam ao mesmo tempo macias e rijas.

Não imaginava o que uma mulher como aquela fazia num lugar como aquele. E nem queria saber. Simplesmente estava feliz; afinal, com tantos botecos decadentes espalhados pelo mundo, ela havia entrado justo no meu. A julgar pelo sorriso em seus lábios, havia notado minha presença também.

O capitão me sacudiu pelo ombro, exigindo total atenção.

— O que foi? — Eu não ousava desviar o olhar daquela miragem, por medo de que ela desaparecesse no ar.

O capitão seguiu o meu olhar.

— Vocês duas estão juntas? — indagou.

De súbito, perguntei à ela: — Estamos?

Ela respondeu: — Claro que sim!

Pelo menos foi essa a tradução da minha fantasia. Respondi com um simples gesto de cabeça ao capitão, que não conseguiu esconder um discretíssimo olhar de inveja ao ver aquela deusa me abraçar de maneira tão sensual e me arrastar em direção às escadas.

Continuamos com nossa encenação até o quarto dela, que acreditei ser o fim da linha. Mas uma saraivada de tiros nos fez mudar de ideia. Entramos rapidamente e batemos a porta.

Lado a lado, recostados contra a porta, o coração batendo forte no peito, ouvíamos a gritaria, mais tiros, a agitação dos outros hóspedes. Esperando estar entre os sortudos que sairiam vivos daquela situação.

Achei que minha companheira gritaria a qualquer instante, ou desmaiaria, ou pelo menos desabaria em lágrimas. Em vez disso, ela começou a rir, como uma criancinha no meio de uma emocionante brincadeira de esconde-esconde.

Imediatamente joguei-me diante dela e tapei sua boca com minha mão, inadvertidamente (será?) pressionando meu corpo contra o seu.

Ela arregalou os olhos como se aquilo fosse uma espécie de cantada. E, porra, talvez fosse mesmo. Ficamos imóveis, as duas.

Olhei fundo naqueles olhos castanhos e por um instante cheguei a pensar que jamais seria capaz de olhar em outra direção. Sentia as batidas do seu coração, cheirava o calor do dia em sua pele. Quem era ela? Que tipo de mulher era essa, capaz de rir diante de uma situação tão perigosa? Meu tipo de mulher.

Eu sabia como gostaria que aquela noite acabasse. No fim da tarde, quando a insanidade do dia já começava a dar lugar à calmaria da noite, fugimos daquele hotel sufocante e ganhamos as ruas. Àquela altura já havia começado a chover, e as pessoas corriam de um lado para outro. Cobrindo a cabeça com um jornal, procurávamos ultrapassá-las até chegarmos à um lugar que eu conhecia, escondido no fundo de uma viela.

— Samora Machel dominou esta província durante anos — eu explicava à ela enquanto nos protegíamos da chuva sob um toldo de lona.

Ela assentiu com a cabeça e disse:

— Foi o terceiro assassinato esta semana. — Então a mulher se mantinha informada.

— Quarto — eu disse. — Afinal, o que você veio fazer em Maputo?

— Trabalho. — Esperei um pouco, mas ela não acrescentou mais nada. Talvez eu devesse ter continuado com as perguntas, mas, na verdade, não estava nem um pouco interessada. Ela estava ali, e isso me bastava. — E você? — ela perguntou.

— Diversão.

Acho que ela gostou da resposta.

Descemos as escadas de um porão, onde funcionava um barzinho muito popular entre os locais.

Ali estaríamos seguras. E aquele era um bom lugar para encher a lata sem nenhum conhecido por perto para encher o saco. A pista de dança estava repleta de pessoas tentando esquecer o mundo do lado de fora; a salsa era frenética, os corpos se esfregavam com volúpia e absurda sensualidade. Não que eu arriscasse tomar parte daquilo, mas gostava de olhar.

Enquanto procurávamos uma mesa mais afastada, Regina subitamente se deu conta do perigo pelo qual havíamos passado durante o dia.

— Eu estava no meio da rua — ela disse. — Tive muita sorte.

— Nada disso — falei baixinho enquanto me sentava, fazendo sinal para que ela se sentasse ao meu lado. — Quem teve sorte fui eu.

Estalei os dedos, e uma garrafa de tequila surgiu do nada em nossa mesa, bem como os demais apetrechos. Isto era o melhor do lugar: o serviço. E a bebida barata também. Servi duas doses de tequila e levantei meu copo para fazer um brinde.

— Às balas que não nos encontraram... — eu disse. Regina riu e bateu levemente seu copo no meu.

— Às balas que não nos encontraram...

Meus olhos não se despregavam dela enquanto lambíamos o sal de nossas mãos, tragávamos a tequila e chupávamos as suculentas fatias de limão. Esse foi, de longe, o drinque mais sensual de toda a minha vida.

