Moon's Secret
3 Blueberrie & Blood - Parte I
Notas iniciais
Este era meu quarto dia na estrada. Eu vinha parando em motéis pelo caminho, apenas quando não aguentava mais dirigir e as horas a mais de sol eram minhas maiores aliadas. Felizmente, não faltava muito para que eu chegasse a Eden Praire.
Já não aguentava mais ficar atrás daquele volante.
Vai valer a pena... Pelo menos era isso o que uma vozinha dentro de mim dizia sempre que eu me pegava prestes a desistir. Não sabia de onde vinha, mas eu não ia discutir com ela, pois isso significaria que eu estava ficando louca aos poucos por ficar tanto tempo sozinha. Ou também podia significar que eu tinha um Grilo Falante em meu ombro. As duas hipóteses eram horripilantes.
Mas, no geral, eu estava tentando aproveitar o longo caminho para me acalmar e planejar o que fazer. Tracei um plano sobre o que faria quando chegasse a Eden Praire e fosse até a tal loja La Marie Carie, passo por passo; não podia simplesmente chegar lá sem saber o que fazer depois. Afinal, nada me garantia que alguém daquela loja conhecesse meus pais biológicos, ou sequer soubesse algo sobre eles.
Eu estava, basicamente, dando um tiro no escuro. Só esperava não acabar atingindo meu pé.
Teria que fazer as perguntas certas, ser discreta e persuasiva. Claro que também tentaria aproveitar meu tempo lá para me readaptar a uma escola. Um ano afastada era muita coisa, e eu já começava a sentir na pele os problemas de não estar estudando. Um exemplo, não lembrava mais o que eram raízes, além das que vemos em plantas. Sim, eu era uma lástima.
Em menos de quatro horas eu chegaria ao meu destino. Não estava tarde e, como o verão ainda não tinha acabado por completo, eu tinha o sol de verão a meu favor. Preferia não dirigir no escuro, apenas por segurança, e graças a isso não precisaria parar pelo resto da viagem.
Dirigia pela estrada calma, feliz pelo fluxo de carros não ser tão grande neste momento e por já estar dentro dos perímetros do Estado de Minnesota – mais especificamente em Moorhead, no condado de Clay –, quando avistei um enorme outdoor que chamou minha atenção. Sua imagem não era grande coisa, apenas uma cabana de aparência aconchegante, com uma convidativa cesta de frutinhas azuis sobre a espaçosa cama no centro do cômodo. O que realmente atraia era a frase, logo abaixo da imagem, que parecia cintilar para mim.
"Venha para o Hotel Slangen Reir e tenha uma boa noite de sono, seguido de um delicioso café-da-manhã.
Temos também as melhores tortas de mirtilo de todo Minnesota!"
Ao ler aquilo, senti meu estômago gemer com uma fome repentina. Mirtilos... Hum, com certeza cairiam bem agora, apenas a palavra já parecia saborosa em minha língua. Percebi que precisava muito de uma dessas famosas tortas de mirtilo. E talvez parar e descansar durante uma hora não me faria mal...
No segundo seguinte, eu já estava pegando o desvio em direção ao hotel. Levei meia hora para encontrá-lo através das estreitas – e quase inexploradas – estradas de cascalho, sendo direcionada apenas por placas azuis com formato de setas que apontavam o caminho certo, cada uma delas prometendo mais e mais um gordo pedaço da famosa torta. Eu realmente agradecia pelas placas, já que meu GPS estava tendo interferência naquela região mais arborizada e ficava repetindo vire na próxima esquerda ou faça o retorno, mas eu acreditava que, caso virasse a esquerda na direção dessas árvores, ao contrário de carros, o que eu encontraria era um desfiladeiro, com certeza.
