Ele também me encarou como eu fazia com ele e me imitou fechando a cara, para depois cruzar os braços. Jéssica percebeu logo o clima pesado e me puxou de canto para começar uma conversa sussurrada.

:- Por favor, quebra mais esse ganho por mim. – ela pediu rogando com as mãos juntas. – Eu sei que vocês não se dão bem desde a escola e que vez ou outra discutem nas festas que se esbarram.

:- Eu não posso trabalhar com ele.

:- Não fala assim sabe que eu trabalhei nesse projeto há semanas, não me faça jogar fora tudo isso não seria justo.

:- Não é justo você me falar que chamou ele para ser seu modelo e me contar só agora. Sabe que não nos damos bem, que somos opostos e que não perdemos a oportunidade de brigar um ao outro.

:- Eu sei que fui egoísta de não pensar em você, mas me escuta, podemos erguer uma bandeira branca da paz, só por hoje? Por mim?

Eu reclamei em voz baixa algo que nem eu compreendi, ela deveria saber que foi algum tipo de palavrão.

:- Tudo bem, mas que fique claro para ele que sou eu que mando. – eu disse objetiva com ela, já temendo me arrepender, ignorando o que eu falei ela me abraçou agradecendo.

E antes de segui-la até onde ele estava eu arregacei as mangas da minha camisa xadrez, amarrei o meu cabelo em um coque e fui atrás da minha câmera eu teria muito trabalho pela frente.

O motivo por não me dar bem com o Alfonso era bem simples somos como cachorro e gato. Rivais. Ele é chato e eu implicante, brigávamos demais. Claro que isso não foi sempre assim, tínhamos um passado juntos, para começar nos conhecemos na escola, quando eu tinha uns quinze anos e éramos da mesma sala, nossa convivência não passava disso, colegas de sala.

Até de um momento para outro ele muda completamente comigo, já tínhamos por volta dos dezessete anos, ele se apaixonou por mim. Uma pena que naquela época eu era perdidamente apaixonada pelo Chacho, meu professor. Para chamar a atenção de Chacho eu decidi namorar Alfonso, foi uma terrível escolha até por que eu não o amava. O resultado disso tudo foi que acabei o traindo com Chacho e ele descobriu. Eu tentei de diversas maneiras o perdão de Alfonso, mas ele tinha muita mágoa.

Quando o meu romance com o meu professor acabou e eu vi que estava apaixonada por Alfonso, já era tarde demais.

No começo eu entendi a forma ofensiva que ele me tratava por merecer, mas depois comecei a revidar tudo o que ele fazia. Então começou realmente nossa história de ódio. Hoje estudamos na mesma universidade é inevitável não nos vermos, fora que temos muitos amigos em comum e isso resulta em encontros desagradáveis, como o de hoje.

:- Vamos começar. – Jéssica tentou usar um tom animado que não demonstrasse o seu nervosismo.

Eu não disse nada, fui atrás da minha mochila e pegaria o mais importante para todo o stress que eu passaria dali em diante, tirei da minha mochila várias barras de chocolate e de cereal. Era o que me manteria de boca cheia para não falar nada e também satisfazer o meu vício.

Fotografar e comer chocolate.

Quando me levantei e tinha preparado uma mesinha com todas as barras encontrei Jéssica um pouco afastada conversando com o professor, Danny meu iluminador, Fanny minha maquiadora, Andy meu assistente conversando de outro lado e o pior Alfonso com um sorriso de deboche no rosto me encarando. Não pude me conter o sangue que ferveu dentro de mim.

:- O que foi Herrera? — perguntei irritada.

:- Vai comer tudo isso? Que nutritivo, deve ser bem saboroso... – ele tinha o tom de deboche.

:- Gosto de fotografar e comer tem algum problema com isso?

:- Nenhum não sou eu que vou engordar.

Apertei os olhos diante tal afirmação difamadora e não demorei a diminuir a minha distância entre nós dois.

:- Escuta aqui Herrera. – eu disse baixo, mas ao mesmo tempo num tom ameaçador. – Gorda é a senhora sua mãe. Vou te falar só uma vez para que decore logo. Eu MANDO nessa sessão, você é apenas o modelo, então vai seguir minhas ordens. Está me escutando? — eu falei apertando o seu queixo e trazendo para minha altura, tentei não me irritar mais pela barba dele espetando minha mão.

:- E se eu não acatar suas ordens chefe. – ele continuava irônico, falando apertado por conta da minha mão esmagar sua rosto.

