Moça, seu namorado é gay

2 2 – Todos precisam de um lar


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Ter alguém para dividir a vida, a cama, a mesa e o banho é fantástico, mas você tem que aprender a viver só antes de viver com alguém. (Clarisse Côrrea)

– Você chupa... – Engasgou-se com as palavras, engolindo em seco. – Até o caroço?

Era inacreditável que um rapaz de aparência tão bela e refinada estivesse disposto a dividir o apartamento com Haruno. Mais inacreditável ainda foram as palavras que ele proferiu a ela antes mesmo de conhecê-la há tempo. Íntimo demais.

– Até o caroço! – Ele riu com convicção.

Haruno encontrava-se pasma ali diante dele e tentava falhamente procurar o ar que a incredibilidade havia lhe roubado. Até o caroço, repetiu mentalmente.

– Eu não sei – ela achou as palavras perdidas –, eu deveria me certificar antes se você é mesmo homossexual.

Suspirou pensando no desperdício que seria. Não que fosse homofóbica, é que o achava atraente.

Olhando-o agora, depois de alguns minutos passados, viu que ele ia ficando ainda mais bonito. Sua pele era branca como todos os orientais, mas ele tinha um ar de garoto norte-americano. O corte de cabelo era rebelde, mas os fios eram negros e sedosos; ela podia ver o brilho bem de pertinho. Ele tinha um belo corpo também. Oh, generosos músculos. Tinha quase certeza que ele não era dali.

Será que ela tinha sorte ou azar?

Não é todo dia que um deus grego bate na sua porta e diz que quer morar com você.

– Você... Você não quer entrar? – Convidou-o para entrar, mesmo que o conhecesse há pouco tempo e fosse fissurada na ideia de que a qualquer momento poderia ser violentada na rua. Ela levantou os olhos para vê-lo e fazer o convite outra vez, visto que ele demorava a responder. – Você não quer— É. Você já entrou.

O jovem Sasuke, como disse que se chamava, estava sentado em seu sofá muito antes de Haruno notar. Se ele fosse mesmo um ladrão ou maníaco, agora ela estaria perdida. Que atrevido.

– Então, Sakura, o que você tem aí para beber? – Ele estava sentado educadamente, abrindo-lhe um sorriso grandioso; mas ainda assim, Haruno achou muito petulante a sua atitude de entrar sem ser convidado antes. Se não fosse tão bonito e aquele sorriso não fosse o mais lindo do mundo, ele já teria perdido 50% da sua credibilidade. – Não me oferece nada?

Ela, ainda assim, foi educada com ele. Era um estranho.

– Por favor, não me chame de Sakura. Eu gosto de ser tratada pelo meu sobrenome. – Ela fechou a porta sem trancá-la à chave. – E, me desculpe, mas a única coisa que posso oferecer no momento é água. Estou passando por dificuldades financeiras e tenho que economizar em tudo.

– Ok, eu vou querer uma água – disse. Enquanto Sakura foi até a geladeira encher o seu copo com água (sem deixar de olhar para trás e se certificar de que Sasuke não vinha em sua direção com uma faca), ele ficou observando o local. A mobília, as cores das paredes, os retratos. – Mas seria bom que fôssemos ao supermercado daqui a pouco para fazer umas compras. Eu como bastante e estou faminto desde que cheguei.

Haruno se prendeu a dois detalhes. O primeiro era no quanto Sasuke era folgado, o encanto dele estava começando a definhar. E o segundo era o fato de ele “ter chegado”. Acertou. Ele não era da cidade, e quiçá do país. Mas falava muito bem o japonês, como se fosse mesmo a sua língua mãe.

Ela agradeceu pelo momento na cozinha, usá-lo-ia para pensar. Como expulsá-lo dali? Aquele cara cheirava a problemas. E o modo como se sentava, falava... Para ela significava que ele Hétero com h maiúsculo.

Mas e se não fosse? Ela poderia aplicar meios de descobrir.

E se ficasse provado que era homossexual como dizia, talvez não fosse uma má ideia deixá-lo ficar. Seria um desperdício. Mas de toda forma, se ela não o deixasse morar com ela, não seriam os melhores amigos. Talvez nunca mais voltassem a se ver na vida. Então que diferença fazia? Talvez fosse bom dar uma chance.

