Mortemville - Primeira Temporada
1 Episódio 01: "Piloto"
Mortemville, Abril de 1833. Feriado de Páscoa.
A noite cairá sobre a pequena vila de Mortemville. As ruas de pedra começavam a ficar menos movimentadas e as famílias se aconchegavam em suas pequenas casas. O clima era excelente naquela época do ano. Nem muito quente, nem muito frio. Sempre que o sol sumia na copa das árvores, um vento fresco soprava.
Se um turista quisesse visitar o povoado, precisaria descobrir o quilômetro exato para tornar a esquerda de quem vai ao Norte e atravessar uma trilha um tanto sinuosa pela floresta até se ver em campos de milho. Do alto da colina, é possível ver toda a vila. As casas se estendendo por não mais que quatro a cinco hectares. Na entrada da cidade, um letreiro informava o nome entre dois pilares. Logo no início, uma praça com uma fonte de um Minotauro (metade homem metade touro) se encontrava onde ramificava a cidade em quatro ruas. De Leste a Oeste.
Naquela noite em especial, onde os cristãos ficavam em luto pela morte de seu deus, três grandes famílias de Mortemville, cujo fundaram a cidade, se encontravam para uma coisa que nunca fizeram antes. Extremamente perigoso, mas eles tinham uma bruxa consigo. A Mansão Nikaly, a maior de todas as mansões e casarões de Mortemville ficava na baixada de uma colina a Oeste da vila e era de uma arquitetura vitoriana. Três andares com vários quartos e passagens secretas, salas enormes, biblioteca, porão, sótão e um magnífico jardim com uma estátua de seu fundador na entrada.
O jardim e o corredor que levava à entrada assim como ela também estavam iluminados por lamparinas a gás e as carruagens chegavam para desembarcar os membros das famílias. No salão de jantar, um lugar majestoso com uma mesa para vinte e quatro lugares na horizontal e um em cada ponta, totalizando vinte e seis. Quadros dos avós, bisavós e tataravós da família se espalhavam pelo recinto. Janelas grandes com cortinas que iam do teto até o chão feitas de seda e cetim. As portas duplas estavam abertas para que os convidados pudessem entrar. No fundo, próximo as janelas, do lado esquerdo de quem entra, ficava uma abertura para a cozinha onde os funcionários da casa entravam e saiam, assim como o mordomo que trazia os vinhos secos quentes. Ao lado direito, uma porta fechada levava a um cômodo que poucos sabiam. Na mesa, talheres e pratos compunham de forma clássica acompanhados por taças. Um vaso de flor estava no centro até que o jantar fosse servido e os convidados que chegaram com antecedência estavam espalhados pelo salão conversando. Os homens com seus ternos caríssimos importados da América do Norte, palestravam sobre a economia da vila enquanto as mulheres se ocupavam em comentar sobre suas vidas e filhos.
Exatamente a meia noite, quando todos haviam chegado, as portas do salão foram fechadas e os presentes convidados a se sentarem. As taças foram preenchidas e os garçons trouxeram em bandejas prateadas o banquete. Existia todo tipo de comida.
— Boa noite senhores e senhoras. Sejam muito bem-vindos a mansão Nikaly. — Começou Charles Nikaly, o anfitrião da casa, herdeiro mais velho da família. — Essa é uma noite muito importante para todos nós. A primeira vez que reunimos as três famílias que estão interligadas há centenas de anos. Como todos sabem, a bruxaria e a conexão com os Exilados começou com minha esposa e suas irmãs ainda no Estados Unidos antes de nos mudarmos para cá. Hoje, então, faremos nosso primeiro contato com os Do Outro Lado, através de um ritual em que as três bruxas, Morgana, Meg e Marcelle estudaram para criar. Claro que muito se perdeu logo depois que Meg fora morta na fogueira, mas águas passadas não é mesmo? — Ele soltou uma risada irônica antes de prosseguir. Todos os rostos na mesa estavam voltados para ele um pouco assustados. Por mais que concordaram com o tal e que acompanhavam o satanismo na família Nikaly e também nas próprias, nunca haviam feito um ritual tão poderoso como este. — Como demanda as sagradas escrituras, o ritual terá início as 03h06 da manhã, doze horas depois da morte de Jesus Cristo, portanto é o horário em que o véu que separa o nosso mundo do Outro Lado fica mais fino. Depois de jantarmos, pedirei que assinem os pergaminhos em uma garantia que em caso de morte os Nikaly não se responsabilizarão.