:- Você está fora.

:- Jéssica não gostaria de me ver fora disso. – ele tentou sorrir.

Eu me aproximei ainda mais dele para dizer o que eu pensava e desabafar um pouco da raiva por conta dessa situação.

:- Acredite, se você começar com suas palhaçadas, eu que vou cair fora. E encontrar um modelo para as roupas dela, é fácil, mesmo ela escolhendo você, essa universidade está cheio de opções e caras bonitos. Agora, encontrar uma fotógrafa como eu, à uma hora dessas ela não vai. – eu sorri para ele debochada, por me sentir melhor. – Coloque numa balança Herrera, um modelo descartável ou uma sublime fotógrafa, quem vai ser prioridade da Jéssica?

Ele não falou mais nada, apenas ficou me olhando, mesmo aliviada sabia que se ele quisesse tiraria a minha mão dele em segundos, mas o fato de está sem saída fazia dele um fantoche nas minhas mãos. Jéssica não perderia alguém como eu, sou a melhor fotógrafa dessa universidade e ele, bom eu sabia que precisava dos pontos extras que ganharia fazendo parte deste projeto.

No final das contas eu ganhei essa partida, de um jeito ou de outro.

:- O que está acontecendo entre vocês? — escutamos a voz nervosa de Jéssica próxima. – Não posso deixá-los sozinhos por minutos que já estão se engalfinhando feito cão e gata.

Bruto, Alfonso tirou minha mão de seu rosto e se endireitou movendo o seu maxilar.

:- Relaxa, Jess, María só estava me explicando como serão às regras de tudo. E a propósito, eu sou o gato e ela... – ele deixou no ar a ofensa e se abaixou para roubar um pedaço do meu chocolate e comer antes que eu brigasse.

:- Regra número dois, não coma o meu chocolate. – eu falei irritada e ciumenta esquecendo até a insinuação de que eu era cachorra.

Mas, ele já tinha se afastado e fingido não escutar para ir começar sua maquiagem.

:- Qual é a regra número um? — Jéssica me perguntou.

:- Eu mando aqui. Esse é o meu habitat Jéssica, ele mais que ninguém aqui deve saber. – comi um pedaço do meu chocolate o encarando de longe.

:- Tudo bem, eu não me importo de como vão ser as coisas o importante é que tudo ocorra minimamente bem. E que eu tenha minhas fotos.

:- Se o seu modelo cumprir as regras 1 e 2, você terá um dos melhores trabalhos sobre moda masculina que essa universidade já viu.

Depois de esperar o modelo ser maquiado e Jess me explicar como ela queria suas fotos, a sessão começou sem-maiores problemas, ele não implicou comigo e eu não irritei ele. Tudo estava as mil maravilhas e modéstia parte o trabalho estava ficando muito bom.

Alfonso por mais que não queira admitir em voz alta, somente em pensamento, se tornou um homem perfeito para o que a Jéssica queria. Casual e ao mesmo tempo sério. Fora que fotografava muito bem, era fotogênico e o melhor de tudo estava seguindo os meus comandos.

A sessão começou a tomar outro rumo, quando eu já estava na minha terceira barra de chocolate, era a quarta troca de roupa e eu estava contaminada com a empolgação de Jéssica que deixou mais relaxada e confiante no meu trabalho.

Fanny tinha terminado a maquiagem, Andy estava com Jéssica vendo as outras fotos, o professor estava apenas de longe orientando os outros trabalhos que precisavam de sua ajuda. Eu já tinha dado as instruções para Danny pegar o rebatedor queria uma luz diferente para as próximas fotos, talvez fosse o calor do momento, não sei explicar o que deu em mim.

:- Toma você merece depois de tanto tempo fotografando e escutando minhas ordens. – eu falei entregando para ele uma garrafa de água bem gelada e pegando um guardanapo para limpar minha mão de chocolate, não poderia sujar meu xodó, minha câmera.

:- Obrigada. – Ele se surpreendeu comigo. – Então admite que é uma mandona, sem-limites e chata ainda por cima.

Fique o olhando pela declaração dada sobre mim. A verdade que estava tão contente com os resultados das fotos que ele não me atingiria.

:- Admito que sou perfeccionista no meu trabalho, e que gosto de mandar. – eu falei. – E mesmo que isso não importe para você, já que está vindo de mim. Eu vou falar mesmo assim.

:- O quê?

:- Você é um bom modelo. Fotografa muito bem, veja só isso. – eu usei minha câmera que estava pendurada no pescoço para mostrar as últimas fotos para ele.