Duas doses mais tarde, Regina arrastou-me até a efervescente pista de dança. Gritei que não sabia dançar. Mas quando jogou os braços em meus ombros e começou a remexer os quadris, Regina me convenceu: ninguém dançava melhor do que eu.

REGINA

Emma havia dito que não sabia dançar. Mas depois constatei: se a garota se movia assim sem saber dançar, imagine o que faria depois de algumas aulas! Aquilo foi melhor do que a maioria das minhas experiências sexuais até então.

Naquela noite compreendi por que a salsa é tão fascinante. É uma dança que diz: “Esqueça o amanhã, vamos festejar!” E foi exatamente o que fizemos, entregando-nos exclusivamente ao prazer do momento. A única coisa que nos fez abandonar a pista de dança foi o dress code da casa: ali não era permitido dançar sem roupa. Assim, chapadas de tequila, saímos pela noite e nos jogamos dentro de um táxi. O banco de trás era suficientemente espaçoso, mas, quando dei por mim, estava sentada no colo de Emma e ainda rebolava ao ritmo da salsa.

Chegamos ao hotel e corremos escadaria acima até o meu quarto. Ali já não se tratava mais de uma encenação. Mais tarde, para fugirmos do calor escaldante do quarto, nos embrulhamos nos lençóis amarfanhados, subimos até o telhado e nos sentamos no beiral, balançando as pernas no ar. A brisa era um verdadeiro bálsamo, e as nuvens deram lugar a um caótico manto de estrelas. Era como se fôssemos anjos, encarapitadas numa nuvem a muitos quilômetros da Terra.

Lá embaixo, na rua, uma pequena multidão havia se juntado para assistir a um velho filme preto-e-branco, projetado sobre uma parede cravejada de balas. Um dos meus favoritos: Ginger Rogers e Fred Astaire, com mais de cinco metros de altura, dançando como se fossem duas metades de uma mesma pessoa. E foi assim que me senti quando Emma me apertou em seus braços.

Na manhã seguinte, acordei com a luz do sol sobre meu rosto. Sentindo dores por todo o corpo — depois de tanta dança e de todo o resto —, espreguicei os braços, profundamente agradecida por estar viva. E mais feliz do que havia muito não me sentia. Talvez mais do que nunca.

Virei na cama, tateei o outro lado e... Nada além de um amontoado de lençóis. Suspirei. Uma noite de sonhos ou apenas um sonho bom? De um jeito ou de outro, foi bom enquanto durou. De um jeito ou de outro, foi-se embora com a manhã.

Fazer o quê...

Estava acostumada a ficar sozinha. Sempre andava sozinha. Era assim que eu vivia a minha vida. Por opção. Mas tinha sido bom pensar de outra forma por uma noite. Recostei-me novamente no travesseiro e tentava recuperar uma partícula que fosse do meu sonho maravilhoso quando ouvi uma chave girar na fechadura.

Sentei-me na cama e cobri o corpo com o lençol. Seria a polícia de novo? A porta se abriu e lá estava ela. Emma. Tão real e esplendorosa quanto na noite anterior.

— Olá, forasteira —eu disse.

— Olá pra você também.

Ela caminhou até a cama, os olhos sempre fixos nos meus. Trazia presentes: uma xícara fumegante de café e o jornal da manhã.

— Acho que os camareiros fugiram — Ela disse. — Fiz o que pude.

Dei um gole no café, e ela jogou o jornal em cima da cama.

— Mmm... Café com leite. Muito bom.

— Espero que sim. Tive que ordenhar a cabra com minhas próprias mãos.

Eu ri e disse:

— Uma garota capaz de arriscar a vida por uma xícara de café... Impressionante.

Emma caminhou até a janela, afastou as cortinas e observou o movimento nas ruas. A vidraça havia se estilhaçado no dia anterior. Uma fumaça negra pairava ao longe, escurecendo o céu.

Mas eu não via nada além de Emma. E a manhã estava linda.

Suspirando, abri o jornal e levei um susto. Uma flor se escondia na dobra dos cadernos. Uma florzinha singela. Daquelas bem vira-latas, que, contrariando todas as probabilidades, brotam nas rachaduras de uma calçada velha. A flor mais linda que havia visto em toda a minha vida.

— Alguma coisa interessante no jornal? — perguntou Emma, sem se virar para trás.

— Não, nada — eu disse sorrindo, colocando a flor atrás da orelha.

Depois voltei ao jornal, fazendo um tremendo esforço para não me apaixonar por aquela mulher maravilhosa. Tudo o que é bom — eu já sabia disso — dura tão pouco quanto uma flor-do-campo atrás da orelha.

