Mrs. & Mrs. Swan-Mills

3 "Te amo" "Também te amo"


EMMA

— Chega! — exclamou Killian, meu melhor amigo e colega de trabalho. No dia seguinte eu estava malhando com um treinador na academia de pugilismo que frequentava regularmente. Eu vinha contando à Killian sobre Regina, e ele não parecia satisfeito com o que ouvia.

— Você está o quê?

— Apaixonada — eu disse.

Killian olhou para mim como se eu tivesse levado pancadas demais na cabeça.

— Você conhece a garota... há seis semanas!

Mas como poderia explicar à ele? Killian trocava de mulher como trocava de meias.

— Essa garota, cara... ela é... ela é de outro mundo! É forte, é competitiva. Nem sei muito bem como descrevê-la. Estou me sentindo...

Meti a cara no saco de pancadas.

REGINA

— Não acha que está indo um pouquinho rápido demais?

No dia seguinte fui escalar com Kathryn, minha melhor amiga e colega de trabalho. Sempre considerei o alpinismo uma maneira excelente de manter a forma, mas naquele dia eu me sentia especialmente motivada e tinha de me esforçar para não deixar minha amiga para trás.

Mas ela não se referia ao meu ritmo de escalada. Referia-se ao meu relacionamento com Emma.

— Você me conhece — falei, olhando para baixo. — Não sou de me jogar nas coisas. Cuidado com essa agarra aí!

Kathryn se firmou na agarra e depois perguntou:

— Então, ela trabalha com o quê?

— Construção. Tem uma construtora, das grandes.

— Peão de obra? Ótimo.

— E isso ainda não é tudo.

EMMA

Ela trabalha com informática — eu disse à Killian. — Um servidor dá pau em Wall Street, e lá vai ela, faça chuva ou faça sol. É uma espécie de Batman dos computadores. Ou algo parecido.

REGINA

— E na cama? — quis saber Kathryn.

EMMA

Com uma direita implacável, quase um rolo compressor, derrubei o meu sparring na lona. Killian respirou fundo e disse: — Tão boa assim, é?

REGINA

Eu havia chegado ao topo do penhasco, e a vista era magnífica. Sempre tive disposição para os esportes; além disso, meu trabalho exigia que eu andasse sempre em forma. Mas jamais havia me sentido assim, tão cheia de energia. Talvez isso tivesse alguma coisa a ver com a malhação adicional que eu vinha fazendo com a Emma.

Mas Kathryn ainda estava muito abaixo na encosta, e ainda muito cética.

— Sexo é sexo — ela tentava me convencer. — Por que complicar as coisas com essa história de relacionamento? Você não teme, por exemplo, que seus horários de trabalho acabem se tornando um problema? — ela perguntou.

— Use aquela fenda à esquerda — sugeri. Na verdade, eu já havia pensado no assunto. É claro que haveria algumas... complicações ocasionais. Mas nada que não pudesse ser resolvido. — Ela também viaja muito —expliquei. — Então isso não será um problema.

Ajudei minha amiga a subir ao topo. E ignorei a censura em seus olhos.

EMMA

— ... E você acha o quê, que vou sacrificar minha vida pessoal em nome do trabalho? — perguntei à Killian. Continuei a me exercitar com o treinador. Minha resistência estava melhor do que nunca. Sorri. Era de se supor que minha história com Regina estivesse consumindo todas as minhas energias. No entanto, o efeito era justamente o contrário. Nunca havia me sentido tão disposta quanto agora. Jab, cruzado, esquiva..., jab, cruzado, esquiva... Achei que pudesse repetir essa rotina por mais dez horas.

Mas Killian não estava convencido. Para ele, sexo não passava de algo para demarcar os limites entre café da manhã, almoço e jantar. Sem ele, tudo se resumiria a uma única refeição.

— Isso vai durar seis meses, no máximo — ele disse. — Impossível durar mais do que isso.

— Pedi Regina em casamento — confessei.

—Você o quê?!

— Vou me casar.