– Desculpe, Sasuke-kun, mas ainda não decidimos se você vai ficar – ela disse sem graça, não queria ser grosseira. Ela entregou o seu copo com água e sentou-se no lado do sofá oposto ao dele.

– Eu também tenho minhas... Peculiaridades quanto ao nome. Me chame apenas de Sasuke. – Ele voltou a dar aquele sorriso de rasgar calcinhas. – Ah, e não querendo ser mão de vaca, mas reparei que você passou muito tempo com a geladeira aberta. Se está com dívidas, talvez devesse aprender a economizar. – Ele levantou o copo como se estivesse brindando.

– Eu não abro a geladeira pra pensar se é o que pensa! – Abre sim. – Eu só estava... Estava vendo que preciso fazer compras. Então se me der licença...

– Está vendo? – Sorriu. – Estava pensando! Pensando em como a sua geladeira estava vazia.

– Você é meio intrometido – disse irritada. O cara parecia ser um daqueles tipos que gostam de dar sermões e rir dos pobres e coitados. Seria uma convivência difícil e ela repensou de novo na questão.

– Não precisa ficar com essa cara, Coração – ele disse fazendo charminho. Aquele cara estava flertando com ela! Era 100% hétero!

– É a única que tenho – respondeu semicerrando os olhos, desconfiada.

Sasuke terminou de beber a sua água. – Obrigada, estava com sede.

– Eu não negaria um copo d’água a ninguém – falou secamente. Estava testando-o. Mas ele era esperto e percebeu, resolvendo entrar em seu jogo.

– Como gosta de ser chamada, Sakura? – Oh, não. De novo o nome.

– Eu gosto de ser chamada pelo meu sobrenome, já disse. Sou Haruno.

– Sim, mas quero saber como os mais íntimos te chamam.

– Me chamam de Haruno. Sou Haruno para todos, por favor, não se esqueça disso.

Que estranho.

Não entrava na cabeça de Sasuke que ela não gostava de ser chamada de Sakura. Achava lindo esse nome.

– Mas e então, Haruno, irá me aceitar? – A voz de Sasuke era tão rouca e intensa que ela pensou que aquilo fosse um pedido de casamento. Aceitaria, se fosse o caso. Mas não era. – Juro que não sou de atrasar o aluguel. Se quiser, eu até pago com quinze dias de antecedência.

Vários questionamentos entraram naquela cabeleira rosa.

– Eu tenho algumas perguntas que quero que você me responda. Poderemos pensar em um acordo depois disso. – Sakura trouxe as pernas para junto de si.

– Sou todo ouvidos.

– De onde vem?

– Meus pais são do norte da Austrália, mas eu nasci no Japão e fui criado aqui desde então. Meu pai tem negócios aqui. Venho de uma pequena cidade próxima a Hokkaido.

– O que está fazendo aqui em Tóquio? – Não perdeu tempo para fazer a segunda pergunta.

– Estou aqui a trabalho. Mexo com computadores. Fui contratado pela polícia para ser hacker.

– Hacker?! – Ela se surpreendeu. Estava diante de um hacker? E que trabalharia para a polícia? O que aquele homem estava fazendo ali no seu apartamento? Somente a polícia de elite japonesa usava hackers para descobrir segredo de computadores criminosos e sites da deepweb. Com o dinheiro que pagariam a ele, poderia muito bem ter o seu próprio apartamento.

– E por que quer dividir um apartamento? – Era uma pergunta atrás da outra, sem descanso.

– Não gosto de morar sozinho. E esse apartamento aqui é o que procuro. É espaçoso, tem conforto. Como estava conseguindo se manter durante todo esse tempo? Me desculpe, Haruno, mas não tem cara de menina rica que pode esbanjar o dinheiro dos pais em um apartamento como esse.

– Meus pais não são ricos, mas vivíamos bem quando... – Quando seu pai não perdeu tudo em jogos, quis acrescentar. Mas não tinha porque dar detalhes tão íntimos da sua vida para um estranho, apesar de tê-lo deixado entrar em sua casa. – O que importa é que agora não posso mais ser sustentada por eles e não estou dando conta do aluguel sozinha.

