Moon's Secret

4 Blueberries & Blood Parte II


Notas iniciais
Um beijinho pra minha leitora favorita ;) Sim, você sabe que é você kkkk 14/07/17

Acordei com o silêncio. Quando abri meus olhos já havia amanhecido, mas tirando o sol lá fora, não havia mais nada. Nem brisa, canto dos pássaros ou qualquer um dos sons comuns de se ouvir em um bosque como esse.

Levantei-me cambaleante, sentindo que estava tonta e fui direto para a janela, querendo ver os estragos que a tempestade de ontem causou. Aparentemente nada muito catastrófico; alguns galhos quebrados e folhas por toda parte. Notei um arbusto se mexendo, e dele saiu a mesma cobra que vi ontem junto de uma amiga tão esquisita quanto ela, rastejando desorientadas pelo gramado lamacento, até encontrarem outro arbusto para se esconder.

Me arrumei para o dia, ficando pronta para sair logo após o café da manhã. Como o sinal de telefone havia voltado, aproveitei para enviar uma mensagem para a corretora imobiliária, avisando que em algumas horas eu estaria lá. Com a mala na mão, desci para o saguão, torcendo para Micha ter feito mais torta de mirtilo, e minha boca salivou apenas com o pensamento.

A próxima coisa que notei era que eu estava caindo. Meu sapato havia deslizado em algo melado e escorregadio ao pé da escada. Bati com tudo na quina de dois degraus de madeira, uma dor aguda me atingido no cóccix. Lágrimas explodiram dos meus olhos e eu gemi com a dor.

Olhei em volta, meio desorientada, tentando entender o que aconteceu. Enxerguei primeiro o que me fez cair; se parecia com esmalte derramado, denso como caramelo, escuro como a geleia de mirtilo que escorria da torta. Sangue. Uma enorme poça de sangue, seguido por uma trilha de pegadas e respingos que iam em direção à sala de jantar. O forte cheiro de ferrugem penetrou em minhas narinas, ele era quente e pesado por conta do aquecedor que continuava ligado.

Afoguei um grito em minha garganta, rastejando alguns degraus para cima.

Que merda aconteceu aqui?!

— Micha! Você está aí? Michaaa!

Resmungando por causa da dor, eu me levantei e cambaleei, seguindo a trilha de sangue.

— Micha! — minha voz não passava de um murmúrio trêmulo, enquanto eu temia o que ia encontrar.

Os rastros carmim passavam pela sala de jantar e seguiam em uma linha confusa para a cozinha. Pelo caminho, as paredes — antes decoradas por tão belos papéis de parede ala vovó — estavam cobertas por manchas de sangue respingadas ao acaso e rasgos profundos, que se assemelhavam a arranhões.

Minhas mãos tremiam, meus braços, minhas pernas, meu corpo todo tremia. Avistei as portas francesas, estavam intactas, como se nada tivesse acontecido delas para lá. Mentira. Manquei até lá, chamando o nome de Micha ou de qualquer um que estivesse ali. Estava desesperada por uma resposta.

À medida que ia me aproximando começava a sentir calor, quer dizer, mais do que no resto do casarão. Ouvi um chiado, algo parecia borbulhar. Um arrepio eletrizante me percorreu e eu percebi que mais alguém poderia estar aqui.

Só não sabia se isso era bom ou ruim.

— Micha? — sussurrei. Medo corria através de mim.

Empurrei uma das metades da porta, que rangeu sob a pressão. Vapor abafado me atingiu em cheio no rosto, fazendo-me ter uma crise de tosse. Além do vapor, um forte cheiro adocicado me atingiu as narinas. Senti-me enjoada.

Através da neblina de água quente que vazava de uma grande panela fervente no fogão eu olhei o cenário que só podia ter saído de um filme de terror. O calor da cozinha era insuportável, fazendo o sangue espalhado no chão borbulhar e caramelizar feito açúcar. Ele estava por toda parte: paredes, móveis, utensílios e até no teto; nada muito diferente do resto da casa. Não, a diferença da cozinha estava nos três corpos espalhados por todo o lugar.

Ouvi um barulho agudo ecoar por todo o ambiente, ao mesmo tempo em que zumbido reverberou dentro das minhas orelhas. Alguém estava gritando. Demorou um pouco, nas percebi que era eu que gritava.