Killian ficou tão assustado que acabou se metendo no caminho da luva do meu treinador. Caiu feito um saco de arroz sobre a lona. Jamais me perdoaria pelo susto.

REGINA

Emma e eu nos casamos no cartório municipal. Não podíamos esperar mais. Kathryn foi minha madrinha, e Killian, o melhor amigo de Emma, compareceu como padrinho dela. Ambos pareciam fulos da vida. Mas já havíamos notado. Quando Emma colocou a aliança em meu dedo, nossas mãos estavam trêmulas. Foi a primeira vez em minha vida que alguém me prometeu alguma coisa.

— ...se alguém souber de algum impedimento que torne ilícito ou inválido este matrimônio — disse o juiz —, fale agora ou cale-se para sempre.

Vi Kathryn morder a própria língua e fiz uma careta de advertência em sua direção. Ah, se ela ousasse abrir o bico...

EMMA

Killian quase explodiu quando ouviu o tal “fale agora ou cale-se para sempre”. Precisou reunir todas as forças de que dispunha para ficar calado. Ainda achava que eu tinha ficado maluca. Mas eu já havia dito que somente o chamaria para padrinho se ele prometesse não fazer nenhuma bobagem. E também ameacei cobri-lo de porrada se não se comportasse direito.

Só assim a cerimônia pôde chegar ao fim. Minhas mãos tremiam quando coloquei a aliança no dedo de Regina, mas ela simplesmente resplandecia.

REGINA

A segunda tarefa que o Dr. Archie passou não me pareceu tão difícil assim. Portanto, não vou me esquivar dela também. O doutor gente fina quer que eu escreva sobre a minha vida de hoje. Então vamos lá...

Sou...

Emma e eu somos...

Emma e...

Caramba, isso vai ser mais difícil do que eu pensava. Melhor escrever apenas sobre o que aconteceu ontem à noite. Eu preparava o jantar, como na maioria das noites. O timer tilintou, e eu dei uma olhada no forno. Tudo parecia perfeito. Mas, é claro, nada estava perfeito. Seis anos é tempo demais. As coisas mudam. As pessoas mudam.

Minha vida perfeita... não é exatamente perfeita. Então continuo a me esforçar para que ela seja perfeita. A casa, o jardim, a comida. Procuro me dedicar à tudo com a mesma ambição e competitividade que meu trabalho requer. O jantar, por exemplo. Sou capaz de sair dançando pela cozinha, cortando legumes e distribuindo panelas como se fosse Jackie Chan. Sou capaz de planejar, organizar e preparar um jantar para cinqüenta pessoas, um banquete que deixaria a Casa Branca roxa de inveja. E faço isso todas as noites, para duas pessoas.

Ontem, mesmo depois de um longo dia de trabalho, preparei um prato delicioso, arrumei a mesa, botei o vinho para gelar e cuidei para que tudo saísse à perfeição. Embora nada saísse à perfeição, nunca. O que mais eu podia fazer? Precisava continuar tentando. Ouvi um carro se aproximar e vi a luz dos faróis atravessar a janela. Por que será que ultimamente fico tão nervosa quando Emma chega em casa?

“Lembre-se de quem você é”, disse à mim mesma. “É uma mulher inteligente e forte. Pode fazer tudo o que quiser.”

Peguei a faca de cozinha e fiz a lâmina rodopiar no ar antes de arremessá-la direto no suporte de madeira. Sim, eu era capaz de tudo, menos de salvar meu casamento.

EMMA

Puxa, não foi fácil escrever sobre o passado. Sobre Maputo. Mas isso foi uma coisa. Outra coisa é escrever — como pediu o Dr. Archie — sobre minha vida atual, sobre a situação do meu casamento.

O cara deveria saber: coisas desse tipo são muito difíceis.

— Justamente por isso — Ele me disse.

Acha que tem um monte de coisas que me perturbam. Muita merda reprimida. Coisas sobre as quais evito pensar, com as quais me recuso a lidar. E muitas vezes, segundo ele, a única maneira de colocar tudo para fora é por meio de um diário.