– Você trabalha? – Foi a vez dele de perguntar algo.

– Sim, eu trabalho – respondeu, porque se orgulhava demais disso. – Minha vez: você é mesmo homossexual?

Ele gelou diante da súbita pergunta. Será que só a palavra dele não era o suficiente? Mas não a culpava, entretanto, porque ela estava mesmo certa em desconfiar. Ele logo voltou à sua normalidade para que não deixasse transparecer a mentira, para que ela não descobrisse, afinal de contas, que ele não era gay. Era hétero. Muito hétero, aliás.

– Eu ainda tenho muito que descobrir sobre você antes que te deixe morar comigo – Haruno continuou –, saber como vive e se realmente é gay.

– Um macho man fingiria ser gay, Haruno-san? – Riu.

– Eu duvido de tudo e de todos nesse mundo. As pessoas são trapaceiras e fazem coisas absurdas para conseguir seus objetivos. Nos conhecemos há menos de meia hora e eu não posso confiar assim tão de repente em você.

– Com razão – concordou e levantou o copo vazio no ar, como se quisesse fazer um novo brinde. – Poderia me dar um pouco mais de água?

[...]

Haruno e Sasuke ficaram conversando por um bom tempo. Ela não queria ser rude ao expulsá-lo, mas estava ficando constrangida porque estava com fome e na sua casa não tinha nada para o jantar; queria se certificar se tinha algumas moedas na bolsa e comprar um pão na padaria da esquina, mas ele não daria para duas pessoas. Era constrangedor.

O tempo que passaram juntos estava com menos pressão sobrecarregando o ambiente em relação aos primeiros minutos. Passou-se uma hora e meia e Haruno concluiu que Sasuke não era uma má pessoa. Mas sabia que existiam lobos em pele de cordeiro, então resolveu não se confiar muito. Ainda não dava para decidir se dava para ele ficar ou não. Todavia, mandá-lo para um hotel com mala e tudo tinha grandes chances de ele arranjar outro apartamento para dividir com alguém e não voltar nunca mais.

Ela não. Ela dependia de outra pessoa e não estava nada fácil achar bons pagadores, embora ela não fosse uma boa pagadora desde a primeira vez em que atrasou o aluguel. Estava escondendo a cara de vergonha toda vez que passava pelo corretor, mas ele sabia de suas necessidades, embora tenha lhe dado algumas advertências.

– Escuta, Coração – ele voltou a se dirigir a ela pelo apelidinho fofo –, eu estou com fome. O que acha de pedirmos uma pizza? – Ele deixou o copo de água vazio na mesinha do centro da sala e pegou o telefone celular no bolso da calça.

– Você é tão folgado... – Ela riu. – Já age como se morasse aqui.

Ela o repreendeu, mas por dentro dava salto com vara por ele não ter esperado por uma resposta sua antes de ligar para a pizzaria. Estava faminta e não comia pizza já fazia um bom tempo. Na noite anterior, comeu lámen sem acompanhamentos à massa de macarrão. Os legumes estavam caros. E o camarão?! O camarão nem se fala! Estava cansada de comer aquilo. Queria comida de verdade.

Oh, que vergonha.

Se sua mãe soubesse das necessidades que estava passando, imploraria novamente para que voltasse ao interior. Então toda vez que sua mãe ligava, Haruno dizia que estava muito bem e feliz com o trabalho e mentia dizendo que Minato-san havia lhe dado um aumento. Queria ficar na capital por muitos motivos, e um deles era seguir com o seu sonho.

– Essa não é a hora em que você diz “amiga, você não presta!”? – Sasuke deu uma risada enquanto aguardava a sua ligação ser atendida.

Sakura riu também. Como ele poderia ser tão divertido às vezes? Ela pegou uma almofada do sofá e jogou em sua direção, mas ele conseguiu pegar a tempo e lhe mostrou a língua, fazendo-a sorrir de novo.

– Olhando bem, você tem uma testa de marquise, Coração. – Arqueou as sobrancelhas para um retrato seu tirado antes de repicar a franja.