— Como podemos ter certeza de que não há riscos? — Interrompeu um dos convidados. Charles Nikaly reconheceu aquela voz antes mesmo de se voltar para o dono dela. Era Natanael Darkson. O vagabundo que acusara Morgana de blasfêmia contra a seita anos atrás. Sua esposa poderia até tê-lo perdoado, mas Charles não era um homem de se perdoar e muito menos de misericórdia.
— Sr. Darkson, como eu ia dizendo-lhe antes do jantar ser servido, não há como termos uma certeza como está. É por isso que ao fazer o convite a todos vocês, fui bem claro ao apontar os riscos e questionei-vos sobre a confiança que tens sob minha esposa. Todos vocês concordaram e confiam em Morgana, caso contrário não estariam aqui, estou errado?
Ninguém se opôs. Nem mesmo Natanael que acabava de beber um gole do vinho. O silêncio preencheu o ar por mais dois minutos antes que o homem sentado a ponta da mesa, de costas para a janela continuasse.
— Bom, mais informações darei quando a hora chegar. Não adianta lhes falar agora, provavelmente já estão com a cabeça fora do lugar com tanto vinho que beberam. Vamos nos servir então?
E um sininho foi tocado pelo mordomo da casa, indicando que o jantar começara.
Exatamente as duas e cinquenta e cinco da madrugada, os presentes foram convidados a acompanharem Charles até o porão, onde fariam o ritual. Ao chegarem, Morgana e Marcelle já estavam lá com livros antigos nas mãos. Um pentagrama enorme estava desenhado com duas lanças cruzadas no centro e velas vermelhas queimavam em volta do pentagrama. No resto do lugar, velas pretas derretiam, tornando o lugar mais sombrio e macabro do que realmente esperava ser.
A tensão no ar era clara e qualquer um percebia pelas inúmeras trocas de olhares e inquietude dos membros da seita que estavam mais nervosos do que acreditaram que estariam. Charles se posicionou o mais próximo da esposa que pode. As duas irmãs vestiam capas verde esmeralda brilhante e o rosto havia sido pintado com pó branco, ficando quase irreconhecíveis.
— Bom, por medidas de segurança, peço que vestem as capas que estão no pé da escada e passam no rosto o pó branco. Quanto menos identificáveis nós ficarmos, melhor. Lembrando que uma vez dentro, não se pode sair até que o ritual termine.
As bruxas aguardaram pacientemente, quase nem se movendo. Olhavam como se para o horizonte, pois o olhar era vago, sem um foco em específico. Talvez estivessem em transe ou sob efeito de alguma bruxaria. Quando todos se arrumaram, esperaram o relógio girar três e seis da manhã.
As irmãs ali presentes abriram os livros e começaram a dizer palavras em uma língua que ninguém ali conhecia. Era uma língua morta, jamais ouvida na terra. Charles foi até um baú em um canto, atrás das bruxas e tirou de dentro a cabeça de um porco abatido horas antes. O sangue ainda pingava, fresco. Sem pisar nas linhas de sal grosso do pentagrama ele espetou a cabeça nas lanças no centro virado de frente para o pequeno grupo ali presente. Algumas pessoas assistiam horrorizados. Marcelle tirou de dentro das vestes um pequeno vidro com um líquido vermelho denso dentro. Sangue. Abriu e o jogou como um padre com água benta em volta do pentagrama. Uma jogada e um passo para a esquerda. Era assim que mandava as escrituras. Ao final, ela tirou de dentro do mesmo baú que Charles pegara a cabeça de porco, uma folha grande de algum tipo de planta que não era nativa da região. Abaixou-se ao lado de uma das velas e aproximou a folha verde que se incendiou rapidamente. Antes que o fogo consumisse até o caule, ela jogou a folha no centro do pentagrama. As lanças pegaram fogo instantaneamente junto com a cabeça. Todas as velas acesas no porão se apagaram, tendo como fonte de luz apenas o centro do pentagrama.
Outubro de 2012.