Eu gritava por causa do sangue em abundância, gritava por causa dos dois corpos mutilados em pedaços e que provavelmente pertenciam aos hospedes, e pelo terceiro corpo, que era de Micha. Eu o reconheci apesar do rosto deformado e sujo, sua cabeça estava ao lado do corpo. Decepada. O casal não parecia muito melhor, vi uma perna com unhas pintadas de rosa escapando da panela gigante, com a pele quase descolando dos ossos, uma mão na pia, com alguns dedos faltando, e o que parecia ser uma genitália ao lado de massa para torta sobre a mesa de madeira.

Enquanto eu olhava aquela cena saída de uma casa dos horrores ploft um grosso pedaço de carne caiu da perna da panela direto para o chão. Antes que eu pudesse gritar mais, eu vomitei o resto da torta de mirtilo que tinha no estômago.

***

A Polícia estava investigando todo o terreno. Por algum motivo eles trouxeram ambulâncias, que tocavam suas sirenes estrondosamente altas, abafando o zumbido em minha cabeça. Agradeci por isso; aquele zumbido já estava me deixando louca.

Depois que liguei para eles aos prantos, levou menos de quinze minutos para que as sirenes começassem a ecoar pelo bosque. Carros e mais carros chegavam. Um xerife com um copo de café na mão e migalhas de rosquinha no bigode grosso me perguntou o que aconteceu, mas antes que eu pudesse me fazer parar de tremer para respondê-lo, alguém me arrastou para a parte de trás de uma das ambulâncias e me cobriu com uma manta cinza. Tentaram me tranquilizar, enquanto todos eles entravam pelas portas que uma vez eu achei acolhedoras.

Eu balançava, como se estivesse convulsionando, então percebi que estava apenas soluçando. Mas sem choro, eram mais como soluços bêbados. De repente ouvi um grito agudo e olhei assustada para o lado, eu estava muito tensa e alerta. Um dos policiais havia encontrado em um arbusto a mesma cobra de ontem.

— Santo Deus, o lugar está cheio dessas, Chefe! — exclamou, coçando o cabelo oleoso, enquanto pulava para longe do pobre animal.

Notei mais cobras rastejando dos arbustos, correndo em debandada para a direção do espantalho sorridente e das árvores além. Vários policiais assustados se afastaram, chutando para longe os repteis, apesar de nenhum deles ter tentado se aproximar. Um arrepio de pavor me passou. O que todas essas cobras faziam aqui?

— Ligue para o controle de animais, agora!

O xerife — ou Chefe, se preferir — se virou mais uma vez para mim, arrancando seus óculos escuros e prendendo-os na gola da camisa azul de seu uniforme.

— Se sente mais calma, docinho? — contendo minha ânsia de vomito pelo apelido, eu assenti. — Maravilha. Eu sou o xerife Crawford, e você é...

— Anne Moon — sussurrei.

— Senhorita Moon, poderia nos dizer o que aconteceu aqui?

— Eu... eu não sei. Acordei e estavam todos... — a palavra não saia.

— Mortos? — ofereceu o xerife Crawford.

Limitei-me a assentir de novo. Um minuto se passou antes que ele voltasse a dizer alguma coisa.

— Preciso que me diga tudo o que sabe.

Contei tudo a ele, desde o momento que vi a placa no meio da estrada, até quando descobri os três cadáveres mutilados na cozinha. Tentei ser detalhista, e, apesar de não conseguir explicar com exatidão horários ou que palavras foram ou não ditas, acredito que me saí bem. E claro, não me esqueci de mencionar o homem que vi no jardim dos fundos. Mas antes que eu começasse, um segundo policial se juntou a nós e começou a anotar tudo o que eu dizia, pedindo para que eu repetisse algumas partes, e recontasse outras do começo.

— Será que eu sou uma suspeita? – indaguei temerosa.

O policial com a caderneta estalou sua língua, respondendo sem olhar para mim.

— Nah, pouco provável. Vamos nos concentrar neste cara das sombras que você mencionou, mas nos manteremos em contato.

Suspirei aliviada. Pelo menos isso.

— Mas é estranho que a senhorita estivesse aqui. – ele completou.

— Perdão? – indaguei confusa.

— Para aonde viajava, Srta. Moon? – perguntou o xerife, interrompendo minha confusão.

— Estou me mudando para Eden Praire, não fica muito longe daqui.

— Oh sim, sei onde fica. Pedirei para que um dos meus homens te acompanhe até lá. – ele parou por um instante, me observando – Seria melhor se, na verdade, deixasse-o conduzir. – comecei a protestar, mas ele me interrompeu. – Apenas por segurança. A senhorita ainda parece muito abalada pelo que viu, isso é somente uma medida de segurança para que chegue bem.