Se Haruno antes estava começando a gostar dele pela simpatia, a fúria voltou à tona. A sua testa de marquise ocupada o segundo lugar na lista das dez coisas que mais a tirava do sério. O primeiro lugar se devia ao nome Sakura, claro. Qual a necessidade de lembrar a ela constantemente algo que já sabia? Estava cansada do bullying que sofria no colégio. Agora na sua própria casa passaria a sofrer também?

Sasuke notou como ela mudou de expressão. – Eu só quis fazer uma brincadeira.

– Eu sou linda. A foto é que está feia. – Corou.

– Não leve as coisas em termos pessoais – falou com pesar. – É sério.

– Hm – foi tudo o que Haruno disse, com o pensamento perdido.

Se surpreendeu com o que tinha dito a ele. Disse que era bonita. Se achava “arrumadinha”, mas não bonita. Hinata Hyuuga tratou de pô-la no seu devido lugar ou, no mínimo, ridicularizá-la a ponto de acreditar que era realmente feia.

Enquanto Sasuke fazia o pedido, atordoada, ela levantou do sofá e foi até o espelho que tinha na sala. Viu o seu reflexo. Não gostava do que via. Levantou os fios de cabelo que cobriam a testa. Sou mesmo ridícula, pensou a pobre, com um sorriso triste no rosto delicado.

– É... – Sorriu melancólica. – Talvez eu tenha mesmo uma testa de marquise, mas estou aprendendo a conviver com isso.

Sasuke, porém, não escutou.

– Frango com catupiry, quatro queijos, portuguesa, chocolate, banana com canela... Quê mais? Sei. – Ele olhou para Haruno e perguntou: – Coração, que sabor nós vamos querer?

– Não sei – suspirou –, escolhe você.

– O que você tem? – Ele perguntou com um fio de voz, pela súbita mudança de humor. Parecia abatida. – Ah, vai, Coração. Escolhe um sabor! – Abriu um sorriso.

Ele estava conseguindo muitas coisas com um simples sorriso. Seria essa a sua arma mais poderosa de persuasão?

– Banana com canela. Você deve gostar de bananas – ironizou; e Sasuke entendeu de imediato o que Haruno quis dizer com aquilo. Zombeteiro, ele bloqueou a entrada de sua voz no telefone para que a atendente não pudesse ouvir e disse: – Não, eu prefiro um pênis. Grande, grosso e quente.

Sua expressão era de pura malícia, e Haruno concluiu que nunca ficou tão vermelha na vida quanto naquele momento. Nem mesmo quando seu pai fez um brinde à sua primeira menstruação. Minha filha já é uma mocinha, ele disse a toda à família.

As dúvidas sobre Sasuke ser gay ou não estava começando a desaparecer.

– Ah, então pede um frango com catupiry mesmo – disse inaudivelmente. Queria que se abrisse uma cratera no chão da sua sala que a engolisse. Que vergonha.

– Ok, Coração – Sasuke voltou a dar atenção à atendente no outro lado da linha como se nada tivesse acontecido. – Moça, uma pizza de frango com catupiry, um refrigerante de dois litros e sorvete de baunilha. O endereço?! Bem, anota aí...

[...]

Depois de todos os pensamentos daquela noite, da confusão mental sobre aceitar ou não a sexualidade de Sasuke como verdadeira, Haruno relaxou um pouco para comer. O moto boy não demorou muito a trazer o jantar dos dois. Sasuke pagou, agradeceu e os dois se sentaram no chão da sala, usando a mesinha do centro como mesa de jantar. Poderia usar a mesa da cozinha, mas já que estava ali na sala mesmo, por que não ficar? Haruno estava muito agradecida, mesmo que ainda não conseguisse lidar com alguns defeitos que Sasuke mostrou ainda no mesmo dia em que se conheceram. Teria ele outros defeitos? Talvez brigassem muito, mas ela poderia controlar a sua forte personalidade de isso significasse a salvação de seu lar.

Estava orgulhosa de si por não tê-lo deixado ir. Resolveu recomeçar.

– Me conta mais sobre você, Sasuke – Haruno disse depois de dar uma mordida na sua fatia de pizza.

– Vejamos... Por onde começar?

– Você pode começar pelo começo – disse; ambos riram. – Qual o negócio dos seus pais aqui no Japão?

Sasuke limpou a boca, que tinha farelos de trigo.