O carro estacionou em frente os portões de ferro que delimitavam a área da mansão Nikaly com os campos de girassóis que subiam em uma colina até a cidade de Mortemville. Dois jovens pularam para fora do automóvel, boquiabertos com o tamanho do lugar. O casarão, sem moradores há muito tempo, ainda estava intacto. Tudo havia sido preparado dias antes para que a família pudesse desfrutar da herança.
— Bem-vindos a nossa nova casa! — Anunciou o pai com um largo sorriso no rosto. Os olhos castanhos escuros assim como o cabelo liso curto. O filho, Edward de dezessete anos, era muito parecido com o pai, Thomas.
— Tá de brincadeira, né? — Perguntou a garota, Cynthia de quinze anos, sem acreditar no que estava vendo e ouvindo. Também era bem parecida com a mãe, Karina. Cabelo louro ondulado até três dedos abaixo do ombro, mais baixa que o irmão e mais alta que a mãe, os olhos verdes esmeralda.
— É claro que não. Já expliquei a vocês que herdamos essa casa dos seus avós. — Respondeu a mãe com um sorriso meigo preenchendo-lhe a face.
Edward e Cynhtia trocaram olhares ansiosos e caminharam para os portões que já estavam destrancados. O corredor de pedra que levava a fonte no centro com uma escadaria de seis degraus atrás era feito por plantas nas laterais. O jardim, dos dois lados, preenchido por flores exóticas, pequenas mudas de árvores e um banco branco de cada lado. A fonte, seca havia sido lavada alguns dias atrás, mas por conta do vento forte já era esconderijo para muitas folhas.
Os irmãos deram a volta e subiram os degraus parando diante das enormes portas duplas de carvalho no estilo renascentista. Assim que estendeu o braço para apanhar a fechadura redonda de metal, o lado direito da porta se abriu com um leve clique e as dobradiças rangeram a medida que a madeira pesada se arrastou.
Estava escuro e o cheiro de mofo preenchia o ar. Cynthia pensou em questionar o pai sobre a energia da casa, mas o lustre de cristal do hall de entrada se ascendeu instantes depois. As paredes eram revestidas por um papel de parede vermelho intenso e um tapete fino com desenhos estranhos estava jogado ao chão. O primeiro lance de escada tinha dezesseis degraus e dava para uma parede com o quadro original da Última Ceia pintado por Da Vinci. Para a esquerda, levava-se para o segundo andar da casa e possui dez degraus. Para a direita, ao terceiro andar sendo necessário vinte degraus. Os corrimões possuíam um pilar pequeno decorativo paralelo ao primeiro e último degrau de cada lance e para esconder o mármore chumbo, um tapete vermelho aveludado foi posto.
No Térreo, ao lado esquerdo, uma porta dupla enorme, parecida com a da entrada principal estava fechada, mas uma pequena placa no batente superior indicava que era o Salão de Jantar. Do lado direito, outra porta dupla levava a Biblioteca e mais próximo da escada, uma porta menor a um escritório. Em baixo do lance de escada que levava ao terceiro andar estava uma portinhola com um cadeado enorme.
— Santo Deus, isso é a maior mansão que eu já vi! — Exclamou Cynthia.
Thomas e Karina passaram pela porta.
— O que acharam? É bem antiga, mas aposto que vão gostar!
— Eu adorei!
— Tem uma biblioteca? — Questionou Edward não contendo a empolgação na voz.
— É claro que tem e com mais de mil livros. Pode morar lá se quiser.
O jovem comemorou. Passava mais tempo lendo livros do que fazendo qualquer outra coisa. Já chegara a matar aula apenas para ficar em um canto lendo.
— Os quartos de vocês ficam no segundo andar. O meu e da sua mãe, no terceiro. — Contou Thomas. Se sentia satisfeito por ver a felicidade no rosto dos filhos.
— Vamos ter quartos separados? — Perguntou Edward.
— Suítes separadas.
— Amores, a casa tem vinte e cinco cômodos contando com os banheiros. Podem passar dias sem se olharem. — Respondeu a mãe. Os irmãos comemoraram e correram para a escada. — Mas, para que isso não aconteça, de agora em diante, será obrigatório nos reunirmos para jantar.
— O que?
— Sem contestação.