O jornal trazia várias fotos da chacina do dia anterior. Aquela cidade não era mais um lugar seguro. Meu trabalho já estava feito, eu já deveria estar longe dali.

— Você ficou me observando dormir ontem à noite — eu disse casualmente.

— Fiquei? — Ela retrucou, com dissimulada inocência. Aninhei a cabeça no travesseiro, estiquei os braços para o alto e disse:

— O que você viu?

— “O que foi que ela viu...?” — Emma virou-se para mim e recostou o corpo no parapeito da janela, analisando-me como se eu fosse uma obra de arte que ela havia comprado e acabara de desembrulhar.

Aproveitei o momento para estudá-la também. E cheguei à conclusão de que aquela mulher, emoldurada pela luz matinal que vazava pela janela, poderia causar um terrível complexo de inferioridade à Afrodite.

— Ela viu a si mesmo voando de volta para casa, imaginando qual seria o sobrenome dela — Emma faz um gesto com o queixo em minha direção. — E ela, o que viu?

Fiquei surpresa com a resposta dela. Emocionada mesmo, e prestes a sucumbir ao seu feitiço.

“Que sentimento delicioso”, pensou uma parte do meu cérebro. “E perigoso demais”, contra argumentou a outra. Muitas palavras me vieram à mente. Eu era ótima nos jogos do coração e sabia como manter as coisas no âmbito do flerte, sem muito compromisso.

— Ela viu a si mesma caminhando em Chinatown — eu disse — e imaginando se ela gosta de jazz tanto quanto eu. — Uma resposta inteligente e sexy, reconheci.

— E Ela — devolveu Emma — admitiu que talvez haja algo mais sublime do que uma silenciosa partida de golfe numa manhã de domingo.

“Sossega, coração”, meus lábios quiseram dizer, antes que eu puxasse as cobertas à altura do queixo.

— E ela ficou pensando em como Ela adoraria sua torta de limão — falei em tom de brincadeira.

De repente, Emma deitou seu corpo contra o meu, e o humor de antes deu lugar a uma intensidade que me deixou sem fôlego:

— Ela concluiu que a noite passada se tornaria o modelo de noite ideal para o resto de sua vida.

Seus olhos me desafiavam a abandonar a segurança das respostas recatadas. E assim, apesar do medo, eu respondi com honestidade:

— E ela achou exatamente a mesma coisa.

Emma baixou o rosto a poucos centímetros do meu, os olhos verdes demonstrando cautela. Então ambas estávamos com medo. Sabendo disso, senti uma espécie de arrebatamento no coração, quase uma tontura.

— O que acontece depois? — Ela sussurrou.

— Tudo —eu disse.

E Ela rugiu como um tigre faminto antes de nos jogarmos nos braços uma da outra e nos afogarmos num beijo que parecia não ter mais fim.

EMMA

— Aproximem-se, senhoras e senhores!

Regina e eu passeávamos pelo festival de San Genaro, uma das maiores e mais antigas feiras de rua de Nova York, que se realizava no bairro italiano de Manhattan, conhecido como Little Italy.

Sim, isso mesmo. Mudamos de cenário — de uma cidade banhada de sangue, havíamos passado para uma simpática feira de rua, plena de música, alegria e comemoração. Saímos de Maputo e voamos de volta para casa. Bem, basta dizer que nos mantivemos em contato. Muito contato.

Não havia mais balas em nosso caminho, apenas os transeuntes que passavam por nós enquanto comíamos algodão-doce e conferíamos as barraquinhas de comida, artesanato, jogos e outras coisas para levar o nosso dinheiro embora.

— Venha, senhorita, não tenha medo! — O velhinho fez um sinal com a mão em direção à Regina.

O velhinho que apregoava a barraquinha de tiro ao alvo não fazia a menor ideia de quem era aquela mulher. Ao contrário de mim, ignorava que minha Regina não temia absolutamente nada. Não pude deixar de notar que já me referia à ela como minha.

Regina reduziu o passo, aparentemente atraída pelos rifles de brinquedo.

— Quer tentar a sorte? — sugeri.

Seus lábios perfeitos se alongaram num sorriso.

— Por que não?

Paguei ao homem, e Regina escolheu uma das espingardas. Parecia atrapalhada com a arma, mas preferi conter o impulso de corrigir sua pegada. Afinal, estávamos ali somente para nos divertir. Ela mirou com cuidado e atirou. “Bum!”. O coice foi bastante violento para uma arma de brinquedo. Regina se desequilibrou um pouco e errou o alvo.