— Deixa disso, doutor — brinquei. — O saco de pancadas geralmente resolve os meus problemas.

Mas o Dr. Archie não riu. Então aqui estou.

Humm... Eu não sabia como começar, então telefonei ao Dr. Archie para dizer que a terapia não estava funcionando e agradecê-lo mesmo assim. Estava prestes a desligar e enterrar toda a história no passado quando ele me interrompeu.

É um filho-da-puta persistente, esse Dr. Archie Hopper. Falou apenas:

— Relaxe, Emma. Isso não é um dever de casa pra escola. — E depois me lembrou de que não havia respostas certas e erradas. Sugeriu que eu começasse escrevendo sobre a noite anterior, e acrescentou: — Escreva apenas sobre o que você se lembra, o resto virá depois. Relutei mas acabei aceitando, faria outra tentativa. Então vamos lá.

Ontem à noite.

Cheguei em casa e guardei o carro na garagem. Por um instante permaneci ali, ouvindo o chiado do motor enquanto tentava me recompor. O dia tinha sido longo, e o mundo que eu acabara de deixar estava à anos-luz daquele outro que esperava por mim em casa.

Cinco anos era tempo demais. As coisas mudaram. As pessoas mudaram. Ou talvez... talvez tudo tenha apenas desbotado. Como uma folha de jornal esquecida sob o sol.

“Melhor entrar”, pensei por fim. O ouvido de Regina é mais apurado que o do Super Homem; decerto sabia que eu já havia chegado. Se eu demorasse mais a entrar, ela apareceria em poucos segundos para ver o que tinha acontecido.

Soltei o cinto de segurança e... “Porra! Onde está a aliança?” Quase havia me esquecido de colocá-la outra vez. Vasculhei todos os bolsos, e lá estava ela, no bolso da jaqueta em cima do banco. Coloquei-a de volta no anular esquerdo. Olhei para mim mesma no espelho retrovisor. Mas que porra era aquela? Uma mancha vermelha no colarinho. Caralho, se a Regina visse aquilo, ficaria uma fera. Esfreguei o tecido, mas a mancha continuava lá. O único jeito foi esconder o colarinho vestindo a jaqueta. Depois entrei correndo em casa. Joguei as chaves dentro de um pote no hall de entrada. Perguntei à mim mesma — certamente não pela primeira vez — por que ficava tão tensa sempre que entrava por aquela porta.

Regina apareceu do nada.

— Chegou bem na hora — ela disse com um sorriso. Olhava para mim como se esperasse por alguma coisa.

“Ah, sim. A manteiga. Graças a Deus não esqueci.” Caso contrário seria uma ladainha sem fim. Num gesto afetado, tirei o pote de manteiga do bolso e disse:

— Você pede manteiga? Eu trago manteiga.

— Como foi seu dia? — ela perguntou ao pegar o pote.

— O mesmo de sempre — respondi, encolhendo os ombros. Ela repetiu meu gesto e hesitou um pouco.

Levei o meu rosto até seu para lhe dar o beijo protocolar. Péssima idéia. Ela me repeliu, franzindo as sobrancelhas. Deve ter sentido o cheiro de álcool em meu hálito.

— Parei pra tomar alguma coisa com o Killian — falei calmamente. Regina assentiu com a cabeça, mal escondendo sua reprovação.

E tenho certeza de que não soube esconder a minha também. Ela sempre pegava no meu pé por causa da bebida. Porém ali havia algo mais. Ela olhava para a manteiga como se olhasse para uma serpente de duas cabeças.

— Esta manteiga tem sal — reclamou.

Depois levantou o pote para que eu visse melhor; isso mesmo, estava escrito com todas as letras: “COM SAL.” Pisquei os olhos e disse:

— E existe outro tipo de manteiga?

— Existe: manteiga sem sal — ela respondeu. — Como eu havia pedido — sussurrou em seguida.

Eu me mordia por dentro. Por que ela insistia em me pedir esses favores, sabendo que eu nunca conseguia realizá-los a contento? Agia como uma princesa encastelada numa torre, que invariavelmente despachava a pobre criada para realizar uma façanha impossível. Tentei me desculpar, mas ela me interrompeu fazendo um gesto com as mãos.