— Meu Deus eu vou precisar de um GPS para me guiar aqui dentro! — Brincou Cynthia.
— Ah, crianças, tomem cuidado por onde andam. A casa está fechada a muito tempo e por mais que tenha sido reformada, não sei o que foi deixado. Pode ter alguma coisa enferrujada. — Pediu o pai.
Sem dizer mais nada, Edward e Cynthia correram para o segundo andar.
A escadaria dava para um pequeno espaço que à direita se tornava um corredor. Do esquerdo, uma porta dupla estava entreaberta onde os irmãos viram a sala de estar. Vazia e enorme. A frente, uma suíte. Seguiram pelo corredor até encontrarem um quarto do lado do outro. O corredor seguiu até virar para a direita novamente e uma outra suíte foi encontrada. No fim do corredor extenso, um banheiro pequeno.
— Eu fico com esse. — Anunciou Cynthia entrando na suíte.
— Tudo bem, eu fico com a primeira suíte perto da escada.
Antes de ir para o próprio quarto, Edward desceu e foi até a biblioteca. Para seu descontentamento, estava trancada. A porta indicando sala de jantar estava aberta e ele adentrou. Era um enorme cômodo com uma mesa grande no centro para dezesseis lugares. Um outro lustre pendurado no teto, esse um pouco menor que o do hall. Quadros de senhores e senhoras estavam espalhados pelas paredes e ele demorou alguns minutos para perceber que eram fotos de seus antepassados. Uma porta no fundo esquerdo estava aberta com a luz acesa e isso o guiou até lá. Ao chegar, viu que os pais estavam parados na cozinha. Balcões se estendiam de fora a fora até a metade das paredes com armários em baixo. Um grande no centro onde estava um fogão. Janelas padronizadas até o fim e uma pequena porta que dava para o almoxarifado.
— Filho, achei que estivesse no seu quarto. — Comento Karina ao vê-lo.
— Quero a chave da biblioteca. — Respondeu. — Ah, vocês sabem quando a mudança vai chegar? Pelo que pude ver não tem quase cômodo. Só umas coisas velhas.
O sorriso no rosto do pai desapareceu.
— Não sei filho. Talvez chegue ainda hoje, mas você viu que é difícil encontrar a entrada certo para cá. — Um silêncio suficiente para ele engolir em seco e continuou: — Que tipo de coisas velhas você achou?
— Até agora nada de interessante, mas me refiro a essas coisas que já estão aqui. Aquela mesa, o lustre, os quadros...
— Ah, Edward, isso são relíquias herdadas dos seus avós.
— Tudo bem, mas se o caminhão de mudança não chegar hoje, onde vamos dormir?
— Eu preciso ir no mercado comprar umas coisas, já que obviamente não temos nada além de salgadinho e biscoito que trouxemos na viagem e aproveito para comprar uns colchões.
— Eu vou terminar de limpar a cozinha. Aparentemente foi esquecido por quem limpou a casa.
— Vamos precisar de funcionários.
— Com toda a certeza. Não vou dar conta de tudo isso sozinha.
— Pai, a chave da biblioteca.
— Filho acredito que eu não esteja com ela ainda. Vou dar uma olhadinha no carro, se eu não voltar, é porque não encontrei.
Edward resmungou baixinho e viu Thomas deixar o cômodo.
— E aí, filho gostou mesmo? Onde está sua irmã?
— No quarto dela. E não sei se gostei daqui. É grande, bonito, mas tem certeza de que era melhor termos deixado a capital?
— Você sabe que foi aqui que seu pai nasceu, certo?
— Claro, mas que diferença faz?
Karina suspirou e não respondeu. A buzina lá fora do carro soou a tempo de verem o automóvel deixar a propriedade.
— É seu pai não encontrou. Olha o tamanho desse lugar, porque não vai explorar.
— Mãe! Pai! Edward! — Chamou a voz da irmã vindo das escadas.
— Estamos aqui! — Gritou a mãe em resposta.
Instantes depois e a jovem apareceu na porta da cozinha.
— Caramba, eu tenho certeza de que vou me perder aqui. Parece que brota cômodo do chão. — Falou Cynthia. — Onde está o papai?
— Acabou de sair. Foi no mercado.
— Ei, Edward, vamos dar uma volta lá fora. Esse lugar parece incrível!