Insisti para que fizesse mais uma tentativa. Da segunda vez, quase cegou o velhinho! Pobrezinha... Tentei conter o riso quando ela deu de ombros e me entregou a arma. Peguei a espingarda, equilibrei-a nas mãos e girei o pescoço para me relaxar. Depois mirei. Atirei e acertei bem na mosca. Regina ficou impressionadíssima. Dei de ombros e disse:

— É a sorte dos principiantes, eu acho.

Ora, a última coisa que eu queria naquele momento era intimidar Regina. Então decidi não caprichar muito no segundo tiro. Além disso, tinha outros motivos para não demonstrar em público o quanto eu era boa com armas.

Assim sendo, fiz o que pude para arruinar as tentativas seguintes, errando o alvo por completo em algumas delas.

Mas o resultado final não foi dos piores: acabei ganhando um simpático ursinho de pelúcia como prêmio. Orgulhosa de mim mesma, virei-me para ir embora e entregar o bichinho à minha garota. Mas Regina segurou-me pelo braço e disse:

— Posso tentar outra vez?

“Acho que feri o orgulho de alguém”, pensei. Adoro mulheres competitivas.

Dessa vez ela segurou o rifle como uma profissional, levou a mira aos olhos e disparou cinco tiros de uma só vez.

Bum! Bum! Bum! Bum! Bum!

Quase deixei o urso cair no chão. Cinco tiros. Cinco moscas perfeitas.

— É a sorte dos principiantes, eu acho — ela disse, antes de receber um urso enorme como prêmio.

Acho que a surpresa estava claramente estampada em meu rosto. Rindo a valer, Regina retirou o cachecol de seu urso e enlaçou-o em torno do meu pescoço. Ela havia conseguido o que queria e estava em condições de tripudiar o quanto quisesse.

Mas, em vez disso, puxou-me pelo cachecol e desferiu o derradeiro golpe de misericórdia: um beijo longo e molhado. Caramba. Ali estava a mulher dos meus sonhos.

REGINA

A verdade seja dita: eu já estava morrendo de medo. Fazia seis semanas que eu e Emma havíamos nos conhecido em Maputo. Seis semanas! E agora ela queria me levar para jantar num lugar realmente especial, com uma recomendação:

— Capriche na produção!

Então — alguém poderia perguntar —, você estava com medo do quê?

Da parte que dizia respeito às seis semanas. Eu jamais havia tido um relacionamento que durasse mais de seis semanas desde que resolvera estudar piano, ainda nos tempos da escola primária. E as aulas não duraram mais que sete semanas.

Tudo o que é bom dura pouco. E com Emma não era apenas bom, era muito, muito bom. Então naturalmente tinha de acabar. E logo. Era bem possível que aquela fosse a nossa última noite juntas. Então me vesti como se tivesse algo muito importante a celebrar. Ainda que corresse o risco de terminar a noite com um brinde de adeus.

Poderíamos ter ido a pé, mas Emma insistiu que tomássemos um táxi.. Suspeito que a preferência de Emma por táxis de algum modo tinha a ver com a nossa primeira noite em Maputo.

Rapidamente chegamos ao River Café. Sugeri que bebêssemos tequila em homenagem aos velhos tempos, mas Emma pediu uma garrafa de champanhe.

— Mais adequado às comemorações — Ela disse.

Sorri, piscando as pálpebras para limpar os olhos subitamente marejados. Bebemos o nosso champanhe, apreciamos a paisagem do rio, mas sobretudo ficamos olhando uma para a outra. Havíamos pedido algo para comer, mas os pratos ficaram ali, intocados. Eu estava com fome, mas apenas dela.

Acho que havia música; acho que algumas pessoas dançavam. No entanto, assim como acontecera em Maputo, não notávamos nada ao nosso redor, como se estivéssemos no olho de um furacão e o resto do mundo rodopiasse à nossa volta. Desejei ardentemente encontrar uma maneira de fazer aquela noite durar para sempre. Talvez pudéssemos enlaçar a lua, montar em cima dela e viajar através das estrelas pelo resto da eternidade — e assim o sonho jamais acabaria.

Geralmente não dava asas a esse tipo de pensamento. Mas esse era o efeito que Emma produzia em mim. E então ela levou a mão ao bolo do seu sobretudo que estava na cadeira ao lado. De início achei que procurasse uma caneta. Ou talvez um cigarro. Mas em vez disso tirou do bolso uma caixinha azul-turquesa, cor tradicionalmente associada à joalheria Tiffany's.

Eu não entendia o que estava se passando. Emma não disse nada. Apenas abriu a caixinha. E o mundo cintilou ao meu redor quando ela colocou uma aliança na minha mão esquerda.

Emma havia me dado as estrelas — e uma noite que duraria para sempre.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Já que não vou mudar nada. hahaha Beijos.