Não reclamei. Sentia-me tremula demais para argumentar. Ainda estava incrédula que tinha passado por aquilo, desejei que fosse apenas um sonho ruim, mas sabia que acordar não afastaria aquela cena do meu cérebro. Todo aquele sangue, e tripas, e marcas e, e aranhões... Eu jamais seria a mesma depois daquilo.

— Tudo bem.

— Além do mais será bom que saia daqui antes que a imprensa chegue. Conseguimos abafar por agora, por este hotel não ser conhecido e afastado da cidade, mas logo eles estarão aqui, e procurando por você.

Neste momento um carro de polícia surgiu sacolejando pela estrada de terra. O carro freou tarde demais e acabou atingindo o espantalho sorridente, e uma das cobras fugitivas foi esmagada pela roda dianteira. Do carro saiu um policial esbaforido, que veio saltitando até nós, tentando evitar as cobras que sobreviveram à sua chegada.

— Pelo amor... — murmurou o xerife Crawford, suspirando pesadamente.

— Bom dia, Chefe! — o policial exclamou alegre. Ele era barbudo e robusto, e me lembrava muito o Papai Noel com uniforme de policia.

— Está atrasado Ramirez.

— Mais uma vez. – sussurrou o policial com a prancheta, olhando torto para o policial Ramirez.

— Desculpe, Chefe. Mas é que meu rádio está falhando, aquele lá só funciona quando quer, então só fiquei sabendo da confusão quando cheguei à delegacia. Vim correndo para cá.

— Não quero desculpas! É sua obrigação cuidar do veículo que lhe resignamos. Entendeu, policial Ramirez?

— Sim, Chefe. – Ramirez baixou seu rosto, parecendo chateado.

— Ótimo, agora que está aqui, quero que leve em segurança a Srta. Moon para sua nova casa em Eden Praire. Alguém pegará sua mala lá dentro.

Ramirez me olhou de soslaio e sorriu, sorri de volta, tentando ser amigável apesar de tudo.

— Sim, senhor. – ele bateu em continência, enquanto o xerife Crawford revirava os olhos e se virava mais uma vez para a cena do crime.

Mas então...

—CHEFE!

Um grito, vindo do interior da casa, interrompeu o xerife Crawford no meio de sua caminhada. Olhamos todos para a porta da frente do Hotel Slangen Reir e avistamos mais um policial. Seu rosto estava pálido e os olhos arregalados de horror. Senti um calafrio me percorrer a espinha, e me perguntei o que havia acontecido para deixá-lo com aquela expressão. Claro, além dos brutais assassinatos lá dentro.

— Por Deus, Thompson, o que foi? Alguém está vivo?— debochou o Chefe, com um sorriso aparecendo sob seu espesso bigode.

O policial Thompson negou veemente com sua cabeça.

— Achamos mais corpos no porão.

Foi quando o verdadeiro caos se instalou. Minha visão escureceu de repente, e por um momento achei que tivesse desmaiado, mas então eu estava me movendo, sendo arrastada por Ramirez, pesa sobre seu braço pesado, e minha cabeça estava coberta com seu casaco.

— Tome conta dela, Ramirez! – gritou Chefe.

— Só um momento, Srta. Moon. Vou tirá-la daqui.

Só que eu não estava realmente prestando atenção nas palavras de Ramirez ou em por que diabos ele estava cobrindo minha cabeça; tudo porque estas quatro palavras não paravam de martelar no meu cérebro, chegando ao ponto de se embaralharem umas nas outras, até não fazerem mais sentido.

Mais corpos no porão. Mais corpos no porão. Mais, mais porões, mais corpos. Mais porões corporais...

Mais cadáveres no porão, isso foi o que encontraram? Mais gente morta além daqueles três na cozinha?

Fui arremessada para dentro do carro de policia e cai deitada no banco, o casaco em minha cabeça escorregou para o chão e eu não me preocupei em pegá-lo. Olhei confusa para Ramirez que assumia o lugar atrás do volante, ele deu partida, e logo estávamos troando pela floresta, em alta velocidade. A bagunça ficou para trás. Pela janela consegui ver policiais correndo de um lado para o outro e para dentro da casa, até que a folhagem das árvores cobriu tudo. Do nosso lado passaram dois carros com o nome do jornal local. Observei-os sumirem em alta velocidade através do vidro traseiro.

— Bem na hora, hein? – comentou Ramirez, suspirando com um ar brincalhão. Não respondi.

Estávamos dirigindo há pelo menos meia hora quando o policial Ramirez puxou assunto comigo.

— Você não é daqui, né. – Sua voz tirou do torpor em que eu estava. Olhei para fora da janela da viatura, agora já deveríamos estar bem longe de toda a bagunça que se formou após o grito do policial Thompson.