— Isso, isso Cynthia, leve seu irmão para tomar um ar fresco antes que ele arrombe a porta da biblioteca e não saia de lá nunca mais.
Edward e Cynthia saíram pela porta da frente. Atravessaram o corredor a céu aberto até as grades e guiado pela caçula, tornaram a direita. A extensão da propriedade era enorme. Quase três vezes maior que a própria mansão e do lado em que foram, uma floresta com árvores altas, troncos grossos e folhas verde escuro se erguia até desaparecer de vista.
Quando o irmão mais velho percebeu que Cynthia continuou avançando em direção ao interior da floresta, parou repentinamente.
— Você não vai entrar aí, vai?
— Qual o problema?
— Cynthia, não conhecemos esse lugar. Tudo aqui já é bem estranho e não vai ajudar se entrarmos numa floresta. Além do mais já está tarde. Em algumas horas começa a escurecer.
— Ah qual é Edward!
Sem dizer mais nada a garota entrou. O irmão xingou algo baixinho e a seguiu. Se era para serem idiotas, que fossem os dois juntos. A medida que avançavam a luz do dia sob o céu nublado ia sumindo e a mansão Nikaly também. Edward tirou do bolso o celular e ligou a lanterna para que pudessem se guiar entre as raízes grossas e saltadas que perfaziam o solo. Notou também que ali não tinha sinal.
— Cynthia acho melhor voltarmos...
— Cala a boca Edward!
Continuaram andando por mais um tempo até que a floresta se abriu. Era um lugar abandonado claramente que fez o coração de ambos saltarem. Vários túmulos com capim crescendo em volta, crucifixos. Alguns deles estavam quebrados e abertos. Centenas deles.
— Santa Maria! — Exclamou o primogênito.
Cynthia avançou entrando no cemitério e passando pelos túmulos, mas Edward se manteve longe. Não tinha coragem. De todos os Nikaly era o mais medroso quando o assunto era coisas mortas e espíritos. Ao contrário da irmã, que só se redimia perante insetos e animais grandes.
— Cynthia! Volta aqui!
A jovem estava parada diante de um dos túmulos com uma das mãos sobre a boca.
— Edward você precisa ver isso...
— Nem morto que eu vou entrar aí!
— Larga de ser medroso e vem logo.
— Cynthia! Eu vou voltar para casa e deixar você aqui...
— Por favor Edward vem ver isso!
Lutando contra o impulso de não ir e com o próprio medo, ele foi. Lentamente, passando pelos túmulos. O coração batia forte contra o peito. De uma das sepulturas quebradas pode ver a ponta de um caixão e imediatamente sentiu uma leve tontura. Se equilibrou na irmã antes de voltar a atenção para o que ela apontava.
Foi a pior coisa que já vira na vida. O túmulo em questão estava estourado assim como o caixão e dentro tinha restos mortais de um corpo. Ainda existia alguns pedaços de músculos e ligações, porém a maior parte já se transformara em caveira.
Edward manteve o olhar fixo por três segundos antes de virar para o lado e vomitar.
— Incrível!
— Você é louca! Eu vou embora daqui!
E saiu a passos largos sem olhar para trás e nem pensar se a irmã o seguira. Com a adrenalina do momento estava mais preocupado em sair dali e esquecer tal imagem.
— Edward! Espera...
Reduziu a velocidade quando a escuridão preencheu o lugar de novo e Cynthia lhe alcançou.
— Nunca mais faça uma coisa dessas comigo.
— Desculpa eu não...
— Cala a boca, vamos sair daqui.
(***)
O gabinete do prefeito era uma sala ampla. Uma mesa grande redonda para reuniões no canto direito de quem entra e no lado oposto uma mesa menor retangular onde ele ficava trabalhando. Prateleiras de livros se estendiam na parede do fundo e nas outras, quadros com os antigos prefeitos.
Robert Darkson II estava sentado na frente do computador refazendo uma ata importantíssima quando seu assistente, Cleber, entrou depois de duas batidas na porta.
— Com licença Sr.
— Diga Cleber, o que queres? Ainda estou trabalhando na Ata daquela reunião ridícula com o prefeito da cidade vizinha.
— Talvez o único que saiba de nossa existência.