Quando finalmente encontrei o hotel, estacionei o meu carro em uma das vagas em frente à pequena construção de madeira e pedra e desci, logo alongando meu corpo com força e respirando o ar puro que me rodeava. Em frente ao Hotel Slangen Reir havia um belo jardim de flores silvestres de todas as cores. Um espantalho sorridente se destacava ao lado do arco de entrada do terreno, dando as boas-vindas para todos que ali entravam com a ajuda de uma plaquinha branca em seus braços molengas. Era um lugar agradável de estar, muito tranquilo. Sentia-me feliz por simplesmente estar ali. Ao longe, pude ouvir o som de um córrego ou riacho, mas era apenas isso. O silêncio era quase absoluto.
De repente, o chacoalhar de folhas atraiu a minha atenção. Olhei em volta rapidamente, procurando a origem do som. Foi quando notei um arbusto balançando. Senti os pelos do meu braço se arrepiarem. Por algum motivo, aproximei-me do arbusto, torcendo para que não fosse venenoso e para que, o quer que tenha corrido para lá, não me mordesse. Por que eu estou indo checar isso, pelo amor!
— É só um esquilo, é só um esquilo – repeti esperançosamente.
Cheguei mais perto. E, com a ajuda de um graveto suficientemente cumprido que peguei pelo caminho, eu afastei os galhos mais leves do arbusto robusto. Levou alguns segundos para que eu entendesse o que estava vendo. Era algo cumprido e amarelo, e este algo chiava feito um chocalho. Era uma cobra. E ela não se parecia com nenhuma que tivesse visto antes.
— Oh, merda.
Aquilo com certeza não era um maldito esquilo.
Meu sangue gelou, e me levou tudo para retroceder com calma, ao invés de sair correndo desesperada. Senti um grito se perder em minha garganta quando a cobra – que parecia ser uma mistura bizarra de píton e cascavel – se mexeu. Foi milimétrico, mas bastou para que eu perdesse o controle e metesse o pé dali.
Derrapei no orvalho enquanto corria desesperada para perto da entrada do hotel, quase levando um tombo, mas não parei. Não tinha coragem de olhar para trás pra checar se a cobra bizarra estava me seguindo ou não. E se estivesse, eu só podia torcer para que eu fosse mais rápida do que ela. Elas sentem mais medos de nós, do que nós delas uma ova!
Quando finalmente alcancei a porta principal, subi os curtos degraus que elevavam a construção sendo preenchida por um sentimento de alívio imenso, porque, afinal, cobras não sobem escadas, não é?
Respirei com força algumas vezes, tentando recuperar o fôlego, então decidi olhar para trás. Virei-me devagar, temendo o que encontraria, mas não havia nada ali. Nada. A cobra mutante não me seguiu para fora do arbusto, correndo atrás de mim, sedenta por sangue e ansiosa para morder meus calcanhares magrelos. Ela só ficou lá, paradinha enquanto eu corria feito uma louca.
Ai, como eu era idiota.
Enquanto olhava envolta, senti meu relicário vigilante aquecer-se levemente contra meus seios, como se estivesse absorvendo o calor de meu coração acelerado. Não era incomodo como foi da última vez que ele fez isso, mas também não era agradável. O calor não me permitia relaxar completamente depois do susto, pondo-me, mesmo que minimamente, em um estado de alerta constante. O que havia de errado com ele, afinal?
Tentando me esquecer do assunto, limpei meus pés no capacho de boas-vindas e girei a maçaneta. A porta de madeira ampla abriu com leveza, e a primeira coisa que me recebeu quando a abri por completo foi o bafo quente de uma rajada de ar não natural.
Percebi logo que os aquecedores estavam ligados, mas por que, quando ainda estávamos no verão?
Adentrei o ambiente que, apesar do calor, era agradável. As cores que prevaleciam eram o azul-claro e o branco. Estavam nas almofadas, cortinas e na pintura de todas as paredes. Hum, relaxante.
No meu lado esquerdo estava o balcão de registros, mas, como no resto da sala de recepção, não havia ninguém atrás dele. Fui até ele, olhando em volta com um sorriso no rosto. A recepção do Hotel Slangen Reir se parecia com a cabana de uma vovozinha, cheia de rendas e bordados, querendo sempre passar conforto e aconchego para os que a visitavam. Quando me aproximei mais do balcão, comecei a escutar um chiado. Era muito baixo, e parecia vir de longe. Olhei envolta confusa.