— Tudo bem. Eu... eu dou um jeito.

Pensei com os meus botões: “Porra, será esse o seu maior problema de hoje?”

Felizmente ela tentou mudar de assunto.

— Comprei cortinas novas para a sala de estar — falou com entusiasmo.

— Comprou?

— Comprei.

Depois levou-me até a sala, perfeitamente decorada, para me mostrar as novas cortinas verdes — absolutamente desnecessárias — jogadas sobre o sofá. Eram enormes, e não combinavam com nada ao redor.

— Tive que enfrentar um verdadeiro cabo-de-guerra quando encontrei este tecido — ela disse. — Um baixinho enfezado queria levá-la também, mas acabei vencendo.

— Claro que sim. — Ela sempre vencia.

— Então pensei: com essas cortinas sem nenhuma estampa, talvez seja necessário trocar o estofado dos sofás. Talvez um xadrez, nada muito gritante, e evidentemente nada de florais. Algo mais claro que as cortinas, o que significa que vamos precisar trocar o tapete persa por outro mais escuro.

Eu já não aguentava mais aquilo e pressentia uma dor de cabeça daquelas. Então era isto: compramos cortinas das quais não precisávamos e agora teríamos de trocar o estofado dos sofás, e comprar um tapete novo para combinar com o estofado, que não teria sido necessário trocar se não tivéssemos comprado as malditas cortinas novas.

— Querida... — eu disse. — Que tal ficarmos com as cortinas velhas?

Regina levantou os olhos e franziu o cenho. Demorou uma eternidade para perceber que falava com as paredes sobre um assunto que me irritava profundamente.

— O quê? A gente conversou sobre isso, lembra?

— Lembro — eu disse. — Lembro muito bem que a gente decidiu esperar mais um pouco. Diante da expressão de desânimo no rosto dela, não me restou outra coisa a fazer senão suspirar.

Fim da encenação: minha alegre volta ao lar já havia irremediavelmente desandado.

Regina alisou as cortinas como se estivessem vincadas, embora não houvesse vinco nenhum.

— Se você não gosta delas, posso devolvê-las...

— Eu não gosto delas.

— Então é melhor ir se acostumando com elas!

Seguiu-se um silêncio sepulcral. Como deixamos as coisas chegarem a esse ponto novamente? Já não restava a menor esperança de uma noite agradável, e isso era tudo o que eu queria naquele momento.

— Acho que vou regar as...

— Preciso preparar o...

Por sorte deixamos uma a outra escapar.

No jardim, liguei a água da mangueira e comecei a regar os canteiros próximos à garagem. Não que eles precisassem de água. Mas eu precisava regá-las. Gostava do barulho da água. De alguma forma isso me aliviava. Fazia me lembrar dos rios correndo para o mar.

Vi uma bola de basquete jogada no meio das tulipas. Seria minha velha bola, ou teria sido esquecida ali por algum garoto da vizinhança? Puxa, fazia séculos que eu não batia uma bolinha. Levada por um impulso, firmei a bola entre os dedos e, sem me virar para trás, fiz um arremesso em direção ao cesto na parede da garagem.

Depois voltei à mangueira e às tulipas.

Dez metros atrás de mim, ouvi a bola cantar enquanto girava no aro. Eu era capaz de fazer uma cesta sem sequer olhar. Mas esse casamento... estava cada vez mais difícil, até mesmo de tentar.

REGINA

Ela não deu a mínima para as cortinas. Nunca se importou com a casa. Acho que nunca se importou com nada dentro dela. Nem mesmo comigo. Então por que criou tanto caso? Por que teve de arruinar algo que para mim era tão importante? Ela aparentemente nunca se importou com a mesmice das coisas. Que mal havia numa pequena mudança de vez em quando? Mudar é bom. Às vezes fico tão entediada olhando para as mesmas coisas... Chego a achar que vou enlouquecer. Se não pudesse me refugiar no trabalho todos os dias...