O que me surpreendeu nisso é que essa minha atitude é estranha, só costumo fazer isso quando quero alguma sugestão ou simpatizo com a pessoa. O que não era o caso do Herrera. Ainda assim ele também não foi grosseiro.

:- Minha mãe uma vez me disse que o segredo para tirar foto é, em vez de olhar para a câmera, ver o fotógrafo atrás dela. Assim a foto sai boa. – Ele comentou, sem-me olhar ainda vendo a foto dele na câmera, não me viu paralisada o encarando.

:- Tudo pronto, Dulce. – Danny nos interrompeu e vi que todos estavam esperando para voltar à sessão.

Todos estavam em suas posições para retornamos, só que assim que me posicionei para tirar a primeira foto, eu paralisei. Por que me lembrei do que ele disse a pouco, ele não estava olhando para a câmera, estava me olhando e isso me deixou constrangida.

Ainda assim continuei no meu foco, até chegar um impasse.

:- Assim não Alfonso, muda essa pose. Não está legal. – eu reclamei.

:- Como você quer? — ele também reclamou.

Eu fui até ele e mostrei.

:- Encosta no fundo e finge que está esperando alguém importante, está tranquilo. Relaxado, cruza os braços dessa forma e inclina a cabeça assim olhando para o nada. – eu falava e tocava nele que feito um menino obediente seguia minhas instruções, foi diferente. Eu toquei em seu rosto no mesmo local onde antes tinha apertado.

:- Assim. – ele fez como eu queria, mas em vez de olhar para a sua esquerda ficou me encarando. Como eu também.

:- Isso. – soltei baixo, um pouco assustada com o que eu vi. Me lembrando do garoto que conheci com quinze anos e que foi meu namorado.

:- Está perfeito, Poncho, depois coloca a mão no bolso e sorri para a câmera. – Jéssica falou contente sem perceber o clima entre-eu e ele.

O foi nesse clima tenso que a sessão foi seguindo até o seu final. Ele me provocando de uma outra maneira, sem saber que estava despertando sensações estranhas.

:- Então é isso pessoal, a sessão acabou. – eu finalizei tudo respirando aliviada por acabar.

:- Que demais cara! – Jéssica exclamou feliz. – Ficou tudo show de bola, somos os melhores. Dulce, passa tudo para o meu HD quero fazer uma seleção das melhores fotos para exposição.

:- Tudo bem.

Todos já estavam se preparando para ir embora, quando eu vi Jéssica conversando com Alfonso, e tive uma ideia. Só que eu precisava passar logo as fotos para ela para não esquecer depois.

Como sempre nas minhas sessões eu sou a última a sair, como agora, eu deixava arrumei a sala com Andy, o resto da turma tinha ido embora, Jéssica e Alfonso saíram juntos, assim como Danny e Fanny. Até o professor tinha ido.

Estava dando uma última olhada nas fotos, quando escutei aquela voz.

:- Gorda?

Me virei para vê-lo de frente e vi que ele estava rindo.

:- Eu só vim até aqui para me certificar que a guerra continua, verdade, nada mudou?

:- Do que está falando Alfonso?

:- Entre você e eu, a bandeira da paz deixou de existir depois que a sessão terminou.

:- Claro.

:- Ótimo, não quero ficar mal falado na Universidade, me viram fazendo trabalho com você a esquisita, gorda, como ficaria minha reputação? Na lata do lixo.

:- A minha reputação ficaria na lata do lixo se souberem que trabalhei com você, imbecil.

:- Então estávamos quites, trouxa.

:- Iguais. Otário.

Eu me virei ficando de costas para ele, mostrando que não queria saber mais daquela conversa de criança do primário, me pouparia de ver a fuça dele um tempo.

Para o meu agrado, escutei o som de passos e me virei para certificar que ele foi embora, e então tudo seria esquecido, os momentos atrás de trégua e pior a tensão entre nós dois. Voltamos a ser os inimigos de sempre.

Ótimo.

Eu daria agora atenção quem realmente merecia.

Eu demorei, mas por fim tive a ideia perfeita e infalível para nos encontramos. Pensei muito e nada melhor do que um bom batom vermelho e um bigode para nos reconhecermos. Mas, você vai pensar, isso é clichê e óbvio. Meu caro Dodo, a diferença é, eu vou usar bigode e você batom. Até a amanhã, lábios rojo.

Xoxo,

Mimi.