De onde vem esse som? Ele se parece com... Música.
Apoiei-me sobre o balcão de atendimento, tentando não esbarar em nenhum dos panfletos que estavam ali, e espiei do outro lado. Sentado no chão, estava um rapaz – ou seria uma moça? – ouvindo música com fones de ouvido distraidamente. Ele analisava alguns papéis que se pareciam com... recortes de jornais, separando alguns e os colando em um álbum de fotografias. Tentei ver as fotos estampadas nos fragmentos, mas não consegui identificar nada, pois estava escuro embaixo do balcão.
Pigarreei para chamar sua atenção, mas ele não respondeu. A música deveria estar muito alta, então me estiquei mais e cutuquei seu ombro, assustando-o. Ele levantou a cabeça, sobressaltado, e me encarou. Pude ver que ali, na penumbra, seus olhos, que eram grandes e redondos, refletiam uma luz esverdeada e hipnótica. Jamais vi cor igual. Ele arrancou seus fones de ouvido e abriu um largo sorriso.
— Olá. – sua voz era doce e tranquila, combinando com o resto do lugar.
— Oi, boa tarde. – sorri de volta. – É aqui que tem as melhores tortas de mirtilo de todo Minnesota?
Ele se levantou, largando seus recortes no chão mesmo, e limpou as mãos na calça que usava antes de me responder.
— Do Minnesota eu não sei, mas talvez as melhores dos arredores de Moorhead. – enquanto ele falava, notei sua língua tocando a ponta de seus dentes, aparecendo um pouquinho para fora da boca a cada palavra que dizia, suas sílabas sempre puxando mais para o s. Minnessssota, melhoreesss.
— Acho que por ora serve.
— Eu sou Micha, o gerente do hotel.
— Muito prazer, eu sou Anne.
— Que nome bonito você tem. – ele sorriu para mim.
Apesar de Micha aparentar ser uma pessoa doce, eu não podia deixar de estranhá-lo.
Depois disso, Micha me levou para a sala de jantar do hotel e pediu para que eu esperasse enquanto ele pegava um pedaço da famosa torta para mim. Sentei-me em uma das mesas que tinham ali e fiquei observando o local. A decoração era a mesma que a da sala, e mesas redondas estavam espalhadas por todo lugar, como se fosse um mini restaurante de brinquedo. Era uma gracinha.
Quando passei meus olhos pelo grande relógio cuco que tinha ali, me espante. A hora aqui está certa? Peguei meu celular na bolsa apenas para checar. Sim, a hora estava certa, já passavam da cinco da tarde. Como o tempo voou enquanto eu estava distraída! Logo teria que ir embora, do contrário, teria que enfrentar a escuridão da estrada. Percebi também que não havia recebido mais mensagens de tia Joanna desde que cheguei aqui, e o motivo era porque aqui não tinha sinal de telefone.
No meio da floresta e sem sinal de telefone? Em que século estamos?
Micha voltou com uma bandeja com dois grandes pedaços de torta em um prato e dois copos de chá gelado. Ele sorriu na minha direção quando passou pelas portas francesas. Quando ele colocou o prato na minha frente, eu não pude deixar de notar em como pareciam suculentos os pedaços de torta. Geleia de mirtilo escorria pelas bordas, em um azul-arroxeado tão escuro que quase parecia sangue vazando de um corte profundo. Minha boca salivou.
— Espero que a torta esteja boa, fui eu mesmo que fiz. – disse Micha, antes de dar um longo gole em seu chá gelado.
Olhei curiosa para ele.
— É o cozinheiro também? – ele riu, negando com a mão.
— Não, não. Mas é que com a baixa temporada eu acabo ficando aqui sozinho, não preciso de uma horda de funcionários para atender três hóspedes por semana – explicou.
Observei em volta, reparando como o lugar realmente parecia um pouco morto sem hóspedes ou funcionários.
— Não há nenhum hóspede aqui esta noite?