– Vamos lá. – Sorriu. – Meu pai é um policial aposentado. Meu irmão mais velho é o único homem da lei na família agora. A pressão lá em casa era grande para que eu me tornasse um também, mas meu sonho sempre foi viver da informática. Eu era há pouco tempo estagiário e trabalhava como professor de informática em colégios particulares. Mas já sabia hackear computadores muito antes disso. Quando colei grau, fui chamado para trabalhar na polícia. Acho que sou meio que um “homem da lei” também agora – disse fazendo aspas. Sorriu.

– Legal. – Haruno riu também.

– Mas nem sempre foi esse mar de rosas que você está pensando. Só aceitei o emprego para poder sair da cidade. Mesmo que eu não morasse mais na casa dos meus pais, ainda assim, eles me pressionavam muito. Eles não aceitam a minha sexualidade e foi um choque para todos quando disse que era homossexual. Somos uma família de valores muito tradicionais. Um homossexual no histórico da família é como se fosse mancha que desonra os Uchihas. Eu sou a ovelha negra da família.

Era estranho como Sasuke nunca abandonava o sorriso do rosto. Haruno o achou muito forte por isso. Ficou admirada com o seu conto de fábulas. Se bem que tudo que disse era verdade, exceto pela parte em que era homossexual e que a sua família era preconceituosa.

– Eu pensei que os australianos fossem mais liberais. – Ela sorriu e levantou o copo para brindarem com refrigerante.

– Viva às terras orientais! – Sasuke saldou. – Me fala um pouquinho sobre você agora, Sakura-chan. Por que não gosta que te chamem pelo seu nome?

Haruno ficou toda tensa. Odiava tocar naquele assunto, no passado que a tanto fez sofrer e que a enchia de vergonha.

– É muito difícil pra mim falar sobre isso. Me magoa muito. – Baixou os olhos. Lágrimas quiseram escorrer de seu rosto, mas manteve-se forte e engoliu todas.

– Tudo bem pra mim, eu sei respeitar o tempo das pessoas. Nós todos temos os nossos demônios, certo? Mas eu espero que um dia confie em mim e me conte tudo. É difícil pra mim falar sobre a minha família também, mas eu pensei que isso deixaria você mais confiante em relação a mim. Por favor, me deixa ficar?

– Obrigada – ela agradeceu Sasuke pela compreensão, mas não respondeu à sua pergunta. Ficou calada com o pensamento mergulhado em mágoas.

Sasuke resolveu ser o seu salva-vidas.

– Em que trabalha, Coração? Me fala sobre você também. Claro, me conte apenas o que pode.

– Não há segredo em falar de mim – fungou –, moro sozinha nesse apartamento, longe da família, por conta dos estudos. Vim do interior também, mas do interior de onde venho não há boas escolas. Não se comparada às escolas da capital. Quando ganhei uma bolsa de estudos, não pensei duas vezes em largar tudo e vir para cá. Eu não tinha muita coisa a perder, só a ganhar. É aqui que está o meu sonho...

– Que seria... – Sasuke quis saber.

– Me tornar uma dançarina profissional. – Sorriu. – Pode parecer um sonho idiota, mas pra mim é importante.

– Não – ele disse seriamente –, não é idiota. Um sonho nunca será algo idiota. A força de alguém, a vontade de fazer algo se concretizar, a determinação de correr atrás daquilo que lhe importante... Nada disso é idiota. Idiota é não tentar. Nós vamos cumprir os nossos sonhos e seremos, nesse mundo de poucas consequências, muito felizes.

Ele sorriu para ela, fazendo-a repetir várias vezes em seu subconsciente: não se apaixone, não se apaixone, não se apaixone, ele é gay. Seria difícil, todavia, se ele continuasse sorrindo para ela daquela maneira que arrancava a desarmava e arrancava a sua concentração.

– Vamos para os hábitos de convivência? – Ele continuou. – Eu não deixo toalha molhada em cima da cama e tampouco a tampa do vaso levantada quando termino de usar o banheiro. Sou extremamente organizado e alguns amigos dizem que sou obcecado por limpeza. Vou deixar o lugar em ordem. Pode ficar tranquila.

