Moça, seu namorado é gay
1 1 – A fruta que nós gostamos
Abertura/Trilha sonora – Sakura Drops

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Haruno, como era conhecida por todos, estava pensando seriamente em dividir o apartamento com alguém naquele mês de Junho. As despesas já não estavam mais sendo sanadas com a mixaria que ganhava – em suas próprias palavras –. Decidiu por um anúncio no jornal. Disse que o apartamento era espaçoso, aconchegante, com três quartos, dois banheiros e uma cozinha com uma porta que dava para uma varanda. Bela varanda, aliás. Lá ela cultivava uma pequena árvore cerejeira que dava origem ao seu primeiro nome: Sakura. Da varanda dava-se para se ver, também, um jardim natural exposto em uma praça que ficava saturada de cidadãos e visitantes na primavera, com um tapete rosa formado pelas pétalas de cerejeira caídas no chão.
O aviso, entretanto, foi um fracasso. Haruno fez uma seleção de candidatos e nenhum era bom o suficiente para o cargo. Alguns até queriam entrar em um acordo para dividir as taxas. “Eu só quero o meu quarto para dormir, passarei a maior parte do dia fora. Não devo pagar menos que você?", disse um deles. Mas Haruno só concordava em dividir as despesas meio a meio. O aluguel do apartamento era caro e ela não deixaria por nada o emprego de vendedora da loja de CDs.
Definitivamente não.
A Konoha Musical era referência quando o assunto era áudio e vídeo. Por lá passavam os principais cantores de música pop oriental, fazendo propaganda de seus novos singles e alguns, sessão de autógrafos, entrevistas públicas. E, claro, isso deixava uma certa garota de olhos verde cristalino encantada. Era por isso que aceitara o trabalho com um pagamento tão desvalorizado. Não era porque a loja era conhecida que ganharia muito. Ela estudava e trabalhava meio período e nunca se pagou muito a colegiais. Não em um país como o Japão que, desde o surgimento do Toyotismo, exige os mais conceituados e qualificados para exercer qualquer função, em qualquer setor. Uma garota de apenas dezessete anos poderia competir com alguém mais velho? Nem na China!
E o trabalho dela não era fácil, não. Passar mais de cinco horas em pé ao lado de uma prateleira de CDs, esperando por uma alma caridosa que realmente gostaria de comprar algo – e não só ouvir faixas e dar o pé sem levar nada – era cansativo em demasia. Apenas se sentia em casa ali, e era por isso que não pediria demissão. A música sempre fez parte da sua vida desde que disse “mamãe” pela primeira vez na vida.
Só que Haruno também se dava a oportunidade de adorar certos mimos e luxos, influência dos pais que sempre a trataram assim. Não desistiria do apartamento confortável que morava apenas porque a grana era pouca e o dinheiro que seus pais mandavam estava cada vez mais escasso desde que o pai sumiu no mundo por conta de dívidas de jogo. Ah, sofrera tanto por isso...
Estava pensando em possibilidades desde que começou a conversar com pessoas interessadas no espaço e viu que nenhuma delas a agradava. Teria que conseguir um apartamento mais básico e barato se quisesse continuar no emprego; e não era como se conseguir um emprego aos dezessete anos fosse a coisa mais fácil do mundo também.
Foi tirada de seus devaneios quando percebeu alguém vindo em sua direção. O término de seu expediente estava se aproximando e agora conferia apenas as vendas por trás do balcão principal. Estava se sentindo triste aquele dia por não estar tendo sucesso com as buscas, mas quem a via nunca juraria. Talvez escondesse a tristeza por trás de seu casaco de couro, jeans surrado, tênis e o pesado lápis preto que contornava os olhos de verde faiscante.
Haruno suspirou e pegou os classificados do dia, logo após.
– Diga, Ino.
Era a sua melhor amiga quem havia chegado, e ela notou o desânimo na voz de Haruno.
– Ainda ocupada? – Perguntou esperançosa. Tinha planos para a amiga. A loira de olhos igualmente verdes e cabelo longo deitou a cabeça preguiçosamente no balcão e estendeu os braços. – Que horário larga mesmo isso aqui, Sakura?
– Droga! Não me chama assim, sabe que odeio. – Haruno fez uma careta sem desviar os olhos para a amiga. Suspirou. Odiava que a chamassem pelo primeiro nome, até mesmo as pessoas mais próximas. Era uma história que não gostava de ficar contando a ninguém. – Vejamos... Faltam vinte minutos – disse conferido a hora no telefone celular.