“Deixa pra lá”, pensei. “Pendure as cortinas e pronto. Vão ficar ótimas, Ela vai ver. A mudança será bem-vinda.”

Subi numa poltrona e prendi o tecido no trilho. Mas a poltrona era baixa demais. Eu precisava alcançar mais alto para endireitar as dobras. Então apoiei um pé sobre o braço da poltrona, outro sobre o espaldar, e estiquei os braços até conseguir o que queria. Graças ao meu trabalho e ao alpinismo, eu era capaz de me equilibrar como um cabrito na ponta de uma agulha.

Perfeito.

E então ouvi Emma entrar. Pulei da poltrona imediatamente.

Ela levantou os olhos da correspondência pouco antes de eu plantar os pés no chão, perdendo minha acrobacia perfeita por uma questão de segundos.

Sorri para ela e disse:

— Então, o que acha?

Ela olhou para as cortinas e depois para mim. Um sorriso amarelo foi o máximo que conseguiu produzir. Atravessamos o jantar como duas sonâmbulas. Como de costume, Emma se mostrou gentil, dizendo seu texto, elogiando a comida.

Eu poderia ser outra pessoa, poderia dizer o que quer que fosse, e nada disso faria a menos diferença para ela. Às vezes me sinto como um fantasma.

Invisível.

Quase todas as noites tenho vontade de pular na frente dela e gritar: “Olha pra mim! Eu não morri! Pergunta alguma coisa! Grita comigo! Qualquer coisa, menos isso!” Às vezes fico tentada à dizer: “Quer saber o que realmente fiz hoje? Você nem vai acreditar!”

Em vez disso, simplesmente pego minha faca e corto mais um pedaço de carne.

EMMA

Cada jantar é um verdadeiro evento para Regina. Eu já disse à ela um milhão de vezes: “Querida, não precisa fazer isso. Não me casei com você só pra ter alguém pra cozinhar pra mim.”

Puxa, será que a gente não pode pedir uma pizza ou comer um congelado de vez em quando?

De jeito nenhum. Tem de ser um jantar perfeito todas as noites, desses que a gente só vê nas revistas. Sei lá, talvez ela tenha sido criada dessa maneira.

Então, naquela noite nos sentamos nas cabeceiras da nossa enorme mesa de jantar. Luz de velas, o escambau. Mas tudo o que eu fazia parecia irritá-la.

Bebi meu vinho e enchi a taça novamente. Ela não pareceu gostar muito disso. Talvez achasse que eu estivesse exagerando na bebida outra vez.

Depois elogiei a comida. O prato estava realmente bonito, talvez bonito demais para ser comido.

— Mas tem alguma coisa diferente... — comentei.

— Acrescentei ervilhas — ela disse.

— Ah, ervilhas. — Então levei uma boa garfada à boca. — Mmm... Está uma delícia.

O que foi que eu disse? Regina parecia prestes a explodir. Achei melhor não dizer mais nada e fiquei calada por algum tempo, apenas comendo.

Depois pedi a ela que me passasse o sal.

Bem, passar o sal não deveria ser um problema para ninguém, certo? Mas Regina adora uma competição e jamais admite perder.

— Pode me passar o sal? — pedi.

Por algum motivo, isso a deixou irritada.

— O saleiro está no meio da mesa — disse.

Na verdade, reparando bem, o saleiro estava mais na metade dela do que na minha.

Não que isso tivesse alguma importância. Mas foi ela quem resolveu fazer da situação uma disputa.

— Isso é o meio pra você? — desferi.

— Está entre nós duas.

Caralho. Então empurrei minha cadeira para trás, fiquei de pé, andei até o meio da mesa — até a metade dela — e peguei a porra do saleiro.

Era de dar gosto, ver o sorriso de vitória no rosto dela. Até que me sentei novamente e derramei meio saleiro na comida que ela havia preparado com tanto esmero.

Regina engoliu seu sorriso na mesma hora.