Dei minha primeira garfada, ansiosamente levando a torta para minha boca. A massa pareceu derreter em minha língua, e a geleia composta grudou no céu da minha boca, tornando seu sabor ainda melhor. Soltei um pequeno gemido com os lábios pressionados, saboreando aquilo. Antes que levasse a próxima garfada à boca, naquele espaço de tempo em que você termina de engolir enquanto cava por mais em seu prato, senti um leve amargor se prender no fundo de minha garganta. Analisei aquilo por um instante, mas decidi que deveria ser apenas um pedaço mais ácido da fruta.
Os olhos de Micha estavam fixos em mim quando ele respondeu.
— Apenas um casal que está em lua de mel. Neste momento eles estão dando uma volta pelo bosque antes que escureça.
— Oh, lua de mel e uma pousada só para os dois, que chique. – comentei por brincadeira. Micha riu profundamente.
— Não posso dizer que eles reclamaram. – compartilhamos um sorriso.
Depois de um demorado gole do meu chá, passei para o segundo pedaço. A velocidade com que devorei o primeiro era quase vergonhosa, eu parecia estar apenas engolindo, garfada após garfada, sem me dar ao trabalho de mastigar. Mas eu com certeza não ligava para isso no momento, tudo no que eu podia pensar era no sabor viciante que aquilo tinha.
— Você costuma ter muitos hóspedes nas épocas de alta-temporada? – indaguei, enquanto discretamente limpava a geleia do meu céu-da-boca com a ponta da língua.
Ele acenou com a cabeça algumas vezes, puxando uma forte respiração antes de falar.
— Costumava ser melhor, mas com o passar dos anos esse lugar acabou sendo esquecido pelas famílias de passagem pela cidade, por estar escondido atrás dessa floresta. – sua língua aparecia e sumia a cada sílaba que dizia.
Tentei expressar compadecimento com meus olhos, sem conseguir parar de mastigar. Então lembrei da cobra que vi mais cedo, e imaginei se ela não era uma das consequências pela falta de movimentação humana neste terreno para espantá-las.
Infelizmente, meu deleite não durou para sempre, e logo meu pequeno pedaço do céu em formato de torta de mirtilo se havia ido e eu tinha que ir também. Pensei em comprar alguns pedaços para viagem, apenas no caso da vontade retornar, mas antes que pudesse pedir, Micha estava suspirando e olhando entristecido para meu prato vazio. Esfreguei minha barriga inchada, sentindo-a pesada e feliz.
— Me alegra muito que tenha gostado; pena que eram os últimos dois pedaços. Preciso ir comprar mais ingredientes para fazer estas tortas, apenas no caso de mais algum forasteiro aparecer por aqui, assim como você.
Senti minha expressão murchar com a notícia. Desviei meu olhar do de Micha para que ele não achasse que eu era uma gulosa em ascensão.
— Oh, mas que pena!
Começamos a nos levantar, preguiçosamente caminhando para aquele ponto do pagamento e das tímidas despedidas, seguidas por promessas de uma próxima visita que, por certo, nunca ocorrerá, pois não era próximo do meu trajeto.
Enquanto andávamos de volta para a recepção, senti como se minhas pernas rastejassem de cansaço; me sentia pesada e sonolenta. Pronta para um cochilo.
— Você parece cansada – comentou Micha, notando as inúmeras vezes que pisquei enquanto tentava pegar a quantia certa de dinheiro em minha carteira, pois aparentemente o Hotel Slangen Reir não aceitava cartões de crédito – isso explicava a falta de hóspedes frequentes. – Está tarde para dirigir de volta para a estrada.
Abanei minha mão em sua direção.
— Ah, não, eu estou bem. Se for depressa consigo terminar essa longa viagem ainda hoje.
— Está indo encontrar alguns parentes? – sua cabeça tombou ligeiramente, revelando o brilho de curiosidade em seus olhos.
Olhando para meus sapatos, eu assenti.
— Mais ou menos.
— Talvez você devesse pegar um quarto, dirigir com sono e neste horário é perigoso. Isso deixaria quem quer que esteja te esperando preocupado.