– O seu nome combina, e muito, com a cor de seu cabelo. Nada mais justo que se chame Sakura uma garota que gosta de pintar seus cabelos de rosa – Ino insistiu, deixando Haruno meio emburrada. – E Sakura é um nome lindo!
Haruno olhou para Ino com olhos semicerrados. – Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
– Ah, tem, sim. E muito. – Ino piscou um olho. – Eu acredito que nada nessa vida é por acaso. E você criou suas próprias circunstâncias quando resolveu adotar essa cor para os cabelos.
– Como está filosófica... – Haruno fez uma careta engraçada e Ino riu. Depois pegou uma caixinha de chicletes que estava na gaveta do balcão e entregou um para ela. – Mas a que está aqui mesmo? Sei muito bem que não veio somente para implicar com o meu nome. E muito menos para comprar CDs.
Haruno estourou com os dentes uma bola feita com a goma de mascar. Ino fez uma careta e ela não soube identificar se o motivo era ter grudado boa parte do chiclete nos lábios ou porque fora tão rude com ela. Não rude, exatamente. Aquela era apenas a forma como costumavam se tratar as melhores amigas.
Talvez ela quisesse reprimir Haruno também. De tanto que comia doces, a menina de cabelos rosa acabou desenvolvendo diabetes do tipo 1. Mas era impossível se controlar quando o assunto era doce. Ino até tentou vigiá-la nos primeiros meses, mas vendo que não obtinha êxito com isso – e vendo que Haruno não largava os doces por nada –, desistiu. Não se importava mais, agora até compartilhavam do mesmo vício.
– Eu vim te chamar pra tomar um lanche. Mas você está com cara de quem vai recusar. – Ino entortou a boca e arqueou as sobrancelhas, fazendo careta. – Queria conversar sobre o campeonato da semana que vem. Estamos certas de que vamos ganhar?
– Mas é claro! – Haruno cerrou as mãos, esperançosa e determinada. – Você acha que eu vou deixar o grupo da vaca gorda ganhar? Não nesse ano. – Amassou o jornal tentando conter a raiva. – Vou dar uma lição nela e fazer com que volte pra o puteiro de onde veio.
Hinata Hyuuga, vou fazer você pagar por tudo que me fez, vadia.
Oh, aquela velha briga de anos.
– Isso! Nós vamos acabar com aquelas vagabundas! – Ino incentivou.
Como todo colégio que tivesse times de esportes, fosse o bom e velho baseball ou mesmo o basquete, o colégio onde Haruno estudava possuía um grupo feminino de torcida; e ela estava atualmente no posto de líder desde a última competição anual. Com muita força, com muita luta, com muita garra. Lohan era um colégio público japonês de prestígio. E, para completar o super pacote promocional de estudar em uma instituição que dava força ao seu currículo, Haruno ainda adorava poder conciliar com os estudos a dança. Ah, a dança... O seu sonho.
Pois bem, todos os anos era realizada uma competição que decidiria quem lideraria o grupo pelo ano seguinte, mesmo que a professora de Educação Física, Tsunade, estivesse sempre junto ao grupo. E era daí que nascia o ódio que Haruno sentia pelo grupo rival. Ou era daí que esse ódio se intensificava. Esses tempos eram sempre de muita trapaça, brigas e puxões de cabelo, mas também era dotado de muito esforço e talento. Hinata Hyuuga era líder do grupo que ficou no segundo lugar no ano passado e a sua principal rival. Perdeu para as The Dolls.
Esse ano estava prometendo uma terceira guerra mundial.
Hyuuga porque perdeu e Haruno porque sofreu demais para chegar ao posto.
No ano passado, foi trancada pela bela Miss Estudantil – Hinata Hyuuga –, que não se conformava em perder para aquela magricela. Teve que dar um beijo no filho do zelador para agradecer pelas chaves e até hoje não aceita o fato de que o pobre garoto se apaixonou. E não sabia o porquê. Ao contrário de Hinata que tinha impetuosos cabelos azuis quase negros e olhos de azul límpido, Haruno não julgava ser tão bela e isso era só mais um motivo para abrir mais a ferida que pairava entre elas. Os garotos não tinham a mesma opinião que ela, mas quem poderia vencer uma baixa auto-estima? Vivia culpando a genética de seus pais que a deserdaram de seios. Os seus eram bem pequenos. Então sabia que aquele garoto a amava verdadeiramente, porque não permaneceria naquele estado de alucinação por tanto tempo se assim não fosse. Pena, apenas, que não compartilhavam o mesmo sentimento. Não sabia se sentia mais pena dele ou dela mesma.