– Sério? Sabe cozinhar? – Só faltava isso para Sasuke ser perfeito. Só mesmo sendo gay para ser assim tão perfeito, Haruno era muito azarada e jamais conseguiria achar um hétero assim para ela.

– Não...

– Não sabe cozinhar?

– Não – riu –, estou dizendo que isso que falei não é verdade. Costumo ser um pouco desorganizado, mas estou tentando mudar isso em mim. Morar com outra pessoa talvez me faça uma pessoa melhor.

Estava bom demais pra ser verdade.

– Fica difícil assim, então, né?

– Não fica. – Sasuke não iria perder a oportunidade por conta de uma simples brincadeira. – Pagarei o aluguel em dia. Eu como muito e darei uma quantia maior para as despesas. Não sei cozinhar, mas a gente pode sair pra comer fora de vez em quando. Costumo beber de vez em quando, mas não sou alcoólatra. Não namoro, então não trarei nenhum namorado pra cá. Eu e meu ex boy magia terminamos já faz um tempinho. Mas mesmo que ainda estivéssemos juntos, seria bom que nenhum de nós dois trouxéssemos nossos namorados para dormir aqui. Ficaria... Como dizer? Ficaria chato.

– Entendo. Eu também concordo com isso. E também não namoro.

Sasuke até teve vontade de perguntar o porquê, mas se conteve. O que Haruno responderia a ele, entretanto? Que brincaram com ela e que estava difícil de acreditar nas pessoas, depois do que aconteceu? A garota se apaixonava facilmente, e isso conferia a ela uma característica de pessoa boba. Não gostava mais que as pessoas fossem gentis com ela, porque era sempre assim. Um cara era todo gentil e depois dava um chute na sua bunda. Pensaria duas vezes, agora, antes de entregar seu coração para alguém. Poderia até se apaixonar, porque era humana, mas não cairia outra vez no mesmo truque. Relacionamento sério estava fora de cogitação.

Não acreditaria mais quando alguém lhe prometesse amor sincero e uma vida inteira. Era sempre uma combinação bonita de palavras falsas.

“Foi apenas o meu erro achar que você se importou. Foi apenas o meu erro de achar que você estaria lá, que você ficaria ao meu lado e que você não iria mentir. O sentimento de uma pessoa é diferente de fórmulas ou códigos.”

Ainda se lembrava da briga. E ninguém percebeu quando suas lágrimas se tornaram chuva. O resultado que desejou para o transbordante cinza foi uma utopia. Como fora ingênua.

– Relacionamento é algo para pessoas bonitas – argumentou.

– Essa não foi uma coisa bonita de se dizer – Sasuke a repreendeu.

– Uma resposta bonita não precisa ser necessariamente uma boa resposta.

– O que te fez pensar que não é bonita?

– A minha existência.

– A gente tem que trabalhar essa baixa auto-estima.

– Não há nada pra ser trabalhado aqui.

Droga. Já estava chorando.

– Hey... – Ele iria perguntar se eram lágrimas aquilo em seus olhos.

– Me desculpe.

– Você não tem porque se desculpar.

– Bem... – Ele conferiu a hora no visor do telefone celular. – Acho que já está na hora de ir procurar um hotel para dormir.

Ele se levantou, se despediu de Haruno com o beijo no rosto e saiu arrastando a mala para fora. – Amanhã eu volto pra decidir como vamos ficar.

– Você não quer ficar? – Haruno perguntou depois que enxugou as lágrimas.

– Eu posso? – Sasuke ficou surpreso.

– Aquele é o seu quarto. – Ela apontou para o quarto que ficava ao lado do seu. A porta estava com uma pequena brecha aberta que mostrava, pela luz acesa, paredes pintadas em um tom forte de rosa. – Espero que goste de rosa...

– Rosa não era o que eu espera, mas amanhã eu posso dar um jeito nisso. – Riu. – Posso decorar o quarto como quiser?

– À vontade.

Ainda assim, rodeada por mágoas do passado que não deixavam Haruno descansar a mente, ela ligou para a recepção do prédio e deu todas as informações de Sasuke ao porteiro, disse que dormiria no seu apartamento. Se sentia mais protegida assim. Os episódios de abusos sexuais que sofreu na infância não poderiam voltar a se repetir em sua vida nunca mais.