Anuí algumas vezes, não querendo revelar demais. Quando olhei em seus olhos novamente, reparando vagamente no reflexo verde que eles reluziam — parecia refletir em sua pele e torná-la quase do mesmo tom, mas com um brilho oleoso a mais — estava pronta para declinar mais uma vez quando um longo e poderoso bocejo me escapou, fazendo meus olhos lacrimejarem.
— Mas olhe só! – exclamou Micha, espantado. – Agora não há como você recusar, ou como eu deixar você sair daqui! Vamos, peça um quarto e lhe farei um bom desconto. É perigoso demais dirigir deste jeito, ainda mais há essa hora!
Sem mais forças para recusar, acabei aceitando o maldito quarto, pagando-o em dinheiro. Peguei um dos quartos dentro do próprio casarão, desde que Micha disse que os chalés estavam em reforma após um pequeno incidente com eletricidade que uma tempestade causou, claro, com exceção da que o casal em lua de mel pegou; não reclamei, preferia ficar aqui dentro, muito obrigada.
Quando Micha me acompanhou ao carro para pegar uma das minhas malas, após fazer o registro, notei como realmente havia escurecido nesse meio tempo que passei aqui. A lua estava alta no céu, rodeada por estrelas distantes e pelo canto dos grilos. Voltei o mais depressa para dentro, temendo que aquela cobra voltasse e que trouxesse junto amigas com um deleite especial por tornozelos magros.
Depois de um estranho boa-noite, tranquei a porta de meu quarto, suspirando exausta. Sem perceber, arranquei depressa minha camiseta, registrando pela primeira vez desde que cheguei o calor que fazia aqui dentro por causa dos aquecedores. Senti meu nariz e minhas axilas pinicarem por causa do suor, e decidi que um banho gelado me faria bem. Lavei o cabelo e suspirei de alivio a cada grau de temperatura que meu corpo baixava.
Quando terminei, enrolei-me em uma toalha grossa e comecei a pentear meu cabelo, andando pelo quarto jeitoso com as luzes apagadas. Acabei em frente à janela, pensando se deveria ou não escancará-la. O calor ganhou, e logo ela estava aberta, com a brisa noturna entrando e removendo o calor abafado.
Observei a noite, a lua, e o topo das árvores. A vista da minha janela dava para o jardim lateral, que estava banhado pela escuridão, mesmo assim ainda consegui identificar uma silhueta alta e esguia caminhando furtiva pelas sombras.
Seria o homem do casal que Micha mencionou? Onde estaria a mulher?
Encarei-o por um tempo, torcendo para que ele não me notasse ali. A sombra vestia um longo e denso casaco preto que parecia ser de couro, e andava com agilidade e suavidade, sem fazer ruído algum ao passar pelos galhos e raízes espalhados por ali. Fiquei hipnotizada por sua imagem durante algum tempo, admirada com seus movimentos suaves. De repente, a sombra parou e esquadrinhou o local, olhando em volta de tudo, com o queixo erguido, fazendo um som esquisito, como se farejasse algo. Instintivamente, encolhi-me atrás do peitoril da janela, deixando menos que a metade dos meus olhos de fora. Agradeci por estar com as luzes apagadas. Não queria que ele me visse, e não sabia o motivo disso.
No momento que pensei em olhar para fora novamente, um raio cruzou o céu noturno, seguido pelo estrondo de trovão, e então uma tempestade de verão tinha começado. Encolhi-me diante os raios que não paravam de surgir e reluzir, eletrizando a noite.
Arrisquei mais um olhar para o lado de fora da janela, mas as grossas gotas de chuva tornavam impossível identificar a sombra do homem na escuridão daquele jardim.
Antes de deitar, rodei mais uma vez a chave na tranca, só por segurança – aquele cara lá fora era esquisito demais, e também havia Micha – e me deitei na cama com o corpo pesando feito chumbo, lembrando-me do sono que estava sentindo antes.
Não demorei a adormecer, sendo ninada pelo som das trovoadas, que ficaram cada vez mais e mais distantes...
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