Verdade seja dita, também não foi fácil engolir aquela gororoba tão salgada. Mas valeu a pena. Dessa vez eu venci. Não sei ao certo o que eu venci, só sei que venci.

REGINA

Mais tarde, depois de conseguirmos passar a noite inteira sem cruzar caminhos em nossa casa enorme e perfeita, acabamos nos encontrando no quarto. Geralmente vamos dormir apenas quando já não é mais possível adiar o sono.

Às vezes subo para o quarto ainda cedo, quando Emma está trabalhando no escritório ou na sala. Ou quando está inventando moda no quartinho de ferramentas. Outras vezes fico acordada até tarde, procurando coisas para fazer na cozinha, ou assistindo a um filme antigo na televisão. Não raro chego a dormir no sofá — sem querer, é claro.

Na manhã seguinte, ela me diz que não queria me acordar. No entanto, certas noites fico pensando: se a gente pudesse ir para o quarto juntas, e conversar... conversar de verdade... Mas isso nunca acontece.

Hoje mesmo, eu já estava na cama, lendo um livro, quando Emma entrou, de pijama, e se deitou ao meu lado. Procurou se ocupar com o despertador, com as cobertas, com o travesseiro... Fechei o livro, um sinal de que eu podia... ser interrompida. Para conversar. Para qualquer coisa.

Mas, como eu já esperava, ela nem sequer olhou para mim. Fazia tempo que ela não se interessava mais por interrupções de qualquer natureza.

—Estou exausta —disse para as paredes.

—Eu também — emendei rapidamente. — Amanhã será um dia terrível.

—Boa noite, querida — Emma fez uma pausa, como se quisesse dizer mais alguma coisa, e eu esperei ansiosa. — Te amo — foi o que veio.

—Também te amo — repeti.

Quando foi que abolimos o sujeito dessa frase? Desde quando “eu te amo” deu lugar à abreviação “te amo”? Boa pergunta. Pensando bem, uma coisa não equivale à outra.

“E aí, tudo bem?”

“Tenha um bom dia.”

"Te amo."

"Também te amo."

Frases vazias que as pessoas dizem sem pensar. Respirei fundo e apaguei o abajur ao meu lado. Emma apagou o dela. E nos acomodamos na escuridão.

Fechei os olhos e tive a sensação de que estava completamente sozinha. O que talvez fosse melhor.

EMMA

Bem, não é difícil imaginar o clima horrível que se formou no quarto depois daquele malfadado jantar.

Quando entrei, Regina já estava na cama, lendo. Esperei o máximo possível antes de me deitar, na esperança de que ela dormisse antes. Mas eu estava cansada, muito cansada, e já não aguentava mais ficar de olhos abertos. Vesti o pijama no banheiro e me enfiei debaixo das cobertas. Ela fechou o livro. Depois olhou para mim, como se esperasse alguma coisa. Mas que diabos ela estava pensando? Quer dizer, para ser honesta... fazia muito que aquele quarto não era usado para outra coisa a não ser dormir. E depois daquela noite...

— Estou exausta — eu disse, ajeitando os lençóis. Tentando bocejar.

Ela simplesmente desviou os olhos e depois disse:

— Eu também. Amanhã será um dia terrível.

Parecia tão magoada que me senti a pior pessoa do mundo. Mas eu não tinha a menor ideia do que podia fazer para remediar a situação. Achei que o melhor mesmo seria dormir e acabar logo com aquele constrangimento.

— Boa noite, querida — eu disse, forçando um pouco a barra. — Te amo.

— Também te amo — ela repetiu. Automaticamente. Como sempre faz. Ela nunca diz “te amo” primeiro. Mas se eu tomo a iniciativa, ela responde de volta.

“E aí, tudo bem?”

“Tudo.”

“Te amo.”

“Também te amo.”

Foi um alívio quando apagamos as luzes. Talvez eu pudesse ter dito alguma coisa. Tocado na mão dela. Feito algum gesto significativo.

Talvez...

Mas eu estava cansada. Cansada de tentar também. Não consigo forçar uma barra para sentir alguma coisa que não estou sentindo. Porra, ela esperava o quê?