— Com sorte. Mas vá direto ao ponto.
— Tem um homem lá fora que se recusa a dizer o nome que deseja ver o Sr.
Pela primeira vez durante a conversa o prefeito olhou para Cleber diante de si.
— O que?
— Diz que é de extrema importância.
Robert suspirou. Não conseguia pensar em ninguém naquele momento.
— Tudo bem, mande o entrar
Em silêncio o assistente deixou a sala. Instantes depois um homem robusto corpulento, cabelos grisalhos e olhos escuros como a noite entrou. Robert se levantou imediatamente.
— Sr. Hernandez, com todo o respeito, o que faz aqui?
— Posso? — Indicou a cadeira mais próxima.
— Claro. Aceita uma dose?
— Conhaque?
— Direto da Europa!
O homem fez que sim e o prefeito foi até uma pequena mesinha do lado apanhar o copo de vidro que despejou o conteúdo.
— Então Sr. Hernandez, o que te traz aqui? — Perguntou entregando a bebida e se sentando em sua cadeira atrás da mesa.
— Lembra-se de Thomas Nikaly? — Questionou o homem depois de beber um gole. O rosto de Robert ficou robusto e tenso ao ouvir o nome.
— Com toda a certeza. — Respondeu entre dentes. — Como esquecer o que aquele babaca me fez?
— Então. Para sua alegria, o canalha está de volta. — Falou ele, rindo.
Robert Darkson II se sentou ereto. A fúria crescendo dentro de si.
— O que disse?
— O que você ouviu. Thomas Nikaly acabou de se mudar para a cidade depois de vinte e quatro anos!
O prefeito pegou o copo mais próximo e jogou com força contra a parede. Cacos de vidro voaram junto com o resto de conhaque.
— Como ninguém me avisou?
— A secretaria de infraestrutura deve estar sabendo a essa altura.
— Está na mansão Nikaly? Sozinho?
— É claro que não. Está com a família. Uma mulher e dois filhos.
— Pelos Sete Infernos! — Silêncio.
— Você sabe o que fazer?
— É claro que eu sei. — Respondeu Robert depois de um tempo quieto. — Está na hora de convocar a seita de novo!
(***)
— Então, por onde andaram? — Perguntou Thomas enquanto a família toda jantava na sala de jantar. O lustre iluminava o local que ficava assustadoramente estranho pelo tamanho e a pouca quantidade de pessoas ali dentro.
— Pela floresta. — Respondeu Cynthia sem mais delongas. O pai parou de mastigar a lasanha que Karina prepara.
— Como assim?
— Andamos pela floresta. Parecia um ótimo lugar para se explorar. Tudo aqui é tão diferente...
— Nunca mais eu quero saber que vocês entraram naquela floresta e em nem mais alguma. — O tom imperial surgiu na voz do pai, nervoso. — Entenderam?
— S...sim, claro pai, desculpa...
— Eu avisei para não irmos...
— Mas foi! — Cortou o pai. — Então que isso não se repita.
— Posso perguntar o porquê? — Perguntou Cynthia.
— Não.
— Thomas...
— Não Karina. Agora vamos terminar de comer e esquecer isso.
Cynthia se levantou com comida ainda no prato e saiu do salão.
— Ela só está cansada.
— Eu também, por sinal. Posso terminar de comer no quarto?
— O que combinamos Edward? — Karina repreendeu.
— Só hoje, mãe.
Ela suspirou e assentiu. O filho saiu logo deixando o casal sozinho.
— O que foi isso Thomas?
— Desculpa, eu...sabe que essa cidade é perigosa.
— Eu sei. Você já me contou tudo sobre ela, mas não dá para ficar agindo desse jeito ou teremos que contar a eles.
— Não! Isso não! Eu quero que eles tenham uma vida normal. A vida que eu não tive até ter saído daqui.
— Então se controle.
(***)
O dia amanheceu frio e chuvoso. Era forte com ventos que assoviavam e faziam as janelas tremerem.
— Bom dia! — Cumprimentou Edward ao entrar na cozinha. A mãe estava lavando a louça do jantar e o pai terminava de coar o café.
— Bom dia filho, dormiu bem?
— Sim. Sinto-me cansado ainda, mas nada de demais.