– Esse ano eu não vou perder. Vamos ser vencedoras por mais um ano. Iremos passar como uma cavalaria e amassar aquele monte de merda. – Era quase visível o fogo da determinação que emanava dos olhos de Haruno. – Estou decidida.
– Estamos – Ino corrigiu.
A loira não ficava por menos. Adorava o clima de competição e contava as vitórias. A última que tivera foi com o ex-namorado, e mesmo que a vitória tenha ocasionado o término de namoro, estava feliz porque venceu.
Ino mudou de assunto. – Mas me conta, flor, por que é que estava olhando o jornal? – Ela olhou para o jornal amassado com ódio sobre o balcão. – Te conheço, garota, e sei muito bem que odeia ler qualquer coisa que não seja as capas dos CDs de seus ídolos, romances eróticos e revistas de fofoca.
Haruno deveria ter corado por conta dos romances eróticos, mas suspirou. – Problemas financeiros, Ino. Novamente.
– De novo, amiga? – Ino perguntou tristonha. – Mas não conseguiu achar ninguém?
– Não... – Haruno suspirou e deitou sua cabeça no balcão. – A vida não está nada fácil. Na verdade ela nunca foi, mas parece que esse mês está tudo dando errado. Eu espero que o mês de Julho seja melhor do que esse Junho desgraçado.
– Vai ser, sim... – Ino alisou os cabelos da amiga, consolando-a.
– Primeiro, meus pais se divorciam e minha mãe pede para que eu volte a morar com ela no interior, abandonando o colégio – ela começou a contar a ladainha diária de sempre, que Ino conhecia muito bem. – Minha irmã fugiu com o namorado. Meu pai sumiu no mundo e não deu mais notícias, e ainda acho que ele não largou o álcool. Outro mês deu entrada no hospital e fugiu de lá antes que tivesse alta. E para completar, o aluguel encareceu e eu não estou tendo condições de arcar.
– Já pensou em pedir um aumento para seu patrão? – Ino sugeriu, de novo. Já sabia a resposta, mas incentivava-a para que tomasse coragem para pedir.
– Minato-san não me daria um aumento. Sou uma colegial e não vendi muito nos últimos meses.
– E exatamente ninguém te procurou para dividir?
– Até que procuraram, mas ninguém tinha o perfil que procuro. A maioria foram homens, e eu não quero ter que dividir o apartamento com um estranho. Se é para ser assim, que seja com uma mulher que tem vagina como eu.
Ino controlou uma risada. Haruno era muito direta e não tinha papas na língua. – E você acha que as mulheres também não podem ser perigosas?
– Elas não podem ejacular dentro de mim enquanto durmo. Canso de ver casos de abuso sexual na TV.
Ino riu de novo. Não dos casos de abuso, mas da forma como Haruno contava algo. – E em que parte entra o jornal?
– Estava procurando um lugar para morar mais básico e mais barato. Já estou devendo três meses de aluguel e logo serei colocada para fora. – Haruno fechou os olhos, sonhadora. – Eu adoro tanto aquele lugar... Adoro mesmo! É o meu cantinho.
Ino notou melancolia em sua voz e ficou triste por a amiga também.
– Eu sinto muito. Você quer um empréstimo ou algo do tipo?
– Eu não sei quando poderia te pagar, é melhor não. E dívidas não são comigo. Você sabe... O meu pai...
– Sei, sei. Não precisa falar mais nada.
Haruno entortou a linda da boca, triste.
– De qualquer forma – Ino continuou a dizer –, estarei à disposição se precisar. Você não vai tomar o lanche comigo, então vou para casa me aprontar e ligar pra um boy magia. – Piscou o olho e só então Haruno sorriu. – Você devia arranjar um love também. Não te vejo sair com mais ninguém desde o loiro cafajeste.
– Naruto?! – Riu melancólica. – Ele me fez sofrer muito.
– Vou indo... – Ino se despediu com um beijo na bochecha de Haruno e foi embora na sua bicicleta. Mas antes disse: – Até logo, Sakura!
– Não me chame de Sakura, sua vaca! – Haruno saiu do estabelecimento e gritou para que a loira pudesse ouvir.
[...]
Quando chegou em casa uma hora depois, Haruno tirou os sapatos e se jogou no sofá como se fosse um peso morto. Ficou olhando a mobília que teria que vender porque não caberia no apartamento mais compactado e básico. Que triste.