Como não era uma pergunta, fiquei calada, encarando aquele homem barbudo através do retrovisor.

— Escute, não sei como encontrou esse lugar esquecido por Deus e o que te fez decidir pernoitar aqui, apesar das placas pelo caminho avisarem para não vir para cá. Você escapou dessa por pouco, mocinha.

Placas? Que placas?

Notando meu olhar confuso o policial Ramirez soltou um suspiro pesado.

— As placas azuis pelo caminho, aquelas em formato de setas?

Arregalei meus olhos, espantada. De que merda esse cara tá falando?! Eu não conseguia me lembrar de nenhum aviso de perigo, ou algum pedido de afasta-se por mais que tentasse.

Contudo, isso deve ser porque eu possuía o péssimo hábito de ignorar informações cruciais até que fosse tarde demais; como o aviso de apimentado em uma caixa de nuggets, ou o cartaz de quebrado em parquímetros, ou até mesmo um aviso de perigo, não se aproxime em placas no meio da floresta.

Tudo o que eu me lembrava delas era sobre a tentadora promessa de uma fatia de torta de mirtilo, e todo o resto de informação era magicamente apagado por meu cérebro, como se nunca tivesse existido ou como se fosse invisível. Simples assim.

Encarrei meus dedos da mão, sem saber se deveria me sentir estupida ou envergonhada. Mas então a questão surgiu, por que haveria avisos sobre perigo nas placas de sinalização? O que havia nesse lugar que o tornava perigoso assim?

Engoli em seco ao perguntar:

— Por que elas tinham esse aviso?

O policial Ramirez olhou com firmeza para a estrada, coçou seu queixo, ajustou a frequência do rádio de policia; fez de tudo, mas não olhou para mim. Ele estava escondendo algo.

— Policial Ramirez? – insisti. Ele pigarreou, apertando seus dedos contra o volante antes de me responder.

— Oh, bem, você sabe. Aqui é uma área abandonada da cidade, já faz alguns anos que não temos movimento por aqui, então, bem, a área já não é mais tão segura.

— Há quanto tempo ninguém vem para cá?

— Hum, uns dez anos se não me engano.

Arregalei meus olhos, sentindo minha boca abrir em choque. Como é que é?

— Dez anos?! M-mas um que um hotel fazia aqui? – exclamei exasperada.

— Pelo visto, este cara estava trabalhando na clandestinidade, se você me entende.

Parei para pensar um pouco, digerindo tudo. É verdade que se aquelas pessoas estavam mortas, que fez isso foi Micha, o doce e esquisitão Micha. Era assustador pensar que eu estive lá sozinha com ele, que passei a noite naquele lugar horrível! E estou viva, isso foi um milagre ou só uma puta sorte mesmo?

No meio de minhas divagações, o rádio da policia começou a chiar, até que o barulho incômodo se torna-se a voz de um homem, falando animadamente.

— ...aquela cara Michael, o legista... ele me disse... corpos... você acredita nisso Ramirez?!

O policial Ramirez riu, enquanto tirava o walkie talkie do gancho e me explicava que aquele era Dom, o novo policial que veio de Chicago.

— O garoto tem só vinte e quatro anos, e ainda está bem animado com o trabalho, tudo é novidade para um novato. – ele piscou um olho para mim. — Cambio, aqui é o policial Ramirez.

— Cambio! Eu sempre esqueço isso. – ouvimos uma risada rouca soar.

— Agora repita o que estava me dizendo, rapaz.

— Cambio. Ramirez, você não vai acreditar, eu estou aqui com o legista e medico forense, na cena do crime do Hotel e você nunca vai acreditar o que eles me disseram.

Senti meu corpo travar tenso à menção do hotel Slangen Reir. Ramirez me olhou incerto por cima do ombro antes de responder, talvez ele pensasse que eu fosse desmaiar ou ter um ataque só de ouvir o nome do hotel. Acenei dizendo que eu estava bem, ele assentiu, e se virou para frente de novo, apertando o botão para responder.

— Cambio, o que eles disseram?

— Que havia vestígios de sangue na massa da torta... Cambio.

— Oh, bem, havia sangue por todo lado, então...

— Não, Cambio, quer dizer, Ramirez, você não está me entendendo. Havia sangue na receita da torta! Não é certo ainda, é só será confirmado após testes de DNA, mas pelo que eles me disseram, o louco usava carne humana na receita dos doces do hotel! Isso não é nojento?

Oh, merda. Lá se vai o resto da torta no meu estômago...