Cynthia apareceu na cozinha também vestindo um pijama bege e com o cabelo armado.
— Bom...
O resto da frase se perdeu em um bocejo.
— Que droga, queria sair para conhecer a cidade, mas com essa chuva...
— Quem sabe até a tarde pare e vocês podem ir andar um pouco.
— Posso leva-los até o centro se quiserem. — Ofereceu o pai.
— Prefiro esperar aqui. Pai, conseguiu a chave da biblioteca?
— Ah sim, achei dentro do porta luvas do carro, mas esqueci de trazer quando guardei na garagem. Vá lá pegar.
— Cynthia?
— A garagem fica aqui?
— Claro que não idiota, eu vi essa porta aqui e o pai não disse nada sobre o que tem embaixo da escada então resolvi conferir eu mesma. — Respondeu a irmã.
— Isso não me cheira bem.
Ela apenas lhe fuzilou com o olhar antes de pisar na escada de madeira que descia para o porão.
O cheiro de mofo era forte. Ele tateou a parede do lado a procura de um interruptor, mas não achou. Desceram as escadas lentamente até o último degrau. A única luz que conseguiram ali foi a do celular de Edward e por isso não conseguiram ver muita coisa. Havia bastante objetos espalhados, marcações feitas de giz no chão. Na parede mais próxima, eles puderam ver três prateleiras com objetos estranhos em cima. Foice, velas coloridas, um metal em forma de pentagrama, um chifre de touro já apodrecendo, um crucifico preto, uma tigela preta, um livro grosso, pedaços de pergaminhos enrolados e penas para escrever.
— Que coisa mais bizarra!
— Olha Cynthia...
— Já sei, acho melhor sairmos daqui...mas espera aí!
— Não Cynthia, dessa vez eu não vou esperar.
E saiu o mais rápido que pode dali com o um arrepio no corpo todo e a sensação de que estava sendo observado.
(***)
— Sentem-se, por favor. — Pediu Robert Darkson para os convidados na mesa de reunião. Conhecia todos ali de longas datas, alguns mais que outros, mas não fazia diferença. Ele continuou quando todos se acomodaram. — Bom, como sabemos, faz anos que não nos reunimos. A seita morreu depois de certos acontecimentos que não ouso mencionar, mas um detalhe importante nos faz renascer.
— Eu espero realmente que seja importante Robert. — Contestou outra pessoa ao longo da mesa.
— Posso garantir que sim. — Disse o Sr. Hernanedez na cadeira a esquerda de Robert. Sempre se sentara ali desde que Robert assumiu a liderança da seita.
— Não sei se todos vão se recordar de Thomas Nikaly. — Ao ouvi o som saiu da própria boca ele sentiu um gosto amargo. Murmúrios e cochichos se espalharam pela sala. — Sim, esse mesmo. Está de volta a cidade...
— Impossível!
— Não, não Sr. Brook! Muito possível a ponto de realmente ser verídico. — Continuou ele retomando a atenção dos convidados. — Thomas Nikaly retornou a Mortemville com a família depois de vinte e quatro anos.
— Como ele ousa...?
— Acredite, Sra. Hernandez, eu venho me fazendo essa mesma pergunta desde que soube da notícia ontem pela tarde. — Uma leve pausa. — O que sugiro é que executemos nosso plano de fuga.
— Não!
— É claro que sim! — Gritou outro.
— Senhores! Todos sabem que o plano de fuga é invocar nosso Superior, certo?
Um silêncio incômodo tomou conta do recinto e todos se entreolharam.
— Robert, nunca fizemos isso antes! — Contestou alguém.
— Eu já! — Interveio o Sr. Hernandez. — E mais três ou quatro pessoas daqui. Garanto que isso não é problema. Nosso problema de verdade está lá fora criando seus filhos e sendo feliz. Se enturmando com o nosso povo. E isso não pode acontecer. — Breve silêncio. — Quando foram chamados para a seita aceitaram todas as decisões que forem tomadas em conjunto ou pelo líder e esse é o caso. Robert Darkson II é o líder da seita e se por ele nós precisamos invocar o Superior, nós iremos.
Quase dois minutos de silêncio depois antes do primeiro, primo de Robert, abrir a boca para falar:
— Então, quando faremos o ritual?
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