Decidiu ir beber um copo de água gelada e lamentou a geladeira vazia. Se não fosse pela temperatura baixa, criaria teias de aranha ali dentro. Tinha só água, ovos e um queijo fora da data de validade.
Passou pelo cômodo vazio onde costumava praticar e criar suas próprias coreografias. Ficou olhando com um vazio nos olhos. Começou a se perguntar se conseguiria ter um assim no novo apartamento. Não teria, sabia. Mas não custava sonhar. Suspirou. Olhou para o aparelho de som que parcelou 12x no cartão de crédito e sentiu os olhos arderem, pensando se teria que vendê-lo também. Os melhores amigos das garotas de sua idade eram os telefones celulares, o computador, o tablet. O dela era aquele aparelho de som. Passava horas na sua companhia. Quase todas as noites.
Tinha mesmo que vendê-lo? Tinha o telefone celular com player, mas não era a mesma coisa.
Decidiu por algo e dançar naquele espaço para matar a saudade antecipada. Pôs Love Beat e deixou que a música levasse embora todos os pensamentos ruins acumulados durante um duro e longo mês. As suas batidas energéticas deixaram-na um pouco melhor. Tirou as meias para ter mais habilidade nos movimentos e afastou o tapete para o lado, requebrando da maneira como somente ela sabia fazer, riscando com os pés o chão com precisão.
Ela não sabia como aqueles movimentos sensuais, cronometrados e delineados a deixavam-na sexy para muitos homens que já puderam ter o prestígio de vê-la dançar. Deus do céu, nascera para a música. Parecia uma pena delicada no ar quando deixava seu corpo se mover com as batidas, e estava sempre fazendo isso. Sempre sendo uma pena.
Às vezes seus movimentos também eram bruscos, mas não deixavam de ser sensuais por conta disso. Ao contrário. Ela ficava ainda mais atraente quando fazia isso, deixando muito cara duro por aí e nem tinha conhecimento disso. Suas mãos cortavam o ar graciosamente. Era a personificação do cisne negro, cheio de charme e malícia nos movimentos. Seus quadris eram tão leves e moles quanto uma mola. Iam até o chão, vagarosamente, e subia rápido depois. A música era seu êxtase.
Quando a música acabou, pôde ouvir alguém chamando no interfone. Queria dançar mais e amaldiçoou seja lá quem fosse. Nunca aquela campainha havia sido tão chata! Ignorou a porta e colocou uma nova música. Mas a pessoa lá fora começou a bater na porta como um selvagem, e ela, vendo como era irritante, que insistia demais, apertou stop e foi ver quem era sem nem mesmo atender ao interfone.
Haruno se chocou diante da figura mais máscula e angelical que já viu na vida. O cara era a personificação da perfeição. Sim, senhor.
– Boa noite. Você deve ser... – O jovem tirou um papel do bolso da calça e conferiu algumas letras. – Sakura Haruno. Estou certo?
Ele sorriu de uma forma linda, nas próprias palavras de Haruno. Quem era aquele cara?
– Sim... – Ela sorriu maravilhada por ele saber o seu nome. Limpa a baba, Haruno. – Você... Quem é?
– Ah, desculpe – ele estendeu a mão para Haruno, que a apertou de leve, desconcertada e maravilhada –, meu nome é Sasuke. Sasuke Uchiha.
– Prazer. – E como sentia prazer em conhecê-lo! Não podia negar. – A que devo a visita?
– Estou interessado em dividir o apartamento com você. Eu vim por conta do anúncio no jornal. – Ele ergueu o jornal e mirou no ponto onde estava publicado o anúncio de duas semanas atrás, quando ela resolveu renová-lo.
– Ah, sim... Mas... – Ela ficou desconcertada. Não queria dizer que sim, nem que não. – Eu deixei claro no anúncio que só divido o apartamento com mulheres.
Por um momento, diante do desespero e diante da alegria de ter o seu lar garantido, Haruno até pensou em dividir o apartamento como sexo masculino. Mas estava ciente que a onda de criminalidade e estupros estava alta naquele ano.
– Moça, eu sou gay. – Ele abriu um sorriso largo. – Da fruta que você gosta eu chupo até o caroço.
Haruno desfez o sorriso na hora.
Notas finais
Isso significa que ela pode conter erros ortográficos e de concordância verbal. Se achou algum, eu agradeceria muito que anotasse no bloco de notas e mandasse para mellorine189151@gmail.com ou ainda por MP.
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